seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Quinta-feira, Março 30, 2006

Protege-te das tuas testemunhas


Vinheta da BD que deu origem ao filme

Em A History of Violence, de David Cronenberg, o irmão de Joey Cusack pergunta-lhe: quando sonhas ainda és tu ou já és Tom Stall?
Passei três anos no deserto para deixar de ser Joey Cusack,’ confessa Tom à mulher.
É uma história quase bíblica.
A propósito do filme, JG Ballard avançou com a possibilidade de nós próprios não sermos mais do que participantes de um programa de protecção de testemunhas que viram o que não deviam ter visto. Todos com novas identidades dotadas de imagens, medos e sonhos tão convincentes que por pouco nos faziam esquecer de quem éramos ao princípio.

E acontece que Ballard pensou a partir de um filme. Porque a partir da vida a questão colocada até podia explorar quantidades de preferência a possibilidades.

Por outras palavras, e com ou sem deserto, em quantos programas de protecção de testemunhas participaste tu?

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Lembretes

Escrever sobre os ruídos que flores diferentes fazem quando tombam das jarras.

Quarta-feira, Março 29, 2006

Word of the day

Há entradas de dicionário que são posts à espera de acontecer.

Desconfiômetro
substantivo masculino
Regionalismo: Brasil. Uso: jocoso.
capacidade de desconfiar quando se está sendo demais ou inconveniente
Ex.: quando percebeu que somente ele louvava a vitória, ligou o desconfiômetro

Directamente do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

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Para a Montanha Mágica

Força nessas setas, Luís. E parabéns pelo terceiro aniversário.
(O atraso do post não se deve a esquecimento, só à preguicite.)

Terça-feira, Março 28, 2006

As mulheres são fortes, escreveu Anne Carson

E essa é a maior fraqueza delas, teria Agustina acrescentado sem hesitação.
Que deus me perdoe, mas abomino a tentação aforística. Tanto a de Anne Carson como a de Agustina.
Além disso, quase todas as frases que começam com os sintagmas “As mulheres...” ou “Os homens....”, por mais insignificantes que pareçam, conseguem deixar-me ligeiramente fora de mim.
E não, usar “Elas...” ou “Eles...” em vez disso, para parecer mais distante e sofisticado e tal, não melhora a situação.

Fitter Happier More Productive

«Concebido essencialmente para condomínios, o programa para condomínio é direccionado a estimular e desenvolver a condição física dos seus condóminos, a torná-los mais produtivos e saudáveis aumentando assim a sua qualidade de vida e promovendo a existência de um clima de grupo indispensável para o sucesso social

Alguém que peça à malta que redige folhetos publicitários para ginásios o favor de parar de ouvir Radiohead.

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Oh les beaux jours

Falávamos ontem da estranha relação do guarda-chuva do José Mário com o guarda-chuva de Benoni, e das inesperadas intrusões da literatura no quotidiano.

Como lembrou o José Mário (JM), no sábado, depois de revisitar brevemente os quatro volumes já publicados do Alexandre (AA), também se verificam, de vez em quando, infiltrações do quotidiano na escrita. E a blogosfera pode funcionar como um bom observatório de tais intromissões. É só comprovar nas rubricas Leituras em Lugares Públicos (reais, certificou-se JM) e Gatos Perdidos (imaginários) de Umblogsobrekleist.

As narrativas de AA não são muito quotidianas. Têm regras próprias. O JM ainda perguntou se AA nunca tinha sentido a tentação de misturar a História com a história, mas AA disse que só se fosse com personagens de tempos diferentes misturando-se, fios narrativos em curto-circuito. (O diabo a quatro, portanto.)

No contexto das regras próprias, houve outras boas perguntas: poderá na ficção de AA haver, de futuro, mais espaço para o aprofundamento psicológico das personagens?, Como evoluirá AA enquanto ficcionista?
A estas, AA respondeu com outra pergunta: a ausência de psicologia perturba a leitura destes textos?
E aproveitou para falar de Gretchen Bled −do conto Projecto Malogrado do Restauro de um Fresco Atribuído a Lorenzo Lotto; Montegranaro, Primavera-Verão de 1997 (in Cinco Contos sobre Fracasso e Sucesso, Má Criação) −, considerando-a a sua personagem com mais densidade psicológica, apesar de, no fim deste conto, o leitor continuar a desconhecer quase totalmente o passado e o futuro dela e não perceber a 100% se é de lucidez e iluminação ou de fechamento total sobre si e perda da razão o momento em que ela supostamente decifra um pormenor do fresco do título. (E este, por acaso, é um dos textos dele de que mais gosto.)

