seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Sábado, Abril 22, 2006

Mistérios do tempo


do filme Gertrud
de Dreyer

«Dans Gertrud tout est donné dans seul geste. La vitesse et la lenteur, par exemple. Lent, Gertrud? Mais un mot, un raclement de gorge, une mélodie suffisent à précipiter un, deux, ou trois destins. Rapide, Gertrud? Mais un sanglot, un mot, un regard peuvent mettre une éternité à venir ou à se poser

Serge Daney

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Diana e Actéon

Talvez o momento que prefiro neste filme seja este.
A mulher que queria do amor apenas o sublime confronta-se com a exposição da própria imagem na tapeçaria de uma das salas adjacentes àquela em que decorre uma sessão de homenagem a um antigo amante.

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«Sonhei com esta imagem numa destas noites. Estava nua e era perseguida por uma matilha de cães.
Quando me apanharam, acordei

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Numa caverna cuja entrada se abre para a luz



Mas, no mesmo filme, esta sequência também é muito bonita.
Gertrud decide finalmente entregar-se ao jovem compositor por quem está apaixonada.
Vemos apenas sombras do corpo dela enquanto se despe.
Imagens frágeis, no limite da visibilidade e da evanescência.

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Sexta-feira, Abril 21, 2006

Do not say the moment was imagined

Na segunda página do romance que estou a ler, outra frase que poderia funcionar como divisa invertida deste blogue:
«I ran away and did not speak of it for I thought if I told no one it might not be true

Lida no espelho, ficaria qualquer coisa como:
«I didn’t run away and in fact spoke of it for I thought if I told someone it might be true

No fundo, aqui, ambas são verdadeiras.

Citação de Wide Sargasso Sea, Jean Rhys

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Sinais de fogo



Com o troco veio esta moeda de dez francos muito parecida com um euro!
Como diabo terão descoberto para onde vou na próxima semana?

Quarta-feira, Abril 19, 2006

Autobiografias verdadeiras

Pode não ser o caso de Bret Easton Ellis, mas acredito que haja pessoas solteiras que se escrevessem uma autobiografia contariam a história de alguém casado. E pessoas casadas que narrariam apaixonantes aventuras de solteirões convictos.
Quanto a mim, se enveredasse agora por um relato autobiográfico, penso que haveria fortes possibilidades de a narradora ser vigilante de museu.
Nem sempre tudo se resume ao que insistem em dizer-nos que somos: também há aquilo que experienciamos.

Entomologia


Há mais de sete dias que Sarah Morton não veste cor que não seja cinza, bege, branco ou preto.
Não pode ser bom sinal.

E que brincos são aqueles em forma de libelinha?



Imagem: Papéis por Todo o Lado

O tulipeiro

«[...] o tulipeiro começa por fabricar apenas metade de cada folha; esta replica-se uns dias mais tarde como se desdobrasse uma página vincada.

A forma das folhas tem um interesse adicional: elas lembram silhuetas de gatos, com orelhas e bigodes perfeitamente desenhados. [...]»

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Terça-feira, Abril 18, 2006

Hierarquias

And although my mind perceives the force behind the moment,
The mind is smaller than the eye
.

Wallace Stevens
do poema A Fish-Scale Sunrise

(Os sentidos mais fortes, mais rápidos do que o pensamento.)

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Segunda-feira, Abril 17, 2006

Fins-de-semana

Li, devorei Lunar Park, de Bret Easton Ellis.
Como leitora, deste autor só conhecia Glamorama (que não detestei). Mas vi os filmes American Psycho (de que gostei muito) e Rules of Attraction (de que não gostei).
Tanto em Glamorama como em American Psycho, o que mais me interessou foi o cocktail de ansiedade e paranóia (intimamente relacionado com drogas e álcool) e a zona de indistinção entre fantasia e realidade a que este conduzia as personagens.

Neste contexto, o que contribuiu decisivamente para a minha escolha do livro foi a circunstância de haver áreas de contacto entre a autobiografia e a ficção.
O narrador é um Bret Easton Ellis casado, habitante dos subúrbios, pai de família e toxicodependente alcoólico em suposta reabilitação. Em determinados passos este narrador confronta-se com:
- o escritor Bret Easton Ellis, mais magro, solteiro, sem filhos, nem fobias nem animais de estimação (em diálogo interior);
- visitas pouco agradáveis de personagens que o escritor Bret Easton Ellis criou (com referências principalmente a American Psycho, mas também a outros textos e até a narrativas de juventude nunca publicadas);
- o fantasma do pai.

