seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Quarta-feira, Setembro 27, 2006

Cristina da Dinamarca

Amanhã é o dia de abertura de uma grande exposição que a Tate Gallery dedica à obra de Hans Holbein.
Na primeira vez que estive em Londres, visitei a National Gallery e dois dos postais que de lá trouxe representavam imagens de Holbein.

O primeiro mostrava um pormenor do famoso quadro Os Embaixadores (1533), que, por acaso, até já apareceu aqui, embora não vá fazer parte desta exposição.
O segundo (1538) dizia respeito ao retrato de uma mulher que na altura me chamou a atenção.

À direita, a mulher que sorri é Cristina da Dinamarca (1522-1590). Na altura teria 16 anos mas trajava já roupas de luto pelo primeiro marido, duque de Milão.
Ao lado do quadro, no museu, havia um texto em que se explicava que Holbein tinha sido enviado a Bruxelas para poder realizar o retrato daquela que se perfilava como possível nova esposa de Henrique VIII.
Holbein sabia que Henrique VIII gostava de retratos informativos. Por isso, esmerou-se na representação do rosto e das mãos, procurando a maior clareza possível. No fundo da tela, para não dispersar a atenção, nada mais há do que cor (o azul de que Holbein tanto gostava) e sombras (à direita, uma sombra longa e vertical; à esquerda, o efeito do próprio corpo da figura em face da luz). Ao todo, o pintor gastou três horas.

Há quem diga que Cristina parece quase contemporânea, alguém que um dia podíamos querer conhecer por aí. E conta-se que o próprio Henrique VIII simpatizou com a figura, pois, apesar de o casamento não se concretizar (Cristina viria a casar com o futuro Duc de Lorraine), o monarca inglês decidiu guardar o retrato na sua colecção pessoal.

Por mim, ainda hoje sinto um grande fascínio relativamente a esta personagem feminina de cuja vida não sei mais nada, mas de quem, entretanto, fiquei a conhecer mais uma representação que também acho muito bonita.

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Cristina da Dinamarca
por Michiel Van Coxcie, 1545

Mais informação sobre Holbein:

- biografia do artista;
- artigo no Guardian sobre a exposição;
- reflexão em torno de alguns quadros da exposição;
- sobre a importância da arte do retrato em Inglaterra.

Os russos estão por todo o lado


Ilustração de Walter Crane

As personagens de Tolstói aprendiam a apreciar o pequeno e o trivial quando percebiam que a elevação e a poesia que procuravam sem cessar poderiam ser encontradas nessa dimensão quotidiana que desde sempre os tinha rodeado.
Tchékhov entendeu muito cedo como a mesquinhez do dia-a-dia pode dar cabo de uma vida e/ou de uma relação.
Gary Saul Morson reflectiu sobre o peso e a importância decisiva das pequenas coisas na vida de todas as pessoas num artigo em que se referiu a estes dois escritores como grandes pensadores do prosaico.
Do prosaico, isto é, dos objectos à nossa volta, dos micro-acontecimentos do quotidiano, das escolhas aparentemente insignificantes que todos os dias efectuamos quase sem dar por isso. Coisas como as roupas que usamos, o tom de voz que adoptamos, as nuvens no céu, os desconhecidos que observamos no metro, a música que ouvimos antes de sair de casa.
Assuntos de blogue, no fundo?
Num post escrito a partir deste artigo, é nesta linha de pensamento que se traça uma possível relação entre bloggers, Tolstói e Tchékhov.

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Mal-entendidos pop

Sobre que é a letra de Take the long way home dos Supertramp?
Tem mais ou menos a ver com alguém que demora a chegar a casa. O próprio Roger Hodgson não sabe ao certo e eu, mesmo quando leio aquelas palavras sobre possibilidades perdidas, ouço uma história alternativa e figurada sobre alguém que seguiu o caminho mais longo não porque preferisse coisas difíceis ou por achar que essa era a via mais correcta, mas simplesmente por não ter sido capaz de perceber à partida qual era o caminho mais curto.
É uma versão optimista em que ir pelo caminho mais longo não significa não conseguir ou não desejar chegar. A casa, ao destino procurado.

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Agradecimentos

Alexandre (pois, pois, Zenão; estes rapazes de Física!...); Ana (Maria Velho da Costa sobre um gato); António (esperemos que em breve de volta); Carla de Elsinore (lindos cogumelos); Charlotte (gato preto-e-branco); David Luz (outro rapaz de Física); Henrique (por esta e por outras); José Bandeira (the feeling is mutual); Sabine (viva Milan Kundera); Sérgio (a simpatia de sempre); Ultraperiférico e Yesterday Man (blogues a visitar).