Depois, pronto. As francesinhas do Capa Negra quase nunca nos deixam ficar mal mas é melhor comê-las só de três em anos quando gostamos do nosso figadozito. Os anfitriões da Sargadelos foram extremamente simpáticos. Também estava o Jorge Palinhos. E as pessoas na rua mandavam-nos parar porque queriam fazer festinhas à Alice.

Segunda-feira, Março 27, 2006

Guarda contigo a primeira coisa fora de vulgar que encontrares

Tempus fugit e, hélas!, não é elástico.
Amanhã tentar usar os guarda-chuvas como ponto de partida para escrever sobre francesinhas e a agradável sessão de sábado.
Para já, a contextualização da história do guarda-chuva de Benoni, esse ineficaz adereço beckettiano que favoreceu a infiltração da literatura no quotidiano do José Mário em vez de ficar, quietinho, em restaurantes para depois proteger da chuva.

O seguinte momento ocorre no romance Benoni depois de uma visita do protagonista homónimo a uma certa Madame Zadora (Consultas e Whoróscopos):

«E na manhã seguinte, mal saiu de casa (o sol jogava às escondidas com as nuvens), descobriu entre as moitas uma estátua em latão, de gosto execrável, representando um beduíno, cujos olhos podiam ser extraídos, servindo como saleiro e pimenteiro. [...] Não era certamente o tipo de objecto que Benoni estaria disposto a transportar consigo, muito menos a conservar em seu poder. Passou como se nada fosse, e nem cem metros eram andados quando descobriu a seus pés um guarda-chuva, surpreendentemente grande, ainda em bom estado. Experimentou abri-lo e fechá-lo. Parecia perfeito. Tomou-lhe o peso com mais calma. Depois, examinou-o detalhadamente, procurando escrutinar cada centímetro quadrado.
Numa chapa metálica estavam gravadas quatro iniciais.
J. V. V. D.»


in Benoni, de Alexandre Andrade, Editorial Notícias, 1997, pp. 83-84

Este guarda-chuva vai desencadear grande investigação e tornar-se um dos motores da narrativa do romance.

Quinta-feira, Março 23, 2006

Tudo o que você queria saber sobre Alexandre Andrade*

No sábado (25 de Março), às cinco da tarde, vamos ter o prazer de ouvir o José Mário falar sobre os livros do Alexandre, na Galeria Sargadelos.
Aqui está uma boa ocasião para dar um salto à baixa do Porto e ficar a conhecer este espaço tão agradável. Já para não falar da oportunidade, quiçá única, de colocar e esclarecer dúvidas tão pertinentes quanto:


  • como, sendo míope, consegue Alexandre Andrade ver ao longe tantos títulos de leituras em lugares públicos?,
  • que se esconde por trás da rubrica Gatos Perdidos?,
  • o que diabo é preciso fazer para escrever assim: «Quando o corpo cede, tudo o resto pode ceder. Não te digo nada de novo. A faceta menos sinistra desta maldição não é por certo esta habilidade para nos apanhar de surpresa. Se eu fosse uma divisão de uma casa, neste momento, seria um vestíbulo. Cruzado por fortes correntes de ar.»?,
  • de onde, por amor de deus, vem o interesse por bolos de arroz?,
  • e, já agora, continuar a ler João César das Neves, Vasco Pulido Valente e Eurico de Barros porquê?

*mas não ousava perguntar

Sábado, 25 de Março, pelas 17 horas
na Galeria Sargadelos Porto (R. Mouzinho da Silveira, 294)
Apresentação: José Mário Silva (poeta e editor-adjunto do Diário de Notícias)

Excerto do conto Projecto Malogrado do Restauro de um Fresco Atribuído a Lorenzo Lotto; Montegranaro, Primavera-Verão de 1997, retirado do livro na imagem, p.38

Quarta-feira, Março 22, 2006

Aqui falando alegre, ali cuidosa

Repararam na recensão (de Landeg White) que o Guardian dedicou ao volume de lírica camoniana recentemente publicado em Inglaterra com organização e tradução de William Baer?
Tem a sua piada.
Ficamos a saber um pouco da história da recepção em Inglaterra do «first great European poet to cross the equator and find a style to encompass different people and landscapes».

