seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Quarta-feira, Maio 31, 2006

Durante uma perfuração numa pedreira

Perto de uma cidade de Israel, foi descoberto um ecossistema pré-histórico numa gruta que terá estado totalmente isolada do mundo e protegida da infiltração da água e nutrientes durante cerca de cinco milhões de anos.
Os crustáceos e invertebrados encontrados nunca foram sequer descritos pela ciência.
Além disso, a circunstância de nenhuma das espécies descobertas apresentar olhos leva os biólogos a crer que estes poderão ter sido perdidos durante o processo evolutivo.
De modo que ainda há evoluções em direcção ao invisível.

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Estamos dentro do olho da água

Quando Monet pintou a barca não pintou a história.
Foi a história que, depois de ver a barca cercada de algas na parte mais escura do lago, decidiu abrigar-se nela.
Em Serralves, dantes, também havia no lago uma barca assim.
Certa vez, um artista plástico escreveu-lhe sobre o casco uma mensagem cifrada que só as águas de então podiam revelar.

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Terça-feira, Maio 30, 2006

The potential for disaster

«Writing's never really good unless you run the risk of making a complete arse out of yourself»

Mark Haddon
(autor de The Curious Incident of the Dog in the Night-Time)

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Digital party shots from Antarctica

«The way I would define irony is this:
to have the ability to contain opposing ideas inside your head without going crazy

Douglas Coupland
Imagem: papel e ramo de magnólia desfeitos manualmente pelo artista e depois transformados em ninho

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Estão abertas as inscrições

No âmbito do Congresso Internacional de Conto, a decorrer na Faculdade de Letras de Lisboa entre 21 e 25 de Junho, estão previstas seis oficinas de escrita criativa, com orientação de contistas de língua inglesa e portuguesa:

- Lá Vamos Contando e Rindo, por Rui Zink
Objectivos:
1) compreender por que motivos o conto é a única forma de ficção que se pode dar ao luxo de ser imperfeita;
2) aplicar esta apreensão teórica na execução de uma capelinha literária.

- Culture, Language, Fact, Fiction, Media, por Amiri Baraka
How Culture shapes Language which determines Fact from Fiction and what ismeant by Media in relationship to these.

- Unfinished Pieces: Keep or Trash?, por Ana Castillo
[...] Knowing what to do with your drafts (keep or trash) is key to saving time and sanity or just self- confidence. [...] In some stories the trouble is at the very beginning. Other stories challenge us in the middle. Finally, how to finish may be where you are stuck. [...]

- Reading like a writer, por Francine Prose
How a writer reads. Students taking the class should have read John Cheever's story, "Goodbye, My Brother."

- Portuguese & American Writing, por Katherine Vaz
We'll read a story by F. Scott Fitzgerald as a way of illustrating how fiction works in terms of memory, narrative drive, imagery, setting, and ways of dealing with death and resurrection. We'll also take a look at a long excerpt from Portuguese author João de Melo as a lead-in to a brief review of (so-called) magical realism. [...]

- Creating Fictional Art, por Robert Olen Butler
The workshop will focus on the fundamentals of the creative process for any fiction writers, beginning or advanced, who aspire to create enduring literature. We will address such issues as what is art; what is distinctive about the way the artist addresses the world, the inner self, and the objects to be created; and what are the essential characteristics of fiction as an art form.

Gosto de Godard e dos nenúfares de Monet


La Barque
Claude Monet, 1887

Quando estive em Paris perdi por poucos dias a exposição de Godard no Centre Pompidou. E, pior ainda, vim-me embora precisamente um dia antes de a Orangerie reabrir ao público, depois de ter estado encerrada durante seis anos, para restauro.

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Visitei a casa de Monet, mas, para quem quiser saber, o período de floração dos nenúfares decorre entre Julho, Agosto e Setembro.

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Em Giverny, Maio é o tempo das tulipas e das visitas do jardins de infância, com muitos meninos de chapeuzinho discutindo exaustivamente sabores de gelado a escolher.

