seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

Nos nossos ritmos mais incompreensíveis e imperceptíveis


Presidiariamente (nenhum barco avança)
Álvaro Lapa (2004)

Há uma exposição de Álvaro Lapa na galeria Fernando Santos (rua Miguel Bombarda). E o belíssimo texto que José Gil escreveu para o catálogo está disponível no site:

«As sensações sentem-se como imagens e movem-se como pensamentos. Uma claridade azul escoa-se e associa-se a uma certa expansão do espaço, um fragmento de ruído a uma viscosidade no chão. [...]

E o que liga um elemento a outro é um ritmo ou força de afecto. [...] O “afecto”, aqui, está aquém da emoção, do sentimento, das “paixões” de um sujeito. São afectos de intensidades, ritmos ou fragmentos de ritmos sem rosto. Por isso a pintura de Álvaro Lapa procede por alusão afectiva sem emoção. [...]

As imagens visíveis “afundam-se”, grandes vazios vêm agora separar elementos que restam e que se associam segundo a lógica da alusão afectiva, quer dizer segundo leis inimagináveis do que poderíamos chamar uma sintaxe negativa. [...]

Assim, Álvaro Lapa detém o princípio de extensão infinita, cósmica, do plano, à maneira de Mallarmé; enquanto nos mostra que nos primeiros esboços dos nossos ritmos mais incompreensíveis e imperceptíveis fazem-se e desfazem-se já as primeiras linguagens da arte

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Manhãs de Inverno

Perto do palácio de Cristal há pombos que todas as manhãs, por volta das oito e meia, cercam uma carrinha de transporte de pão.
Os pombos não sabem ler as letras pintadas na carrinha. Mas o condutor espalha-lhes migalhas no chão.
Assim vai a vida de um pombo no Inverno. Umas vezes alimentar-se de lixo. Outras, de pão.

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Quinta-feira, Janeiro 26, 2006

A luz e a sombra

O livro que ganhou o prémio Whitbread Book of the Year é uma biografia de Matisse em dois volumes.
A autora chama-se Hilary Spurling e tem 65 anos.
Quando começou a pensar em escrever esta biografia disseram-lhe que a vida de Matisse não era suficientemente interessante, mas ela ignorou-os.
No início tinha planeado passar no máximo sete anos a trabalhar nesta obra.
No entanto, muitas surpresas apareceram pelo caminho. Por exemplo, Matisse revelou-se um grande escritor de cartas que reservava duas horas por dia para cuidar da correspondência.
Só estas cartas exigiram vários anos de leitura e estudo.
Por estas e por outras, Spurling acabou por precisar de quinze anos para acabar a obra.
Quinze anos, não sei se estão ver.

Via Book World.

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Horas de almoço

Em 2001 plantaram na baixa do Porto, em frente ao Caffé di Roma, uma magnólia esguia e jovem. Mas há alguns dias, à hora do almoço, fui encontrá-la derrubada.
O tronco quebrado sobre o passeio, entre as folhas os botões que se preparavam para a qualquer momento abrir. As raízes ainda na terra, junto à qual, pormenor dispensável, alguém tinha deixado, dobrada em quatro, uma folha de papel pautado.

Esta magnólia tinha conseguido sobreviver durante anos à passagem das pessoas apressadas, às buzinas dos carros, à poluição, ao vento particularmente agressivo do lugar, aos despojos da cultura. Mas deve ter bastado um pontapé de um imbecil qualquer para partir o tronco ainda tão delgado e frágil.

Depois disso, passei dias sem rever o local do crime. Mas ontem fiz questão de passar por lá outra vez: só para encontrar no mesmo sítio uma magnólia substituta ainda mais jovem, mais delgada, sem botões.
Não faço ideia se vale a pena tentar devolver um tronco destas arvorezinhas à terra para ver se ele é capaz de recriar as raízes de que se viu privado. Mas, por mim, gostava de pensar que a árvore mutilada está algures num horto ou num jardim amável, a convalescer.

De resto, recordo essa hora de almoço com uma nitidez escusada. (Chuviscava. À porta da Igreja de S. Bento, como antigamente, uma senhora vendia raminhos de violetas.) E cada vez acho mais que a vida, qualquer tipo de vida, é uma improbabilidade.