Segundo o artigo, Os Lusíadas (1572) foram objecto de pelo menos dezassete traduções desde a primeira, logo em 1655 (!), de Sir Richard Fanshawe. No entanto, a lírica camoniana não teve a mesma sorte. Landeg White chega mesmo a dizer que é quase totalmente desconhecida fora de Portugal.

E, pelos vistos, ainda não foi desta que os poemas de Camões encontraram a versão que mereciam. Pois o tradutor, apesar de trabalhar em inglês, língua supostamente mais «sucinta» do que o português, parece lamentavelmente não se ter deixado influenciar nem pela concisão nem pela prosódia ou pelo ritmo de Camões. As amostras apresentadas por Landeg White chegam a ser no mínimo penosas, até do ponto de vista da comparação das manchas gráficas.

A título de divertimento, compare-se, por exemplo, um excerto do soneto Quando o Sol encoberto vai mostrando na língua de partida e na língua de chegada:

Aqui a vi os cabelos concertando;
Ali, co a mão na face, tão fermosa;
Aqui falando alegre, ali cuidosa;
Agora estando queda, agora andando.

Aqui esteve sentada, ali me viu,
Erguendo aqueles olhos tão isentos;
Aqui movida um pouco, ali segura;

Aqui se entristeceu, ali se riu...

Sometimes, over there, I watched her combing
her hair, and over there, I saw her touch her face.
Sometimes she worried, but mostly she spoke with grace
and charm - sometimes standing, sometimes roaming

the beach; sometimes, sitting right there, she'd gaze
at me, raising her gentle luminescent
eyes - often content, sometimes in pain,

or sadness, although at other times, she'd amaze
me with her laugh...


Neste contexto, JJ Aubertin, que (habilmente, segundo o artigo) transpôs para a língua inglesa setenta sonetos camonianos mais ou menos por volta de 1881, também é citado por ter afirmado que tentar traduzir Camões era como querer traduzir Mozart.

Luís de Camões: Selected Sonnets
edited and translated by William Baer
199pp, University of Chicago Press, £16.50

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A seguir, a seguir

Dois interessantes blogues descobertos via Technorati:

Terça-feira, Março 21, 2006

Overdose carsoniana

Fui megalómana. Com excepção de On the Anatomy Lesson of Dr. Deyman, por ser demasiado extenso para publicação em blogue, acho que traduzi todos os textos de Short Talks relacionados com artes plásticas.
E agora precisamos todos de descansar.

Entretanto, ainda uma chamada de atenção. As imagens que acompanham os textos são escolha minha. Muitos destes poemas em prosa não partem directamente de qualquer imagem, gravitando antes em torno de uma multiplicidade de referências visuais.
Anne Carson também é artista plástica e do projecto inicial de Short Talks constavam desenhos da própria, mas a editora não demonstrou grande interesse por essa componente gráfica e o livro acabou por sair sem imagens.

Gosto muito desta fotografia de Terence Byrnes.

Do cromoluminarismo


Domingo à Tarde numa Ilha de La Grande Jatte
de Seurat

A luz dos sol torna os europeus mais lentos. Reparem nas pessoas enfeitiçadas de Seurat. Reparem no Monsieur, tão sentado. Para onde vai um europeu quando está "perdido em devaneios"? Seurat – velho deslumbrador – pintou esse lugar. Situa-se do outro lado da atenção, depois de um longo, lento percurso de barco. É mais numa tarde de domingo do que de sábado. Seurat foi muito claro em relação a isto graças a um método específico. Ma méthode, chamou-lhe ele, com algum enfado, quando lhe perguntámos. Apanhou-nos a correr pelas frescas sombras verdes como adúlteros. O rio a abrir e a fechar os lábios de pedra. O rio a prender Seurat com os lábios.

Texto em inglês

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Da arte de desenhar que lhe pertence

Ele costumava incentivar-me a andar de um lado para o outro no estúdio. Não queria poses. Desenhava sem olhar para o papel. Desenhava no chão. Seguir as linhas, costumava dizer, observar o que está em volta. Um braço magro entristece um rosto. Descrevendo sombras, parecia mais pequeno, desonesto.

On His Draughtmanship
He would encourage me to move about the studio. Would not give me a pose. Drew without looking at the paper. Drew on the floor. Follow the lines, he would say, watch the surroundings. A thin arm makes a face sadder. Describing shadows he grew small, rascally.

