
Vou ter de ir a Florença em Junho, desgraçadamente fazendo uma grande escala num aeroporto de Roma.
Dantes adorava aeroportos e até achava piada às horas mortas passadas em escalas. Antecipava com prazer perder tempo naquelas lojas de chocolates e de perfumes, seleccionar revistas de leitura pouco exigente em
Relays, mastigar chicletes e estar sentada tempos infindos só a observar a diversidade étnica e sociológica.
Depois do 11 de Setembro, as coisas, no entanto, mudaram um bocadinho.
Há poucas semanas, por exemplo, quando me preparava para apanhar um voo de regresso em Orly, alguém chegou à conclusão que havia duas portas de acesso ao Portão de Embarque 10 (por acaso, o meu) que estavam indevidamente abertas e sem vigilância.
Caos generalizado.
Qualquer pessoa carregada de bombas ou outros objectos perigosos podia ter passado por ali sem controlo de detector de metais ou raios X.
E teria a falha sido acidental ou antes parte de um plano terrorista bem arquitectado?
Tudo se suspendeu por momentos naquela zona do aeroporto enquanto as autoridades competentes eram convocadas. Apareceram muitas pessoas de walkie-talkie, seguidas da polícia, seguida de pessoal com ar dinâmico e coletes fluorescentes, seguido de cerca de uma hora de comunicações incompreensíveis através de altifalantes cheios de ruídos e estalos, até uma senhora de maus modos anunciar a evacuação da zona a que o Portão 10 dava acesso.
Depois da evacuação, para grande excitação do grupo de insuportavelmente loquazes reformados marselheses em que me descobri entalada durante este fragmento emocionante da minha vida, ia toda a gente passar pelos raios X outra vez.
E, ao fundo, num fato azul-marinho com finas riscas vermelhas, Paulo Branco, não sei como nem porquê.
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