E ainda Andrés Green (uma mensagem em língua estrangeira: é a glória!), Diogo Ribeiro, Jorge Palinhos, Luís Varela, leitores que poderiam ter blogues, se é que não têm já sem querer dizer.

Cristina: chegaram as tuas prendas, mas havia duas surpresazitas em DVD que não tinhas mencionado, malvada.

Segunda-feira, Setembro 25, 2006

Setas que voltam ao arco



À laia de comemoração do terceiro aniversário deste blogue, uma antologiazita de posts com setas.

- Zen e a Arte do Tiro com Arco

- Livro de Cabeceira

- Tchékhov a partir de Barthes

- No dicionário

- Zarabatanas

- Hércules e a Hidra

- James Thurber

- Kate Bush

- Godard

- Vitorino Nemésio

- Antoni Tàpies

- Anne Carson

- Ana Teresa Pereira

- Thomas Pynchon

- Pascal Quignard

Quinta-feira, Setembro 21, 2006

Caixas negras no ouvido



Chamamos otólitos às concreções de carbonato de cálcio existentes no ouvido interno dos peixes teleósteos.
À semelhança dos troncos das árvores, os otólitos crescem em anéis. Por isso, a análise de um corte transversal da sua estrutura permite geralmente determinar a idade de peixes adultos que tenham sido capturados na Natureza.
Mas a informação que os otólitos podem transmitir não fica por aqui.
Os otólitos adquirem uma nova camada por cada dia que passa. Por isso, a sua análise química permite recolher dados sobre as características minerais das águas por onde os peixes capturados circularam ao longo das vidas, podendo revelar não só o sítio onde estes nasceram, mas também as rotas dos seus percursos e de todas as viagens ou migrações que empreenderam.

Ou seja, os peixes teleósteos guardam no corpo, mais precisamente no ouvido interno, marcas visíveis das experiências que vão tendo ao longo da vida.

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Sabia que?

No filme The Picture of Dorian Gray, de Albert Lewin (1944), o retrato inicial do protagonista foi pintado pelo português Henrique Medina.
À medida que a acção vai progredindo, os sinais de corrupção e de envelhecimento do protagonista vão-se repercutindo nas imagens do quadro e não no corpo da personagem.
Mas quem vai reflectindo no quadro estes índices secretos de decadência é um outro pintor: Ivan Albright, grande admirador de El Greco e Rembrandt.
No final do filme, o famoso retrato a cores que representa Dorian Gray totalmente desfigurado é da autoria do mesmo Ivan Albright, que segundo a lenda, demorou um ano a finalizar a tela, de tal modo era perfeccionista.

E há obviamente uma grande diferença de estilos entre estes dois artistas plásticos.
Albright já na altura era conhecido como pintor do macabro.

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Retrato de Dorian Gray
por Henrique Medina

Por sua vez, Henrique Medina (1901-1988) tornara-se famoso internacionalmente pela delicadeza dos seus retratos.
A fama de Medina como retratista atingiu o auge entre 1930 e 1950, período em que pintou personalidades tão importantes como Mussolini, António Oliveira Salazar ou Charlie Chaplin, entre outros actores e actrizes de Hollywood.
No entanto, mais tarde, o pintor viria a estabelecer-se em Esposende, optando por dedicar mais atenção não só a paisagens e figuras rurais mas também a nus elegantes, que gostava de representar em ambientes opulentos marcados por adereços como vasos, espelhos, aquários e mantos.

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Corpo e imagem

Quanto a mim, sei isto tudo sobre a vida de Medina porque quando era pequena me cruzava frequentemente com uma rapariga que posou para um dos seus famosos nus com um aquário. Era muito bonita, com um corpo cheio de harmonia e olhos azuis muito claros, quase transparentes.
(Lembro-me bem. Observar o corpo que tinha começado por conhecer enquanto imagem transmitia-me uma sensação estranha.)
Mas fiquei muito surpreendida quando descobri num programa da Cinemateca que, nos meandros do tempo, numa estranha intersecção de pintura, literatura e cinema, Oscar Wilde e Henrique Medina tiveram as histórias de algum modo ligadas, ainda que por breves momentos.

