seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Quarta-feira, Novembro 30, 2005

Espelhos e imagens


Pormenor de La Dame à la licorne
(tapeçaria do Museu de Cluny)

No primeiro texto do livrinho de contos intitulado Contos da Imagem, de Fiama Hasse Pais Brandão (Assírio&Alvim), uma das personagens principais é um visitante do Museu Cluny tão obcecado pelas imagens de uma tapeçaria que lá encontra que se deixa ficar dias e dias encerrado no museu, passando despercebido aos vigilantes.
Nesta tapeçaria é possível observar uma figura feminina segurando um espelho em que se revê o unicórnio que está encostado «amorosamente» «à coxa esquerda dela».
Na antepenúltima página do texto, o visitante é nomeado e percebemos que se trata de Rilke.
No fim do texto, a aia da figura feminina sai da tapeçaria com o espelho. E Rilke troca um livro pelo espelho roubado.

«Se o Unicórnio é demiurgo da sua própria imagem, pensa o visitante, o mundo está explicado. Se a imagem permanece, mesmo depois do seu afastamento ou, até, antes de chegar a poisar a cabeça doce no regaço de Claude, então o mundo está explicado e, nesse caso, a memória será omnipotente ou omnipresente.» (p.11)

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Reincido



Nonstop.
E estou preparada para comprar todos os CDs da Meredith Monk que encontrar no mercado até descobrir o malfadado disco de que uma colega da faculdade me gravou, por engano, quando lhe pedi Laurie Anderson, uma cassete sem registo de títulos nem de nome de álbum, que na altura ouvi até a fita rebentar.

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Terça-feira, Novembro 29, 2005

Coisas secretas


Pormenor do quadro Os Embaixadores
de Hans Holbein (1533)

Neste fim-de-semana vi o filme Les Choses Secrètes, de Jean-Claude Brisseau.
Já lhe chamaram conto de fadas ao contrário porque as fantasias femininas estão todas lá mas os jogos entre a simulação, o prazer e a realidade manipulam-nas, distorcem-nas e enviesam-nas ao ponto de as tornarem mortíferas e quase irreconhecíveis.

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em Les Choses Secrètes
de Jean-Claude Brisseau

Fartei-me de procurar na Internet a citação (talvez da Bíblia?) que inspirou o título do filme.
Sem sucesso.

Em vez da citação correcta

encontrei um poema do Livro de Horas de Rilke.
Teoricamente, os textos deste livro dirigem-se a Deus. No entanto, antes da vontade de chegar a Deus pelo texto está ali o impulso para a verdade e para o amor, que é válido tanto para os crentes como para os descrentes.

Estou sozinho no mundo, porém não suficientemente sozinho.

Estou demasiado pequeno neste mundo, porém não pequeno o bastante para permanecer perante ti como algo astuto e misterioso.

Quero ser um espelho para o teu corpo todo sem nunca cegar ou envelhecer ao ponto de deixar de poder reflectir a tua pesada, oscilante imagem.

Conseguir dizer-me como a um quadro que tivesse observado de perto durante muito tempo, como um provérbio finalmente compreendido, como o jarro que uso todos os dias, como o rosto da minha mãe, como esse barco capaz de me conduzir em segurança através da mais violenta das tempestades.

Quero estar com os que conhecem as coisas secretas, ou então ficar sozinho.

Frases apropriadas indevidamente em prosa, a partir do inglês.

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Segunda-feira, Novembro 28, 2005

Advertência

Uma visita à exposição de Fátima Mendonça pode conduzir ao consumo de muitas calorias.

Sábado, Novembro 26, 2005

Dois mil e cinco

Dezembro aproxima-se a passos largos e com ele a tendência para os balanços anuais. (Esta frase foi o meu momento sabedoria pop da semana.)
Na realidade, não sou muito dada aos balanços anuais, mas, durante este ano, na blogosfera, ocorreram pelo menos duas coisas que me dão vontade de escrever este post.