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Quarta-feira, Janeiro 25, 2006

Piropo da semana


Fotografia de Paul Townend

«Prefiro-te a ti a um banho inteiro

de Eumolpo para Gíton
in Satyricon, de Petrónio, p.151, Livros Cotovia, trad. Delfim Leão

No número 8 das AguasFurtadas

No mundo há linhas supostamente intransponíveis. Por exemplo, entre o caos e a ordem, a noite e o dia, a realidade e a ficção, a morte e a vida. Há quem lhes chame fronteiras.
No número 8 da revista AguasFurtadas, Paulinho Assunção propõe quatro histórias relacionadas com este tema.

Na primeira história uma personagem fala assim:
«Desde pequeno eu sou assim, Seu Comandante. Cresci sem moldes. [...] A ordem vem, eu desconverso. [...] Sou migrante. Hoje aqui, amanhã ali. A felicidade de um homem é cruzar uma fronteira

As fronteiras da segunda história têm a ver com convenções narrativas:
«Quem dera alguém desse um tiro; quem dera fosse em campo de batalha; quem dera fosse luta de faca, ou punhal, um homem com outro homem, relâmpagos de aço e sangue, urrares de primitiva contenda. Mas não

Na terceira história...

Terça-feira, Janeiro 24, 2006

Sabia que?

Em França há um caramelo autoreferencial chamado asneira. Mais especificamente, asneira de Cambrai: bêtise de Cambrai.
É um caramelo com propriedades digestivas, 100% natural, que não contém senão açúcar, glucose e essência de menta Mitcham.
Segundo a lenda, foi inadvertidamente criado por um aprendiz de confeiteiro distraído que estaria, sem grande empenho, a fabricar outra guloseima.
Na altura, o aprendiz pensou que tinha feito asneira. Mas comer caramelos também não é lá muito inteligente.

Teoria das cores

Esta é a história (verídica) de um saco de rebuçados baratos, de trazer pelo supermercado, comprado para encher uma latinha em cima de uma secretária e ajudar o tempo a passar.
Nos desenhos do exterior da embalagem havia rebuçados vermelhos, laranja, amarelos, verdes, azuis.
Dentro da embalagem fechada, os rebuçados estavam embrulhados com pratas das mesmíssimas cores.
Dentro da embalagem aberta, embora os rebuçados vermelhos tivessem sabor a morango, não apareciam embrulhados em pratas vermelhas. Os rebuçados de prata amarela quase nunca eram amarelos, apesar de os rebuçados amarelos terem sabor a limão. Os rebuçados verdes sabiam a tutti-frutti mas raramente apareciam com pratas dessa cor.
Dentro da embalagem aberta estava tudo trocado. E, além disso, não havia rebuçados azuis.

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Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Uma estaca no lugar do coração


do vídeo A Experiência do Lugar II

Nas imagens de Intus, a exposição que Helena Almeida levou a Veneza e que agora está na Gulbenkian, um dos elementos mais importantes tem a ver com a presença do rodapé que sinaliza o pavimento do atelier que a figura feminina, de joelhos bem assentes no chão, vai habitando e percorrendo nas fotografias e no vídeo, presa à terra e longe dos anjos.

No filme Vampyr, de Dreyer, alguém explica que convém prender à terra com uma estaca os corpos dos vampiros aparentemente incorruptos e adormecidos nos caixões, para que eles não mais dali se desprendam e deixem definitivamente de atormentar os mortais com sangue nas veias.
Quase no fim do filme, o protagonista aparece a martelar gradualmente uma estaca alta no coração do vampiro como se estivesse habilmente a introduzir um prego.
E continua a martelar até ela se enterrar completamente no corpo e no chão.

O subtítulo da exposição de Helena Almeida é Eu Estou Aqui.

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De mão abertas
em Intus

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Domingo, Janeiro 22, 2006

Monstra deliciosa


Costela-de-adão

Em Portugal, trepadeiras de interior, ornamentais, de folhas cordiformes, penatífidas e perfuradas, com longos pecíolos, flores aromáticas, em espadice comestível, branco-creme, com espata verde e bagas amarelo-claras.
Em casa dos meus pais, estavam do lado de dentro da garagem, junto a uma porta envidraçada que, com o tempo e a multiplicação das plantas, foi deixando de ser usada.
Sempre que alguém da casa cuidava bem delas e as regava bastante, as costelas-de-adão deixavam ver folhas muito grandes que se abriam em dedos à medida que iam crescendo, como uma mão a espreguiçar-se, a espalmar-se contra o vidro das portas, em direcção à luz.