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Quarta-feira, Setembro 20, 2006

Re: sobre Walser e outras coisas


Walser por Thomas Hirschorn

Quanto aos meus posts sobre Walser na Culturgest, Cristina, se não fosse a preguicite, já teria escrito mais uma coisa ou outra.
Por exemplo, no fim de uma conversa sobre Walser realizada no sábado passado, houve uma senhora do público que fez uma revelação em tom apaixonado.
Parece que a Biblioteca Nacional ficou com a biblioteca de um escritor austríaco chamado Franz Blei. Ora acontece que este senhor, agora quase esquecido, mas uma figura importante no mundo literário do princípio do séc. XX, foi grande amigo e protector de autores como Walser, Kafka, Broch e Musil. Por isso, entre os livros que guardava incluem-se exemplares de primeiras edições de Walser, alguns dos quais têm ilustrações de autoria do irmão (Karl Walser, cenógrafo e pintor) e dedicatórias manuscritas pelo teu escritor de estimação.
A senhora terminou a intervenção com uma exortação à consulta destes exemplares tão valiosos e praticamente ignorados pelos frequentadores da biblioteca e pelo público em geral. (Os registos indicam que as consultas destas obras nos últimos anos foram muito raras.)
Achei que ias gostar de saber.

Terça-feira, Setembro 19, 2006

Os demónios humildes



Maria Judite de Carvalho, autora de uma antologia de contos cujo título deu nome a este blogue, nasceu no dia 18 de Setembro de 1921. Portanto, teria feito ontem 85 anos.
Não devem ser esquecidos nem os bons livros nem os escritores que alguns gostam de considerar discretos.

Mistério na biblioteca

No átrio da Faculdade de Letras descubro um anúncio a propor trabalho de voluntariado na biblioteca.
Ajudar os livros, será?
Leio com mais atenção. Os voluntários têm como função devolver às prateleiras os livros deixados sobre as mesas.
De graça.
Umberto Eco é um teórico e romancista de grande influência. Deve haver regalias não mencionadas no contrato.

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Segunda-feira, Setembro 18, 2006

Imagens visíveis


Foto do ensaio

Quando vi o filme Branca de Neve, de João César Monteiro, lembrei-me dos sonhos dos cegos e de imagens que não podem ser vistas fisicamente.
Desta vez, no entanto, a partir da encenação que Ricardo Aibéo apresenta da peça Gata Borralheira (em cena até dia 20, na Culturgest), pude mesmo observar algumas imagens e outras associações que as palavras de Robert Walser conseguem convocar.

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O Príncipe e o Bobo

Na texto de Gata Borralheira, há, a dada altura, um diálogo muito interessante entre o Bobo e o Príncipe a propósito da melancolia que toma conta do segundo. Diz-lhe o Bobo, respondendo à pergunta «Então, desgosto o que é?»:

«Um tolo e quem se entrega
a ele não o é menos.
Que dele sois vós o bobo
muito claramente me diz
vosso agridoce rosto.»


De um lado, o Príncipe. Do outro, o Bobo. No centro, Walser, reunindo em si a nobreza e a melancolia de um e a ironia, o riso do outro.
Na encenação de Ricardo Aibéo, a fusão dos pólos Príncipe/Bobo é muito evidente: as personagens do Bobo e do Rei (no fundo, o futuro do Príncipe) são representadas pelo mesmo actor.
(Qual é o animal que tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?)

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Sapatos vermelhos

Quanto a figurinos, o Príncipe aparece de preto. O actor que representa a personagem Conto vem de branco, mas também traz uns sapatos vermelhos de salto alto, como se estivesse de algum modo possuído por uma qualquer força demoníaca capaz de tudo dominar.
Aliás, antes de oferecer o vestido e os sapatos a uma Gata Borralheira ainda noiva de si própria, esta personagem acha por bem frisar:

«Sou o conto, da boca de
quem sai tudo quanto aqui é
dito, de cuja mão fogem
e voam as fascinantes
imagens que podem despertar
imediatamente em ti
o sentimento do amor.».

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Saias



Nas fotografias do ensaio que constam do programa da peça (disponível versão em PDF), as actrizes vestem umas saias rodadas compridas que, talvez retorcidamente, me fazem recordar algumas imagens da famosa série Padre Amaro, de Paula Rego.

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A gravidade e a graça

Há uma espécie de varanda ou galeria de madeira no cenário.
Achei engraçado que, ao contrário do habitual, fosse o Príncipe a ficar no alto, enquanto a Gata Borralheira permanecia de pés bem assentes no chão durante algumas cenas de diálogo entre ambos.
Não sei se de forma consciente para o encenador, esta opção acaba por funcionar como uma espécie de inversão da famosa cena subvertendo os papéis tradicionais dos géneros feminino e masculino.