O primeiro momento foi em 19 de Julho, com o fim do Quartzo, um blogue que muitas pessoas liam várias vezes por dia graças aos contributos de um leque muito diversificado de colaboradores da área da literatura que o Rui Amaral conseguiu reunir e dinamizar.
Nem sequer vale a pena falar muito sobre isto porque, desde Julho, já todos tivemos tempo para perceber a falta que este blogue faz.
(De qualquer forma, do mal o menos; não perdemos o rasto do Rui Amaral: está no excelente Dias Felizes.)

O segundo acontecimento, a 25 de Novembro, foi obviamente o fim do Blogue de Esquerda, um dos raros blogues assumidamente políticos que me interessaram ao longo deste tempo todo. Não só porque ali se subentendia a noção de que o político faz parte da cultura e é algo muito mais vasto do que meras convicções partidárias, mas também porque todos os colaboradores, sem excepção, escreviam bem e de forma inteligente.
Por isso, queria enviar um abraço. Para aqueles que lia todos os lias sem conhecer pessoalmente. E para os outros que me aconteceu conhecer. (Estou a falar da Margarida, do José Mário e da Alice, a menina que queria agarrar um raio de sol. Do Jorge Palinhos, que escreveu um extraordinário post final sobre blogar. E do Francisco Frazão, que, curiosamente, conheci antes de uma peça de Tchékhov, e a quem envio uma saudação especial não só por causa de um post antigo vagamente sobre Bernardo de Carvalho.)

Felizmente, para enganar algumas saudades, podemos começar desde já a usar os seguintes novos endereços:
- Aspirina B;
- A Invenção de Morel.

Quinta-feira, Novembro 24, 2005

Piropo da semana

«Furão bonito e felpudo... Precisa de vítimas!»

De Astrov (João Pedro Vaz) a Elena Andreiévna (Emília Silvestre)
na peça O Tio Vânia, de Tchékhov
Encenação de Nuno Carinhas, no Teatro Carlos Alberto até 4 de Dezembro.
(A não perder.)

Quarta-feira, Novembro 23, 2005

Livros de 2005

Uma proposta interessante: o programa Livro Aberto está a lançar uma votação dentro e fora da blogosfera para elaborar uma lista dos melhores livros do ano.

Problemazito

Por mim, estou a construir a lista por tentativa e erro em relação a datas.
Alguns dos livros que mais gostei de ler em 2005 são, desgraçadamente, de 2004.
(E isso leva-me a suspeitar que só em 2006 vá ler alguns dos melhores de 2005, mas adiante.)

A minha lista ainda está assim:

  • Guerra e Paz, de L. Tolstoi (Presença)
    A Presença concluiu este ano a publicação dos quatro volumes do romance Guerra e Paz, e não acho que a imprensa tenha saudado a iniciativa com o relevo que merece. Durante muito tempo foi quase impossível conseguir esta obra em português. Estamos a falar de um dos mais belos e mais importantes romances da história da literatura.
  • Mulheres Apaixonadas, de D.H. Lawrence (Relógio d’Água)
    D. H. Lawrence é um dos escritores que mais ódios de estimação suscitam. E, por causa de alguns poemas, deste romance e de outro (The Rainbow), é também um dos meus escritores preferidos. Women in Love foi publicado pela primeira vez em 1921, mas é impossível não nos identificarmos ainda hoje com as aspirações e inquietações das suas personagens.
  • Animal Animal – Um Bestiário Poético (Assírio&Alvim)
    Deliciosa antologia de poemas com animais como motor de inspiração que Jorge Sousa Braga organizou e traduziu com o talento habitual.
  • Aqui Vem o Sol, de Alexandre Andrade (Quasi)
    Já escrevi sobre este romance aqui.
    Parece-me um texto absolutamente invulgar no panorama da ficção portuguesa contemporânea, tanto no que diz respeito às temáticas, como à técnica narrativa e à exploração da língua portuguesa.

De qualquer forma

Os livros não têm prazo de validade.
Por isso, aproveito para destacar aqui os três livros de 2004 que mais gostei de ler em 2005.

Poesia



Duelo, de Luís Quintais
(Cotovia)

Para mim, um dos mais interessantes livros de poesia portuguesa dos últimos anos, e mais nada.
Explico porquê aqui.

