seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Quarta-feira, Agosto 30, 2006

Crises de identidade

Fui renovar o BI por volta das 14.30 de um dia de semana.
Ao chegar, coube-me a senha 478, que me informava haver pouco mais de cem pessoas à minha frente.
128, para dizer a verdade.
Nestas alturas, é verdade que podemos ir dar uma volta, tomar café, comer gelados. Mas sempre com a necessária prudência, pois nunca se sabe se 50 ou mais pessoas antes de nós sucumbiram ao desespero e às horas passadas em pé devido à insuficiência de lugares sentados, e decidiram abandonar o recinto. Aliás, até pode ter vindo alguém retirar 50 senhas seguidas, só para se divertir. Nunca se sabe.
E, de qualquer forma, os números iam avançando lenta mas persistentemente.
Eu tinha levado um livro, mas detesto ler em pé e, além disso, a diversidade do drama humano (crianças pequenas lanchando ou furtando brinquedos uma às outras, senhoras que discutiam vida sentimental, pré-adolescentes ruidosos ostentando roupagem Floribela, jovens que tinham perdido os documentos todos, etc.) prejudicava-me a concentração.
A dada altura, aliás, o ritmo de progressão pareceu-me afectado de forma extremamente negativa. Eram quase quatro da tarde. E tive de prestar mais atenção à sala.
No balcão 47, o número 409, um senhor de meia-idade, de sandálias pesadas e calções brancos cheios de bolsos, argumentava com o funcionário que o estava a atender.
Eu própria fui chamada um pouco antes das cinco, podendo constatar que ainda que o funcionário do balcão 47 tivesse optado por tentar renovar os bilhetes de identidade de outras pessoas, o número 409 continuava por lá encostado, franzindo o sobrolho.
Com efeito, depois das cinco, quando finalmente saí, o 409 não parecia com intenções de arredar pé. Contudo, tanto quanto pude perceber, ainda não fizera reféns.
E os noticiários da noite não disseram nada.

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Terça-feira, Agosto 29, 2006

Da disciplina

Vem em todos manuais: quando um gato faz algo que não queremos que repita, deve ser castigado.
Nesses manuais, segue-se a sugestão clássica de método disciplinar: o esguicho de água.
Quando accionado, o esguicho emite um barulho irritante para felinos (fss), deixando-os, além disso, parcialmente molhados (coisa que detestam). Há uma dupla eficiência no método do esguicho, dizem os manuais.
Decidimos experimentar.
Sempre que o gato Jasmim subisse para uma mesa, passaria a ser brindado com dois ou três jactos de água.
Resultou muito bem, não há que duvidar: em dias de mais calor, Jasmim sobe agora para a mesa quando deseja ser refrescado.

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Domingo, Agosto 27, 2006

Pérolas de cultura pop

Silent all these Years (link para vídeo)

Gosto imenso deste vídeo de Tori Amos.
As vinhetas e os espaços abertos e fechados do écran podem ser relacionados com a actividade principal da realizadora Cindy Palmano, mais conhecida como fotógrafa.
No entanto, à semelhança da letra da canção, que vai progredindo quase em stream of consciousness, a partir de pensamentos fugazes, aparentemente desconexos, como se estivessem à procura de uma voz, o vídeo é preenchido por sujeitos animados em fuga ao enquadramento, apesar de todas as caixas e caixilhos em que as imagens vão aparecendo. Sendo este movimento, obviamente, algo mais difícil de conseguir em fotografia.

Do álbum Little Earthquakes (1990-92, primeiro disco a solo de Tori Amos), de que faz parte Silent all these years, também gosto bastante de Winter, com um vídeo realizado pela mesma pessoa e que vale a pena ver.

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Sexta-feira, Agosto 25, 2006

Seis capas





Mas por que é que as editoras portuguesas não aprovam capas assim?

Do site BookCovers

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Suicide note

Escrevia e reescrevia a mensagem final e nunca mais acabava com a vida.

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Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Às vezes detesto Ingmar Bergman



Não falo das imagens, quase sempre belíssimas. Cada fotograma um pequenino tratado sobre as relações que a luz e a sombra podem assumir.
Simplesmente, não consigo apreciar personagens que sejam 100% qualquer coisa.
No Bergman mais produtivo, as figuras femininas ou são 100% neuróticas, ou criaturas puras, simples, cheias de amor para dar.
A mulher do pintor (Liv Ullmann) de A Hora do Lobo está grávida e faz parte da segunda categoria.
Por sua vez, o pintor (Max Von Sydow) é um génio em crise de criatividade, enfrentando fantasmas do passado através de novos esboços, que considera falhados, e da escrita num diário. Pensa que, com excepção da mulher, todas as criaturas têm como objectivo sugar-lhe o sangue. Sofre de insónias, torna-se incapaz de distinguir fronteiras entre pesadelos e realidade.

