seta despedida
blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk
Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006
Fausto começa com as forças do Príncipe da Escuridão a atravessarem o céu.
Mefistófeles fez uma aposta com o Príncipe da Luz: o mundo passará a ser seu se conseguir perverter totalmente Fausto, um alquimista e estudioso que procura colocar o conhecimento ao serviço da humanidade.
Mefistófeles fez uma aposta com o Príncipe da Luz: o mundo passará a ser seu se conseguir perverter totalmente Fausto, um alquimista e estudioso que procura colocar o conhecimento ao serviço da humanidade.

A caracterização de Fausto e a representação do gabinete atafulhado de livros em que trabalha recordam-me imediatamente inúmeros retratos de S. Jerónimo.
Alguns artistas plásticos frequentemente evocados a propósito deste filme são Brueghel (cenas de multidão), Dürer e Rembrandt (claro-escuro).

Esta cena terrífica inspirou a sequência Night on Bald Mountain do filme Fantasia (1940), dos estúdios Disney.

Este lindíssimo fotograma lembra-me um outro, que me é extremamente caro, e pertence ao filme Aurora.

Quando Fausto quer desistir do contrato porque não consegue curar toda a gente, Mefistófeles convence-o a segui-lo com a promessa da eterna juventude que lhe permitirá gozar uma vida de prazeres. Fausto sucumbe a essa tentação, na senda de Dorian Gray (protagonista do romance de Oscar Wilde, publicado originalmente em 1891).

E isto é só a primeira metade do filme que Éric Rohmer estudou na tese de doutoramento (L'organisation de l'espace dans le Faust de Murnau) ...
Quarta-feira, Fevereiro 22, 2006
Sinais de vida
Simon Jeffes estava na praia ao sol recuperando de uma intoxicação alimentar alucinatória e, de repente, ocorreu-lhe um poema enunciado pelo proprietário de um café chamado Pinguim.No poema, este senhor chamava a atenção para a importância do acaso, da espontaneidade, da surpresa, do inesperado e da irracionalidade na vida. «And if you suppress that to have a nice orderly life, you kill off what's most important», dizia ele.
Pouco depois, Jeffes criou os Penguin Cafe Orchestra sob a égide destes princípios.
Escolheu títulos magníficos. E desconfio que pode ter composto e interpretado Perpetuum Mobile e Telephone and Rubber Band (mais especificamente, versão ao vivo do disco When in Rome) só para mim.
Depois morreu, aos 48 anos, com um tumor no cérebro inoperável. Os deuses são perversos e amam assim.
Etiquetas: Música
Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006
retrato detalhado das duas personagens principais (sexo, altura, peso, idade, habilitações literárias, profissão, hobbies, estado civil, traços físicos distintivos, interacção – previsível – entre ambas); - localização no espaço e no tempo (Campo Grande, fins dos anos 80 e circa 2006, com flashbacks vertiginosos para anos 70 do séc. XIX);
- coro de gárgulas da Torre do Tombo;
- apariçãozita especial de Harry Potter com cão de várias cabeças chamado Fluffy (a acertar com JK Rowling);
- e microdiálogos decisivos, ainda que trocados em comboios com personagens secundárias de xaile sem densidade psicológica excepcional.
Até às quatro da manhã, geralmente em conversa contínua com pessoa que quer dormir.
À venda no El Corte Ingles de Lisboa
e no site da Mariage Frères
Dose mensal recomendada: 2,5 gramas em litros e litros de água
Domingo, Fevereiro 19, 2006
Lobo Antunes e os outros
António Lobo Antunes é um reconhecido leitor voraz e pode ser um excelente entrevistado. Na entrevista ao suplemento 6.ª do DN da passada semana , alguns dos meus momentos preferidos são precisamente aqueles em que este romancista e cronista refere outros escritores.