Pensamento


Imagens de Pensamento, de Walter Benjamin
(Assírio e Alvim)

As imagens que o título refere são também aquelas que o livro continua a engendrar nos leitores muito depois de terminada a leitura. E isso faz deste volume uma obra rara e valiosa.

Gonçalo M. Tavares


Biblioteca, de Gonçalo M. Tavares
(Campo das Letras)

É um livro inclassificável, mas que me parece, de longe, o que de melhor este escritor publicou até à data. (E, sim, eu li os três Livros Pretos já editados.)
Este é o livro em que Gonçalo M. Tavares enfrenta alguns dos maiores monstros da literatura e sobrevive.

Terça-feira, Novembro 22, 2005

Birds, beasts and flowers

Um dos críticos que recenseou o novo (duplo) álbum de Kate Bush escreveu, indignado, que sons de pássaros e, pior do que isso, vozes de cuco, por amor de deus, nunca haviam de levar ninguém a lado nenhum.
E eu, hélas!, não só acho que, no novo álbum, o disco que tem vozes de pássaros é melhor do que o outro, como também suspeito que o mundo poderia ser um lugar melhor se houvesse mais discos com aves.

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Olhos vendados

Seria capaz de o reconhecer numa multidão, mesmo de olhos vendados.

Precisa-se

Máquina de café tão requintada que só no caso de a proprietária estar absolutamente desesperada se decida esta a pô-la a funcionar.

Vale a pena ler

Estes excelentes posts sobre dois assuntos muito diferentes:

Segunda-feira, Novembro 21, 2005

Sapatos vermelhos


no filme de Michael Powell e Emeric Pressburger (1948)

Tinha de escolher: o amor ou a arte.
O amor ou a arte. Era difícil: o amor ou a arte.

E a primeira-bailarina preferiu o vazio



Porque ela estava cansada.
Mas os sapatos vermelhos não.

A primeira-bailarina morreu

Mesmo assim, o director da companhia persistiu em apresentar o espectáculo.
Ninguém a substituiu no palco, mas o holofote que a seguia continuou a mover-se, iluminando a ausência em que ela estaria a dançar.

Quinta-feira, Novembro 17, 2005

Bom Sucesso meets Lewis Carroll for Christmas

De repente, de chofre, sem preparação prévia de qualquer espécie, vejo-me forçada a reconhecer que ainda me lembro do tempo em que as decorações de Natal dos centros comerciais não implicavam a suspensão sinistra de um baralho de cartas em queda sobre dois coelhinhos brancos abrigados sob um cogumelo aparentemente atómico mas cravejado de pedras brilhantes.

Sim, que bem me lembro do ano passado.

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A woman standing on the stairs in the shadow

No conto de James Joyce de que falava há dias, há um elemento que a dada altura desencadeia uma catadupa de recordações em Gabriel Conroy.
A visão da silhueta da mulher na penumbra da escadaria a escutar uma música longínqua traz-lhe à memória alguns instantes que ele considera valiosos na história da sua relação com ela («Moments of their secret life together burst like stars upon his memory.»). Coisas como a cor de um envelope, a felicidade impedindo-o de comer, a mão enluvada dela a receber um bilhete numa estação cheia de gente.

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Imagens de literatura

No breve fluxo de recordações, o meu momento preferido é este, numa oficina de vidraria:

«He was standing with her in the cold, looking in through a grated window at a man making bottles in a roaring furnace. It was very cold. Her face, fragrant in the cold air, was quite close to his; and suddenly she called out to the man at the furnace:
—Is the fire hot, sir?
But the man could not hear her with the noise of the furnace. It was just as well. He might have answered rudely.»

Gosto desta imagem com as personagens no exterior frio e escuro, observando o interior quente e iluminado pelo fogo do forno que se reflecte no vidro ainda líquido a ser arredondado para a forma de uma garrafa.
E também gosto da pergunta.

