seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Sexta-feira, Setembro 30, 2005

Caçar com gato

«Felizmente, não há vida cultural nem literária no Porto. É uma cidade um bocado chata. Chove muito. Passa-se bastante tempo em casa. É fácil estar fechado a ler, estudar e trabalhar

Bernardo Pinto de Almeida em (excelente) entrevista no programa Livro Aberto de ontem.
(citado de memória)

A propósito, seria interessante que o blogue do programa (publicitado em rodapé durante a emissão) fosse actualizado pelo menos com o nome do convidado de cada semana.

Quinta-feira, Setembro 29, 2005

Variações sobre um corpo


Vertigo

Amanhã com o Público, o meu filme preferido de Alfred Hitchcock.

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«We once crafted mummies, but today we cheat the grave through photography, cinema, digital storage. […] The impulse for transcendence is old, yet never more tragically humbling as when, in Vertigo, desire and love drive the mind toward an ideal, an image, while the real, the here and now, goes unloved

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Quarta-feira, Setembro 28, 2005

A intriga

Aqui vem o Sol, de Alexandre Andrade (Edições Quasi), é uma história de aventuras quase à maneira de Enid Blyton, embora com personagens que se movem a partir de motivações ou regras obscuras e ambíguas.

A intriga situa-se em Amsterdão e gira em torno do roubo de dois quadros de Vermeer no Rijksmuseum.
Uma das personagens principais, de alcunha “o Lince”, é um coleccionador visionário que habita um estranho edifício onde se tenta reproduzir o mundo num sistema auto-sustentado.

Outros elementos importantes são:
- um grupo de amigos cujo ponto de encontro é uma misteriosa e poeirenta livraria onde se conspira contra os criminosos;
- um gémeo bom e outro mau, ambos especialistas em reproduções de quadros famosos;
- um cartógrafo subterrâneo cuja actividade principal consiste em compilar artigos sobre o sonho humano de voar (de Ícaro aos irmãos Wright);
- jogos triplos;
- ritmos de Fibonacci;
- algum interesse pouco saudável pelo quadro Retrato de Violette Heymann, de Odilon Redon;
- uma perseguição nos subterrâneos da casa do Lince;
- e um mergulho nos esgotos, que conduz ao desenlace e ao final.


Retrato de Violette Heymann
de Odilon Redon

O edifício

O edifício construído pelo Lince é conhecido por Cirkelhuis. É um dos elementos mais interessantes do romance, e acaba por funcionar como uma estrutura em abismo do próprio texto e da arte de representar a existência humana através da literatura.

Uma personagem caracteriza-o assim:
«Um território de universais e de arquétipos concretizado em objectos e rotinas quotidianas, de ideais e arrojados projectos dependentes de acções corriqueiras, de instrumentos fabricados em série, de horas devotadas a ocupações de subsistência.» (p.310)

Ali, a vida subordina-se a vinte e quatro salas temáticas, cada uma delas dedicada a determinada arte, ofício ou técnica: caligrafia, retórica, drama, adivinhação, mímica, escultura, conversação, pintura, hidráulica, música, bestiária, geometria, numerologia, canto, óptica, anatomia, silêncio, cronologia, dança, ornitologia, estratégia, aeronáutica, astronomia, e cartografia.

As vinte e quatro descrições das salas poderiam constituir sequências de filmes de Peter Greenaway.

A narrativa

A dada altura, diz-se o seguinte a respeito do projecto do Lince:

«Ele compreendeu que procurar ser convincente não passa forçosamente pela imitação, mas antes pela manipulação das aparências, das ideias pré-estabelecidas, dos esquemas de apreensão. Não procurava repetir a vida. Pretendeu criar algo mais real que a vida, ostentando significados e leituras múltiplos, em simultâneo a própria vida e o colossal esforço para a sondar, para lhe deixar a descoberto o avesso, as medidas, os alicerces e os reflexos.» (p. 313)

E estas são reflexões que poderíamos aplicar a este romance, que consegue ser extremamente lúdico sem ser superficial.