Poetas latinos
«Nos tempos livres tento traduzir os poetas latinos: Ovídio, Virgílio, Horácio que diz: ‘Para criar é preciso uma breve desordem precedida de furor artístico.’»
Visita de Eça a Antero de Quental
«Ele [Antero] estava a destruir poemas. Agarrava as folhas, dobrava-as muito bem vincadas, depois em quatro e só então cortava à faca com cuidado. O Eça perguntou-lhe porquê e ele respondeu: ‘Porque até no delírio é necessária ordem’.»
Emily Brontë
«Se estivesse viva, apaixonava-me por ela, estou apaixonado por ela, mas acho que tentaria consumar essa paixão. [...] Ela escreveu só para mim.»
Depois dos livros
«Teria dificuldade em viver com uma mulher que escrevesse. Eu nunca seria o mais importante na vida dela, viria sempre depois dos livros.»
Poetas latinos
«Nos tempos livres tento traduzir os poetas latinos: Ovídio, Virgílio, Horácio que diz: ‘Para criar é preciso uma breve desordem precedida de furor artístico.’»
Visita de Eça a Antero de Quental
«Ele [Antero] estava a destruir poemas. Agarrava as folhas, dobrava-as muito bem vincadas, depois em quatro e só então cortava à faca com cuidado. O Eça perguntou-lhe porquê e ele respondeu: ‘Porque até no delírio é necessária ordem’.»
Emily Brontë
«Se estivesse viva, apaixonava-me por ela, estou apaixonado por ela, mas acho que tentaria consumar essa paixão. [...] Ela escreveu só para mim.»
Depois dos livros
«Teria dificuldade em viver com uma mulher que escrevesse. Eu nunca seria o mais importante na vida dela, viria sempre depois dos livros.»
E também gostei desta:
«No fundo, que é a boa arte? A pequena deslocação.»
António Lobo Antunes em entrevista de Ana Marques Gastão.
António Lobo Antunes em entrevista de Ana Marques Gastão.
Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006
Clube de gatos
O livro Jenny and the Cat Club é considerado um clássico da literatura para a infância.Ali se conta a história de Jenny Linsky, uma gatinha preta que o Capitão Tinker encontra na rua e decide levar para a sua casa em Greenwich Village.
Este livro é escrito e ilustrado por Esther Averill com deliciosas imagens a preto-e-branco, ainda que com alguns focos de vermelho aqui e ali.
Jenny and the Cat Clubé a primeira história de uma série de treze protagonizadas por Jenny e começa assim:
In Captain Tinker’s garden, once upon a time, there was a Cat Club. All the cats and kittens in the neighbourhood were members. All but Jenny Linsky.
Dizem que o resto é um relato de superação de timidez e aquisição de confiança que se desencadeia a partir do momento em que o lago da zona gela e Jenny percebe que tem grande talento para a patinagem artística.
Etiquetas: Gatos
Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006
Real significa realeza e verdade
Finita, de Maria Gabriela Llansol (Assírio&Alvim), é o diário de alguém que escreve simultaneamente um outro texto mais próximo do registo ficcional (A Restante Vida,1983).
Para além de referências a outras leituras (Kierkegaard, Nietzsche, Rilke, Dominique Fernandez, etc.) ou algumas frases do outro livro que vai sendo escrito, encontramos neste diário apontamentos sobre encontros com amigos e familiares, cartas, sonhos, conversas, pensamentos dispersos, tarefas prosaicas, alusões a plantas, animais domésticos, a presença da casa, e, por vezes, até comentários relacionados com a vida profissional da autora.
Neste texto, portanto, as «investigações espirituais» desta escrita passam também pela vida quotidiana.
Para além de referências a outras leituras (Kierkegaard, Nietzsche, Rilke, Dominique Fernandez, etc.) ou algumas frases do outro livro que vai sendo escrito, encontramos neste diário apontamentos sobre encontros com amigos e familiares, cartas, sonhos, conversas, pensamentos dispersos, tarefas prosaicas, alusões a plantas, animais domésticos, a presença da casa, e, por vezes, até comentários relacionados com a vida profissional da autora.