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Para além disso, permanece o interessante esbatimento de fronteiras entre alguns pólos tradicionais (bom senso/delírio, passado/presente, vida/arte, etc.).
Um dos temas principais de Lunar Park relaciona-se com a paternidade. O narrador teve problemas de relacionamento com o pai e perpetua-os na relação com o próprio filho Sons would always be in peril. Fathers would always be condemned.»).
A editora sugere ainda outros temas: Suburban life, Married People, College Teachers, Hallucinations and Illusions.
O interior e exterior da casa em que o narrador mora começam a transformar-se fisicamente no edifício em que este passou a infância. Há uma série de coincidências sinistras relacionadas com a data e a hora da morte do pai dele. Na vizinhança, rapazes de 10/11 anos a desaparecer periodicamente. Não está a resultar o casamento com uma actriz famosa mas sensata. Um sinistro brinquedo da filha parece ter vida própria. Bastantes animais são descobertos, esventrados no jardim. Aquele que nos conta isto está constantemente sob influência de álcool e drogas. Ninguém confia nesses relatos de que nós próprios nos vemos obrigados a duvidar.

De resto, Lunar Park é um divertimento manipulado de forma muito habilidosa, num estilo irónico-ingénuo-narcisista-elegante que não consigo deixar de apreciar. (E aqui o suspense também é estilístico: viramos as páginas depressa porque queremos descobrir como o escritor se vai desenvencilhar na orquestração estudadamente sofisticada de tantos elementos típicos de sangrentas narrativas de terror.)
A meu ver, Bret Easton Ellis está muito, muito longe de ser um Dostoievsky (referido por Norman Mailer a propósito de American Psycho). Mas como escreveria Dostoievsky se fosse americano e vivesse no século XXI?

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Quinta-feira, Abril 13, 2006

A Gravata Ensanguentada

Vou mais ou menos a meio do livro de João Miguel Fernandes Jorge.
Para além do conto que partilha o título com o volume (e do qual nada vou citar, pois teria de transcrever cinco páginas sem cortes), um dos textos que mais gostei de ler até agora intitula-se A Porta do Céu (p.65).

O narrador recorda os tempos em que dava aulas numa escola de cinema esforçando-se paradoxalmente por não falar de de filmes Não estava nessa escola para isso, pois tudo à minha volta era por demais cinema»).
Em vez disso, preferia trazer para as aulas textos, música, slides de artes plásticas e arquitectura.

A dada altura, este narrador refere uma visita (de estudo) às igrejas de Santa Catarina e de São Roque em que teria procurado destacar aquilo que «em cada uma delas, um aprendiz de cinema pode encontrar».
Os dois parágrafos que se seguem são um verdadeiro tratado não só sobre cinema ou imagens mas também sobre vida e literatura.

«Também em Santa Catarina e em São Roque esses meus alunos podiam descobrir a complexa harmonia da luz e das sombras e a cadência tão virtual quanto sonora do escuro e do claro. Tinham nos dois edifícios esplêndidos interiores e neles podiam aprender acerca do movimento rápido e fugaz de um passo ou de uma silhueta dobrada sobre a palavra de uma prece. Havia, igualmente, que pressentir o silêncio daqueles que procuravam o conforto de um pesado branco de madeira e ser também um deles. Imaginar não só amores e ódios, como um tempo escurecido de desgraça, inquietude e derrota.
Havia que saber procurar os rostos em que se insinuavam paixões ou aqueles que eram tocados pela frieza terna da morte. Havia que aprender a encontrar, por entre o equilíbrio dessas casas, rostos de insistente fadiga ou faces somente iluminadas pelo sentimento. [...] Havia, pois, que transpor a gravidade de todos estes motivos para o exterior e passá-los à imagem fílmica
(p.68)

Imagem: S. Francisco Xavier (Igreja de S. Roque)

Quarta-feira, Abril 12, 2006

She walks in beauty, like the night

Amanhã, quando B. chegar vai querer saber se há alguma coisa que se coma em casa.
E há.
Iogurtes naturais não-açucarados no frigorífico.
Cinco.
Podes adicionar montes de açúcar,’ lembrará, tão prestável, Sarah Morton.
Ela vem como a noite. Com a silly season.

Terça-feira, Abril 11, 2006

Perguntei.

E há qualquer coisa de hitchcockiano nas respostas.

Segunda-feira, Abril 10, 2006

Palavras

Zither é uma das minhas palavras preferidas, talvez a preferida.
Designa um instrumento musical e em português traduz-se por cítara, que também é um vocábulo bonito, embora sem a sequência musical e quase arrepiante de sons fricativos desencadeados pelo z e pelo th na palavra inglesa.
No meu ano de estágio pedagógico, provavelmente a época mais inútil da minha vida, esta palavra apareceu num texto sobre uma loja de antiguidades num manual do oitavo ano e chamei a atenção dos alunos para ela numa aula de Inglês a que a orientadora assistiu.
Segundo a orientadora, esse teria sido um momento de grave erro, porque a palavra não é tão comum como isso e os alunos querem lá saber.
Não tenho vocação pedagógica, já na altura tristemente sabia, mas a palavra ficou comigo como uma das poucas boas memórias desse período.

