seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Quinta-feira, Junho 29, 2006

Volumes e volumes para resgatar

Durante muito tempo fiz longas viagens de comboio. Tinha então por hábito ocupar essas horas a ler.
Quando deixei de fazer viagens diárias, o meu ritmo de aquisição de livros não sofreu alterações, mas a velocidade de leitura diminuiu consideravelmente. De modo que tenho nas estantes grossos e desejáveis volumes que fui acumulando ao longo dos últimos quatro anos. Volumes de cuja leitura vou enfim poder usufruir como legítima proprietária.

Amantes de vulcões

Não consigo encontrar na Internet uma única fotografia de Susan Sontag de que realmente goste. Parece-me sempre demasiado autoconsciente em todas as imagens. Mas gostei bastante de The Volcano Lover (1992), 428 páginas.
O Amante do Vulcão (edição portuguesa Quetzal, 1998) é um romance histórico que gira em torno de Sir William Hamilton, que terá ficado para a história como o marido enganado de Lady Emma Hamilton, amante de Lorde Nelson, em interacção com outras figuras da época (governantes, Goethe, Leonor Pimentel, Elisabeth Vigée-LeBrun, etc.).
Com ecos e repercussões da Revolução Francesa, a acção inicia-se em Nápoles, em 1764, atravessa os tempos da Revolução Francesa, passa por Inglaterra e termina em 1815.

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Personagens históricas


Lady Hamilton
por Elisabeth Vigée-Lebrun
(Nápoles, 1790-1791)

Um dos grandes trunfos da narração reside na não nomeação directa das personagens principais. (William Hamilton é referido como o Cavaliere, Lorde Nelson como o Herói, Emma Hamilton é sempre designada ironicamente como amiga, mulher, admiradora, amante do primeiro e do segundo.)
Esta opção relocaliza as personagens no quotidiano, colocando em plano menos importante as personas históricas e permitindo explorar a sua humanidade básica.
Aliás, o romance funciona melhor quando a personagem principal é o Cavaliere, apreciador de vulcões, grande coleccionador de objectos artísticos, talvez porque o menor peso histórico da figura tenha proporcionado à autora maior liberdade de investimento na densidade psicológica da personagem.
(Os outros dois acabam por ser trabalhados mais esquematicamente.)
No entanto, é preciso ter em conta que Sir William Hamilton era à partida uma figura complexa o bastante graças à diversidade dos seus interesses. A estratégia de focalizar a narrativa em personagens não fictícias pouco importantes é sobejamente conhecida e até pode parecer hábil à primeira vista, mas não funciona bem em todos os livros que a ela recorrem. (Estou a lembrar-me, por exemplo, do romance Author, Author, de David Lodge, em que a atenção dedicada aos criados de Henry James pode parecer inútil, além de irritante.)

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Outro dos trunfos do romance relaciona-se com o tratamento dos temas da vulcanologia e do coleccionismo. O vulcão como imprevisível força da natureza, dotado do poder destrutivo que a própria humanidade detém sem saber dominar; o coleccionismo enquanto impulso para a ordem e para a cultura.
Neste contexto, a voz da narração tem um papel muito importante, produzindo permanentemente reflexões morais.
Na opinião de John Banville, esse é o grande ponto fraco do romance, pois a arte devia ser sempre amoral. Mas terá Banville lido Guerra e Paz, de Tolstói?

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Intimações de beleza

«Nothing had ever seemed to him as beautiful as certain objects and images – the reflection, no, the memorial, of a beauty that never really existed, or existed no longer. Now he realized the images were not only the record of beauty but its harbinger, its forerunner