Neste texto, portanto, as «investigações espirituais» desta escrita passam também pela vida quotidiana.
Etiquetas: Livros
Apesar do registo diarístico, o idiolecto llansoliano (um dos factores pelos quais esta escrita não é susceptível de imitações) permanece surpreendentemente preciso e quase cirúrgico.
Algum do léxico aqui presente (relacionado com a natureza, os animais, o amor, etc.) poderia facilmente conduzir a delicadezas superficiais, mas não é isso que se verifica («Poderia, na realidade, dizer que as árvores são pássaros, mas se o dissesse, a linguagem perderia o seu poder discriminante. Tratar-se-ia de uma poética amena [...]», p.211).
Além disso, a observação do dia-a-dia não escamoteia a presença de «uma fala que perscruta a sua própria boca aberta» (p.171).
Pelo contrário, sem o fantasma de algumas convenções de formatos narrativos tradicionais, o texto parece resistir menos às «intuições fulgurantes» (p.121) que sinalizam esta escrita e que tantas vezes a impulsionam para o «desejo de dispersar, não de reunir» (p.121).
Algum do léxico aqui presente (relacionado com a natureza, os animais, o amor, etc.) poderia facilmente conduzir a delicadezas superficiais, mas não é isso que se verifica («Poderia, na realidade, dizer que as árvores são pássaros, mas se o dissesse, a linguagem perderia o seu poder discriminante. Tratar-se-ia de uma poética amena [...]», p.211).
Além disso, a observação do dia-a-dia não escamoteia a presença de «uma fala que perscruta a sua própria boca aberta» (p.171).
Pelo contrário, sem o fantasma de algumas convenções de formatos narrativos tradicionais, o texto parece resistir menos às «intuições fulgurantes» (p.121) que sinalizam esta escrita e que tantas vezes a impulsionam para o «desejo de dispersar, não de reunir» (p.121).
Etiquetas: Livros
A dada altura podemos ler:
«A narrativa que a estas páginas vai estando subjacente não precisará, finalmente, de ficção» (p.220).
E isso pode fazer-nos pensar que talvez o confronto ou embate com a ficção seja o que de menos interessante tem a escrita de Maria Gabriela Llansol.
Por mim, o que valorizo nesta obra acima de tudo tem a ver com a demanda de conhecimento a partir da exploração da linguagem e das potencialidades do texto.
E isso pode fazer-nos pensar que talvez o confronto ou embate com a ficção seja o que de menos interessante tem a escrita de Maria Gabriela Llansol.
Por mim, o que valorizo nesta obra acima de tudo tem a ver com a demanda de conhecimento a partir da exploração da linguagem e das potencialidades do texto.
Etiquetas: Livros
Terça-feira, Fevereiro 14, 2006
Rilke insiste________________
para lá do amante, o amor espera que todas as imagens
tombem,
mais fracas do que eram, ou filigranas de coisa nenhuma;
o amor espera-vos a sós.
Em Finita, de Maria Gabriela Llansol, Assírio&Alvim, p.134
tombem,
mais fracas do que eram, ou filigranas de coisa nenhuma;
o amor espera-vos a sós.
Em Finita, de Maria Gabriela Llansol, Assírio&Alvim, p.134
Etiquetas: Citações
Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006
Days of closed hand
No filme Gabrielle, a protagonista sai de casa deixando uma carta de despedida para não poder retroceder. Ainda assim, volta na noite do mesmo dia.Quando regressa, parece toda vestida de preto. Mas depois Chéreau faz um grande plano das mãos dela e percebemos que traz umas luvas verde-esmeralda extremamente luminosas.
Chéreau faz questão de mostrar estas luvas que não constam do texto de Conrad em que o filme se baseia: as luvas verdes em que Gabrielle escondeu as próprias mãos.