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Sexta-feira, Setembro 15, 2006

Cat Power

O gato Jasmim anda cada vez mais parecido com um peluche branco, pelo menos se acreditarmos que os peluches brancos podem ter momentos de Chuckie, o Boneco Assassino dentro deles.
Num destes dias fui descobri-lo em cima da cadeira do escritório, a rodar alucinadamente, com uma fita azul na boca.

Quanto à gata Goneril…

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Pequenas maravilhas da Natureza (1)


Gorgulho-com-pescoço-de-girafa (Trachelophorus giraffa)
(Madagáscar)

Pequenas maravilhas da Natureza (2)


Gata Goneril (Felis domesticus) dormindo
(Lisboa)

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Quinta-feira, Setembro 14, 2006

A seta do tempo

Susan Sontag deixou um grande número de diários, cadernos de notas, e até folhas soltas com apontamentos de natureza diversa: escrita íntima, fragmentos ficcionais, esboços de cariz ensaístico, às vezes só listas de filmes, livros, restaurantes, palavras noutras línguas, etc.
Uma editora americana está a trabalhar na organização destes textos e prevê publicar o primeiro volume (On Self – Notebooks and diaries 1958-1967) por volta de 2008/2009.
Entretanto, alguns jornais já divulgaram excertos. Aproveitei para seleccionar (a partir do Guardian Online) e traduzir quatro entradas que me pareceram particularmente interessantes.
Aqui vão, para adoçar a espera.
Em 1958, Sontag tinha 26 anos.

31 de Dezembro de 1958
Sobre ter um diário. Parece-me superficial encarar um diário como mero receptáculo dos nossos pensamentos privados e secretos – uma espécie de confidente surdo, burrinho e analfabeto. No diário, não me exprimo só mais abertamente do que o faria em face de qualquer pessoa; crio-me.
O diário é um veículo para a minha noção de individualidade. Representa-me como ser independente do ponto de vista emocional e espiritual. Deste modo (hélas!), o diário não guarda um simples registo da minha vida circunstancial e quotidiana - em muitos casos acaba antes por propor uma alternativa a esta.


19 de Novembro de 1959
[…] O orgasmo concentra. Dá-me vontade de escrever. A vinda do orgasmo não representa uma salvação, é o nascimento do meu eu. Não consigo escrever antes de encontrar o meu eu. Só poderia ser um escritor que se expõe… Escrever é gastar-se, arriscar-se ao jogo. Mas até agora ainda não aprendi a gostar do meu próprio nome. Para escrever terei de gostar do meu nome. O escritor está apaixonado por si mesmo… e segrega os livros a partir desse encontro e dessa violência.

8 de Março de 1960, meio-dia
Não há estagnação. Parar é desprender-se da verdade; a vida interior torna-se imprecisa e vacila, começa a desvanecer-se no próprio momento em que tentamos fixá-la. É como tentar que este fôlego sirva para a próxima respiração, ou querer aproveitar o jantar de hoje para a quarta-feira a seguir. A verdade cavalga a seta do tempo.

Sem data, fins de 1966
O Joe [Chaikin] perguntou-me hoje à noite o que sinto quando percebo que um texto que estou quase a acabar de escrever (que tem três quartos concluídos, digamos) é medíocre, inferior. Respondi-lhe que isso não me incomoda e que costumo prosseguir até ao fim. Trata-se de me depurar da mediocridade. (Perspectiva excrementícia da minha escrita.) Ela existe em mim. Quero livrar-me dela. Por si só, a vontade não consegue acabar com ela. (Ou consegue?) A única coisa que posso fazer é aceitar-lhe a voz, deixá-la sair. E, depois, fazer outra coisa. Pelo menos fico a saber que aquilo não vou precisar de repetir.


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Coisas que me interessam na tradução literária

«As línguas vêem-se por vezes obrigadas, no processo de tradução, a silenciar traços estranhos e não assimiláveis. Isto, porém, não é necessariamente um handicap […], nem tem de ser contabilizado na coluna das ‘perdas’ da literatura traduzida. Porque a imposição do silêncio obriga aos saltos mais ousados, gera novas falas, e é nestes interstícios que as línguas frequentemente se tornam mais criativas e originais: quando, no confronto com a alteridade absoluta que leva ao silêncio momentâneo, olham mais fundo para si próprias, voltam as costas ao espelho, depois de nele verem a imagem do Outro, e descobrem filões, galerias, minério próprio igualmente rico, homólogo desse Outro; mas agora tudo isso nasce de pé (a imagem não é invertida), a partir do próprio plasma e das tradições da sua história literária e linguística.» (p.81)

