seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Quinta-feira, Julho 28, 2005

Para chegar à sombra, seguir a luz

«The position for me is the place now to put the camera. It's very easy. It's to be in front of light. […] Because you go to where the light is coming from. Like in the Bible. The shepherds were going in the direction of the star. And then the characters are found in the shade with the light behind them. And you approach the shade. […] The laws of this have been established by Newton, Einstein, and others: there is a correspondence between light and matter, and light is matter.»

Jean-Luc Godard

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Fantasias de extinção

Era um post.
Mas apagaram-lhe uma palavra, depois outra. E mais outra.
E por aí adiante.
Até não ficar mais nada.

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Sincerely dangerous


Trust
Argumento e realização: Hal Hartley
Papéis principais: Adrienne Shelly e Martin Donovan


«With Trust […] I asked myself, 'How does a human body fit into this?

Hal Hartley

Quarta-feira, Julho 27, 2005

Palavra do dia

Suspiráculo
lugar onde se suspira

(De suspirar× espiráculo)

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Segunda-feira, Julho 25, 2005


A Voz das Pedras
Álvaro Lapa, 1975

Fez-me lembrar isto.

Na exposição «Entre Linhas», da Culturgest, até 25 de Setembro.

E esta


Tomar, 2004

sempre me fez lembrar dois corpos.

Quinta-feira, Julho 21, 2005

Bzz

Em Agosto, vamos de férias.
E, até lá, suspeito que isto vá andar mui-to, mui-to de-va-ga-ri-nho.
Não me entendam mal: ideias para posts não faltam, mas o pobre do cérebro de vez em quando faz bzz, bzz, e mais nada.

Andorinhas

Gostava de saber para onde vão quando entram pelas frinchas dos muros e das paredes e, depois, desaparecem.

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Terça-feira, Julho 19, 2005

Place your bets

«Pesemos o ganho e a perda, escolhendo cunhos, que Deus existe. Consideremos estes dois casos: se ganhardes, ganhais tudo; se perderdes, nada perdeis. Apostai, portanto, que Ele existe, sem hesitar
Pascal

Sempre me pareceu que este pensamento não era exactamente sobre Deus, mas sim sobre a esperança.


Conto de Inverno
Argumento e Realização: Eric Rohmer

(Inclui excerto de The Winter's Tale, de William Shakespeare)

Félicie:
Si, parce que, si je le retrouve, ça sera une chose tellement magnifique, une joie tellement grande, que je veux bien donner ma vie pour ça. D’ailleurs, je ne la gâcherai pas. Vivre avec l’espoir, je pense que c’est une vie qui en vaut bien d’autres.

De dia

e de noite, Filipe. Obrigada.

Segunda-feira, Julho 18, 2005

Days of Open Hand, agora com gato



A princípio, repara-se nas mãos.
Depois, nos olhos. Instintivamente assustados como o gato que está próximo. Mas sem hesitarem em olhar-nos de frente.

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Annunciazione
de Lorenzo Lotto, 1527-1529


A figura faz parte de uma tela representando uma Anunciação, pintada no século XVI.
Na altura, seria muito mais normal mostrar uma Virgem de olhos no chão, aceitando passivamente os desígnios divinos, sem qualquer esboço de recuo ou interrogação.
Aqui, a verdade é quase uma dança.

Sexta-feira, Julho 15, 2005

Apagámos as luzes todas.

Fechámos a porta com cuidado para insectos estranhos não entrarem.
Mas ficou demasiado escuro.
Tivemos de voltar para acender o candeeiro de leitura na sala.
E, depois, de estar algum tempo em silêncio na varanda.
Vê-se melhor quando se está no escuro?
Tenho a certeza que estava com olhos assustados.
Através do vidro, a sala quase nua, que alguns diziam «despojada».

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Em curiosa fusão de desejo, exigência e crueldade

Tenho o primeiro disco dos Portishead há anos, anos.
E hoje, por acaso, reparo que há lá uma canção em que Beth Gibbons cantarola que está um bocado farta de brincar com arco e flecha.

