seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Segunda-feira, Julho 31, 2006

setas despedidas


Cartaz do filme O Triunfo do Amor
de Claire Peploe (2001)

a partir da peça de Marivaux

Passou ontem na RTP 1.

Sinas, sinais

Onde se lia GRUNDIG

deve agora ler-se G U DIG.




A gata Goneril simplesmente não conseguia simpatizar com algumas das letrinhas do nome da marca do LCD de B.

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Domingo, Julho 30, 2006

Barca nova



No filme The Night of the Hunter (A Sombra do Caçador, 1955), de Charles Laughton, também há uma barca importante.
Pertencia ao pai das crianças, que a guardava sob os salgueiros. E elas usam-na para fugir do caçador, atravessando a noite com a boneca que traz um tesouro na barriga.

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Sábado, Julho 29, 2006

Traduções de trazer pelo fim-de-semana

Laura Riding (1901-1991), poeta e ensaísta americana, estudiosa da linguagem. Vida complicada, relação problemática com a poesia.
Li recentemente um livro de poemas dela (Selected Poems: in Five Sets) e tentei traduzir dois ou três textos como exercício.

Não tive acesso ao volume brasileiro com traduções de Rodrigo Garcia Lopes mas conheço um ensaio em que ele reflecte sobre esta poesia, falando tão acutilantemente do que nela há de «pressionar sentido sobre a realidade até seu limite, de mostrá-la como ela é percebida pela linguagem durante o fenômeno poético. […] um super-realismo da mente ativa, em ação, produzindo linguagem e em seu estado mais alerta

Quanto a mim, agradou-me nesta escrita-pensamento a sensação incómoda de inadequação entre mundo, pessoas e linguagem de que decorre a ambição de explorar e conhecer as palavras ao ponto de lhes atingir os interstícios. Isto é, aquilo que, como os passos de Footfalling, não dizem e dizem sem dizer.

Mais informação.

Graciosidade

Esta postura e esta atitude adequam-se
Não porque me façam sentir à vontade
Mas porque as abomino
Daí manter-me tão aprumada –
Evitando assim, no caso de me sentar e, carnalmente, comer,
Engasgar-me com um bocado da matéria da minha própria língua.

Grace
This posture and this manner suit
Not that I have an ease in them
But that I have a horror
And so stand so well upright –
Lest, should I sit and, flesh-conversing, eat,
I choke upon a piece of my own tongue-meat.

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O Mundo e Eu

Não era bem isto que queria dizer
Tão certo como o sol não ser o sol.
Mas como dizê-lo com mais exactidão
Se o próprio sol não brilha senão por aproximação?
Mundo de embaraços!
Tão perigosos, os adereços do sentido!
Talvez a aproximação menos distante
A que sabê-lo pode chegar.
De resto, parece-me que o mundo e eu
Temos de viver juntos como desconhecidos e morrer –
Como num amor amargo, ambos duvidando da
Possibilidade de existir algo para amar no outro.
Não, melhor para ambos ter quase a certeza
Mutuamente clara – do local exacto onde
Exactamente eu e exactamente o mundo
Falhamos o encontro por um momento, e uma palavra.

Texto em inglês.

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Passos

Uma modulação, esses passos.
Que dizem e não dizem.
Quando não estão a andar, não estão a dizer.
Quando estão a dizer, não estão a andar.
Quando estão a andar, não estão a dizer.
Entre passada e alternância
Respira o silêncio da modulação
Pavimentando todas as estradas
Para saltos altos confiantes, solas e bicos de pés.
Bem do fundo da tribuna no passeio dos alegres
A boca ecoante do movimento
Ondula a voz,
E a poderosa garganta deixa-se ouvir a tremular
Quando os passos se apressam.

E dizem e não dizem.
Quando a ida se esvai
Fica a sua impressão.
Todos os pensamentos a soar como passos,
Até um pensamento, como uma bota, deitar o muro abaixo,
[aos pontapés.

Footfalling
A modulation is that footfalling.
It says and does not say.
When not walking it is not saying.
When saying it is not walking.
When walking it is not saying.
Between the step and alternation
Breathes the hush of modulation
Which tars all roads
To confiding heels and soles and tiptoes.
Deep from the rostrum of the promenade
The echo-tongued mouth of motion
Rolls its voice,
And the large throat is heard to tremble
While the footfalls shuffle.