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E, um pouco mais à frente, ao lado da igreja,

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também de um gato preto-e-branco, muito perto do túmulo de Monet.

Para a Lídia, que também gosta de Godard e dos nenúfares de Monet.

(Fotografias de B.)

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Segunda-feira, Maio 29, 2006

The last thought that you think today*

É possível sentirmo-nos mais próximos da pessoa que fomos há 12 anos do que daquela que éramos há apenas dois. Penso nisso quando ele, quase por acaso, põe a tocar o disco que eu ouvia ininterruptamente semanas antes de o conhecer.
(Mistérios não só do tempo.)

*has already happened

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Mudar de perfume

Muito mais difícil do que mudar de profissão, do que mudar de casa, do que mudar de cidade, do que mudar de estado civil.

Sarah Morton na Feira do Livro


Guia do Cão
(Editorial Estampa)

Especialmente para B.

Na esperança de acabar de vez com descrições entusiasmadas do género de
«Vi um animalzinho muito giro numa varanda. Tinha orelhas de morcego, focinho achatado. Era cor de caramelo, com umas malhitas brancas nas patas.»

Quinta-feira, Maio 25, 2006

Lexicografia

Andava à procura de uma frase parecida com Ela empanturrou-se de chocolates, mas tudo o que encontrou foi Ela empanturrou-se de ironia.

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Se tens mesmo de pensar, opta por pensar devagar.

Pequenas grandes lições dos ansiolíticos.

Quarta-feira, Maio 24, 2006

Feira do Livro ao fim do dia

No stand da Quasi:

  • A Função do Geógrafo, primeiro livro (que não se encontrava em livraria nenhuma!) de Rui Coias, autor do excelente A Ordem do Mundo;
  • Um Quarto com Cidades ao Fundo, poesia reunida (1980-2000) de Inês Lourenço.

    Cada um custa dois euros.
    É aproveitar, que vale a pena.

Some day

Eu sou assim. Ainda não consegui perder totalmente a esperança de um dia haver um site da Feira do Livro com informação sobre a Feira do Livro*.
Este ano, a Feira do Livro do Porto foi inaugurada hoje.
O site da Feira do Livro do Porto continua anunciado para Brevemente, mas nada de desanimar. Pode ser que num dos próximos dezanove dias, com ou sem informação, até entre em funcionamento.

*Por "informação sobre a Feira do Livro" entendo coisas como: mapa do recinto e localização de editoras, lista dos Livros do Dia, destaque de promoções, calendário de eventos, sessões de autógrafos e base de dados pesquisável de títulos presentes na Feira.

Português-Português

Cliente: Queria um croissant simples, para levar, por favor.
Dono de pastelaria (traduzindo) para funcionário: Era um croissant simples, viajando.

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Um ano sem soporíferos

no blogue que nunca dorme.
Parabéns, Henrique&Companhia.

Sábado, Maio 20, 2006

Days of Open Hand


de Alphaville

Mais Godard, no Cocanha.

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Sexta-feira, Maio 19, 2006

Só se ela tivesse morrido mesmo muito zangada


A partir de Howard Hawks,

a pergunta que se repete
em Nouvelle Vague
e Notre Musique,

num blogue que muito aprecio.

Quinta-feira, Maio 18, 2006

Aviõezinhos

Vou ter de ir a Florença em Junho, desgraçadamente fazendo uma grande escala num aeroporto de Roma.
Dantes adorava aeroportos e até achava piada às horas mortas passadas em escalas. Antecipava com prazer perder tempo naquelas lojas de chocolates e de perfumes, seleccionar revistas de leitura pouco exigente em Relays, mastigar chicletes e estar sentada tempos infindos só a observar a diversidade étnica e sociológica.