À espera de Kate Bush



Depois de doze anos de silêncio, o novo álbum será duplo e é esperado no início de Novembro.
Durante este período, houve mesmo alguém que escreveu um romance em que um fã problemático decide adiar o suicídio porque quer ouvir um novo álbum dela (Waiting for Kate Bush, de John Mendelssohn: quem leu diz que é uma porcaria).
Prevê-se que King of the Mountain, o primeiro CD single, esteja nas lojas a partir de 24 de Outubro.
Aguardemos impacientemente.

Terça-feira, Setembro 27, 2005

Quando os Sinos Dobram


do filme Black Narcissus
de Michael Powell e Emeric Pressburger, 1947

A história é simples: um grupo de cinco freiras tenta instalar um convento com hospital, horta e escola numa região remota dos Himalaias. O edifício que devem ocupar funcionou anteriormente como habitação para o harém do governante do sítio.
Michael Powell e Emeric Pressburger fabricaram em estúdio todo este pequeno mundo em que as portas não fecham, as janelas não abrem, a torre do sino dá para um precipício, e a freira responsável pela horta só consegue plantar flores.
No que diz respeito ao tratamento da luz e da cor (premiado com Óscar), são citadas as influências de Vermeer, Rembrandt e Van Gogh.
Visualmente, é um dos mais belos filmes de sempre. A paisagem e os figurantes são luxuriantes. Os hábitos brancos das religiosas parecem cubistas de tão dissonantes e ascéticos neste cenário em que nunca conseguem encaixar. A transparência da atmosfera acaba por contaminar as próprias personagens, que vão perdendo opacidade perante si mesmas ao longo do filme. (E, aqui, a transparência pode conduzir à loucura.)
A não ser pelo vento, quase que valeria a pena ver sem som, como um filme mudo. (Nalguns momentos, a estridência das vozes femininas pode assumir uma presença demasiado datada. E, às vezes, as palavras parecem estar a mais.)

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Domingo, Setembro 25, 2005

Lose something every day


Diver
Aaron Siskind

Pirueta negativa: desde há dois anos que não passa um dia em que eu não pense em acabar com o blogue.
Já estive várias vezes para colocar ali em cima, abaixo do título, uma espécie de advertência a dizer algo como «Atenção: blogue precário», ou «This weblog will self-destruct in five seconds
Mas penso sempre melhor.
Navego pelos arquivos e não consigo evitar a impressão de que quase tudo o que vivi e registei nestes dois anos foi mais fácil e mais interessante do que na altura parecia.
E depois, se acabasse com o blogue, não restaria mais nada na minha vida com que fosse tão fácil acabar.
E é sempre bom ter algo na vida com que seja mesmo fácil acabar.

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Quarta-feira, Setembro 21, 2005

Opiniões Fortes


Assírio&Alvim

Terminei recentemente o livro Opiniões Fortes, que recolhe entrevistas e textos soltos de Vladimir Nabokov.
Nabokov era famoso pelas exigências que impunha ao jornalistas que desejassem entrevistá-lo. Queria conhecer as perguntas antecipadamente, e preparava as respostas por escrito com grande meticulosidade. Detestava ser mal citado e procurava expressar-se o mais correctamente possível porque não queria falsear o que pensava.
Além disso, insistia em rever tanto as primeiras como as segundas provas dos artigos a publicar, de modo a poder corrigir ele próprio quaisquer «erros factuais» ou «lapsos específicos»(coisas como «O senhor Nabokov é um homem baixo, de cabelo comprido, etc.» (p.73).
Em geral, é um livro de leitura bastante agradável, embora um pouco repetivo.
A frequência com que certas questões são abordadas, no entanto, acaba por destacar algumas das obsessões nabokovianas fundamentais: o interesse pelo artista (e pela liberdade) individual em detrimento dos grupos e dos movimentos, a atenção ao pormenor e o combate à imprecisão e às ideias vagas, o esforço linguístico para encontrar as palavras exactas quando fala e quando escreve, as borboletas...