It says and does not say.
When the going is gone
There is only fancy.
Every thought sounds like a footfall,

Till a thought like a boot kicks down the wall.

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Sexta-feira, Julho 28, 2006

Imagens


Do filme Viagem a Itália
de Roberto Rossellini (1954)


Vi este filme na semana passada.
Muito bonitas as imagens da visita ao Museu Arqueológico de Nápoles.
Neste fotograma, um dos mais interessantes do filme, gosto particularmente do corredor, das sombras ao fundo, da pequenez e escuridão dos actores de carne e osso e da mão que a escultura esconde atrás das costas.

Imagem via Ainda Não Começámos a Pensar

Comentários adicionais: In a minute, sir

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Dias de livro aberto

Pouca disponibilidade mental para actualizar o blogue: estou a ler Pascal Quignard, o terceiro livro deste autor desde Junho.
Desta vez, Carus (romance, 1979).
A história é simples: alguém em Paris recupera de uma depressão. Há muitas reflexões sobre palavras. Uma das personagens passa o tempo a corrigir a sintaxe, a pronúncia e o léxico das outras.
De qualquer maneira, a seguir tenciono pegar no Plataforma, de Michel Houellebecq. (O meu primeiro Houellebecq, para dizer a verdade.) E palpita-me que nessa altura vai haver mais dias de livro fechado.

Terça-feira, Julho 25, 2006

A biblioteca suspensa



«Para guardar os livros, Cosimo ia construindo uma espécie de biblioteca suspensa, o mais possível resguardada da chuva e dos roedores. Mas mudava constantemente os livros de lugar, segundo os estudos e gostos do momento, porque ele considerava os livros um pouco como se fossem aves e não queria, assim, vê-los fechados ou engaiolados, afirmando que semelhante espectáculo só servia para o entristecer. […]

E se, nos últimos tempos, à força de passar a vida metido entre os livros, andava um pouco com a cabeça entre as nuvens, cada vez menos interessado pelo mundo que o rodeava, agora, em vez disso, a leitura da Enciclopédia e certas palavras lindíssimas como: Abeille, Arbre, Bois, Jardin, faziam-no descobrir em todas as coisas que o cercavam aspectos totalmente novos»

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«Entre os livros que mandava vir começavam a figurar até alguns tratados práticos, por exemplo tratados práticos de arboricultura […].

Aprendeu, assim, a arte de podar as árvores e oferecia os seus préstimos aos cultivadores de pomares […].

Em resumo, o amor que sentia por aquele seu elemento arbóreo soube torná-lo, como sempre acontece com todo o verdadeiro amor, até um pouco desapiedado e doloroso, um amor que fere e corta cerce, mas com a nobre intenção de fazer crescer e dar forma às árvores.»


Excertos de O Barão Trepador, de Italo Calvino, em que se conta a história de alguém que opta aos 12 anos por viver nas árvores como forma de desafio à autoridade.
Há muito que não lia um livro de que gostasse tanto.
(trad. José Manuel Calafate, Teorema, p. 131-132)

Ilustrações: Yan Nascimbene

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Lisboa, Porto, Lisboa

Pessoas que estão a pensar em viajar no Alfa Pendular com dois gatos em transportadora, preparem-se para tudo.
Muita gente neste trajecto deseja trocar impressões sobre felinos.
A dada altura, uma delas passou-me para a mão um envelope fechado sob pretexto de me mostrar fotografias de exemplares premiados e juro que por momentos tive sérias dúvidas sobre o que podia resultar da abertura do dito.
De resto, a gata Goneril esteve um dia e meio sem me falar depois da primeira viagem e o gato Jasmim tentou afincadamente destruir a transportadora durante cerca de um quarto de hora no regresso a Lisboa, mas ainda estamos todos inteiros.
Inteiros e mais viajados.

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Quinta-feira, Julho 20, 2006

The Ice Maiden

Para aqueles que se interessaram pela história da Mulher encontrada em montes gelados, a Joana enviou-me um link da Wikipédia que me permitiu descobrir muito mais coisas sobre esta figura misteriosa, incluindo uma entrevista com a equipa que descobriu a sepultura envolta em gelo leitoso em Pazyryk, na Sibéria, numa zona em que quatro países (Rússia, China, Cazaquistão e Mongólia) praticamente se intersectam.