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Quarta-feira, Novembro 16, 2005

Assim… assim… assim…


Para te fazer não tem nada que saber III
de Fátima Mendonça (2002)

«Nesta exposição interessou-me a ideia de haver uma casa-fábrica onde se fizessem bolos com a forma de partes exteriores do nosso corpo. Onde se encomendassem 500 bocas, 1000 pares de mãozinhas, também olhos de chocolate, pés com sapatos de salto alto de morango. [...]
Imagine-se uma personagem que quer agradar muito, então troca os pés que tem por uns de salto alto e fica mais elegante, ou os ouvidos por uns de chocolate e deixa de ouvir o que não gosta, ou põe uma boca para passar a falar bem, ou compra umas mãozinhas já postas a rezar para ficar mais pura

Fátima Mendonça
em entrevista a Ricardo Duarte no JL de 9-22 Novembro, a propósito da exposição Assim… assim… assim… para gostares mais de mim, na Culturgest, até 18 de Dezembro

Mais informação sobre outras exposições desta artista plástica:
- Para te fazer não tem nada que saber (2002);
- Fátifashion - Vestidos de lã e bolos (2003)

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Terça-feira, Novembro 15, 2005

That you would give me gloves of the skin of a fish

Fico sempre ligeiramente admirada quando um texto ou um filme abordam directamente temas como a família, a arte, a religião, a política, o convívio dos vivos e dos mortos e a coisa corre bem, sem sentimentalismos fátuos nem grandiloquências de fazer revirar os olhos.
É isso que acontece no filme The Dead, de John Huston, e no conto de James Joyce (com o mesmo título) em que Huston se baseia.

No conto de Joyce, esta difícil prova literária é superada através de um subtil mecanismo de distanciamento relativamente à personagem sobre a qual incide a focalização da narrativa: Gabriel Conroy, este, sim, extremamente grandiloquente, vacuamente sentimentalista, uma espécie de grafómano mental, continuamente a tentar transformar em histórias banais e discursos de cerimónia tudo aquilo que presencia.

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O texto de Joyce

singra à custa do falhanço da sua personagem principal.
No parágrafo final, a neve cai para misturar vivos e mortos e indistinguir todos os discursos e todas as narrativas:

«Yes, the newspapers were right: snow was general all over Ireland. it was falling on every part of the dark central plain, on the treeless hills, falling softly upon the Bog of Allen and, farther westward, softly falling into the dark mutinous Shannon waves. It was falling, too, upon every part of the lonely churchyard on the hill where Michael Furey lay buried. It lay thickly drifted on the crooked crosses and headstones, on the spears of the little gate, on the barren thorns. His soul swooned slowly as he heard the snow falling faintly through the universe and faintly falling, like the descent of their last end, upon all the living and the dead

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That you would give me shoes of the skin of a bird

No filme, a transitoriedade de tudo o que pode ser verbalizável é transmitida através dos movimentos da câmara.
Enquanto no texto a focalização privilegia a personagem de Gabriel Conroy, na obra de John Huston a câmara é muito mais volúvel, e vai saltando de personagem em personagem, de um pormenor para o outro.
Aliás, é famoso o travelling que percorre ascensionalmente a escadaria da casa, conduzindo-nos aos quartos do andar superior, de que vai mostrando os anjos na parede, os bibelôs em cima das mesas, os retratos de família, a Bíblia aberta com um rosário em cima, os casacos em cima da cama, um quadro bordado em ponto de cruz, enquanto a tia mais velha e mais mortal da personagem principal canta «Arrayed for the Bridal» em voz trémula e envelhecida.

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You have taken what is before me and what is behind me

De resto, a linha narrativa do conto é seguida tão fielmente pelo guião cinematográfico que acaba por ser não só possível mas também interessante notar algumas pequenas divergências furtivamente introduzidas no filme:
- uma carruagem perdida na noite;
- a história, contada em privado e não socialmente, do cavalo que não conseguia parar de rodar em torno de uma estátua;
- e, um dos momentos mais belos do filme, o comovente poema «Broken Vows» que uma personagem recita (embora o texto não seja sequer referido no conto de Joyce), com a silhueta esguia e jovem, (vestida) a preto e branco, da empregada que se detém, hesitante, na soleira da porta, enquanto o poema não acaba.

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Sexta-feira, Novembro 11, 2005

A idade adulta

Talvez comece quando finalmente trazemos para casa um suporte para a árvore de Natal e deixamos de comprar enfeites só para os colocarmos em caixas em que poderão aguardar descansados o dia em que eventualmente os usemos não para os mostrarmos aos outros ou para olharmos para eles um a um, mas para os colocarmos de facto numa árvore de Natal.
Sendo nessa altura forçados a perceber a salgalhada kitsch que durante anos fomos desirmanadamente reunindo.