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Perguntei.

Obtive resposta.

Domingo, Abril 09, 2006

Fins-de-semana

Passo a noite de sábado numa casa com jardim.
A meio da noite, creio que cerca das cinco ou seis da manhã (verifiquei no telemóvel mas estava estremunhada), acordo e fico sem conseguir dormir durante quase uma hora.
A janela perigosamente próxima de arbustos e árvores: tangerineiras, buganvílias e japoneiras em que pássaros dormem silenciosamente, mas depois acordam com grande estardalhaço.
Ramos que abanam, folhas que tremem, gargantas que imperfeitamente se aclaram sem grande preocupações de harmonia ou continuidade, irritantes bulhas de início de jornada. Ouço tudo com a nitidez sonora de algo que ocorresse dentro de mim. E só adormeço quando, quase de dia, as árvores começam a acalmar.
Mas para onde terão ido os pássaros?

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Sábado, Abril 08, 2006

Laranjeiras das Virtudes

Aos que sobem a Rua da Restauração, no Porto, é quase inevitável prestar alguma atenção à zona do Passeio das Virtudes, mais abaixo.
Num daqueles socalcos reside uma escavação arqueológica abandonada há anos em fase de avaliação. A vegetação selvagem que a invadiu entretanto foi reverdecida pela chuva recente, sem prejuízo para a aura fantasmagórica.
Noutro socalco mais abaixo lembro-me de que havia uma escola no tempo em que eu por ali passava todos os dias. Tinha laranjeiras no jardim de entrada e alguns equipamentos bastante coloridos de parque infantil.
Nesse terreno, do complexo escolar ficou apenas o pavimento branco, as marcas das estruturas para as brincadeiras das crianças, e as laranjeiras que, totalmente indiferentes ao desamparo generalizado do sítio, persistem ainda no cumprimento dos ciclos de floração e frutificação.
Nesta época, as laranjeiras costumam estar carregadas de laranjas, mas devido ao vento imprevisível dos últimos dias vi ontem ali, em torno das árvores, aglomerações de inúmeros frutos luminosos no chão.
Mais laranjas no chão do que nas laranjeiras, a partir do ruído e do caos da Rua da Restauração.

Imagem do Jardim das Virtudes

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Quinta-feira, Abril 06, 2006

Pinteriana

Era um daqueles dias em que estamos no sofá a achar que nunca mais voltamos a escrever.

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Terça-feira, Abril 04, 2006

Sinas, sinais

Cheia de vontade de ler o livro mais recente de João Miguel Fernandes Jorge:
A Gravata Ensanguentada (Relógio D’Água).
Ainda não há imagem do livro no site da editora. Só uma introdução a anunciar um volume de pequenas ficções que andam a par com a pintura, a escultura, o filme, a fotografia ou o vídeo.
Já folheei (avidamente por sinal), reparando em nomes como Georges de La Tour, Adriana Molder, Rui Chafes, Bill Viola, João Pedro Rodrigues, Bellini e Caravaggio.

Imagem: pormenor do quadro Leitora de Sinas, de Georges de La Tour (1632-35)

O título do post anterior

É uma homenagem obscura à gralha que vitimou a legendagem do pormenor do quadro de La Tour na tabela da página 277 do livro em causa. Em vez de Leitora de Sinas aparece Leitora de Sinais.
(É também um trocadilho escusado com um título de Vergílio Ferreira. Desculpem lá.)

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Para a menina Carla




Uma salva de palmas.
(Neste blogue, em vez da antecipação, jogamos pela procrastinação.)

Domingo, Abril 02, 2006

Abre los ojos


La Buena Fama Durmiendo
Manuel Alvarez Bravo, 1938


Ainda não conhecia esta imagem que descobri num suplemento publicitário do Público, no sábado.
Os cactos da imagem chamam-se abrojos, a partir do espanhol «abre ojos», e o nome funciona como uma uma advertência a não ignorar, pois aqueles espinhos podem atravessar roupa, sapatos ou qualquer outro alvo em movimento para se prenderem de modo a facilitar a dispersão das próprias sementes.
Por isso dizem que estes cactos ao lado de tão suave corpo recordam ostensivamente que é preciso manter os olhos abertos.

No texto do suplemento, Delfim Sardo acrescentava que, havendo uma relação evidente entre os cactos e o sexo da mulher, a imagem concentra toda uma reflexão sobre a natureza do olhar surrealista. Apesar dos olhos fechados da figura.

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Xanthium spinosum

Adendazita: Abrolhos

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Sábado, Abril 01, 2006

Sem bolbos

O que fazia na linha vermelha do metro de Lisboa o dono de uma das mais famosas lojas de sementes da Baixa do Porto com o mesmo fato azul escuro de corte antigo que costuma usar no estabelecimento?
Trazia uma estranha maleta preta.
Entrou na estação do Oriente, saiu na Alameda.

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