It was a question of truth or falsehood
Um dos momentos mais belos deste filme de Chéreau é aquele em que, ao fim da noite, o protagonista, transtornado, observa as empregadas subindo lentamente pelas escadas escuras com candeeiros de luz branca muito concentrada.
No conto de Conrad, o protagonista observa assim:
«He saw her come up gradually, as if ascending from a well. At every step the feeble flame of the candle swayed before her tired, young face, and the darkness of the hall seemed to cling to her black skirt, followed her, rising like a silent flood […]»
Tanto no filme como no conto, este momento antecede e prepara uma revelação decisiva. A de a vida não ser uma questão de precedentes, nem de fórmulas, nem sequer de capacidade de transformar alegrias e tristezas em prazeres e aborrecimentos:
«It came to him in a flash that morality is not a method of happiness. The revelation was terrible. He saw at once that nothing of what he knew mattered in the least. The acts of men and women, success, humiliation, dignity, failure--nothing mattered. It was not a question of more or less pain, of this joy, of that sorrow. It was a question of truth or falsehood--it was a question of life or death.»
(Algo tão simples como não esconder as mãos.)
No conto de Conrad, o protagonista observa assim:
«He saw her come up gradually, as if ascending from a well. At every step the feeble flame of the candle swayed before her tired, young face, and the darkness of the hall seemed to cling to her black skirt, followed her, rising like a silent flood […]»
Tanto no filme como no conto, este momento antecede e prepara uma revelação decisiva. A de a vida não ser uma questão de precedentes, nem de fórmulas, nem sequer de capacidade de transformar alegrias e tristezas em prazeres e aborrecimentos:
«It came to him in a flash that morality is not a method of happiness. The revelation was terrible. He saw at once that nothing of what he knew mattered in the least. The acts of men and women, success, humiliation, dignity, failure--nothing mattered. It was not a question of more or less pain, of this joy, of that sorrow. It was a question of truth or falsehood--it was a question of life or death.»
(Algo tão simples como não esconder as mãos.)
Etiquetas: Cinema

«He scanned her features like one looks at a forgotten country. They were not distorted--he recognized landmarks, so to speak; but it was only a resemblance that he could see, not the woman of yesterday--or was it, perhaps, more than the woman of yesterday? Who could tell? Was it something new? A new expression--or a new shade of expression? or something deep--an old truth unveiled, a fundamental and hidden truth--some unnecessary, accursed certitude?[…]
She had been false to him, to that man, to herself; she was ready to be false--for him. Always false. She looked lies, breathed lies, lived lies--would tell lies--always--to the end of life!»
em The Return, de Joseph Conrad
Domingo, Fevereiro 12, 2006
Days of open hand

em Edward Scissorhands
de Tim Burton
B. pendurou um par de luvas de malha pretas logo à entrada, no cabide para casacos, para não se esquecer do sítio onde estão.
Estas luvas são a primeira coisa que se vê quando se abre a porta.
Etiquetas: Mãos
Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006
Castanhas para o fogo de mentes ociosas
No Brasil, a expressão tirar as castanhas do fogo com mão de gato aparece muito em artigos de jornal, mas em Portugal não a usamos com tanta frequência assim.
Ao que tudo indica, castanhas e gato chegaram ao português pelo francês tirer les marrons du feu avec la patte du chat, a partir de uma fábula de La Fontaine em que se conta a história de um macaco chamado Bertrand que convence um gato chamado Raton a retirar umas castanhas assadas do fogo.
O gato, coitadinho, queima as patas e o macaco delicia-se não só com as castanhas mas também com o resultado secundário:
«Leur bien premièrement, et puis le mal d'autrui».
Ao que tudo indica, castanhas e gato chegaram ao português pelo francês tirer les marrons du feu avec la patte du chat, a partir de uma fábula de La Fontaine em que se conta a história de um macaco chamado Bertrand que convence um gato chamado Raton a retirar umas castanhas assadas do fogo.