A mulher teria cerca de 30 anos e pertenceria a uma cultura com costumes relatados pelo próprio Heródoto. Tratar-se-ia de uma tribo guerreira em que, curiosamente, o género feminino se teria destacado na arte do tiro com arco.
As tatuagens localizavam-se no polegar direito e no braço e ombro esquerdos, representando, entre outros, animais fantásticos e distorcidos, com chifres terminando em flores.

Os membros da equipa contam que sofreram alguns dissabores durante o processo. Como se as lendas locais relativas à punição daqueles que se atrevem a incomodar os mortos tivessem razão de ser, alguns deles tiveram períodos de pesadelos muito desagradáveis. Quando o corpo estava a ser transportado de helicóptero, um dos motores falhou e o veículo teve de fazer uma aterragem de emergência. A própria arca congeladora em que a múmia foi guardada também teve falhas técnicas, o que deu azo a que o corpo tivesse sido invadido por um fungo que quase lhe apagou as tatuagens, tendo sido necessária uma intervenção dos especialistas que, no passado, tratavam da preservação dos corpos de alguns líderes comunistas.

«This young woman, buried with such ceremony, with her body covered in tattoos, was no ordinary member of society. She may have held a special position because she was blessed with a talent valued in that society. She could have been a shaman. She may have had the ability to heal people or predict the weather. It is also likely that this woman was a story teller, someone who told stories and memorized the history and myths of her people. This would have been very important for the Pazyryk as it is for all non-literate cultures.»

Imagem: tatuagem no ombro esquerdo

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Quarta-feira, Julho 19, 2006

Informações úteis

Preço do quilo da hortelã: 5.99 euros



Pague-se, portanto, 19 cêntimos por um molhito de 32 gramas,
quantidade razoável para um refresco,
de preferência num jarro cheio de cubos de gelo a tilintar.

Boas notícias

Depois de Sixth Sense, que acho mediano, ainda não vi um filme de M. Night Shyamalan de que não tivesse gostado muito.
Lady in the Water, a nova criação deste realizador, está quase, quase a estrear no Estados Unidos.
Com Bryce Dallas Howard e Paul Giamatti, dois actores que muito aprecio, Lady in the Water gira em torno de uma personagem que quer literalmente regressar à história de onde saiu.
Ver o trailer aqui.

Mulher encontrada em montes gelados



Quando era adolescente vi na televisão um documentário sobre a descoberta de um corpo congelado de uma mulher nos montes de terras que agora não sou capaz de precisar.
O gelo tinha feito um bom trabalho de conservação e uma equipa de investigadores tentava determinar a que civilização ela poderia pertencer a partir dos indícios visíveis.
O corpo pertencia a uma adulta já com alguma idade e apresentava a peculiaridade adicional de estar coberto de tatuagens, sendo que uma grande parte destas parecia representar episódios significativos na vida da sua portadora: viagens, casamentos, amizades, casas, nascimentos, mortes, separações, fins, princípios, continuidades, evoluções.
Perante tais evidências, a equipa pensou que poderia tratar-se de uma mulher poderosa na cultura em que se integrava, talvez mesmo de uma contadora de histórias que, pressentindo que estava próximo o fim da vida, para ali teria subido, enfrentando a dura escalada sozinha.
Lembrei-me disso quase no início do filme Me and You and Everyone We Know, de Miranda July, quando Richard Swersey (John Hawkes) decide pegar fogo à mão, à laia de cerimónia ou negra celebração para assinalar o fim do casamento.
Às vezes acho que o corpo devia guardar marcas [visíveis] de todas as coisas importantes que nos tivessem acontecido.

Uma adenda em Azul Cobalto.

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Terça-feira, Julho 18, 2006

Perdidos e achados



Não consigo lembrar-me em que museu vi uma instalação (de Beuys?), montada a partir de objectos que os visitantes perderam pelas salas dessa instituição e nunca foram reclamar. Mas, nos meus melhores momentos de sabedoria pop, sinto de algum modo que essa assemblage podia ser uma boa metáfora para a vida.

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Whatever happens to…

lost property?

Segunda-feira, Julho 17, 2006

Tchékhov em Lisboa

Vi ontem no Teatro da Cornucópia uma encenação de Christine Laurent a partir da peça O Ginjal, de Tchékhov.
O título do espectáculo (Ensaios para «O Ginjal») levava-me a esperar algo de mais experimental.