«Jacques Derrida define a tradução […] como sendo aquela ‘suplementaridade linguística pela qual uma língua dá à outra o que lhe falta e lho dá em harmonia; este cruzamento de línguas assegura o crescimento das línguas.’» (p.83)

in O Poço de Babel – Para uma Poética da Tradução Literária, de João Barrento, Relógio D’Água (destaques meus)

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

Pássaros junto ao farol

Conta-se que a Islândia tem áreas tão isoladas que os seus habitantes podem passar o tempo livre em passeios, explorando túneis, avançando através da água, nadando às vezes, e fazendo música a partir dos sons que ouvem nestes percursos, dentro e fora de si.
Há quem diga que os Múm vêm dessas paragens.
Este single (letra) pertence ao álbum Finally We Are No One (2002) e o vídeo foi realizado por Joe Gerhardt e Ruth Jarman a partir não só dos desenhos de um elemento da banda que se inspirou no próprio cenário e atmosfera de isolamento onde a música nasceu, mas também de criaturas escuras e aladas e de paisagens nórdicas mais ou menos ficcionais.

Também gosto muito do título do primeiro álbum dos Múm: Yesterday Was Dramatic – Today is OK (2000).

Green Grass of Tunnel (link para vídeo)

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Flashback blogosférico

  • Dois posts do Bandeira ao Vento:

-Impulso;

-Gestão de Crise.

  • Um do Manchas:

- Psicopatologia da Vida Quotidiana.

  • Outro do Insónia:

- Ensaios sobre O Azul #1.

  • Outro do As Aranhas:

- E tu, sabes?

Antes de o silêncio fechar a sua querida boca


Ilustração de Helen Stratton

Já foi sugerido que se conta às meninas a história da Gata Borralheira para que elas desejem a todo o custo casar quando crescerem e entendam o casamento como uma espécie de renascimento magicamente processado a partir das cinzas de um qualquer borralho de que fazem parte todas as mulheres solteiras.
No entanto, a heroína da peça Gata Borralheira, de Robert Walser, não encara o casamento com o Príncipe como uma espécie de libertação. Pelo contrário, hesita bastante antes de abdicar da própria independência:

«Não sou tua, ainda estou
noiva de mim própria».


Além disso, percebe antes do Príncipe que passará a ser uma pessoa diferente depois do casamento, possivelmente com menos liberdade e potencial para o sonho:

«Esta roupa aqui, pela qual
estou lamentavelmente
apaixonada, essa, vê,
teria de a pôr de parte,
já não poderia mais ser
a Gata Borralheira…».


É verdade que aceita o vestido novo e os sapatos de prata que o Conto lhe oferece, mas não é a menina casadoira e ingénua da história tradicional.

Na Culturgest, dias 14, 15, 16, 17, 19 e 20 de Setembro.
Encenação: Ricardo Aibéo

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Segunda-feira, Setembro 11, 2006

Livros e pessoas

Ando a ler alguns livros longos de Dostoiévski. Li O Idiota (637 páginas) em Agosto e preparo-me agora para ler Crime e Castigo (511 páginas). Para Dostoiévski é preciso muita preparação mental.
No meu livrinho Noites Brancas (mais pequenino, 94 páginas) coloquei a data de 2002 e é possível que o tenha lido nesse ano. Num destes dias, enquanto o folheava, reparei que também ali o narrador associa a sua voz e a sua vida ao que se pode ler num livro:

«[…] já me arrependia de ter ido demasiado longe, de lhe ter contado o que havia tanto tempo se acumulara no meu coração e de que podia falar como se o lesse num livro, porque também havia muito preparara a minha própria sentença e agora não me tinha contido e lera-a, sem grande esperança, no fundo, de ser compreendido […]» (p.47)

Ao ponto de a sua interlocutora (Nástenka) ter de lhe chamar a atenção:

«Oiça: sabe contar maravilhosamente, mas não podia fazê-lo de maneira menos bonita? Fala como quem lê um livro em voz alta(p.38)

(Itálicos meus. Trad. Nina e Filipe Guerra.)

Com espelhos nos olhos e sementes na barriga

Li com muito interesse o artigo no Expresso (suplemento Actual) sobre o misterioso embrulho colocado à porta do Museu Nacional de Etnologia no início de 2000.