The Volcano Lover – A Romance, de Susan Sontag
Vintage, p.130

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Terça-feira, Junho 27, 2006

Histórias de espinheiros


Espinheiro deformado pelo vento

Sophia Hawthorne, mulher do escritor americano Nathaniel Hawthorne, tinha sido sepultada num cemitério de Londres, cidade para a qual se tinha mudado depois da morte do marido, por sua vez sepultado no famoso cemitério de Sleepy Hollow, nos EUA.
O oceano Atlântico interpunha-se entre as duas sepulturas há cerca de 150 anos.
Contudo, no ano passado, a sepultura dela sofreu graves danos devido à queda de uma árvore plantada ao lado.
Esta árvore era um pilriteiro ou espinheiro-alvar, que, em inglês, se designa por hawthorn.
Por isso, os restos mortais da mulher que uma vez tinha escrito «I once thought that no power on earth should ever induce me to live without thee, and especially thought an ocean should never roll between us» foram transferidos para uma campa ao lado da do marido.

Fonte: Guardian
Imagem: Archie Miles

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Recomendações literárias

Em museus, costumo ter o mau/péssimo, hábito de bisbilhotar aqui e ali fragmentos de visitas guiadas.
Por exemplo, no Palazzo Pitti, em Florença, tive de reparar numa guia com lentes grossas de míope, de meia-idade mas franzina, que se detinha longamente perante os quadros de Artemisia Gentileschi, chamando a atenção para diversos pormenores de forma que me pareceu bastante inteligente.
Perante este (belíssimo) quadro retratando Judite e (cabeça de) Holofernes (Judite não como donzela frágil, de nobreza convencional, mas enquanto mulher madura, quase pesada, olhando para trás no momento em que se prepara partir), a guia discorreu apaixonadamente sobre o romance que a vida da artista tinha inspirado a uma senhora chamada Susan Vreeland.
Interessam-me muito as relações entre literatura e artes visuais. Fiz imediatamente uma nota mental e tratei de procurar o volume.
As livrarias de Florença são excelentes.
O livro não era grande coisa.

Violência culinária

Sarah Morton vai ter algum tempo livre até Outubro e decidiu que podia ser uma boa altura para tentar diversificar interesses.
Num destes dias, por exemplo, descobri-a muito interessada na leitura de uma receita de filetes de polvo em que se considera necessário bater no polvo com o rolo da massa antes de começar a cozinhá-lo.

Sábado, Junho 24, 2006

A casa dos meus pais está a ser pintada.

Só do pequeno telhado que cobre a varanda do meu antigo quarto, os pintores retiraram um balde a transbordar de ninhos de pássaros.

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Alunos e professores

À conta de um certificado de que preciso, regressei à escola onde fui professora durante o ano em que realizei o estágio.
Há precisamente dez anos que ali não voltava.
Tive de perguntar às senhoras da portaria onde ficava a secretaria. (Não me lembrava bem e a localização podia ter sido alterada.)
Ligeiramente indecisas depois de me olharem de cima a baixo, as senhoras necessitavam de mais pormenores:
- Dos alunos ou dos professores?

Hesitei cerca de cinco segundos antes de responder.

Sexta-feira, Junho 23, 2006

Para acabar de vez com os postais de Florença



Aqui fica um pormenor de um dos frescos do Convento de S. Marco, que faz parte da lista dos sítios mais agradáveis e mais belos de Florença.
Para além dos claustros, tão frescos e tão calmos, neste convento é possível visitar as pequenas celas dos frades e observar os frescos relativos ao martírio de Cristo que cada uma delas apresenta.

Escritório e quarto de Girolamo Savonarola também estão abertos ao público. Para além da secretária e da cadeira do homem que organizava na Piazza della Signoria fogueiras com espelhos, cosméticos, vestidos ditos excessivos, mesas de jogo, imagens e livros que considerava obscenos (quadros de Botticelli, por exemplo!), podemos observar peças mais íntimas, como os cilícios que usava para castigar a carne.

Neste fresco de Fra Angelico, o que me chamou a atenção foi a presença fragmentária e quase fetichista das mãos.

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do filme Eyes Wide Shut

Além disso, a venda de Cristo fez-me pensar, retorcidamente, em filmes de Stanley Kubrick.



... E neste, de Mary Harron, também.