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Ódios e leituras de estimação

Impossível não achar piada aos ódios de estimação confessados abertamente pelo escritor: Camus, Lorca, D. H. Lawrence, Thomas Mann (principalmente o livro Morte em Veneza), Joseph Conrad, William Faulkner, Sartre, Brecht, Ezra Pound, entre outros.
E, para além destes escritores, «[v]elharias de pechisbeque, clichés vulgares, o filistinismo em todas as suas fases, imitações de imitações, falsas profundidades, pseudo-literatura grosseira, imbecil e desonesta».
Mas também há bastantes referências aos escritores que mais o interessavam: Jane Austen, Gogol, Dickens, Flaubert, Stevenson, H. G. Wells, Kafka, o Tolstoi de Anna Karenina e A Morte de Ivan Ilitch, Joyce, Proust, Borges e Alain Robbe-Grillet.

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As borrachas perecíveis

Outra curiosidade digna de nota tem a ver com o método de trabalho deste autor.
Nabokov acreditava que «o livro, na sua totalidade, antes de ser escrito, parece existir pronto idealmente noutra dimensão que ora é transparente ora é indistinta, e que o meu trabalho é recolher o máximo que posso, e tão precisamente quanto humanamente sou capaz» (p.93).

Talvez por isso, escrevia a lápis em cartões numerados que posteriormente ordenava como um puzzle. E costumava dizer que os lápis duravam muito mais tempo do que as borrachas que traziam em cima.

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Borboletas

Gosto muito de todos os momentos em que Nabokov descreve a sua actividade de leptidopterista, e interessou-me bastante o relato dos trabalhos em que se vê envolvido quando começa a escrever um livro sobre borboletas na arte (p.199): as visitas aos museus, as descobertas inesperadas, os recantos escuros em que se localizam as naturezas-mortas.
Numa das páginas seguintes encontramos a referência a uma imagem inesquecível que consta do livro de memórias do escritor (Na Outra Margem da Memória):

«num parque de Paris, mesmo antes da guerra, uma admirável [borboleta] vermelha viva a ser passeada por uma menina com um fio a fazer de trela» (p.201)

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Conselho

Achei bastante válido e pertinente o «conselho a um crítico literário em botão»:

«[...] aprenda a distinguir a banalidade. Lembre-se de que a mediocridade se alimenta de ‘ideias’.Tenha cuidado com a mensagem em voga. Pergunte-se se o símbolo que detectou não é a sua própria pegada. Ignore as alegorias. Ponha, sem hesitar, o ‘como’ acima de ‘o quê’, mas não deixe que o mesmo se confunda com o ‘interesse que isso tem’. Confie na erecção repentina dos seus pelinhos dorsais. Nesse preciso momento, não meta Freud. O resto depende do talento pessoal.» (p. 90)

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Pergunta a considerar

E queria deixar aqui também uma pergunta bastante interessante, com algumas das respostas dele.

Que cenas gostaria de ter filmado?
«Shakespeare no papel de Fantasma do Rei
«Herman Melville ao pequeno-almoço, a dar uma sardinha ao gato
«O casamento de Poe
«Os piqueniques de Lewis Carroll.» (p.84)

(Que cenas gostariam vocês de ter filmado?)

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Aberto ao acaso

«Caio com um fruto que percebe que lhe estão a crescer asas
Francis Ponge

De um livro que B. deixou esquecido no sofá

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Terça-feira, Setembro 20, 2005

Vou para a terra dos ladrões e dos fantasmas



Vi o filme Nosferatu, de Murnau, durante o fim-de-semana.
Há quem diga que nunca outro actor ou personagem conseguiu ocupar e preencher a escuridão tão bem como Max Schreck/Conde Orlock.

E é verdade que todos os poderes e capacidades de Orlock são formidáveis.
Quem não gostaria de saber sugar sangue através de duas pequenas aberturas em pescoços, de atravessar portas ou abri-las telepaticamente, dormir o dia todo em caixões, captar à distância gritos de esposas com gargantas apetecíveis, de poder decompor-se em ratos sempre que conveniente, ou até de transportar a peste atravessando o oceano em navios-fantasma? Quem?