O gato, coitadinho, queima as patas e o macaco delicia-se não só com as castanhas mas também com o resultado secundário:
«Leur bien premièrement, et puis le mal d'autrui».
Etiquetas: Gatos, Lexicografia

Etiquetas: Gatos, Lexicografia
No início, a expressão era usada para referir a acção de alguém que tinha conseguido algo aproveitando-se indevidamente de trabalho já realizado por outro. Quem tirava as castanhas do fogo colhia os louros, demonstrando a esperteza e a malícia do macaco.
Contudo, à medida que o tempo foi passando, talvez devido à preguicite habitual nos falantes de quase todas as línguas, tirer les marrons du feu avec la patte du chat perdeu, em francês, a referência à pata do gato.
E, actualmente, quando as pessoas dizem tirer les marrons du feu estão a referir-se à acção difícil ou arriscada que alguém empreendeu para beneficiar outrem, sem olhar aos próprios interesses. (Como na frase «Eu!, eu é que tirei as castanhas do fogo!»)
Pouca gente se lembra da fábula de La Fontaine. E é como se o gato tivesse passado a ser o sujeito/agente da expressão, em detrimento do macaco.
Um simples caso de justiça linguística?
I wonder.
Contudo, à medida que o tempo foi passando, talvez devido à preguicite habitual nos falantes de quase todas as línguas, tirer les marrons du feu avec la patte du chat perdeu, em francês, a referência à pata do gato.
E, actualmente, quando as pessoas dizem tirer les marrons du feu estão a referir-se à acção difícil ou arriscada que alguém empreendeu para beneficiar outrem, sem olhar aos próprios interesses. (Como na frase «Eu!, eu é que tirei as castanhas do fogo!»)
Pouca gente se lembra da fábula de La Fontaine. E é como se o gato tivesse passado a ser o sujeito/agente da expressão, em detrimento do macaco.
Um simples caso de justiça linguística?
I wonder.
Etiquetas: Gatos, Lexicografia
Terça-feira, Fevereiro 07, 2006
Retalhos da vida de um passageiro frequente do Alfa Pendular
Todos os passageiros frequentes do Alfa Pendular poderiam ter um blogue se quisessem.
Haveria rubricas e uma delas seria «O meu companheiro do lado».
Num destes dias, por exemplo, a minha companheira do lado passou a viagem a bordar em ponto cruz uma estranha cabeça de cavalo num bolso de ganga.
De vez em quando virava o tecido do avesso, pelo que eu podia ver que o ponto de cruz estava correctíssimo, todo em minúsculos tracinhos verticais, sem gatos nem horizontalidades desleixadas.
E durante as três santas horas do percurso ela não recebeu qualquer telefonema. Nem sequer da Máfia.
Haveria rubricas e uma delas seria «O meu companheiro do lado».
Num destes dias, por exemplo, a minha companheira do lado passou a viagem a bordar em ponto cruz uma estranha cabeça de cavalo num bolso de ganga.
De vez em quando virava o tecido do avesso, pelo que eu podia ver que o ponto de cruz estava correctíssimo, todo em minúsculos tracinhos verticais, sem gatos nem horizontalidades desleixadas.
E durante as três santas horas do percurso ela não recebeu qualquer telefonema. Nem sequer da Máfia.
Etiquetas: Comboios, Historietas
Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006
Fins-de-semana
Neste fim-de-semana, na Feira de Livros Manuseados da Assírio&Alvim, não comprei livros manuseados.Lá vieram Finita, de Maria Gabriela Llansol, e mais quatro fetiches privados da colecção Poetas em Mateus para juntar aos vinte e sete que já tinha.
Depois, malvada da Cristina arranjou-me Orfeu, de Jean Cocteau. E no domingo lá veio também Visão Invisível.
Descalabro, portanto.