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Quase tudo o que vê e nos faz ver é assustador e podia de facto fazer parte de telas perturbadas e pouco conseguidas.
Há, por exemplo, uma senhora que tira o chapéu e, como se de uma sequência lógica se tratasse, a seguir arranca a pele do rosto.
Nos rochedos, um rapaz morde o pintor como uma serpente.
Um ex-amante de uma amante parece capaz de caminhar por paredes e tecto, qual prisioneiro de Piranesi.
O pintor também está 100% perdido e é 100% egocêntrico. Ainda assim, a dada altura, a mulher chega a dizer que desejaria «pensar como ele, ver como ele».
Isso, a mim, irrita-me um bocado.

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(Barca Nova)



De qualquer forma, neste filme também há uma barca.
Aparece logo no início do filme, quando o pintor e a mulher chegam à ilha em que o primeiro quer refugiar-se do mundo e do resto da vida.
A imagem podia fazer parte de A Ilha dos Mortos, de Böcklin, que o Zé Mário escolheu para o cabeçalho do blogue, se, no quadro, a perspectiva partisse da ilha.
Mas não faz mal.
Há que aceitar que também as barcas nos podem levar para sítios onde não é desejável ir.

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Domingo, Agosto 20, 2006

Tinta

«Meu bom senhor, detende-vos; nos lábios
Ainda não secou a cor vermelha:
Ireis manchá-los, se os beijardes; vós
Também sujo de tinta ficaríeis.
Quereis que corra a cortina?»


Good my lord, forbear:
The ruddiness upon her lip is wet;
You'll mar it if you kiss it, stain your own
With oily painting.

Shall I draw the curtain?

in O Conto de Inverno, de William Shakespeare
Acto V, Cena III
(Trad. Gastão Cruz, Relógio d’Água)

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Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Desta vez sem sangue


do filme Bubble
de Steven Soderbergh, 2006

Que me lembre, ninguém ainda nos tinha dito que, separadas, as partes do corpo das bonecas podem ser belas. Os moldes também. A montagem. A introdução dos olhos. A pintura dos lábios.
Ao ponto de a pessoa que lhes costura a roupa não compreender sequer como foi capaz de cometer o crime de que só com muito esforço consegue recordar algumas, poucas, imagens.

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Chuva de Verão

Tarkovsky era tão perfeccionista que mandou arrancar uma a uma as flores minúsculas de um prado onde iam ser filmadas algumas cenas de Stalker.
Li isto nalgum lado?
De que cor eram as florinhas?
Teriam voltado a crescer?

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Sábado, Agosto 12, 2006

Irregularidades estivais



Para já, o filme de Philippe Garrel em exibição no King foi aquele que mais gostei de ver neste Verão.
Para mim, tem pelo menos duas sequências inesquecíveis:
- aquela em que o neto (Louis Garrel) pesquisa as intimações da morte no rosto emagrecido do avô (Maurice Garrel);
- os trâmites da escolha que se segue à proposta que o escultor faz a Lillie de se juntar a ele nos Estados Unidos.

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Infelizmente, quando o fui ver, estava atrás de mim uma pessoa que, qual figurante numa fila de cinema do filme Annie Hall, passou mais de três horas a bichanar coisas como «Não estou a gostar nada», «Percebeste esta cena?», «Isto está a fazer sentido para ti?», «Conseguiste ler as legendas?», «Que seca!», etc.
Prefiro nem sequer começar a imaginar como reagirá alguém assim perante a vida, que não tem legendas, nem sempre tem piada e raramente é de fácil compreensão. Mas quanto ao cinema em geral, tenho uma pequena sugestão que não tive oportunidade de transmitir durante a sessão: quando não estamos a gostar de um filme, podemos sair da sala e ocupar o tempo com algo que consideremos mais útil ou agradável.
Depois, também há a hipótese de nos calarmos um bocadinho: às vezes, prestar atenção ao filme (fazer um pequeno esforço) ajuda a perceber.