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Das Regras da Perspectiva


Natureza Morta com Jarro
de Georges Braque

Golpe baixo. Erro. Desonestidade. Nisto consiste a visão de Braque. Porquê? Braque pôs a perspectiva de parte. Porquê? As pessoas que passam a vida a desenhar perfis acabam por acreditar que o homem tem apenas um olho, achava Braque. Braque queria total usufruto dos objectos. Isto declarou em entrevistas publicadas. Perceber que os mesquinhos, reluzentes planos da paisagem lhe estavam a escapar fazia Braque sentir-se roubado, portanto esmagou-os. Nature morte, esclareceu Braque.

On the Rules of Perspective
A bad trick. Mistake. Dishonesty. These are the view of Braque. Why? Braque rejected perspective. Why? Someone who spends his life drawing profiles will end up believing that man has one eye, Braque felt. Braque wanted to take full possession of objects. He has said as much in published interviews. Watching the small shiny planes of the landscape recede out of his grasp filled Braque with loss so he smashed them. Nature morte, said Braque.

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De Van Gogh


Oliveiras com Céu e Sol Amarelos
de Van Gogh

Bebo para compreender o céu amarelo o grande céu amarelo, disse Van Gogh. Quando olhava para o mundo via os pregos que prendem as cores às coisas e percebia que os pregos estavam cheios de dores.

On Van Gogh
The reason I drink is to understand the yellow sky the great yellow sky, said Van Gogh. When he looked at the world he saw the nails that attach colours to things and he saw that the nails were in pain.

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Palavras e imagens

Como já devem ter reparado, ando a ler Anne Carson. E, entretanto, para me divertir, decidi traduzir para aqui alguns textos relacionados com imagens e artes plásticas do livro Short Talks.

Aqui vão três.
(Contextualizações e reflexões hão-de eventualmente chegar. Para já é mesmo só o prazer de viajar entre várias linguagens, a ver no que dá.)

Da Mona Lisa

Todos os dias ele lhe vertia uma pergunta, assim como se verte água de um recipiente para outro, e a pergunta revertia ao anterior. Não me venham dizer que estava a pintar a mãe, o desejo, etc. Há um momento em que a água não está nem num recipiente nem noutro – que sede, e ele acreditava que quando a tela ficasse completamente vazia poderia parar. Mas as mulheres são fortes. Ela percebia muito de recipientes, percebia de água, percebia de sedes mortais.

(Texto em inglês)

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Das pedras em bruto


Aurora, de Rodin
(modelo: Camille Claudel)

Camille Claudel passou os últimos trinta anos de vida num asilo sem saber porquê, escrevendo cartas ao irmão, poeta, que tinha assinado os documentos de internamento. Vem visitar-me, diz ela. Lembra-te que para aqui vivo com loucas, os dias tão compridos. Não fumava nem passeava. Recusava-se a esculpir. Apesar de lhe entregarem blocos de pedra em bruto − mármore, granito e pórfiro − quebrava-os e recolhia os fragmentos para os enterrar de noite no exterior. Era à noite que as mãos dela cresciam, ficavam enormes até na fotografia serem duas partes de outra pessoa despejadas para o colo dela.

On Sleep Stones
Camille Claudel lived the last thirty years of her life in an asylum wondering why, writing letters to her brother, the poet, who had signed the papers. Come visit me, she says. Remember I am living here with madwomen, days are long. She did not smoke or stroll. She refused to sculpt. Although they gave her sleep stones – marble and granite and porphyry – she broke them then collected the pieces and buried these outside the wall at night. Night was when her hands grew, huger and huger until in the photograph they are like two parts of someone else loaded onto her knees.

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Do Fim


As Três Cruzes
de Rembrandt

Qual é a diferença entre a luz e o relâmpago ? Há uma água-forte de Rembrandt intitulada As Três Cruzes. Da imagem fazem parte a terra, o céu e o Calvário. Trata-se de um momento de chuva, a chapa fica mais escura. Mais escura. Rembrandt chama-nos mesmo a tempo de vermos a matéria a deixar as formas para trás.

On the End
What is the difference between light and lightning? There is an etching called The Three Crosses by Rembrandt. It is a picture of the earth and the sky and Calvary. A moment rains down on them, the plate grows darker. Darker. Rembrandt wakens you just in time to see matter stumble out of its forms.