Quinta-feira, Julho 14, 2005

Conchas e homens

«Poderíamos dizer que interiormente o homem é um acúmulo de conchas. Cada órgão tem sua causalidade formal própria, já testada em algum molusco nos longos séculos em que a Natureza estava aprendendo a fazer o homem. A função constrói sua forma sobre antigos modelos, a vida parcial constrói sua morada como o molusco constrói a concha.» (p.124)

«Aqui, no âmbito muito circunscrito em que estudamos as imagens, seria preciso resolver as contradições da concha, às vezes tão rude no exterior, e tão suave, tão nacarada em sua intimidade.» (p.126)

in A Poética do Espaço, de Gaston Bachelard, Martins Fontes, trad. Antonio Danesi

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Terça-feira, Julho 12, 2005

Days of Open Hand


Em Primeira Mão
Jorge Molder (2000)

Tão fugaz.
Quase imperceptível.

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A matemática das mãos



Os números de Fibonacci formam uma sequência que começa com zero e um, e então vai produzindo os números seguintes a partir da soma dos dois anteriores:

0, 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233, 337, 610, 987, 1597,....

A sequência de Fibonacci foi descrita por Leonardo de Pisa (1175-1250), também conhecido como Fibonacci, para descrever o crescimento de uma população de coelhos. Mas a Natureza está cheia de elementos com estes números.

Encontramos estes números nas folhas dos ramos de algumas plantas, nas pétalas e nas sementes de determinadas flores, em frutos e pinhas, e até no reino animal (por exemplo, nas conchas em espiral do náutilo, fóssil vivo).

Aliás, não é preciso ir muito longe. Se prestarmos atenção ao nosso corpo, repararemos em duas mãos, cada uma com cinco dedos, cada dedo com três falanges, separadas por dois nós.

Mais informações: Fibonacci Numbers and Nature

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Conchas e mãos


Fotografia de Bert Myers

Assim como nós desenvolvemos mãos, o náutilo vai desenvolvendo uma concha em forma de espiral com compartimentos cujo número aumenta à medida que o molusco cresce.
À semelhança daquilo que se passa na estrutura da nossa mão, também na estrutura da concha do náutilo o número de compartimentos encontra representação na sequência de Fibonacci.

E é verdade que os compartimentos da concha ajudam o náutilo a flutuar, mas haverá uma função equivalente nas nossas mãos, nos traços das nossas mãos?

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Segunda-feira, Julho 11, 2005

O estranho caso da rapariga que parecia gostar de arrastar catálogos de arte gigantescos para casa

Já foi Rebecca Horn, o volume «Cinema e Pintura» da Cinemateca (mais pesado do que a própria mala feita para cinco dias), e , ontem, Fernando Lanhas, a 15 euros no Mercado Ferreira Borges.

Paradoxos de cestos de supermercado

Um anticelulítico e uma tablete de chocolate de leite extrafino da Nestlé.

Sexta-feira, Julho 08, 2005

This was always going to happen

«Those rehearsals for a multiple terrorist attack underground were paying off. In fact, now the disaster was upon us, it had an air of weary inevitability, and it looked familiar, as though it had happened long ago. In the drizzle and dim light, the police lines, the emergency vehicles, the silent passers by appeared as though in an old newsreel film in black and white. […] How could we have forgotten that this was always going to happen?

The mood on the streets was of numb acceptance, or strange calm. People obediently shuffled this way and that […] A woman, with blood covering her face and neck, who had come from Russell Square tube station, briskly refused offers of help and said she had to get to work. [...]

On a pub TV the breaking news services were having trouble finding the images to match the awfulness of the event. But this was not, or not yet, a public spectacle like New York or Madrid. The nightmare was happening far below our feet. […] Down the far end of a closed-off street we saw emergency workers being helped into breathing equipment. We could only guess at the hell to which they must descend, and no one seemed to want to talk about it.

In Auden's famous poem, Musee des Beaux Arts, the tragedy of Icarus falling from the sky is accompanied by life simply refusing to be disrupted. A ploughman goes about his work, a ship "sailed calmly on", dogs keep on with "their doggy business". In London yesterday, where crowds fumbling with mobile phones tried to find unimpeded ways across the city, there was much evidence of the truth of Auden's insight.»

