seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Segunda-feira, Maio 30, 2005

São só dezanove dias



Visito o site da Feira do Livro do Porto.
Em relação ao ano passado, nem sequer uma nuance diferente na pálida cor.
Mas ignoremos questões de design e aparência.
Preciso de informação, e clico sobre o separador «Livro do Dia».
Na Feira, em geral, todos os stands apresentam pelo menos um livro do dia, e, às vezes, algumas promoções. Aqui, não encontro mais do que sete títulos.
Nenhuma imagem, claro. Nenhuma. Zero, nada.
Primeiro título da lista: Exorcistas e Psiquiátras [sic].
Ignorámos o design, senhores editores e livreiros. Mas ignoramos também questões relacionadas com correcção ortográfica, dinamismo promocional, discernimento, simples informação.
É assim tão difícil disponibilizar na Internet uma lista legível e fiável de títulos em destaque na Feira?
Organizem-se.

Terça-feira, Maio 24, 2005

Esperando esperando esperando



Que o fim-de-semana prolongado chegue depressa para eu poder ir para bem longe deste e doutro computadorzito.

Sarah Morton fica por cá, mas, hélas!, não pode actualizar o blogue.
(E escusa de continuar a insistir, porque eu não lhe digo qual é a password.)

No nosso regresso, vamos tentar usar menos diminutivos, e escrever posts com mais de cinco de linhas.
Believe it or not.

Segunda-feira, Maio 23, 2005

Ler não morde?

Já está transformado em entrada para a Feira do Livro o portão principal do Palácio de Cristal.
Passo por lá, e leio, a letras brancas em fundo preto, naqueles panos acastanhados, perfeitamente horrendos:
«Ler é natural

Estamos sempre a aprender.

A minha primeira enciclopédia de gatos

Comprei uma enciclopédia de gatos.
É verdade que antecipo muitos momentos de fruição graças à descrição da personalidade típica de cada uma das raças que mereceram a atenção da autora, mas o que realmente me convenceu a adquirir o volume foram imagens com legendas como estas:

«Young cats are mischievous.»

«Kittens are playful and inquisitive, and can leave a trail of destruction in their need to satisfy this urge

«Avoid force – it’s better to entice the cat to come along

«No

Domingo, Maio 22, 2005

Possibilidades de fuga


Na exposição Far Cry
de Paulo Nozolino

Procurar o que resta do sofrimento. (Nem que sejam crianças perdidas.)
Se ficou, foi porque foi mais forte do que o sofrimento.

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Estação de Campanhã, 17.16

Duas criancitas de arco seguiam a mãe, que levava as flechas.

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Maio

Já não limpava a varanda há tanto tempo que encontrei folhas secas e sementes, daquelas que rodopiam quando progridem através do ar, como nos documentários da BBC.
Essa é que é essa: a minha varanda podia aparecer num documentário da BBC.

Quarta-feira, Maio 18, 2005

Horas de almoço

É possível fazer vinte segundos de batota com o trânsito, o sol, o pó e os jovens executivos, enfiando por um simples carreiro estreito e cheio de raízes, quase paralelo à rua, sob arbustos de camélias sem flor, no Palácio de Cristal.

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De ossos concentrados, concisos, bem fechados

«Pássaro, casa pequena de ossos
espalhados no alvoroço de ventos e marés.»

in Jardins Mínimos e Outros Poemas, de Jacques Izoard, col. Poetas em Mateus, Quetzal Editores, tradução colectiva revista e apresentada por Fernando Pinto Amaral, p.40

(Ok, abastardo o poema.)
Em vez de casa, caixa. Sólida, talvez de madeira. Sem grandes aberturas, portas, janelas, visto que os pássaros não desejam, nem, na realidade, podem dar-se ao luxo de deixar espalhar os ossos. Sendo isto válido para o alvoroço, como para a calma dos ventos e das marés.

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Sim, eu sei.

Todos fartos destas fixações ornitológicas.
Disso, e dessa tua mania de não terminares as frases, Sarah Morton.

Segunda-feira, Maio 16, 2005

Days of Open Hand


de Dieter Appelt

Em que é impossível determinar com total certeza se o perigo é de morte, ou de vida.

Várias fotografias deste autor podem ser vistas na muito interesssante exposição «Fotokunst», Centro Português de Fotografia.