Matemáticas

Três anos depois, o OpinionDesmaker escreve-se a três mãos (ao senhor António juntaram-se duas senhoras) e continua a desfazer rebanhos.

Quinta-feira, Junho 22, 2006

Lolitas de trazer por Florença

De saltos altos extremamente elegantes e com muito mais maquilhagem do que eu, as adolescentes americanas estão por toda a parte, disfarçadas de adultas, como se participassem permanentemente numa série dramática da HBO.
(De resto, em Florença, tenho muitas vezes esta impressão de personagem perante a maior parte dos turistas americanos.)

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the hour when unfamiliar things are real


Piazza della Signoria
de Giuseppe Zocchi (1717-1767)

(vale a pena clicar sobre a imagem)

«The Loggia showed as the triple entrance of a cave, wherein dwelt many a deity, shadowy, but immortal, looking forth upon the arrivals and departures of mankind.
[…]
The Piazza Signoria is too stony to be brilliant. It has no grass, no flowers, no frescoes, no glittering walls of marble or comforting patches of ruddy brick. By an odd chance - unless we believe in a presiding genius of places - the statues that relieve its severity suggest, not the innocence of childhood, nor the glorious bewilderment of youth, but the conscious achievements of maturity. Perseus and Judith, Hercules and Thusnelda, they have done or suffered something, and though they are immortal, immortality has come to them after experience, not before. Here, not only in the solitude of Nature, might a hero meet a goddess, or a heroine a god


De Room with a View, de E. M. Forster (o tal romancista que Zadie Smith homenageia em On Beauty)

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E por falar em Itália

Ainda num destes dias, B. teve de explicar a Sarah Morton que, na selecção nacional, o guarda-redes e Pauleta não eram a mesma pessoa (pois desde um anúncio qualquer com um queijo que ela pensava que Pauleta era guarda-redes e, além disso, a cor de cabelo de ambos é parecida).
Nos últimos tempos, a vida não está fácil para quem não se importa lá muito com Cristiano Ronaldo e Deco, grandes estrelas até para empregados de restaurantes florentinos.
No entanto, qualquer coisa neste Mundial tem interessado Sarah Morton.
E, assim de repente, eu apostaria no novo penteado de Francesco Totti. Porque 'O cabelo comprido que usava há anos não o favorecia, coitadinho. Mas agora está tudo bem'.

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Quarta-feira, Junho 21, 2006

O tempora!



Na Capela Brancacci, da Igreja Santa Maria del Carmine, os frescos podem representar na mesma vinheta momentos cronológicos diferentes: na imagem acima, por exemplo, S. Pedro aparece à direita e à esquerda. (É fácil identificá-lo através das vestes e da expressão sisuda.)
À primeira vista, estranho. Lembro-me de clones, duplos, filmes de ficção científica.
Depois, no entanto, começo a gostar desta narrativa atemporal, ainda que não faulkneriana.

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O futuro

Outro elemento de que gosto muito tem a ver com os rostos que nos encaram, através dos tempos, a partir destes frescos.
Na Capela Brancacci, Masaccio e Filippino Lippi auto-representaram-se como observadores dos observadores das próprias obras.

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Pormenor de S. Pedro no Trono

Masaccio morreu antes de fazer trinta anos.
Segundo a lenda, teria sido envenenado por um pintor rival em desespero por não conseguir superar a sua arte e mestria.
É considerado uma das maiores influências de Michelangelo.

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Pormenor da Crucifixão de S. Pedro

Fillipino Lippi estudou com Botticelli, mas tem um estilo considerado mais robusto.
O primeiro grande projecto em que colaborou foi a conclusão e restauro dos frescos de Masaccio e Masolino na Capela Brancacci.
Chega a ser difícil determinar com precisão onde começa e acaba o trabalho dele, tal foi a habilidade com que levou a cabo esta tarefa.