Contudo, e é preciso dizê-lo com clareza, entre todas estas mais-valias vampirescas, há uma que invejo um bocadinho mais do que as outras.
A de saber ler e escrever na estranha linguagem hieroglífica do manuscrito ali em cima.

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Além disso, o conde Orlock é uma das figuras mais conhecidas da História do Cinema e da História das Imagens. O conde Orlock, ou a sua sombra por ele.

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Peças que nos ligam

Teophile Seyrig desenhou a ponte D. Luís I em 1880.
A construção da ponte terminou há cerca de 119 anos e, desde então, já passaram carroças de bois, “americanos”, eléctricos e carros, entre outros veículos, pelo tabuleiro superior.
Para que, no sábado passado, o metro do Porto também pudesse começar a circular por lá com segurança, foi necessário substituir 1000 das 1600 toneladas de aço da sua estrutura e construir um novo tabuleiro, 1,70 metros mais largo do que o anterior.
Os trabalhos de renovação demoraram dois anos e exigiram uma equipa de 250 pessoas.
À laia de comemoração do início de um novo ciclo na vida não só desta ponte mas também da cidade do Porto, quero deixar aqui alguns dos nomes dos milhares de peças substituídas neste período:
rebites, vigas, carlingas, consolas, longarinas, contraventos, cornijas, guarda-corpos.

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Sobremesas de sábado à tarde

Pistácios esmagados, bolachas digestivas trituradas, nozes e cerejas cristalizadas cortadas aos pedacinhos, suspiros, mais coisas de que se lembrem, recorram à imaginação, usem o senso comum.
Juntem golden syrup. Acrescentem alguns gramas de chocolate derretido para dar corpo.
Levem ao frigorífico sobre película aderente em forma de bolo inglês até solidificar.
Sem esquecerem de polvilhar com cacau o resultado desenformado antes de o servirem, em fatias gigantescas.

Jamie Oliver, aos sábados, cerca das 19.30, na RTP 2: por vossa conta e risco.

Por mim, fiquei chocada.
E olhem que é preciso muito para uma sobremesa me chocar.

Domingo, Setembro 18, 2005

Ou se florira

Maria Judite de Carvalho nasceu no dia 18 de Setembro de 1921. Portanto, faria hoje 84 anos.

«Estalavam como doidos aqueles velhos móveis, principalmente nas noites de Verão, principalmente a cómoda, e às vezes acendia a luz só para verificar se ela continuava intacta ou se secara ou se florira. De meses a meses, ou talvez fosse de anos a anos, [...] um pequeno ser escuro, sem cor nem forma definida, deslizava-lhe à frente dos pés. Era tão veloz que a deixava sempre perplexa. Um rato ou um qualquer problema de visão?»

do conto «Sentido Único», in Seta Despedida, p.101, Europa-América

E parabéns também à Carla, que faz anos no mesmo dia.

Quinta-feira, Setembro 15, 2005

Podia ser uma divisa

«Do not say the moment was imagined;
Do not stoop to strategies like this

Leonard Cohen

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Days of closed hand


Der Liriker
Egon Schiele (1911)

Breviários de resistência com dedos intermináveis.

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Exercícios

Num destes dias, chamou-me a atenção a rubrica Poetry Workshop da (excelente) página que o jornal The Guardian dedica à literatura..
Nesta oficina de escrita online, todos os meses há um poeta convidado a propor um tema ao qual se deverá subordinar a escrita de poemas. Todos os interessados poderão enviar textos da sua autoria, e, no fim do mês, o autor convidado fará uma selecção daqueles que considerar melhores, e comentá-los-á, elogiando alguns, destacando determinados versos por bons ou maus motivos, indicando soluções alternativas, etc.

Em Setembro, o convidado é Micheal O'Siadhail, com o tema da dinâmica entre o amor e um espaço partilhado, a forma como uma determinada relação se pode expressar num espaço limitado: Love Room.

Em Agosto, a proposta de Adèle Geras incentivava aos poemas curtos desencadeados por simples vislumbres de pormenores belos ou estranhos, domésticos, escolares ou profissionais, destacando a necessidade da referência a realidades concretas no texto, em detrimento do recurso a substantivos abstractos: Snapshots.