Vida social

Nas duas visitas que até agora fizemos ao veterinário com a gata Goneril e o gato Jasmim, travámos conhecimento com:

- uma tartaruga chamada Cereais;
- um cachorrinho clarinho de dois meses, raçado de Chow-chow e chamado Chang;
- uma espécie de cocker dourado chamado Hulk, embora Furacão pudesse parecer uma denominação bastante mais adequada;
- um papagaio cinzento de nome desconhecido, mas que me fixou friamente durante muito tempo.

Na sala de espera desta clínica veterinária existe um grande número de fotografias emolduradas de outros animais de estimação, incluindo alguns lagartos e iguanas com aspecto relativamente estranho e uma cadela chamada Espuma das Avencas, que corremos o risco de um dia encontrar por lá também.

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Gato Jasmim fingindo ser livro

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Quinta-feira, Agosto 10, 2006

Pérolas de cultura pop

Joga (link para vídeo)
Montes de pessoas detestam visceralmente a música da Björk, mas, sinceramente, não posso dizer que isso me incomode.
No início, a voz dela arrepiava-me um bocadinho. Para dizer a verdade, foi um pouco por acaso que comecei a prestar-lhe mais atenção. E isso verificou-se da primeira vez que me aconteceu ver este vídeo.
É certo que havia o meu interesse pela Islândia (viagem, aliás, ainda por cumprir). Mas ainda hoje não consigo deixar de me comover com o momento, quase no fim do filme, em que o peito do modelo da Björk se abre e nós entramos.
De resto, como toda a gente sabe, as paisagens emocionais podem estar cheias de acidentes geográficos inesperados.
O vídeo (1997) é de Michel Gondry, que mais tarde viria a realizar o filme The Eternal Sunshine of the Spotless Mind (2004).

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Grandes momentos do futebol de competição

No jogo que opôs o Áustria de Viena ao Benfica, a dada altura a câmara focou um insecto verde gigantesco sobre as costas de um Fernando Santos, de pé, totalmente absorto na bola que corria.
Talvez uma libelinha.
Para mim, foi o grande momento psicológico da partida.
Oh!, a dúvida dilacerante do cameraman, hesitando entre avisar o treinador do Benfica a respeito de um insecto possivelmente perigoso, ou partilhar o surrealismo da cena com o público de uma emissão internacional!
E, depois, o triunfo do impulso artístico!

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Quarta-feira, Agosto 09, 2006

Uma descoberta de Verão


Yellow Hallway #1
de James Casebere, 2001

na colecção de Helga de Alvear.

James Casebere e modelos de edifícios vazios que as águas escolheram invadir.

Está tanto calor que não só me apetecia encher o blogue com imagens destas, como também sinto que podia viver numa casa assim.

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Chocolate Chip Cookie Dough Ice Cream

A ler O Idiota, de Dostoiévski, na Ben & Jerry’s do Chiado.

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Terça-feira, Agosto 08, 2006

Histórias com veados



No filme The Straight Story, de David Lynch, determinada personagem sente-se bastante infeliz por ter uma grande tendência para acidentalmente atropelar e matar veados.

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No filme Starman, de John Carpenter, o protagonista detém a capacidade de curar e devolver à vida veados vitimados.

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O dito por não dito

Tisana 233, de Ana Hatherly:
«O que há de impressionante na minha obra poética é o que nela há de recusa da expressão. O peso e o tamanho do que eu me recuso a exprimir eis o que eu digo-não digo e finalmente digo.»

Carta de Engelmann a Wittgenstein (4 de Abril de 1917):
«And this is how it is: if only you do not try to utter what is unutterable then nothing gets lost. But the unutterable will be – unutterably – contained in what has been uttered!»

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Recreio


Recreio no Orfanato de Amesterdão
de Max Liebermann, 1876

Se Iosseliani tivesse de escolher um quadro da Colecção Rau, tenho quase a certeza que optaria por este.
Em Lundi Matin, há um momento em que o protagonista desliza numa barca a motor pelos canais de Veneza com uma amigo recente que mora na cidade.
A dada altura, estas personagens detêm-se a espreitar um jardim através de uma fresta na folhagem que supostamente o protegeria de olhares.
Do outro lado, algumas freiras ocupadas na jardinagem vêem-se obrigadas a arregaçar os hábitos negros para facilitar a liberdade de movimentos. Têm pernas muito bonitas e, na cabeça, uma espécie de toucado branco parecido com o das personagens de Liebermann.
Estes pássaros em triângulo e os arbustos do quadro também poderiam aparecer num filme de Iosseliani. Se é que não apareceram já.