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Domingo, Maio 15, 2005

Escrita criativa

«There is a difference between writing well and masturbation

em «Michael writes a story», (excelente) episódio 34 da segunda época da série Thirtysomething (Os Trintões), em exibição na SicMulher

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Quinta-feira, Maio 12, 2005

Dentro da embalagem da edição de coleccionador de "Lulu" de Georg Wilhelm Pabst?

Look again.

Ouvido na rua

O que é que as pessoas querem?
Milagres?

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Quarta-feira, Maio 11, 2005

Good evening. This is your captain.

No concerto da semana passada, Laurie Anderson contou uma história sobre um astronauta holandês.
Este astronauta trabalhava num aeródromo muito ventoso onde era costume prender pedregulhos pesados aos aviões que não estavam a ser usados, para que estes não fossem arrastados pelo vento.
Mas o astronauta de Laurie Anderson tinha ficado famoso por levantar voo sem se lembrar de desprender o pedregulho que ele próprio tinha atado ao veículo.
Por acaso, uma estação de televisão estava a filmar o aeródromo nesse dia, e fez questão de divulgar as imagens.

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We are about to attempt a crash landing.

No filme Primavera, Verão, Outono, Inverno... Primavera, um dos momentos mais importantes é aquele em que a criança se entrega a uma brincadeira que consiste em amarrar uma pedra a um peixe, uma cobra, e uma rã.
Nada como aquelas imagens de pequenos animais a esforçarem-se por avançar, apesar do peso que os prende à terra, para nos ajudar a compreender a lei da gravidade sem sisifismos escusados.

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de Fernando Lanhas

Se os animais morrerem por causa da tua brincadeira, passarás a carregar aquelas pedras sempre contigo, no teu coração.’, diz o monge à criança.
(E dois dos animais morrem.)

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Terça-feira, Maio 10, 2005

Protecção

Não bastava andar sempre com a pulseira chinesa cor-de-rosa na carteira.
Não.
Era preciso trazê-la no pulso.

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Cerca de quinhentas páginas de mil duzentas e tal


Moça com Pássaro
de Reynaldo Fonseca
(via O Século Prodigioso)

Falsas partidas, letras incompletas, páginas transviadas, uma crise potencialmente catastrófica, fantasias pouco hitchockianas com pássaros, duas canetas vermelhas e meia, bolo de amêndoa, enumerações, várias garrafas cheias de água há meses em cima da secretária.

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Maldito subaproveitamento da banda desenhada

Poder trazer, de vez em quando, uma nuvem negra por cima da cabeça.
Acompanhada de dois ou três relâmpagos.

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Segunda-feira, Maio 09, 2005

Informações úteis


Garrulus glandarius

Moram pelo menos dois gaios no Jardim Botânico do Porto.

Os gaios não são muito seguros de si.
Às vezes andam aos saltos pelo chão, emitindo sons estridentes. Mas têm sempre uma estratégia de fuga debaixo da asa, pronta para ser posta em acção.

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Cratylia floribunda

Tinha encontrado a referência por acaso.
Floribunda parecera-lhe, estupidamente, uma espécie de contracção entre «flor» e «furibunda». Como na frase «Há pessoas que não ficam furiosas, mas floribundas.», não sei se estão a ver. Pessoas que tivessem, por assim dizer, a fúria de uma flor.

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This tiny owl



É preciso ter muito cuidado com as pessoas que medem só 160 cm. Passam muitas vezes despercebidas. E podem facilmente desaparecer. Por trás de um armário, numa frincha do chão.
Sobre esta, nem tentar dizer mais do que isto:
houve uma coruja que cantou um dueto com ela durante um concerto ao ar livre numa colina de Itália.

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Quinta-feira, Maio 05, 2005

Compraste outro casaco branco, Sarah Morton.

Parece que gostas de te expor à poeira do mundo.

Terça-feira, Maio 03, 2005

Fora do lugar



«A dor é uma desordem inimiga
das palavras com o silêncio todo fora
do lugar
. [...]»

Rui Pires Cabral
in Longe da Aldeia, Averno, p.32

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Segunda-feira, Maio 02, 2005

Vidro

Um frasco de perfume, um boião de mel, e uma garrafa de licor de amora.
Bruxaria, não.
Tudo para reciclar.

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Um melro no telhado

por onde os gatos costumam passar.

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Arc-en-ciel

Como no fim de um filme falhado de Peter Greenaway, hoje de manhã, as pessoas tiveram de despedir-se à luz do arco-íris.
Apesar disso, esperavam conseguir fazê-lo sem mortos, feridos, recheio de corpos com livros, ou mutilações.

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