Ainda não tive tempo para explorar todos os meses, mas, logo à primeira vista, reparei nos nomes de Anne Stevenson e Ruth Fainlight, autoras que aprecio bastante.

Stevenson convida à suspensão do prazer expressionista, sugerindo, em vez disso, a exploração de um formato tradicional a partir de linguagem actual e assunto contemporâneo: Sonnet.

Por sua vez, Fainlight propõe como primeiro passo a redacção de um título extenso para um poema cuja escrita deve desenvolver-se a partir daí: Think of a long poem title, then write a poem on it.
(Nalguns comentários, Fainlight é implacável.)

Quarta-feira, Setembro 14, 2005

Orfeu e Eurídice

Arrastava os pés depressa. Olhava muitas vezes para trás, como se alguém a seguisse.
Eu também olhava para trás, mas não conseguia ver ninguém.

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Terça-feira, Setembro 13, 2005

Três neologismos de Verão para mentes ociosas

  • O primeiro neologismo de Verão é morcegário. Li o termo num artigo de uma revista do Expresso a propósito dos morcegos-rabudos que viviam nos 16 andares inacabados da torre T04 do recém-demolido complexo de Tróia. E coloco-o aqui porque gostei do conceito que representa (protecção e nova morada para exemplares de uma espécie rara), e também da fusão verbal entre “morcego” e “berçário” que nele se opera.

  • Quanto ao segundo neologismo, vi-o neste blogue que actualmente vem sendo objecto ou agente de algumas metamorfoses minimalistas. A palavra é estimómetro, o significado não é difícil de inferir, mas analisem o post em que pela primeira vez o vi ocorrer.

  • O terceiro neologismo de Verão é uma singularidade com que, ao que tudo indica, um pré-eleitoral Rio Rio pretende demonstrar polifacetado empenhamento cultural relativamente à cidade do Porto.
    Pode ser lido numas casotitas que por aqui começaram a povoar as ruas. Reparem. Lá diz saco-cão. É um composto inventado.
    E o que poderá ser um “saco-cão”? Será uma espécie de porta-bebés, mas para cães? Uma carteira em forma de cachorrito? Ou um saco com material de apoio a canídeos combalidos? Sim, ficamos subitamente preocupados, enlevados e confusos perante tantas possibilidades lexicais, mas a realidade, essa, é sempre implacável: um “saco-cão” não passa de uma embalagem transparente com que as pessoas devem recolher os dejectos do animal de estimação que levarem a passear.

  • Se ao menos tudo no Verão fosse tão simples como os neologismos por ele engendrados...

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Segunda-feira, Setembro 12, 2005

Notícias do escurecimento global

Os cientistas observaram a luz do Sol reflectida pela superfície da Terra no lado escuro da Lua, e concluíram que a Terra está cada vez mais luminosa para quem a vê do espaço, e cada vez mais escura para quem a vê nela.
O papel das nuvens tem de ser levado mais a sério. Foram os cientistas que disseram isto, prometendo investigação, sem, contudo, especificarem que papel este era.
As nuvens devolvem a luz do Sol ao espaço?
Não a querem por aqui?

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O céu sobre Viena


Belvedere
Fotografia de B.

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Jardins do Belvedere
(Fotografia de B.)

Quando, agora, olho para elas, não consigo perceber se estão a guardar a sombra, se a proteger a luz.

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Olho mágico

Sempre que passava algum tempo lá em casa, ele deixava aberta a tampinha do olho mágico que devia servir apenas para deixar ver de dentro para fora, mas, assim, passava a deixar espreitar também de fora para dentro.