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Domingo, Agosto 06, 2006

O leão de terracota por onde a água costumava passar



Conhecem a história das metades de leão que pertenciam a proprietários diferentes?
Nos anos 70 do séc. XX, foi colocada à venda num leilão da Christie’s a metade de uma cabeça de leão antiga em terracota.
Esta metade foi adquirida por um coleccionador inglês que a colocou à disposição Museu de Arqueologia e de Arte Grega da Universidade de Newcastle.

A peça era muito bonita e chamou a atenção do fundador do Museu.
Mas foi só mais tarde, quase por acaso, quando folheava o catálogo de uma exposição subordinada à representação de animais na arte antiga, que este professor localizou a outra metade no património de um coleccionador suíço interessado no tema.

A integridade da cabeça foi reconstituída cerca de trinta anos depois, em 2004, graças à doação realizada pelo coleccionador suíço em favor do museu inglês.
As marcas da separação eram evidentes.
Talvez devido a diferentes métodos de limpeza usados por antigos proprietários, a metade inglesa era mais pálida, enquanto na metade suíça ainda foi possível detectar resquícios de tinta e da decoração original.

Os investigadores supõem que esta cabeça de leão teria funcionado como gárgula, ajudando a escoar as águas da chuva num templo grego construído por volta do séc. V a. C. no sul de Itália, pois encontraram uma peça semelhante nas cercanias.
No entanto, ninguém conhece os motivos pelos quais esta gárgula leonina teria sido dividida por dois.

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A página 320

Terminei recentemente a leitura da biografia de Eça de Queirós, da autoria de Maria Filomena Mónica (Quetzal Editores).
Não haja dúvida de que a história da recepção literária está cheia de episódios dignos de reflexão.

No seu tempo, Eça foi valorizado sobretudo devido a O Primo Basílio (1878), livro que o próprio autor considerava menor Acabei O Primo Basílio, uma obra falsa, ridícula, afectada, disforme, piegas e papoilosa, isto é, tendo a propriedade da papoila, sonolificente.», escreveu numa carta a Ramalho Ortigão).

O romance Os Maias (1888), que Eça sabia ser uma obra-prima, recebeu apenas críticas desinspiradas e pouco interessantes. (O grande assunto debatido a propósito deste livro foi a possibilidade de nele estar retratado Bulhão Pato na figura de Alencar.) E quando comparado a O Primo Basílio, o romance mais recente era invariavelmente menorizado.

A fama que O Primo Basílio granjeou terá vindo sobretudo das descrições de cenas indecorosas entre uma adúltera e um sedutor que o livro continha.
Eça esteve quase a ficar para a história devido a uma famosa cena em relação à qual o próprio pai o adverte em carta:
«Do ponto de vista da escola realista, que te domina o romance, é uma obra-prima. Entretanto, eu creio que, mesmo nessa escola há um ponto além do qual não é permitido, ou, pelo menos, não é permitido passar. […] Nesta parte lembro-te como espécime o que se lê na página 320 do romance. Hás-de concordar em que é realismo cru!».

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A cena é esta:

«Ajoelhou-se, tomou-lhe os pezinhos entre as mãos, beijou-lhos; depois, dizendo muito mal das ligas "tão feias, com fechos de metal", beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido. Ela corou, sorriu, dizia: "não! não!" E quando saiu do seu delírio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate; murmurou repreensivamente:
- Oh, Basílio!
Ele torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinara-lhe uma sensação nova; tinha-a na mão!»

Sábado, Agosto 05, 2006

Days of Open Hand?


S/ título
da série Hover
de Gregory Crewdson, 1995

Desde que certa instituição bancária tem uma campanha publicitária com mãos abertas que me apetece ou acabar com ou subverter (ligeiramente, com delicadeza) a rubrica Days of Open Hand.

Na série Hover, Gregory Crewdson explora as relações entre o mundo doméstico e a Natureza através da colocação de partes do corpo humano na paisagem.
Neste contexto, recorreu a moldes de gesso dos próprios pés, pernas, mãos, etc., para encenar a sua decomposição imaginária depois de uma mutilação.

Gregory Crewdson via Dias Felizes.