Do texto da peça foi cortada integralmente a personagem de Semion Epikhódov (escriturário que funcionava sobretudo como agente de comic relief) e a personagem do criado idoso Firss, que representa a velha ordem, aparece só na cena final.
No início dos actos, as didascálias são apresentadas em voz alta, assim como algumas cartas que Tchékhov trocou com Olga Knipper (actriz e mulher do escritor) quando terminou a escrita desta peça e se organizava a sua encenação.
Não há muito mais surpresas neste espectáculo.

Num texto introdutório, a encenadora explica esta contenção da seguinte forma:
«Sonhava ainda com um espectáculo que mostrasse o trabalho dos ensaios, com tudo o que isso implica de repetições de textos e de situações, de tentativas. […] Mas a peça foi mais forte do que as minhas elucubrações preparatórias. Arrastou-me, arrastou-nos, como uma grande vaga, para uma execução mais acabada que o previsto, e, finalmente, mais simples. Da ideia de “work in progress” ficaram apenas alguns vestígios e um certo tratamento do espaço.»

Outra opção discutível justificada nesta introdução tem a ver com a escolha da talvez demasiado jovem Rita Durão para o papel principal: «mesmo se habitualmente o papel é interpretado por uma mulher mais madura, eu queria tentar este desafio».

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De resto, O Ginjal (estreia em 1904) foi a última peça de Tchékhov e conta a história de uma família arruinada que se encontra prestes a perder uma propriedade que sempre lhe pertenceu. A instabilidade e a precariedade são as sensações dominantes.
Quase todas as personagens figuram diferentes idades, tempos e emoções que ali se entrecruzam provavelmente pela última vez.
O passado é representado pela nobreza decadente e incapaz de se adaptar aos novos tempos, e pelo criado velho que morre com a casa, no fim da peça, à medida que o ginjal vai sendo deitado abaixo. O presente é desenhado pelo criado jovem e arrivista e pelo descendente de mujiques que fez fortuna suficiente para comprar a propriedade em que os seus ascendentes tinham trabalhado como servos. O futuro, muito incerto, é antecipado através do preceptor com ideais revolucionários e a filha jovem que acredita num tempo mais livre, sem a casa que encerra e cristaliza toda a história da família.

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Um dos momentos mais belos da peça é aquele em que a protagonista é visitada por uma estranha visão do passado no ginjal que ela própria é incapaz de salvar por qualquer esforço prático.
Parece-me também um dos momentos mais bem conseguidos desta encenação. No palco, os actores estão de costas para um armário de portas abertas mostrando brinquedos velhos :

Liubov Andréevna – Olhem, ali vai a nossa falecida mãe a passar pelo pomar… de vestido branco! (Ri de alegria.) É ela!
Gáev – Onde?
Vária – Pelo amor de Deus, mãezinha…
Liubov Andréevna – Não é ninguém, pareceu-me. À direita, na curva para o pavilhão, está uma arvorezinha branca inclinada, parece mesmo uma mulher…


Trad. Nina e Filipe Guerra

O espectáculo estará em cena até 30 de Julho, de 3ª a Sábado às 21.30h e aos Domingos às 17h.

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Domingo, Julho 16, 2006

Donos de gatos desesperados

Os seus gatos não param de correr de um lado para o outro na ânsia de destruir tudo o que há em casa, mesmo quando está um calor insuportável?
Nada de perder a esperança!
No filme Ice Age 1 há um tigre pré-histórico chamado Diego com que os gatos rebeldes parecem identificar-se bastante, pois ficam absortos quando ele aparece no écran.
Acredite ou não, essa atenção pode garantir até cerca de dez minutos de paz e sossego.
E isso é melhor do que nada.

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Cuidado, porém, com as aparições da preguiça Sid, no caso de não apreciar écrans arranhados.

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Sexta-feira, Julho 14, 2006

Os meus problemas

Actualmente, dois dos meus maiores problemas relacionam-se com os anjitos branco-tigrados que moram aqui há cerca de uma semana.
A gata Goneril tem uma atitude muito crítica em relação à forma como me visto. Num destes dias tive de mudar de blusa à pressa antes de sair, de tal forma o olhar depreciativo dela me fez sentir insegura.
Quanto ao gato Jasmim, fico com a impressão que julga que é um lémur. Quando não o deixam fazer aquilo que quer (mastigar jornais, subir para mesas, afiar unhas em sofás, etc.) fica igualzinho ao exemplar ali na imagem.