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Quinta-feira, Novembro 10, 2005

Immensìtas

Também existem pequenos prazeres psicóticos portuenses à espera de nos apanhar lá para os lados da Igreja da Trindade, junto aos semáforos da estrada que é preciso transpor para subir em direcção a Cedofeita.
Pequenos prazeres escondidos nos desabafos dos transeuntes incautos que ali tentam atravessar ao fim do dia.

Hoje, por exemplo, uma senhora de meia idade, de cabelo curto e casaco comprido branco, depois de premir angustiadamente o botão que supostamente desencadeia o verde, vociferou para o ar:
- Este si-nal está no vermelho há uma i-men-si-daaaa-de-de-tempo!
(À medida que a senhora dizia a frase, o ritmo ia ficando mais lento, e o volume da voz ia subindo.)

Há anos que escuto protestos com entoações semelhantes neste mesmo sítio, alguns com mais palavrões do que outros: os semáforos, àquela hora, insistem durante muito tempo no vermelho para os peões.
No entanto, de há algum tempo para cá, dei por mim a pensar neste lugar como numa espécie de ponto de passagem para a cidade invisível. (Passagem a efectuar através do ritmo dos semáforos e do ritmo das frases.)
E até comecei a suspeitar que só em lugares com ritmos assim podemos tentar avaliar a pulsação de cidades, como esta, com prazeres psicóticos.

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Piropos de Outono


Sabes a eucalipto.

Quarta-feira, Novembro 09, 2005

Sabia que?



Kate Bush foi a primeira voz feminina inglesa a chegar ao número um das tabelas de vendas com uma canção da sua própria autoria?
Em 1978?
Com o single Wuthering Heights, inspirado pelas personagens do livro de Emily Brontë com o mesmo título?

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Além disso, há quem sugira a possibilidade de Kate Bush ter sido a primeira mulher a atrever-se a explorar um quotidiano desordenado e contraditório tanto no que diz respeito ao pensamento como à aparência, sem medo de imagens sonoras, visuais ou mentais em que pudesse aparecer como uma figura desequilibrada, quase feia, pouco desejável, e com certeza assustadora não só para muitos homens mas também para o mundo em geral.
Nesta perspectiva, Kate Bush teria sido a primeira voz feminina (e não feminista, não é disso que estamos a falar) a afirmar-se na música pop enquanto sujeito dos seus próprios textos e acção.
Antes dela, praticamente todas as outras teriam gravitado em torno do universo masculino, dirigindo-se a este, avaliando-se em função deste.

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A hipótese não deixa de ser interessante.
É inegável que Kate Bush sempre esteve acima de tudo empenhada na auto-expressão. Nos seus textos, o estatuto do masculino, quando o masculino aparece, é geralmente o de satélite discursivo, e não o de centro que dá origem a todas as palavras, pensamentos ou reacções.

E, de qualquer forma, o que interessa é que ela está de volta.
O novo álbum já cá canta. (E que falta nos fazia a voz fantasmagórica .)

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Terça-feira, Novembro 08, 2005

«No limit may be set to art,



neither is there any craftsman that is fully master of his craft

The Instruction of Ptahhotep

Alfabetos

Na escrita hiroglífica não vale a pena tentar descodificar as figurinhas.
Em geral, as imagens não representam nem conceitos nem referentes objectivos, mas sim sons.

O som das imagens

As aves desorientadas

Geralmente, esta escrita inscrevia-se em colunas verticais que deviam ser lidas de cima para baixo, ou linhas horizontais, a ler da esquerda para direita.
Era frequente que os hieróglifos com figuras de perfil funcionassem como indicadores da direcção da leitura pois estas figuras apareciam normalmente viradas para o início do texto.
Era comum, por exemplo, que o bico dos pássaros estivesse a apontar para a direcção correcta. No entanto, no caso de textos cujo acesso interessava limitar, o escriba podia tentar desorientar as aves para desorientar o leitor.