Mas deixem lá, houve uma pobre alma que adquiriu no sábado um exemplar de Extinção, de Thomas Bernhard (volume não manuseado), e tinha ar de quem não sabia o que a esperava.
Só cinco manias
Alugo frequentemente três ou quatro DVDs e vejo-os a todos de enfiada, se possível nessa mesma noite. Não tenho a certeza se vi ou não Panic Room, de David Fincher.- Se estiver sozinha em casa, posso começar e acabar no mesmo dia um livro que tenha entre duzentas e trezentas páginas quase sem dar por isso. No dia seguinte noto uma ligeira dor de cabeça.
- Chego quase sempre cinco ou dez minutos antes da hora marcada e farto-me de esperar por atrasados. Por muito que tente, não consigo mudar isto.
- Todos os dias de manhã tremo antes de abrir o guarda-roupa pois temo detectar ali mais duas ou três peças de roupa azuis e deixar de conseguir chegar às minhas outras (poucas) roupas de outras cores.
- Tenho um grande interesse por gatos preto-e-brancos. E haverá quem pense que por esse motivo vai conseguir ensinar-me a jogar xadrez.
A pedido da Belém.
(Desta vez sem mais correntes.)
Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006
Num quarto forrado a cortiça da Avenida Haussmann
No ensaio Ao Som das Raparigas em Flor, Jorge Mantas procura traçar vários percursos de sons e imagens contemporâneas relacionáveis com a sinfonia de ressonâncias afectivas e temáticas da Recherche de Proust.Entre outros, passa por Wong Kar-Wai, Eric Rohmer, Chantal Akerman, Raoul Ruiz, Erik Satie e John Cage.
Jorge Mantas recorda a perspectiva de Morton Feldman segundo a qual «o ruído é a música a sonhar-nos» e «o som somos nós a sonhar com a música» e explora a noção proustiana de que os acontecimentos não podem caber por inteiro no momento em que ocorrem e por isso transbordam para o futuro e para o passado.
Neste contexto, propõe a interpretação das palavras da Recherche como «cintilação do ruído dos acontecimentos» e sugere que captar o som de algo ou alguém é obter um fragmento da sua alma.
Assim mesmo, no número 8 da revista AguasFurtadas
(Imagem de Siegfried Woldhek)
Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006
Já não sei quem escreveu isto
Quando querem castigar-nos, os deuses concedem-nos aquilo que desejamos.
Proust? Wilde?
De qualquer forma, tinha razão. De vez em quando os deuses aborrecem-se. E depois, para se distraírem, dão-nos aquilo que queríamos tanto que nem ousávamos pedir.
No princípio, não têm sequer a certeza de desejarmos aquilo que desejávamos. É mais para testar.
Mas às vezes nós desejamos.
Se a questão se resolve desta maneira, os deuses decidem então divertir-se.
Continuam a oferecer-nos aquilo que queremos, mas com certas condições. Isto é, algumas provas quase épicas a superar.
E nós, amarelados, incompreendidos Indianas Joneses da existência quotidiana, estamos cheios de potencial dramático, avistamos o vazio, fechamos os olhos, largamos tudo e, que remédio, preparamo-nos para saltar.
Proust? Wilde?
De qualquer forma, tinha razão. De vez em quando os deuses aborrecem-se. E depois, para se distraírem, dão-nos aquilo que queríamos tanto que nem ousávamos pedir.
No princípio, não têm sequer a certeza de desejarmos aquilo que desejávamos. É mais para testar.
Mas às vezes nós desejamos.
Se a questão se resolve desta maneira, os deuses decidem então divertir-se.
Continuam a oferecer-nos aquilo que queremos, mas com certas condições. Isto é, algumas provas quase épicas a superar.
E nós, amarelados, incompreendidos Indianas Joneses da existência quotidiana, estamos cheios de potencial dramático, avistamos o vazio, fechamos os olhos, largamos tudo e, que remédio, preparamo-nos para saltar.
Etiquetas: Historietas