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Terça-feira, Junho 20, 2006

Chevrotine

Estação de S. Bento. Porto durante a hora de almoço, no horário previsto. Funcionários e manjericos por toda a parte.
Clérigos acima, um rapaz africano traz aos ombros, presos ao cinto por fitinhas, dois gigantescos iguanas com ar extremamente observador.
As sombras da Rua Miguel Bombarda.
Em casa, o lixo esquecido há que tempos não adquiriu vida própria.
Ponho a tocar o disco que está no leitor mesmo sem saber qual é.

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Das coisas perdidas



Uma mochila preta, pequena, com duas laranjas, um livro de David Leavitt em português e três postais com imagens dos frescos da Igreja de Santa Maria Novella.
Só isso.
Junto ao Palazzo Pitti.

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Sexta-feira, Junho 09, 2006

Agora para Florença

Hoje para Lisboa, amanhã para Florença.
Depois de Florença, uma hecatombe de mudanças.
Este blogue não será actualizado pelo menos durante as próximas duas, três semanas. Mas nada temais, pois, se depender de mim, há-de sobreviver para contar a história.

Enquanto isso


em O Sacrifício
de Tarkovsky

Sarah Morton descobre uma alergia à mostarda Savora, consome cinco Epás numa semana, e teria consumido seis se um deles não tivesse derretido no caminho do supermercado para casa, derramando-se pela caixa.

Este foi o segundo incêndio da minha vida,



ou o terceiro.
Retirei os recortes de horóscopos do painel da secretária, apaguei os Favorites, não deixei no desktop o Rembrandt que reservava para os dias mais difíceis.
Teria tido tempo para colocar em combustão dez anos de dossiers e papelada, se assim o tivesse desejado.
Mas não quis.
Tive pena das árvores. E dos ácaros.

Sinas, sinais


Ervilha cor-de-rosa

Vejo esta mudança com muitos bons olhos.

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Das coisas perdidas



Era o santo preferido da minha avó.
Oferecia-o à família e às amigas.
Trazia sempre na carteira uma miniatura em metal com um menino ao colo dentro de um saquinho de veludo.
Tudo isto porque sempre que qualquer coisa importante desaparecia, ela rezava a Santo António e o objecto reaparecia.

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Quinta-feira, Junho 08, 2006

Ora aqui está uma boa altura para uma citação

Uma das coisas de que mais gosto nos romances protagonizados por Jaime Ramos é a possibilidade de se traçar uma ligação entre as investigações de um detective e a actividade de um escritor.
Um dos meus passos preferidos do romance Longe de Manaus desenrola-se no capt. 8, durante uma espécie de monólogo em que esta personagem enumera com espantoso detalhe exemplos da liberdade dos cidadãos: objectos e cheiros de quartos de dormir, comida no frigorífico e na despensa, coisas das gavetas e das casas de banho, os livros nas prateleiras, discos, e por aí adiante.

«Isto é a liberdade dos cidadãos, o que eles guardam e não podemos incluir nos bilhetes de identidade, no arquivo das cartas de condução, no registo dos passaportes, nas fitas magnéticas dos cartões de segurança social, na memória dos cartões de crédito, isto são coisas para guardar em silêncio, esta é a verdadeira liberdade dos cidadãos, o que eles têm a liberdade de guardar. [...]
E o nosso trabalho é esse, humilhante, o de verificar [...] quem se sentou nesta cadeira e há quantos dias e, se possível, que frases disse, que palavras ouviu, que silêncios guardou, o que viu desta janela, o que escondeu dos outros e o que os outros gostariam de saber [...].»

(pp. 36-41)


Longe de Manaus recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da APE 2005.
Parabéns, Francisco.

FJV em entrevista ao JL (2004)

Segunda-feira, Junho 05, 2006

Por falar em clássicos



Where is a book before it is born?
Who are a book's parents?
Does a book need two parents - a mother and a father?
Can a book be born inside another book?
Where is the parent book of books?
How old does a book have to be before it can give birth?