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Quinta-feira, Julho 13, 2006

Palavras e imagens

Ao José Bandeira, que dispensa elogios, obrigada pela amabilidade.

E, já agora, um link para um outro (e relativamente recente) blogue com palavras e imagens que vale a pena visitar.

Barca nova


do filme Samaritana
de Ki-duk Kim

Por que recordamos ou revemos certas imagens e esquecemos ou deixamos de ver outras?
Um tanto inesperadamente, reencontrei ontem a barca de Monet num filme que começa em cenário urbano mas escolhe o seu fim num monte isolado, de escaladas e subidas difíceis.

Por mim, reparei bem na imagem: uma barca é algo que deve circular sobre a água, mas, neste caso, parece ter ocorrido uma estranha inversão: trata-se de uma barca encalhada acolhendo a água que, por sua vez, estando dentro, vê também o seu circuito limitado e não pode avançar.

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Circuitos fechados

Curiosamente, em Primavera, Verão, Outono, Inverno… Primavera, o outro filme de Ki-duk Kim que vi, encontrei também esta noção de circuito fechado: um monge (representado pelo próprio realizador) realiza uma duríssima escalada a um monte com uma pedra amarrada ao corpo, numa tentativa de se redimir de todos os erros que cometeu desde que, em criança, causou a morte de um animal depois de o amarrar a uma pedra, assim lhe dificultando a locomoção e a sobrevivência.

Primavera, Verão, Outono, Inverno… Primavera acaba, aliás, como começa: o monge que cumpriu a penitência recolhe mais um bebé abandonado, que, presumimos, acabará por cumprir o mesmo percurso do bebé abandonado do princípio.
Enquanto nós ficamos com a sensação de que este ciclo se repetirá indefinidamente.

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A agenda



Em Samaritana, há uma rapariga tentando refazer o percurso de uma amiga morta que se encarregava de trabalhos de prostituição com o objectivo de juntar dinheiro para um bilhete de avião para a Europa.
Esta rapariga decide revisitar todos os clientes que a amiga guardava devidamente registados numa agenda, de modo a devolver-lhes o dinheiro e redimir toda a anterior experiência negativa.

Neste filme, contudo, o pai desta descobre e tenta abortar o circuito de suposta redenção que a filha procurava cumprir.
Chegamos mesmo a ver a rapariga deitar a agenda fora.

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Nas cenas finais, vemos o carro que fez uma viagem através do monte em que estava a sepultura da mãe da rapariga, também ele, encalhado num lago.
A rapariga que dorme lá dentro acorda a dada altura, e é assassinada pelo pai, que a enterra junto ao lago.

No entanto, a seguir, o filme reformula-se, refaz o seu próprio passado.
Como se o momento em que é enterrada junto ao lago não tivesse passado de um sonho, a rapariga volta a acordar.
Desta vez, o pai ensina-a a conduzir.
À frente dela, talvez um caminho fora de qualquer circuito a repetir.

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Terça-feira, Julho 11, 2006

Lavoisier


Doutor Fausto
água-forte de Rembrandt

Descobri uma coincidência deveras intrigante.
Há coisa de um ano, naquilo que pensei ter sido uma inspiração fulminante, escolhi para título de um post com uma citação de Godard a expressão Para chegar à sombra, seguir a luz.
Hoje, quando estava a ler umas cartas de Van Gogh, não pude senão reparar nos seguintes passos:

«La légende de l’eau-forte de Rembrandt continue à me poursuivre : In medio noctis vim suam lux exterit (la lumière brille mieux au milieu de la nuit).
[...]
Tu sais qu’un des principes, une des vérités fondamentales, non seulement de l’Évangile, mais de toute la Bible, est que la lumière brille dans les ténèbres. Par les ténèbres vers la lumière

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Segunda-feira, Julho 10, 2006

Os patinhos feios


Dirty Mirror
de Howard Hodgkin, 2000

O que pode haver em comum entre três artistas plásticos tão diferentes como Howard Hodgkin, Modigliani e Jorge Martins?
É simples: os três são pintores com exposições apetecíveis a visitar durante o Verão.
Os dois primeiros em Londres, na Tate Gallery e na Royal Academy respectivamente. O terceiro em Lisboa, no Centro Cultural de Belém.