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Quinta-feira, Setembro 08, 2005

Deixai vir a mim a escuridão

Sarah Morton leu este post da Cristina com ar bastante incrédulo. Porque «toda a gente sabe que o alemão é uma espécie de inglês violento, só que com Rs uvulares, e mais sílabas com vogais», comentou.
E, Cristina, posso garantir que ela estava a falar a sério.
O hotel em Viena não tinha persianas, e a luz começava a chegar por volta das cinco e meia da manhã. Antes do pequeno-almoço a abarrotar de croissants, Sarah Morton entretinha muitas fantasias envolvendo uma venda capaz de impedir a diligente luz vienense de lhe entrar precocemente pelas pálpebras dentro.
E, um dia, cheia de olheiras, chegou mesmo a entrar numa loja para dizer a um empregado, em tom decidido:

«Ein blinderfolde, bitte. Mitt der kuss das Klimt on».

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De chocolate



O Varandas tem lápis de cor?

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Quarta-feira, Setembro 07, 2005

As caixas

Nos comboios, por vezes, encontramos gatos em transportadoras, cães presos por trela.
Aquela senhora trazia umas caixas de cartão com uns furinhos abertos a esferográfica.
E, de vez em quando, fazia chiu para a caixa. Sempre que dali de dentro criaturas estranhas, potencialmente cinzentas e aladas, persistiam em arrulhar.
Gostavam de andar de comboio, do calor da carruagem, do som das conversas, ou da caixa?
Anos depois, faço esta pergunta a B.

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Setembro

a lembrar-me dos tempos em que andava na faculdade.
Duas viagens de comboio de quase uma hora por dia. Ouvia muito Meredith Monk. Tinha uma gabardine clarinha. Usava calças de ganga e rabo de cavalo. E é possível que andasse a ler Luís Miguel Nava.

Terça-feira, Setembro 06, 2005

Não é só um smiley.



É toda uma atitude perante a vida.

Segunda-feira, Setembro 05, 2005

Chasing butterflies

Sobre as rochas postas a nu na maré baixa, tentava caçar gaivotas com aquilo que, ao longe, parecia uma rede para apanhar borboletas, mas, perto, se percebia que poderia servir apenas para apanhar peixes, se os peixes fossem muito pequeninos.

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Chasing Butterflies
de Berthe Morissot

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Domingo, Setembro 04, 2005

Teoria das cores



Uma das acepções mais frequentes da palavra inglesa «sap» designa o fluido nutritivo que circula nas plantas. Em português, o equivalente é «seiva».
Para os falantes de inglês, há uma cor conhecida como «sap green», e penso que «verde-seiva» poderia ser uma tradução aceitável.
Pelo menos, pensava. Até a sugerir a uma amiga que estuda pintura, e que reconheceu que «verde-seiva» não ficaria mal ao lado dos verdes-garrafa, verdes-musgo, verdes-água do dicionário. Mas, depois, não pôde deixar de me contar que os pintores gostam mesmo é de traduzir «sap green» por «verde-sapo».

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Sábado, Setembro 03, 2005

Fetiches vienenses: chicletes

Chicletes da marca Eclipse.

The Morton's diet

Na senda de Dr. Atkins, Sarah Morton recomenda:

'Ide pelas ruas de Viena. Observai as louras altas, esbeltas, distantes, vestidas de preto que por lá circulam'.

Sexta-feira, Setembro 02, 2005

Sabia que?


por Dave Carlson

Donna Tartt passou noites sem dormir depois de ler e achar tão bom o romance Atonement (Expiação) de Ian McEwan, mas nunca viu qualquer episódio da série O Sexo e a Cidade?

Descalços pelo lago

Uma pérola negra de sangue brotou do pé debaixo de água; pestanejando, vi uma gavinha fina e vermelha subir em espiral e enovelar-se sobre os dedos dos seus pés , ondulando na água como um fio de fumo escarlate.
«Credo, o que é que te aconteceu?»
«Não sei, pisei qualquer coisa aguçada.» Pôs-me uma mão sobre o ombro e eu segurei-a pela cintura. Tinha uma lasca de vidro verde, para aí com sete centímetros de comprimento, preso no peito do pé. O sangue pulsava espesso ao ritmo do coração; o vidro, manchado de vermelho, brilhava insidiosamente ao sol.

in A História Secreta, de Donna Tartt, Dom Quixote, trad. Pedro Serras Pereira, pp 130-131

Sobre a gravação em audiolivro de A História Secreta

I hadn't read it for 10 years, and just recently I read it aloud, unabridged, the whole thing for a recording - it took 14 days, a marathon," she says. "It seemed quite alien, like something I didn't quite write. But what I remembered very clearly was where I was when I was writing this particular part - staying at a friend's house, the view out the window. It caught me very vividly.