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Segunda-feira, Março 20, 2006

De assinalar

O terceiro aniversário do blogue Indústrias Culturais e a proeza de ser actual e informativo sem descurar a componente de reflexão sobre a actualidade e a informação.

Migalhas de pão para o gato sem dono

Tinha-lhe perdido o rasto, mas ei-lo de volta.

Bichinhos de estimação

Haverá quem tenha crescido no Norte de Portugal sem ouvir contar histórias aventurosas com licranços em campos de erva ou jardins?
Quando era pequena, os licranços eram frequentemente despedaçados à sacholada por agricultores assustados que os achavam demasiado parecidos com cobras se, por acaso, os encontrassem, durante o dia, em esconderijos húmidos, debaixo de musgo, troncos em decomposição ou pedras.

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Para além do aspecto serpentiforme e da desconfiança suscitada pelos seus esconderijos diurnos, os licranços eram triplamente temidos porque, apesar da violência dos golpes com instrumentos cortantes que lhes eram aplicados, às vezes pareciam nunca morrer: havia quem dissesse que as diferentes partes dos corpos mutilados deviam ser enterradas em lugares diferentes para impedir que se reunissem e as criaturas pudessem voltar à vida; havia quem jurasse que tinha visto uma metade de corpo cortado remexer-se e depois desaparecer.

E, no entanto, os licranços parecem cobras mas não são mais do que pobres e inofensivos lagartos sem patas.
É verdade que nem sequer de forma vestigial possuem membros no esqueleto, porém os estudiosos sabem que eles pertencem à ordem dos sáurios (isto é, descendem dos lagartos) porque rudimentos de membros são observáveis nos seus embriões.
Gostam de jardins e de campos de erva porque se alimentam principalmente de caracóis, lesmas, minhocas, aranhas e outros insectos. Protegendo, portanto, a produção dos agricultores que inadvertidamente gostam de os perseguir.
E a principal defesa da espécie consiste na capacidade de soltar a cauda em situação de perigo e desatar a fugir. (A cauda, depois, volta a crescer.)

Anguis fragilis: por fazer pensar na fragilidade, nos disfarces, na resistência e nas más interpretações da fragilidade, também gosto da designação em latim.

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Quinta-feira, Março 16, 2006

Enquanto uma imprecisa, ofegante hora/não pára de se deixar sentir em repeat

Estimados leitores,
algum de vocês porventura faz ideia de como se designa em português o instrumento da imagem?
Em inglês chamam-lhe bowhorn.
Será “trompa de arco”? (Uma espécie de seta, a música que sai dali ?)
Vem de um poema de Anne Carson em que uma das minhas personagens preferidas - o príncipe André de Guerra e Paz, de Tolstói – aparece descrita como «Um homem que tinha estado na guerra [e] percebera que as nossas vidas não são mais do que setas cegamente/despedidas
Ficaria infinitamente agradecida.

Quarta-feira, Março 15, 2006

Isto, o mais importante, não sabemos


Oito Setas
Antoni Tapies

Ora aqui está uma imagem com setas observada recentemente numa exposição da rua Miguel Bombarda.
Estou bastante tentada a enviá-la a esta menina, mas não tenho a certeza que ela se deixe impressionar por S. Sebastiões ausentes e/ou invisíveis.
Pois deveras sinto que pode haver ali, entre as setas, um S. Sebastião qualquer.
Se não, para onde estariam as setas a apontar?
E, mais do que isso, com que outro (inquietante, alternativo) fim poderiam elas ter sido despedidas?

Entretanto

Tive direito a fotografia de fantástica gata preta e branca e tudo, num dos meus blogues preferidos.
'Obrigada, Tiago,' murmuro, embevecida.

Frutitos de estimação

Parece que há lendas chinesas que contam a história de certos fanáticos de líchias que chegavam a comer mil destes frutos (brilhantes, suculentos e carnudos) por dia.
Ainda hoje, na China, há quem acredite que o consumo excessivo de líchias frescas pode causar febres e intensas hemorragias nasais.
Juro que vou tentar não me esquecer disso.

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Terça-feira, Março 14, 2006

Imagens, Livro das

Em O Livro das Imagens, Rilke reflecte essencialmente sobre a cegueira, a noite, a escuridão e montes de outras coisas invisíveis.