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Contagens de trazer pelo fim-de-semana

Para comemorar 60 anos de existência, a Penguin decidiu definir vinte categorias literárias e seleccionar para reedição os cinco melhores títulos do seu catálogo em cada uma delas.
A título de curiosidade, decidi empreender uma contabilidadezinha pessoal.
É uma questão ociosa, claro, mas num total de 100 livros, quantos terão sido escritos por mulheres?
Cinquenta? Vinte e cinco? Quinze?
Por mim, contei nada mais, nada menos do que nove.

As categorias que incluem livros escritos por mulheres vão a seguir.

Loucura (The Best Crazies)
Wide Sargasso Sea
, de Jean Rhys.

Sexo (The Best Sex)
A Spy in the House of Love
, de Anais Nin.

Amor/Paixão (The Best Lovers)
Wuthering Heights
, de Emily Bronte;
Love in a Cold Climate, de Nancy Mitford.

Heróis (The Best Heroes)
Middlemarch, de George Eliot.

Melodrama/Dramalhão (The Best Tearjerkers)
The Age of Innocence
, de Edith Warton.

Terror (The Best Spine-Tinglers)
Frankenstein
, de Mary Shelley.

Manipulação (The Best Minxes)
Emma, de Jane Austen.

Humor (The Best Laughs)
Cold Comfort Farm, de Stella Gibbons.

Não há contributos de autoria feminina nas seguintes categorias:

- Maus da Fita (The Best Villains);
- Viagem (The Best Journeys);
- Decadência (The Best Decadence);
- Contestação (The Best Rebels);
- Ficção Científica (The Best Science Fiction);
- Violência (The Best Violence);
- Droga (The Best Highs);
- Subversão (The Best Subversion);
- Crime (The Best Crimes);
- Adultério (The Best Adultery);
- Devassidão (The Best Debauchery);
- Acção (The Best Action).

Sexta-feira, Agosto 04, 2006

E alguns pombos um bocado chatos

Para quem ainda não visitou a colecção Rau, no Museu de Arte Antiga, reservar algum tempo para a esplanada sob as árvores do agradável jardim.
Enquanto estive lá, avistei dois gatos preto-e-brancos movendo-se por entre sombras e esculturas pardas que, sob determinados ângulos, em alturas de maior distracção, quase poderíamos pensar animadas.

De resto, se pudesse trazer para casa dois quadros da colecção em exposição, talvez não hesitasse durante muito tempo.
Estão os dois na mesma sala.


Auto-retrato
de Edgar Degas (1900)

Duvido que Iosseliani aprovasse, mas, em primeiro lugar, vinha este impressionante auto-retrato a pastel de Degas, dos tempos em que começava a ser dominado pela cegueira.
(Aquelas sombras vermelhas...)

Sobre os auto-retratos, escreveu Ana Hatherly:
«Todos os artistas que fizeram o seu auto-retrato ao longo dos tempos não foi porque se achassem particularmente belos ou interessantes mas porque assim avaliavam o seu grau de passagem.»
(Tisana 229)

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Mulher com Chapéu Preto
de Édouard Manet (1879-1882)


Depois, subtraía este Manet.
Nos retratos da autoria de Manet consigo ver imagens de pessoas e não só convenções e regras.
O facto de este artista ter tido de lutar contra a incompreensão da tradição académica instalada para defender o seu estilo só pode contribuir para que valorizemos ainda mais essa característica.

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Passageiros de nós mesmos

No quarto do fim do filme, o corpo de David Locke, duas mulheres e (pelo menos) um polícia.


Polícia: Sabe quem é este homem?
Mulher de David Locke (Jenny Runacre): Não, nunca o conheci.
Rapariga (Maria Schneider): Sim, reconheço-o.

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Garrafas vazias


Apothecary Bottle, Shadow
de Craigie Horsfield, 2003

Aos dias e dias em que não desejamos senão a ausência de histórias.

(Um brinde?)

Exposição do artista no CAMJAP até 24 de Setembro.

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Zapping

Quando chegaram a esta casa, a gata Goneril e o gato Jasmim eram tão pequeninos que conseguiam deslizar para baixo do sofá em frente à televisão.
Agora, contudo, sentem-se suficientemente crescidos para passar muito tempo em cima do móvel sob o qual costumavam esconder-se quando se sentiam incompreendidos.
Num destes dias, cheguei à sala de manhã e encontrei o televisor a funcionar, sintonizado no canal 50. Apesar de o aparelho não ter ligação à TV Cabo.

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