Sexta-feira, Novembro 04, 2005

Pequenos prazeres psicóticos portuenses

Há lá coisa melhor do que ir à Padaria Ribeiro no fim do dia? O espaço exíguo? O afunilamento da multidão? A sofisticação dos pedidos? O stress? A ansiedade?
Na altura juramos ajuizadamente não repetir. Mas depois chega um tabuleiro inesperado de croissants quentes ou de pastéis de chaves.

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Cauchemar

Um dos momentos mais sinistros que me lembro de ter visto em cinema nos últimos tempos foi no filme Before Sunset, de Richard Linklater, quando Julie Delpy disse qualquer coisa como: «Estava a dormir e tive um pesadelo horrível em que ia fazer 32 anos. Depois acordei e, olha, afinal já tinha 32 anos

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A propósito

Reparem que a imagem que ilustra o post ali em cima é do filme Before Sunrise. Portanto, nem Julie Delpy nem a personagem tinham ainda trinta e dois anos.
E eu tenho trinta e um.
(Pelo menos por enquanto.)

Quinta-feira, Novembro 03, 2005

Bibliotecas

B. organizou os livros por géneros e temas, e, dentro destas categorias, optou pela ordem alfabética. Mas Tchékhov ficou na letra C. E existem prateleiras para o curioso tema Vários.
Agustina, por exemplo, tem livros na zona da ficção e na zona Vários. James Joyce, esse, tem livros por toda a parte.

O limite Sarah Morton

B. decidiu escrever a todos os fabricantes de aparelhos de música a fim de os alertar para a necessidade de instituir um limite de segurança no número de repetições da mesma faixa de que o modo repeat é capaz.

Livro enfim aberto

Ora aqui está uma boa notícia: a actualização do site do programa Livro Aberto.

Teoria das cores



«When I was really young, I asked my mom why all old movies were in black and white. She said that back then everything was in black and white. I took her really literally and until I was six or seven I thought colour was some weird modern invention.»

por Chris Ware

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Quarta-feira, Novembro 02, 2005

Densidade relativa

Lourdes Castro passou o pente pelo cabelo e caíram muitas letras.

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Fins-de-semana prolongados

Aguaceiros. Abertas inesperadas. Fim da tarde. Passeios pelas ruas na segunda antes de um feriado. Rápidos, não planeados, por entre túneis de luz escavados nas nuvens carregadas e o som de saltos altos no pavimento molhado. Outras pessoas. Floristas abertas, muita luz eléctrica. Passos apressados.
(Este post é sobre Lisboa.)

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A arte da melancolia


em Jimmy Corrigan: Smartest Boy on Earth
de Chris Ware

«I tried so hard to read poetry, and I just couldn't. Strange that I couldn't, because comics are the visual equivalent of poetry: you're using imagery, in a limited space

Terça-feira, Novembro 01, 2005

Filmes

Estive a ler a Scientific American Mind.
Alguns cientistas defendem que a consciência humana não assenta na percepção contínua do tempo.
De acordo com esta perspectiva, percepcionamos como vemos um filme: a partir de momentos seccionados do fluxo da experiência, de fotogramas do real que se sucedem tão rapidamente que nem sequer nos apercebemos da sua parcialidade.

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Duração

Quando a duração dos instantâneos por algum motivo aumenta, passamos a visualizar uma menor quantidade destes por segundo, o que causa a sensação de que o tempo está passar mais depressa e o acontecimento experienciado tem curta duração.
Mas quando as imagens individuais duram menos, percepcionamos um número maior de instantâneos por segundo e, portanto, ficamos com a sensação de que o tempo demora mais a passar.

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Imagens

Depois estive a pensar.
Pessoas que viveram experiências traumáticas (como acidentes de viação) às vezes recordam-se pormenorizadamente de como tudo se passou, e dizem que parecia que tudo se estava a desenrolar em câmara lenta.
Situações de pânico e ansiedade devem ter montes e montes de imagens por segundo.
O aborrecimento deve ter menos imagens do que o pânico, mas muito mais fotogramas do que a felicidade.
A felicidade não deve ter imagens quase nenhumas.

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E Pascal Quignard escreveu isto:

«O que procuramos no amor é a extinção das imagens».

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