Segunda-feira, Março 13, 2006

Comer, beber

Embora não tenha achado grande piada ao filme Brokeback Mountain, sou fã de Ang Lee.
Gostei de Sense and Sensibility (1995) e Crouching Tiger, Hidden Dragon (O Tigre e o Dragão, 2000), mas a minha admiração pela obra deste realizador deve-se fundamentalmente a duas outras obras: Tempestade de Gelo (1997, citação aqui), baseado num romance de Rick Moody, e Comer, Beber, Homem, Mulher (1994).
Vi Eat, Drink, Man, Woman há mais de dez anos, mal me lembro das linhas principais do enredo mas, por mais que o mundo e eu mudemos, não penso esquecer-lhe a cena final.
É verdade que me tenho interrogado durante anos se voltaria a gostar do filme como da primeira vez, mas saiu recentemente uma caixa Ang Lee que reúne este, O Banquete de Casamento (1993) e A Arte de Viver (1992), pelo que vou finalmente poder esclarecer qualquer dúvida adicional.

(Pessoas enervadas pelo título Palavras Sábias que a caixa ostenta: também é possível comprar os filmes separadamente.)

A felicidade de Cocteau

O meu contributo para a busca da felicidade da Cristina:
«Eu desprezava a felicidade porque não sabia que ela podia ser tão terrível como a dor

Do filme L’Aigle à deux têtes, de Jean Cocteau, citado de memória.

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Quinta-feira, Março 09, 2006

Na Baixa


Bruxa veloz

Amanhã, vai haver uma sessão de apresentação da revista ÁguasFurtadas num edifício requalificado de uma zona belíssima da Baixa do Porto, na Rua Mouzinho da Silveira, que liga a Estação de S. Bento à Ribeira.

Além disso, a Sargadelos insere-se numa rede de galerias europeias com origem na Galiza. É um espaço que pretende funcionar como ponto de encontro entre culturas diferentes, defender a especificidade de todas as identidades regionais e afirmar-se (na Baixa do Porto, repito) como pólo dinamizador de actividades culturais, estando particularmente vocacionado para a apresentação de novos talentos que se destaquem nas áreas das artes plásticas, da música e da literatura.

Para já, a galeria inclui um espaço para este tipo de encontros e uma agradável loja que, entre outras coisas, comercializa as cerâmicas do grupo (como aquela ali de cima) e livros das Edicios do Castro, a editora da mesma fundação. Mas, se tudo correr bem, estão previstos novos desenvolvimentos no edifício.
Fingers crossed. A ver se a Baixa não é deglutida por lojas de 300.

Setas despedidas

Falhar alvos.

Ralph Fiennes finalmente neste blogue

Vai para a Broadway esta peça de Brian Friel. Em Portugal, Paulo Eduardo Carvalho traduziu-a com o título O Fantástico Francis Hardy, Curandeiro e Nuno Carinhas encenou-a.
Na altura não vi, facto que muito arrependimento me causou na noite em que assisti ao espectáculo Uma Peça Mais Tarde + O Jogo de Ialta, com duas peças que o mesmo Brian Friel escreveu a partir de textos de Tchékhov.
Uma Peça Mais Tarde encena um encontro de Andrei, o irmão de Três Irmãs, e de Sónia, a sobrinha de O Tio Vânia.
O Jogo de Ialta colhe inspiração no inesquecível conto «A Senhora do Cãozinho» (uma citação deste conto aqui).

Todos os dias olho para este cartaz com a secreta esperança de que a posição das mãos de Ralph Fiennes se tenha tornada menos ambígua para que eu possa usá-la na rubrica Days of Open Hand.
Hoje, no entanto, desencorajei.
Só que depois pensei melhor e, para remediar o problema, decidi escrever sobre Brian Friel.

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Quarta-feira, Março 08, 2006

Horas de almoço

Uma escolopendra é maior,’ disse convictamente o rapaz amarelado para outro que com ele atravessava a rua entre a Reitoria e o Palácio enquanto ambos observavam um livro com uma página de ilustrações.

Imagem de escolopendra não aconselhável a pessoas impressionáveis.

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A raposa godardiana

Já que a Cristina tem direito a uma raposa fordiana, eu também sinto que merecia uns fotogramas com a raposeta malcomportada que regouga enquanto lê uns livros folheados pelo vento no filme Pierrot le fou. Mas a Internet não demonstra a devida consideração pela fauna dos filmes de Godard.