Atenção, em inglês, esta planta não é conhecida como Adam’s rib. Os nomes mais usados para a referir são windowleaf e Swiss cheese plant.
Em latim, a designação é Monstera deliciosa.

Li algures que só depois de um ano a amadurecer pode o fruto ser comido. Antes disso, traz tanto ácido oxálico que é capaz de provocar pruridos dolorosos, comichão, inchaço, perda de voz.

Quando era pequena, achava que se ficasse na garagem de noite ia conseguir ver os dedos das folhas a abrir. Mas simplesmente não me aconteceu Adão e Eva revelarem-se ali.

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Quinta-feira, Janeiro 19, 2006

António Gancho e as memórias falsas

Num destes dias, por altura da morte de António Gancho, fui assaltada pela memória de uma sessão de poesia na livraria Leitura, há cerca de nove ou dez anos, dedicada ao livro O Ar da Manhã, com a presença do autor, na companhia de Álvaro Lapa.

Nesse dia, Álvaro Lapa foi um excelente leitor daqueles textos. Mas a presença de Gancho acabou por se revelar francamente perturbadora: os olhos (azuis) revirados para dentro como se estivessem continuamente a receber mensagens de múltiplas vozes desconhecidas; o corpo todo encolhido, fechado em si mesmo e simultaneamente em agitação permanente. (A poesia pode crescer dos mais estranhos terrenos mas a loucura verdadeira é o que de menos poético existe.)

No entanto, o mais engraçado do episódio bem pode ter-se passado há poucos dias, quando me aconteceu recordá-lo, e ao calor de todas as luzes acesas da Leitura, experimentando de repente a estranha sensação de ter entrevisto o Rui Amaral por lá (muitos anos antes de o conhecer pessoalmente).

Falo disto ao Rui.
E ele diz que não seria totalmente inverosímil porque na altura ia a muitas sessões do género.
Mas não se lembra de nada.

E a propósito do Rui Amaral



Já cá tenho o número 8 da revista AguasFurtadas.
Comecei pelo princípio, pelos poemas do Affonso Romano Sant’Anna.
Na senda de autores como Mário de Andrade, Manuel Bandeira, e Carlos Drummond de Andrade (cuja obra estudou na sua tese de doutoramento), Affonso Romano Sant'Anna encara a poesia como uma visão de mundo que propõe perplexidades antes de metáforas bonitas. Para ele, o poeta é um indivíduo atento ao sentido da História, «interessado não apenas em calar, mas em falar/não apenas em pensar mas em sentir/não apenas em ver, mas contemplar», e capaz de perguntar, por vezes, «O que houve com a família/dos poetas do país?», ou até «Há mais poesia nos bares/que nos farelos da mesa?».

A selecção proposta por Rui Lage privilegia a vertente metapoética desta escrita. E foi um prazer ler estes poemas.

Entretanto, prometo ir falando sobre mais textos deste número, à medida que a leitura for avançando. Já reparei que há textos de Paulinho Assunção e até um ensaio sobre Proust mais à frente.

Como ouvi falar de problemas com distribuidoras, aproveito para aconselhar vivamente todos os interessados a fazerem o pedido directo da revista para:
jup@jup.pt
ou
"aguasfurtadas"
Rua Miguel Bombarda, 187
4050-381 Porto

Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

Pelo menos uma seta


Trystero symbol

Under the symbol she'd copied off the latrine wall of The Scope in her memo book, she wrote Shall I project a new world? If not project then at least flash some arrow on the dome to skitter among constellations and trace out your Dragon, Whale, Southern Cross. Anything might help.

em The Crying of Lot 49, de Thomas Pynchon, Vintage, p. 56

Ao que tudo indica, sobrevivi a 2005.
Agradeço os links e as mensagens.

E estou de volta com montes de disparates.
Mas devagar, que ando cansadita.

Três cenas, três



Aparição do corpo cozinhado do amante
em The Cook, the Thief, His Wife and Her Lover, de Peter Greenaway.
(As imagens são para comer?)



Em A História de Adèle H., de François Truffaut,
Isabelle Adjani, desgrenhada, caminha como uma sonâmbula, depois de ter sido abandonada pelo amante.
Nem sequer lhe resta a imagem dele: cruzam-se, ela não o vê.



Em Barry Lyndon, de Stanley Kubrick,
a cena de sedução, silenciosa e cheia de enganos, durante um jogo de cartas.

Via Aspirina B.