(Para quem não leu, um breve resumo.
Quando abriram este embrulho, os funcionários do Museu constataram que continha uma espécie de boneco antropomórfico com corpo cravejado de pregos. E, mais tarde, concluíram que podia tratar-se de um Nkisi, artefacto usado nalgumas culturas africanas para invocar forças sobrenaturais.
No entanto, mais de seis anos depois, no Museu Nacional de Etnologia, ainda não se sabe quem deixou ali o embrulho. E há quem pense que terá sido alguém que tinha medo de o possuir mas não queria deitá-lo ao lixo por recear que o objecto se virasse contra si.)

Achei a história tão interessante que decidi pesquisar informação sobre o tema.
Fiquei a saber, por exemplo, que os verdadeiros poderes do Nkisi tanto podem ser benignos como malignos, sendo determinados por aquele que o activa através das cargas mágicas que lhes coloca na cabeça, no estômago, nas costas, ou no sexo: ervas, sementes, ossos de animais, terra, barro – dependendo dos objectivos pretendidos.
Muitos Minkisi (plural de Nkisi) são usados só para prever o futuro, para combater a doença, para favorecer a caça ou outras actividades relativamente inofensivas. Embora também haja quem a eles recorra para prejudicar rivais ou desencadear castigos e vinganças.
Cada prego espetado no Nkisi representa uma invocação do seu poder, um contrato, um juramento. (O Nkisi do Museu tem muitos pregos.)
Mas aqueles que solicitam o contrato ou o activam têm, frequentemente, de confrontar-se com a própria imagem, pois os Minkisi podem apresentar espelhos nos olhos e no estômago, vigiando e reflectindo tudo o que está em torno de si.

No Museu de Etnologia desinfestaram o Nkisi que lhes foi oferecido. (Sabe-se lá que bactérias ou vírus podiam existir nos seus constituintes.) Mas os funcionários continuam a aguardar mais informação sobre ele e ainda não o colocaram em exposição.

Imagem: Ar Líquido

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Days of Open Hand


Cartaz do filme de Robert Bresson
(1959)

Vou afastar-me de ti tão lentamente, até que finalmente comeces a mover-te em direcção a mim.
(Todos os movimentos, depois, detendo-se na cela de uma prisão.)

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Também há mãos abertas que no início correm mal.

(Introdução ao filme por Paul Schrader: 1 e 2)

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Sexta-feira, Setembro 08, 2006

setas despedidas

[…]
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.

[…]

Do poema Arte Poética, de Vitorino Nemésio

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Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Conhecimentos de Verão

Desta vez, quis traduzir dois poemas de Delmore Schwartz (1913-1966), americano, poeta, contista, ensaísta.
Como poeta, Delmore Schwartz foi elogiado por T.S. Eliot, William Carlos Williams, Ezra Pound, entre outros. Como contista, foi comparado a Tchékhov e a Stendhal. Deu aulas a Lou Reed, que o considera uma influência decisiva. A vida dele inspirou o livro Humboldt’s Gift, de Saul Bellow, premiado com o Pulitzer.
Ao longo da sua (relativamente curta) existência, Schwartz debateu-se ainda com problemas mentais agudizados pelo consumo excessivo de álcool e de drogas. E viria a morrer louco, sozinho e na miséria.

No primeiro poema, texto de uma voz que desenvolveu alguma familiaridade com a loucura, interessaram-me as metáforas do eu como livro críptico e involuntário, da vida como sucessão de explosões beligerantes, e do amor como sonho ou pesadelo a temer.
Mas gosto bastante mais do segundo poema. Parece-me que a oposição superfície/amor (sendo o amor sempre «profundidade sem transposição») está muito bem explorada.
De resto, o Verão foi um tema muito importante para Delmore Schwartz. A sua antologia de poemas mais conhecida intitula-se precisamente Summer Knowledge.

Eu sou um livro que não li nem escrevi

Eu sou um livro que não li nem escrevi
Uma tragicomédia em que sucessivos bailes de máscaras,
Aterradores como armas, rebentam em raides
Sempre como da primeira vez, apesar da nossa preparação
Para encontrar, subitamente perturbados e a medo,
Como nos sonhos que trazem o receio de adormecer,
O horror do amor, profundidade sem transposição.

Tão passageiras, as falsas verdades dos anos de juventude!
Passando a toda a velocidade como comboios que nunca pararam
lá onde estive à espera, quase sem ter a noção do
Pouco que sabia, ou de qual deles
Apanhar com destino à esperança ou ao lugar onde a esperança
[desembarcasse.

Parei de escrever e de ler o livro que é
O que sou, já de si escondido pela metade
Daqueles que percebem num beijo por dentro
A lassa, informe escuridão do abismo.