Depois do 11 de Setembro, as coisas, no entanto, mudaram um bocadinho.
Há poucas semanas, por exemplo, quando me preparava para apanhar um voo de regresso em Orly, alguém chegou à conclusão que havia duas portas de acesso ao Portão de Embarque 10 (por acaso, o meu) que estavam indevidamente abertas e sem vigilância.
Caos generalizado.
Qualquer pessoa carregada de bombas ou outros objectos perigosos podia ter passado por ali sem controlo de detector de metais ou raios X.
E teria a falha sido acidental ou antes parte de um plano terrorista bem arquitectado?
Tudo se suspendeu por momentos naquela zona do aeroporto enquanto as autoridades competentes eram convocadas. Apareceram muitas pessoas de walkie-talkie, seguidas da polícia, seguida de pessoal com ar dinâmico e coletes fluorescentes, seguido de cerca de uma hora de comunicações incompreensíveis através de altifalantes cheios de ruídos e estalos, até uma senhora de maus modos anunciar a evacuação da zona a que o Portão 10 dava acesso.
Depois da evacuação, para grande excitação do grupo de insuportavelmente loquazes reformados marselheses em que me descobri entalada durante este fragmento emocionante da minha vida, ia toda a gente passar pelos raios X outra vez.

E, ao fundo, num fato azul-marinho com finas riscas vermelhas, Paulo Branco, não sei como nem porquê.

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Give or take a few

No meu caso, David Luz, nem sei se te diga que erraste por oito meses de atraso e por quatro de antecipação.

Terça-feira, Maio 16, 2006

Economia de troca

Da primeira vez que vi Nouvelle Vague, de Godard, ainda andava na faculdade e fiquei muito impressionada com uma frase repetida obsessivamente ao longo do filme por personagens evanescentes:
«Les femmes sont amoureuses et les hommes sont solitaires.», «Les femmes sont amoureuses et les hommes sont solitaires.», «Les femmes sont amoureuses et les hommes sont solitaires.».

É certo que ser e estar se dizem em francês através do mesmo verbo être. Mas, na altura, pois achava que amor e solidão deviam ser encarados como estados a transitar, eu defendia que a frase só podia querer dizer qualquer coisa como
«As mulheres estão apaixonadas e os homens solitários.».

Parece-me, no entanto, que vou acreditando cada vez em mais coisas à medida que os anos vão avançando. Com o tempo, passei a admitir, por exemplo, a eventualidade de amor e solidão poderem ser traços distintivos e permanentes de determinada identidade. E até a possibilidade de uma identidade ser formada por mais de um sujeito.

De resto, vim a descobrir que a frase era de René Char e fazia parte de um texto que continuava assim:
«Ils se volent mutuellement la solitude et l’amour.».
E hoje em dia até concordo que a tradução destas duas frases de Char possa ser:
«As mulheres são apaixonadas e os homens são solitários. Roubam-se mutuamente a solidão e o amor.».

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Anne Wiazemsky e Jean-Pierre Léaud
em La Chinoise
de Godard


E apesar de em geral não apreciar frases ou orações iniciadas por as mulheres ou os homens, principalmente quando estes sintagmas são seguidos pelo verbo ser, continuo a gostar deste fragmento porque sinto que a segunda frase sabota o simulacro aforístico da primeira quando sugere que as diferenças mais significativas entre estes dois géneros podem ser aquelas em que a susceptibilidade de intercâmbio ou furto é maior.

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Segunda-feira, Maio 15, 2006

Teoria das cores


Le balcon
Édouard Manet, 1868-1869
(Imagem ampliada)

Incrédulos, chocados, os contemporâneos de Manet perceberam neste quadro personagens sem psicologia, inexplicadas por histórias ou mitos, quase naturezas mortas, cada uma delas olhando injustificadamente numa direcção diferente.
Indignaram-se com as luvas amarelas na mulher de pé, espantaram-se com o olhar e o leque vermelho da mulher sentada com um cãozinho aos pés, condenaram a impertinência do vaso de hidrângeas azuis.
Mas foi a cor das portadas das janelas, da grade da varanda, da sombrinha e da fita em que se prende um medalhão - nem verde-relva, nem verde-musgo, nem verde-esmeralda, o verde insolente e nunca antes visto em pintura com que Manet tentou defender-se do bom gosto - que mais tinta sobre o quadro fez correr.