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Segunda-feira, Março 06, 2006

Coisas surpreendentes e perturbadoras


do filme The Pillow Book
de Peter Greenaway

Enquanto limpamos uma bela travessa do cabelo, algo fica preso nos dentes e a travessa quebra.

Uma carruagem vira. Seria de esperar que um objecto tão sólido e volumoso pudesse estar sempre assente sobre as rodas. O acidente é como um sonho – espantoso e absurdo.

Uma criança ou um adulto diz de repente alguma coisa que pode causar embaraço aos outros.

Esperamos a noite inteira por um homem que pensávamos que de certeza viria. De madrugada, precisamente quando o esquecemos por um momento e adormecemos, um corvo crocita ruidosamente. Acordamos com um sobressalto e percebemos que já é dia – assombroso.

A um dos arqueiros numa prova de tiro com arco treme o corpo durante muito tempo antes de disparar; quando a seta é finalmente despedida, esta lança-se na direcção errada.

Do magnífico Livro de Cabeceira, de Sei Shonagon, que inspirou o filme de Peter Greenaway com o mesmo título.
(Versão a partir do
inglês.)

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Domingo, Março 05, 2006

No dia um de Março

Só para assinalar a comemoração do terceiro aniversário do blogue do rapaz que declarou em recente entrevista de seis páginas ao MilFollhas:

«O jogo interessa-me essencialmente pelo mesmo factor que muitas vezes dissuade as pessoas, que é a arbitrariedade das regras. [...] É interessante ver um romance ou um conto como uma espécie de microcosmos desse mundo dominado por regras arbitrárias

«Se levasse este meu gosto e maneira de escrever às últimas consequências, o que faria seria pegar numa lista de personagens, digamos, e explorar todas as combinações possíveis entre elas. Chegar, por exemplo, a uma espécie de tabela e sortear acções

E é um prazer ver como jogo, ficção e busca (à maneira dos romances da Távola Redonda em que a própria procura funciona como sustento do texto) vão sendo manipulados xadrezisticamente como três das coordenadas principais desta escrita que pode ser lida não só no blogue, mas também nos livros As Não-Metamorfoses (ed. Errata) e Cinco Contos de Fracasso e Sucesso (ed. Má Criação), e no romance Aqui Vem o Sol (ed. Quasi), todos publicados durante estes mesmos três anos.

Teoria das cores

No filme de Bennett Miller, Perry Smith é o assassino com que Truman Capote estabelece uma relação de proximidade absolutamente vampiresca quando está a escrever o livro In Cold Blood.

Se aparecesse ao lado de Jesus Cristo na cena da crucifixão, Smith seria o bom ladrão.
Tem um diário secreto, sangue parcialmente índio, aprende palavras novas a partir de um dicionário de sinónimos que Capote lhe arranja (o famoso Roget's Thesaurus) e manifesta uma sensibilidade tão peculiar que esta quase o incapacita de explicar como e por que razões chacinou brutalmente uma família a que não conseguiu roubar mais de 50 dólares.

Logo da primeira vez que o vê em tribunal, Capote repara como ele parece totalmente alheado da cena e ao mesmo tempo cem por cento entregue ao desenho a lápis de uma águia.
Da segunda vez que aparece em tribunal, já depois de conhecer melhor Capote, Perry Smith continua a desenhar.
'Mas onde é que ele arranjou os lápis de cor?,' interroga-se Harper Lee.

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Bichinhos de estimação



Os rabirruivos pretos que fazem o ninho nas cavidades e nos nichos dos túmulos dos cemitérios de Paris.

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Quarta-feira, Março 01, 2006

Prémio Indiferença Carnaval 2006

Não esperem grandes actualizações durante esta semana porque ando afastada do computador.
Hoje, no entanto, é urgente notar que existe um gato na bilheteira das ruínas do Convento do Carmo. Pertence à senhora responsável pelos bilhetes. Branco e tigrado, com olhos muito verdes, principalmente se o dia estiver luminoso. Umas vezes dormita sobre uma almofada azul; outras, olha em frente, esfingicamente.
É normal que vários visitantes batam repetidamente no vidro para lhe captar a atenção. Mas são esforços dispendidos em vão.
O gato, arqueológico, finge que não vê.
Mesmo que o visitante seja persistente nas batidas, o único movimento extraordinário capaz de suceder ao felino é olhar para a dona com o mesmo ar levemente entediado com que ela encara o mundo através da vidraça.
Olhar para a dona, cuidadosamente evitando o visitante.

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