«London after the bombings», de Ian McEwan
(The Guardian, 8 de Julho de 2005)

Via Errância

Quinta-feira, Julho 07, 2005

Não está a ser um bom dia


Londres depois dos atentados
(Fotografia de Bettina Strenske)

Teoria das cores


Tília
Via Dias com Árvores
(em comemoração de primeiro aniversário
e empenhados
na defesa da Avenida dos Aliados)

Até há bem pouco tempo, contra todas as evidências, acreditava que as tílias eram árvores com folhas vermelho-escuras.
Ainda hoje, aliás, penso que há qualquer coisa na palavra, na aparência das letras juntas, ou talvez na forma como soa, que me faz lembrar essa cor.
Curiosamente, em inglês, a palavra «teal», tão parecida, apesar de não designar qualquer espécie botânica, diz respeito a uma cor.
É uma espécie de verde-azulado.
Que não tem nada a ver com vermelho-escuro.

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Bibliotecas

Por exemplo, a de Paulinho Assunção.

Quarta-feira, Julho 06, 2005

Aventuras espirituais


Esther Kahn
Realização: Arnaud Desplechin
Argumento (a partir de um texto de Arthur Symons)
:
Arnaud Desplechin e Emmanuel Bourdieu
Fotografia: Eric Gautier

Nathan (Ian Holm)
The problem for us actors, what we have to succeed in doing, is: to-make-others-believe.
(He looks at her now)
That is why people come to see you. Now, if you tell a big lie, no one will believe you. People don’t go to the theatre to be lied to… But on the other hand, if you just tell the truth plain and stupid, what are you asking us to believe? Nothing at all. So we won’t believe you either.
[…]
So the question has already shifted slightly. Now I can ask: On stage, should I lie or should I tell the truth?

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Terça-feira, Julho 05, 2005

Aproveitando-me dos bons posts dos outros

À laia de comemoração do aniversário de dois blogues particularmente do meu agrado, roubo para aqui dois posts especiais, que vão ficar na minha memória:

Existimos de forma concisa

num gomo de laranja, no feixe
de luz oblíquo ao parapeito da janela,
nas superfícies das paredes que sobem
até ao tecto da casa, no vidro outrora
e na gota de chuva e quando cessa a chuva
no troar das andorinhas,
existimos de forma
concisa
não tendo o mundo outra forma de existir
Sandra Costa


À suivre
Estamos só a ensaiar. É só um jogo. Podemos perder. A vida verdadeira vem depois. E não é bem depois. É a seguir . Como numa novela de continuação. Agora as unhas afundam-se no braço sem que doa.
Luís

Segunda-feira, Julho 04, 2005

Lídia esteve lá


Parede da Faculdade de Ciências do Porto
Via
Errância

Por lapso, quiçá freudiano, no post que escrevi sobre esta... inscrição, substituí «fraca» por «cansada».
(Nem eu nem o post temos emenda.)

Domingo, Julho 03, 2005

Segredos na cegueira

No livro Duelo, de Luís Quintais (Cotovia), achei particularmente interessantes as variações e os percursos em torno dos temas «luz» e «sombra».

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A luz com que se vê

Neste livro, as imagens são referidas como «figuração da luz» (p.69). No entanto, a luz pode representar a extinção das imagens:
«A respiração do mundo comprometia a beleza que se exilava para sempre no escuro.»,
«A luz destruíra o que a sua vontade de demonstração exigira. Inacessível luz sonhada sob os auspícios da luz destruidora. (p.22);
ou ser encarada como uma armadilha:
«Mr. Hopper explorava acidentalmente o mundo./A luz, uma armadilha. A cor, sua mortal tradução.» (p.99).