Três exposições realizadas em instituições importantes de duas capitais europeias, portanto.
Visito os sites das duas primeiras: visualizo imagens e recolho informação crítica valiosa. Visito o terceiro site: fico a saber praticamente o mesmo que antes.

A crise tem costas muito largas

Não posso dizer que a informação de que o jornal Público perdeu 4391 leitores no primeiro trimestre do 2006 relativamente ao mesmo período de 2005 me tenha deixado surpreendida, visto que eu própria contribuí para essa quebra de vendas.
Eu era uma cliente das sextas e dos sábados principalmente por causa dos suplementos Y e Milfolhas. Desde os tempos de faculdade que comprava o jornal duas vezes por semana, mesmo quando os conteúdos estavam integralmente disponíveis online. No entanto, nos últimos tempos deixei de o fazer com a mesma regularidade.

No meu caso e no de tantas outras pessoas que conheço, convém salientar que isto não aconteceu devido à crise (não me parece que mais 2.20 euros por semana contribuíssem grandemente para me equilibrar o orçamento). Tomei essa opção simplesmente porque a qualidade e a diversidade dos conteúdos do jornal nesses dias decaíram e, na maior parte das vezes, simplesmente não conseguia encontrar conteúdos que me interessassem nas páginas que do jornal que passei a folhear antes de comprar.

Às sextas-feiras compro agora o Diário de Notícias porque geralmente os conteúdos e as abordagens que o suplemento Sexta propõe são mais apelativos para mim.
Contudo, estou muito longe de achar que a envergadura do suplemento Sexta o torne sequer comparável à dos dois suplementos Y e Milfolhas de outros tempos.
(À primeira vista, diria até que a decisão de fundir Y e Milfolhas pode acabar por diminuir o número de leitores do jornal no dia em que o novo suplemento não sair, principalmente caso um deles não seja substuído por algo que cative os mesmos alvos.)

Além disso, o jornal Público que me habituei a apreciar não imitava o que os outros faziam, inovava. E esse factor constituía logo à partida uma mais-valia muito importante para mim.

Sexta-feira, Julho 07, 2006

Dinâmica subtil

Os dois anjitos branco-tigrados que estão há horas esticados a dormitar enquanto congeminam disparates, aqui ao lado, sobre o roupão de B., têm entre três ou quatro meses e só começaram ontem à noite a viver nesta casa mas já mandam nisto tudo.
Gostam muito das prateleiras das estantes, principalmente da zona por trás dos livros de Ramos Rosa.
O gatinho demonstra um profundo interesse por portas fechadas e não perde a oportunidade de explorar o que se esconde por trás delas quando alguém se esquece de as fechar, mesmo que pertençam a máquinas de lavar louça e roupa vazias.
A gatinha emite uns sons estranhos quando está a brincar, como se tivesse resultado de um invulgar cruzamento entre um felino e uma ave de rapina.
Ambos apreciam Mozart e desarrumar jornais amontoados que já deviam ter ido para o lixo.
Hoje de manhã seguiram-me por todas as divisões da casa para no caso de eu fazer algo de que discordassem me explicarem que isso não podia ser.

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Quinta-feira, Julho 06, 2006

Portugal-França

Estou a ler em francês as extraordinárias (não há outra palavra, desculpem lá) cartas que Van Gogh escreveu ao irmão mas acho um bocado triste que seja difícil encontrar uma tradução portuguesa destes textos.
Noutros países, há colecções que reúnem volumes de textos escritos por artistas plásticos: diários, correspondência, artigos críticos, etc. Em Portugal, que eu conheça, não há nada que se compare. (A Cotovia tem uma colecção de ensaios sobre arte de grandes artistas plásticos, mas muito incompleta.) Chega a ser difícil encontrar simples biografias de artistas importantes.
E, já agora, os livros sobre arte não têm de ser caros. O meu volume de cartas de Van Gogh custou cerca de quatro euros. Li recentemente uma biografia de Berthe Morisot pela qual paguei menos de seis.
(À atenção das editoras portuguesas.)