Donna Tartt em entrevista

Quinta-feira, Setembro 01, 2005

Fetiches vienenses: decapitações

Perseu e Medusa, Salomé e S. João Baptista, Judite e Holofernes: o que liga estes pares?
A resposta pode ter duas faces: todos eles são objecto de ampla ilustração e tratamento nos museus de Viena, e em todos eles há um elemento que decide cortar a cabeça ao outro.
E uma confidência: entre todas as decapitações que vi, houve uma de que gostei particularmente.

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Judite com Cabeça de Holofernes
de Carlo Saraceni (1615-1620)


Há qualquer coisa no horror da criada que não parece relacionar-se com o esgar violento de Holofernes degolado, mas antes ser causado pela beleza impassível, intocável, impenetrável do rosto de Judite cuja penumbra a vela mostra sem contudo deixar ver.

Mais pormenores sobre Judite e Holofernes.

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Be careful what you wish for?


Woman Peeling an Apple
de Gerard ter Borch (1661)


Este foi outro dos quadros de que mais gostei no mesmo museu.
Curiosamente, também aqui há uma figura olhando para outra que não lhe retribui o olhar, nem deixa escapar qualquer indício que a revele.
Reparem como a posição e a linguagem corporal das observadoras são semelhantes.

No texto que lhe é dedicado pelo catálogo de pintura do museu, pude ler, com inevitável sorriso:

«Even if it looks as if Gerard ter Borch is cosily depicting a child inquisitively and greedily watching its young mother as she peels an apple, the moral of the scene is more of a warning not give anyone what his heart desires, but above all not to accede to all one’s own wishes

(Cuidado com as facas.)

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M’espanto às vezes


E foi numa das salas a seguir que descobri inesperadamente esta cabeça bastante conhecida na blogosfera portuguesa:


Man Looking through the Window
de Samuel van Hoogstraten (1653)

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Fetiches vienenses: o fantasma

Não sei se já falei da minha mãe neste blogue.
Minha mãe era grande fã da saga dos filmes Sissi, dedicados à imperatriz Elisabeth da Bavária, consorte do imperador Franz Joseph. (Francisco José, para a minha mãe.)
Parte da minha mais tenra infância foi desperdiçada a ver filmes assim, aos domingos à tarde, na televisão.

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Nestas férias, estive em Viena. E pode ser que haja uma espécie de pertinência poética em tudo o que nos acontece no mundo, pois, na capital da Áustria, o peso pictórico de réplicas, pormenores, fragmentos e recordações de imagens do quadro «O Beijo», de Klimt, só encontra rival na omnipresença fantasmagórica da figura de Sissi.

E, por isso, foi em Viena que, sem querer, descobri que Sissi tinha grandes preocupações com a manutenção da linha, pelo que preferia adoptar uma abordagem bastante minimalista no que a doces e guloseimas dizia respeito: consta que a sobremesa preferida da imperatriz consistia num simples cubo de gelo com uma única gota de sumo de laranja.

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Por mim, gostei bastante desta imagem do cubo de gelo. Mas as revelações não ficaram por aqui.
Em Kohlmarkt há uma confeitaria muito conhecida que até tem entrada na Wikipédia, e conta-se que mesmo Sissi não era capaz de resistir a uma rara iguaria que aí ainda se produz: violetas cristalizadas.

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Deste modo, regresso ao Porto adoptando atitude de traficante viajado, com 30 gramas de violetas na mala.
Mas debalde conto história a minha mãe.
Com ar céptico, ela explica-me que tem a certeza que a sobremesa preferida da imperatriz não tem nada a ver nem com violetas, nem com cubos de gelo.
Nos filmes, Sissi só se interessa por doce de maçã.

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