Do filme Pillow Book, de Peter Greenaway, que por aqui não aparecia há demasiado tempo

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Sexta-feira, Junho 02, 2006

Angels and insects

No texto The Death of the Moth, a vida é encarada desde o princípio como uma espécie de desmesura potencialmente geradora de inadequação entre a força que a caracteriza e o corpo de que se apodera the thought of all that life might have been had he been born in any other shape caused one to view his simple activities with a kind of pity»).

A mim incomoda-me um bocado que aquilo que interessa a Virginia Woolf na vida não seja bem a vida mas antes a inconformidade entre a vida e os seres dominados por ela. Uma espécie de versão burlesca do confronto entre Golias e David, mas sem final feliz para qualquer das partes.

Perante os últimos momentos da traça que observa com algum desdém a que chama compaixão, Virginia Woolf vê-se na necessidade retórica de recordar que está do lado da vida
(«One’s sympathies, of course, were all on the side of life.»). Mas recorda em vão, pois nós sabemos que ela está noutro lado qualquer a observar o desperdício de energia vital, a futilidade da resistência, o ridículo da situação.

Depois, V. Woolf mostra-se igualmente sensível ao poder desproporcionado da morte («an oncoming doom which could, had it chosen, have submerged an entire city, not merely a city, but masses of human beings»), mas o que verdadeiramente lhe interessa na morte tem mais a ver com a resolução do ridículo e a reposição da ordem que a sua chegada representa.
Depois de morta, a traça inadequada passa a jazer «most decently and uncomplainingly composed».
E é precisamente aí, do lado da traça morta, que V. Woolf está.

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Quinta-feira, Junho 01, 2006

Pequenos, estranhos

prazeres de trazer pelo centro comercial: Marlene on the Wall a deixar-se ouvir nas casas de banho.
Nada a fazer a não ser demorar-me a lavar as mãos para ouvir a música até ao fim.

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Little or nothing but life

Tenho para mim que, para o melhor e para o pior, moth deve ter sido uma das palavras preferidas de Virginia Woolf, pois ocorre com assustadora frequência em imensos livros dela.
Lembrei-me disso ontem, quando, a meio da noite, tive de ir à cozinha beber um copo de água e roçou pelo meu braço, mal acendi a luz, escuro corpo em voo vertiginoso na direcção da lâmpada.
Para gáudio de morcegos e pardais, durante o fim-de-semana os céus do Porto foram cruzados de dia e de noite por milhões de insectos semelhantes àquele. Mas ontem já não havia tantos. O da minha cozinha seria provavelmente um espécime desfasado que decidiu entrar por ali dentro por não estar a perceber grande coisa da vida dele.
De resto, moth pode significar mariposa ou traça.
Quando estou de bem com Virginia Woolf leio mariposa. Mas se, por algum motivo, acontecer estar chateada com ela, opto por ler traça.
Depois, hoje de manhã já não consegui avistar a traça/mariposa, por esta altura possivelmente a desintegrar-se no canto mais recôndito da cozinha.

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Foto de Carla de Elsinore

«Moths that fly by day are not properly to be called moths […].They are hybrid creatures, neither gay like butterflies nor sombre like their own species. Nevertheless the present specimen, with his narrow hay–coloured wings, fringed with a tassel of the same colour, seemed to be content with life. […]

What he could do he did. Watching him, it seemed as if a fibre, very thin but pure, of the enormous energy of the world had been thrust into his frail and diminutive body. As often as he crossed the pane, I could fancy that a thread of vital light became visible. He was little or nothing but life. […]

It was as if someone had taken a tiny bead of pure life and decking it as lightly as possible with down and feathers, had set it dancing and zig–zagging to show us the true nature of life. Thus displayed one could not get over the strangeness of it. […] Again, the thought of all that life might have been had he been born in any other shape caused one to view his simple activities with a kind of pity. […]»


Do texto The Death of the Moth, de Virginia Woolf
Nota: como o título indica, o insecto morre no fim.

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and the big red wasp

makes a scan
through my black pages

Lambchop

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