Para além disso, há segredos na cegueira. Numa pintura de Klee, a luz com que vemos pode vir de um peixe cego, que, portanto, vive na escuridão:
«para este peixe que não vê,/que nos traz a luz/com que vemos» (p.100)

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A obscuridade em que se medita

No poema «Firmamento» (pp.30-31) esboça-se a história de alguém que, numa festa ou convívio social, é arrastado para um quarto escuro em que existe um espelho a partir do qual é possível observar os outros. Nesse texto encontramos os seguintes versos:
«e a tua inclinação por ideias de ordem/desvia-te para um lugar escuro, silente».
Noutros passos, deparamos com o arrastamento do sujeito «em direcção ao escuro» (p.19).
Para além do movimento do sujeito impregnado da mudança em que vai existindo e avançando, é possível detectar o próprio deslocamento da treva, que, por sua vez, desencadeia outro(s) deslocamento(s):
«Mudada a chuva,/mudado o tempo,/mudado o azul./A treva desloca-se./Medito-a.» (p.28).

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Entre a luz e a sombra

Entre a luz e a sombra há caminho, movimentos, reflexões, desvios, deslocamentos. Duelos, enfim.
E à semelhança do mecanismo através do qual a luz pode rapidamente dar lugar à sombra (e vice-versa), também no mecanismo da escrita destes textos é fácil encontrar uma coisa a dar lugar a outra («No lugar do perigo pôr o azul.» (p.39), recebendo o próprio leitor advertências acerca desta instabilidade:
«Aquele que me lê/deverá acreditar://deverá acreditar que eu vivo/perscrutando as águas/mas dentro delas» (p.84)
O sujeito encontra-se frequentemente dentro e fora, ou ao lado, do objecto da enunciação, sempre em mais do que um lugar, deslocando-se permanentemente ao correr do texto.

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Duelo

O poema que dá o nome ao livro não fala de luz e sombra, mas incorpora, também ele, este mecanismo de deslocamento. O sujeito assiste à cena (o duelo), à consequência (o remorso), e algo nele se move. São três momentos, quase quatro:
«Onegin estilhaça o cérebro do amigo/a uma distância de incertos passos://assisto ao seu remorso/e invejo esse remorso.» (p.91)

O quarto movimento, não verbalizado, representa a própria escrita do poema.
Estando implícito neste movimento não verbalizado a ambição da poesia - não (só) dizer, mas (também) ser o que enuncia:
«Mas sobre isso nada dirás./Um dia tu serás/o emudecido grito/que ela ensina./Para lição de ninguém, serás.» (p.20)

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Perder a Sombra
de Rui Chafes

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Sábado, Julho 02, 2005

Deícticos para mentes ociosas (2)

Por coincidência, outra dúvida, entretanto, me surgiu relativamente ao advérbio «aqui».
Num destes dias, na Foz, junto à marginal, alguém gritou de um carro em andamento:
«Aqui vou ser feliz!».
O rapaz tinha bons pulmões, mas eu fiquei a pensar.
«Aqui», onde?
Onde?
Na Foz? No Porto? No Fiat que se afastava a grande velocidade? Em Portugal? No planeta Terra? No Sistema Solar?
Ou estaria ele simplesmente a praticar para um casting num anúncio publicitário de empréstimos bancários?
Que vaga é a nossa linguagem.

Sarah Morton descobre o Messenger

Esse mundo de abreviaturas, quase sem maiúsculas, onde é preciso digitar com a rapidez com que Clint Eastwood disparava.
Qual Faroeste de ícones emocionais, com opção possível por fundos de ecrã com gatos de chocolate que pescam.
‘Há uma rua em Paris que se chama «Le chat qui pêche», sabias?’, acrescenta.
Eu digo-lhe para não se esquecer de terminar todas as mensagens com o smiley do palhacito.

Sexta-feira, Julho 01, 2005

Horas de almoço

Era o início do Verão. Vinha a brincar com uma folha seca que tinha apanhado no ar.

Deícticos para mentes ociosas

Alguém escreveu isto numa das paredes da Faculdade de Ciências:
«E é aqui que me sinto cansada e com vontade de conversar.».

Que significa ou refere este «aqui»?
Será que aquela que escreveu a frase quis dizer «aqui, junto a esta parede virada para o café Piolho»?
Não terá sido antes qualquer coisa como «é aqui, neste momento, nesta fase, agora, que me sinto cansada, e com vontade de conversar»?

Nesta frase, «aqui» é um advérbio de tempo ou de lugar?

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