Como foi possível acreditar que tão breves anos bastariam
Para provar a eternidade real do amor?

Texto em inglês

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Pela leve ondulação, a consciência ouve o coração

Pela leve ondulação, os peixes apressam-se
Como dedos, centrífugos, como desejos
Gratuitos. E o prazer intensifica-se
À medida que os olhos se deixam cair
Através da água transparente. O seixo pequeno,
O nítido leito de barro, a concha branca,
São evidências, embora pertença da superfície.
Que mais se poderia pedir à tarde de Agosto?
Quem abriria túneis, seguiria sombras?
- Eu, talvez. - responde o entediado coração. - Levanta-te, ocioso!
(Lábio inferior tremendo, rosto empalidecido por ira feroz)
- O erro habitual, na ideia de estares sentado em sossego,
Embriagando os sentidos, à margem do rio no verão,
Sobre o relvado bem tratado, sob o trânsito,
Como se o tempo pudesse parar
E a tarde permanecer.
Não, a noite não se faz esperar,
Nem os seus frios relevos, a desolação,
A não ser que o amor venha e construa a sua povoação.

Texto em inglês.

Adenda: um comentário a este poema.

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Quarta-feira, Setembro 06, 2006

Palavras

Os dicionários são obras de consulta que, por serem redigidos por seres humanos, estão sujeitas a falhas.
Costuma dizer-se que uma das maiores dificuldades do trabalho de um lexicógrafo tem a ver com a manutenção da objectividade em face de palavras que evocam referentes ou realidades a que não consegue ser indiferente.
A falta de objectividade, principalmente quando relacionada com preconceitos, pode dar origem a definições discriminatórias, incompletas e/ou simplesmente incorrectas. (Em Portugal, por exemplo, fez história a definição de «homossexual» que alguns dicionários apresentavam há anos sem contestação.) Além disso, às vezes, a subjectividade inerente a algumas definições chega a ter um potencial cómico involuntário difícil de ignorar.
No livro Tradition and Innovation in Modern English Dictionaries, Henri Béjoint diverte-se a citar alguns exemplos de definições pouco objectivas que encontrou em alguns dicionários.
Achei muita piada a estes dois, relativamente inofensivos:

éclair s. a cake, long in shape but short in duration
(Chambers, 1988)

jaywalker [peão que atravessa a rua fora da passadeira] s. a careless pedestrian whom motorists are expected to avoid running down
(Chambers, 1972)

Mas, depois, pude constatar que a própria Chambers, talvez numa curiosa tentativa de transformar defeitos (quem não sabe o que são um «éclair» ou um «jaywalker» continua sem saber mesmo depois de ler estas definições ) em mais-valias, usa estas e outras definições para publicitar os seus dicionários.
Razão tem Umberto Eco quando diz que convém estar atento às ideias, histórias e fantasias fluindo na estrutura profunda das entradas que nos acontece consultar.
Fluindo não só na estrutura profunda das entradas, mas também no subtexto da própria publicidade aos dicionários, ousaria eu acrescentar.

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Segunda-feira, Setembro 04, 2006

A humanidade agora perseguida pelas árvores

No (excelente) texto Espaços Verdes ou a Savana de Betão (in caderno Actual do Expresso do passado fim-de-semana, p.68-69), Manuel Graça Dias refere uma curiosa notícia segundo a qual moradores do Entroncamento teriam recolhido um abaixo-assinado para manifestar descontentamento em relação à presença de dezenas de plátanos num bairro densamente povoado da zona Sul.
A lista de argumentos apontados pela população para defender o abate dessas árvores podia fazer parte de um guião em que os plátanos, talvez por iniciativa terrorista, tivessem sido invadidos por uma espécie de vírus capaz de os programar para a revolta e para a destruição da humanidade:

«as canalizações que rebentam, os passeios que os fazem tropeçar porque as raízes têm crescido (e porque, provavelmente, as caldeiras das árvores nunca foram alargadas), as supostas alergias, o medo dos assaltos através de ramos enormes (que, pelos vistos, nunca foram podados) que chegam às varandas dos andares de baixo. O mais espantoso será o do morador que se queixa de não conseguir ver o exterior do apartamento […]. Às justificações do Entroncamento havia que juntar uma outra, também recorrente: ‘as árvores sujam tudo’. Não já só as folhas […], mas, principalmente, as seivas e as flores que podem escorrer e apodrecer por cima dos […] carros.»

O mundo, esse filme de ficção científica a decorrer nas cabeças das pessoas, em tempo real .

