
Para além disso, permanece o interessante esbatimento de fronteiras entre alguns pólos tradicionais (bom senso/delírio, passado/presente, vida/arte, etc.).
Um dos temas principais de
Lunar Park relaciona-se com a paternidade. O narrador teve problemas de relacionamento com o pai e perpetua-os na relação com o próprio filho
(«Sons would always be in peril. Fathers would always be condemned.»).
A editora sugere ainda outros temas:
Suburban life, Married People, College Teachers, Hallucinations and Illusions.
O interior e exterior da casa em que o narrador mora começam a transformar-se fisicamente no edifício em que este passou a infância. Há uma série de coincidências sinistras relacionadas com a data e a hora da morte do pai dele. Na vizinhança, rapazes de 10/11 anos a desaparecer periodicamente. Não está a resultar o casamento com uma actriz famosa mas sensata. Um sinistro brinquedo da filha parece ter vida própria. Bastantes animais são descobertos, esventrados no jardim. Aquele que nos conta isto está constantemente sob influência de álcool e drogas. Ninguém confia nesses relatos de que nós próprios nos vemos obrigados a duvidar.
De resto,
Lunar Park é um divertimento manipulado de forma muito habilidosa, num estilo irónico-ingénuo-narcisista-elegante que não consigo deixar de apreciar. (E aqui o suspense também é estilístico: viramos as páginas depressa porque queremos descobrir como o escritor se vai desenvencilhar na orquestração estudadamente sofisticada de tantos elementos típicos de sangrentas narrativas de terror.)
A meu ver, Bret Easton Ellis está muito, muito longe de ser um Dostoievsky
(referido por Norman Mailer a propósito de American Psycho). Mas como escreveria Dostoievsky se fosse americano e vivesse no século XXI?
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