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Domingo, Maio 14, 2006

A cores e com camisola

Sempre que se realiza um jogo da Taça ou termina um Campeonato encontro um aglomeradozito de pessoas junto a uns semáforos perto da minha casa aqui no Porto.
O aglomerado é constituído mais ou menos por três famílias de formato tradicional, com elementos de várias idades e diversas massas corporais envergando as cores da equipa vencedora e ostentando, além disso, outros adereços adequados à situação: apitos, gaitinhas, tachos ruidosos, colheres de pau, peluches estranhos, slogans mal conseguidos e eu sei lá que mais.

Os semáforos prestam-se a manifestações efusivas deste calibre pois sinalizam quatro vias e há sempre uma fila de carros com pessoas doutras equipas, para provocar, ou da mesma equipa, para incitar a comemorações com buzinas que, em casos difíceis, se deixam ouvir até perto das quatro da manhã, com muitos cães a acharem por bem acompanhar as festividades através de latidos enraivecidos.

Hoje, justamente, tive de passar nesse semáforo pouco antes das oito.
E, sim, lá estavam as famílias, de azul e branco, a tentarem desesperadamente interagir com os condutores.
Posso dizer que na altura, simulando desinteresse, deslizei de mansinho pela passadeira e acho que consegui passar despercebida.
Mas, entretanto, uma dúvida tortuosa me assaltou o espírito: foi impressão minha ou eram as mesmas pessoas que noutro dia vi, no mesmo lugar, a comemorar uma vitória do Benfica?

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Sexta-feira, Maio 12, 2006

Chantagistas

Entretinham-se a repescar fotografias digitais de jantares de empresa ou de departamento para analisar variações de cortes/tintas de cabelos e diferenças de peso ao longo dos anos.

Quarta-feira, Maio 10, 2006

Let me tell you something about doors


de Au hasard, Balthazar

Queriam levá-la dali mas havia certa coisa que ela precisava de terminar. Uma casa em que devia abrir e fechar portas.
Depois encontraram-na nua, a um canto.
Tiveram de partir o vidro a uma janela para conseguirem entrar.
Os críticos não gostavam que Bresson mostrasse tantas portas.

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Cinema

O actor diz: estou feliz. E pode ser verdade. O actor diz: estou a morrer. Só pode ser uma metáfora.

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Terça-feira, Maio 09, 2006

Por um fio

Os primeiros arcos lançavam setas presas por um fio.
[...]
O homem é uma seta que regressa ao ponto de partida para contar a história do seu alvo, da presa que derruba, do sangue a esvair-se.

de Sur le jadis
Pascal Quignard
Folio, pp.78-86

Teoria das cores

O verde sempre foi considerado uma cor quimicamente instável, apesar de desde o início ser relativamente fácil de obter, por exemplo através de folhas, raízes ou flores.
Na pintura, então, os pigmentos resultantes destas substâncias vegetais gastavam-se com a luz.
Nos tecidos, era difícil fixá-los nas fibras e as roupas ficam rapidamente com aspecto deslavado.
Mesmo nas fotografias, até há bem pouco tempo, quando as cores começavam a desvanecer-se, o verde era sempre o primeiro a apagar-se.
Por isso, o verde acabou por representar tudo o que muda ou varia e não é certo. Na Idade Média, chegou mesmo a ser considerada uma cor maléfica, associada ao Diabo.
Demónios, dragões, serpentes e outras criaturas nefastas foram (e continuam a ser) representados desta cor.
As pessoas evitavam-na.
Mondrian, esse, baniu-a quase inteiramente das suas telas, à cor da esperança.

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Literatura e Arte

Blogue de Yvette Centeno, escritora, germanista, estudiosa de Fernando Pessoa, tradutora de Paul Celan, René Char e Goethe.
(Refiro as facetas mais conhecidas.)