Imagem: Napoleon Tree, de Rodney Graham

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Sublinhados

Mesmo os gatos podem calcular mal o salto para os colos e resvalar. Deixando um tracejado a sangue nas pernas de quem não os segura quando tentam evitar a queda.

Livros

Massive Attack:
«You’re the book that I have opened»

Delmore Schwartz:
«I am a book I neither wrote nor read»

Sábado, Setembro 02, 2006

Pérolas de cultura pop

Há quem diga que Unfinished Sympathy (link para vídeo), do álbum Blue Lines, é a melhor faixa de sempre dos Massive Attack, uma espécie de fantasma que a banda de Bristol não conseguiu superar.

O videoclip foi gravado em Los Angeles, num famoso plano-sequência que mostra uma versão pouco filmada da cidade hollywoodesca: as minorias étnicas, os excluídos, os menos ricos, os marginais, com que a cantora Shara Nelson se cruza à medida que vai avançando pelas ruas, aparentemente ignorando tudo o que a rodeia, de tal modo está absorta na problemática amorosa da canção.

Trata-se de um clássico segundo aqueles para quem atravessar a pé o espaço da cidade é uma forma de favorecer o pensamento. Agrada-me, além disso, a associação do amor e da errância, como se a resolução das dúvidas amorosas pudesse ser encontrada pelos corpos que ousam o deslocamento.

No vídeo de Bittersweet Symphony, dos The Verve, há uma homenagem um pouco irónica ao clip dos Massive Attack, com um indiferente Richard Ashcroft avançando pela Hoxton Road (North London) e basicamente atropelando todos os que lhe aparecem pela frente.

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Days of Open Hand



E nem estava a acreditar quando descobri que capa do single trazia esta imagem.

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Sexta-feira, Setembro 01, 2006

Desbloqueadores de conversa

Há algum tempo, o blogue Culture Vulture do Guardian Online sugeria como tema de discussão títulos de livros que pudessem levar alguém a meter conversa com um estranho (num jardim, num autocarro, comboio, etc) se acontecesse este estar a lê-los.
Ainda hoje não consigo deixar de recordar duas respostas que na altura, ainda que por motivos diferentes, me impressionaram bastante.

No primeiro caso, alguém dizia que meteria conversa, sem hesitar, com qualquer pessoa que encontrasse a ler Dostoiévski, Kafka ou Samuel Beckett.
Mais à frente, outra afirmava que talvez nenhum livro a levasse tentar conhecer um estranho; no entanto, se por acaso visse alguém a ler Money, de Martin Amis, faria tudo para sair dali, ou, no mínimo, mudaria de carruagem.

Não é por nada, mas para bem da pessoa que deu a primeira resposta, espero sinceramente que tal desconhecido ou desconhecida, caso seja encontrado(a), não se interesse unicamente, obsessivamente, por estes três autores.
Quanto à segunda, queria manifestar compreensão. Compreensão e solidariedade.

Pássaros na cidade

Não tenho o fetichismo das primeiras frases, mas gostei muito desta:
«Anna Júlia enterra pássaros
Encontrei-a num conto da islandesa Olga Gudrún Árnadóttir.

No mesmo conto, também gosto do passo em que se procede a um pequeno inventário das possíveis causas de morte das aves:
«Batem nos fios de telefone e partem as asas, ferem o peito nos arames farpados, são abatidos por pássaros maiores e alguns morrem nas garras de um gato.».

Do conto »Os Filhos do Dia e da Noite», in A Luz que Vem do Norte – Antologia de Contos Nórdicos, org. Gonçalo Vilas-Boas, Edições Afrontamento

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Pássaros nas palavras

É verdade que, no seu tempo, o Dicionário da Academia de Ciências veio propor novas grafias bastante estranhas para palavras de origem estrangeira.
Lamento, no entanto, que alguns jornais e revistas tenham adoptado algumas propostas, ignorando outras de que gostava mais.
Por exemplo, nunca consegui simpatizar com a grafia stresse (parece-me que acrescenta um e totalmente inútil), mas senti sempre um carinho especial por tríler (do inglês thriller), que, tanto quanto sei, só eu faço por usar.
No caso de tríler, não só se simplifica a escrita do vocábulo original através da eliminação de dígrafos (th e ll) pouco frequentes na ortografia portuguesa, como a nova forma proposta poderia recordar aos mais atentos o termo trilo (articulação rápida e alternada de duas notas musicais conjuntas que alguns cantores e pássaros fazem), que é uma palavra tão bonita, quase onomatopaica, musical.
Que grande injustiça.

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