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O verdadeiro realizador autobiográfico

Quando interrogado sobre realizadores de que gostava numa sessão recente da cinemateca depois da exibição do filme Lundi Matin, Otar Iosseliani falou, não sem alguma ironia ligeiramente depreciativa, de um tipo específico de autor, o autobiográfico.
Neste contexto, referiu Pedro Almodóvar um excelente realizador, dos poucos que ainda fazem cinema actualmente, mas que não consegue libertar-se da vertente autobiográfica») e lembrou ainda Mathieu Amalric (cuja voz, curiosamente, fazia uma pequena aparição no filme que tínhamos acabado de ver).
Segundo Iosseliani, Amalric filma tudo o que vive: «acaba de viver uma coisa e filma-a logo a seguir».
Apesar de O Estádio de Wimbledon ter estreado comercialmente nas salas portugueses e até existir em DVD, não vi ainda nenhum filme realizado por este actor-realizador. Depois do comentário de Iosseliani, no entanto, fiquei com alguma vontade. Achei muito interessante esta ideia de revisitar e investigar a experiência pessoal através de filmes e imagens.

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Quarta-feira, Julho 05, 2006

A solução bernardo-eremita

O bernardo-eremita é um crustáceo que, por ter abdómen mole e flexível, deve proteger-se alojando-se em conchas que outros moluscos (geralmente búzios) deixaram.
Apesar de depois viver numa casa emprestada, o bernardo-eremita fica muito apegado a ela, levando-a às costas para todo o lado e chegando a optar por morrer despedaçado em dois no caso de alguém tentar retirá-lo lá de dentro.
No entanto, quando se torna demasiado grande para o abrigo que inicialmente escolheu, o bernardo-eremita vê-se na necessidade de procurar casas novas.
Examina várias possibilidades com cuidado e em pormenor. E, depois de tomar uma decisão, efectua a mudança muito rapidamente.
Este blogue não se transformou ainda num bestiário. Anda só a aprender mudanças com a natureza. Há um momento em que até os bernardos-eremitas aceitam mudar de casa.

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Bernardo-eremita sem casa

Imagens

«Há algo de inimaginável por detrás de cada imagem

in Abîmes, de Pascal Quignard, Folio, p. 209

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Terça-feira, Julho 04, 2006

Dias de livro aberto

As libélulas são fósseis vivos.
Nós andamos na Terra há cerca de 200 milhões de anos, mas as libélulas estão cá há 300 milhões de anos. São anteriores aos dinossauros e sobreviveram a todas as mudanças que causaram a extinção destes.
Nesses tempos eram muito maiores, com uma envergadura de asas que, segundo alguns, podia chegar a atingir 80 centímetros.
Há quem diga que ainda hoje essas asas lembram as páginas de um livro aberto.
E algumas espécies de libélulas não conseguem recolher as asas: têm de descansar com elas assim.

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Segunda-feira, Julho 03, 2006

A negação das evidências


do filme Sous le Sable
de François Ozon

Bem-vindos ao sítio mais ozoniano da blogosfera portuguesa. (De onde pensavam que vinha Sarah Morton?)
Ultimamente ando um bocado aborrecida por ter perdido Le Temps qui Reste, que ainda não chegou ao Porto e que deve ter passado em Lisboa quando estava em Florença.
De modo que decidi recordar um dos momentos que mais me impressionaram no cinema dos últimos anos. A imagem que vem do filme Sous le Sable (2000) e se resume a isto:
uma mulher a jantar, a um canto, num restaurante de uma cadeia de fast food, sozinha porque se recusa a aceitar a perda do marido, a noção de que aquilo que amava deixou de existir.
Não sei bem explicar porquê, mas, para mim, nunca Charlotte Rampling foi tão bela como aqui.

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Entre as 16 e 18.30 do último sábado

Dormir durante cerca de 20 minutos; ler Pascal Quignard; lanchar; espreitar esporadicamente na sala não o jogo mas, muito mais interessante, o clima de cortar à faca que se estabeleceu entre B. e televisor; sair da sala antes de B. me fulminar com o olhar.

Prémios Adjectivação Mundial 2006

«A Itália vai avançando com o seu futebol cínico

(O premiado é Paulo Catarro ou Humberto Coelho.
Não tenho a certeza. Ouvi em zapping.)