seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Sexta-feira, Abril 29, 2005

Mas amanhã tem de se levantar a horas de ir trabalhar

Sarah Morton podia facilmente passar a noite toda a ouvir nonstop só duas faixas, com os títulos «The Garden is Becoming a Robe Room» (6:05) e «An Eye for Optical Theory» (5:09).
Podia, pois podia.

Quinta-feira, Abril 28, 2005

There is a god


Capa de Strange Angels,
de olhos fechados

Considerem-se avisados: os portuenses andam a comprar bilhetes às carradas, e com três meses de antecedência.
Foi isto que descobri, feita parva, mais ou menos trinta dias antes do primeiro espectáculo de Laurie Anderson nesta inesperada, surpreendente cidade.
E hoje, nove dias antes, todas as esperanças arruinadas, em vez de vagamente incrédula, estaria ainda bastante chateada se os funcionários do Teatro S. João não tivessem feito uma limpeza no sistema de reservas, conseguindo milagrosamente desencantar-me dois bilhetes para o dia desejado.
Abençoados.

Corrente quebrada

Vê lá se atinas, Jorge.

Quarta-feira, Abril 27, 2005

Antes de saber escrever

Felizmente, no número mais recente da revista Ler há uma entrevista a Frederico Lourenço anterior ao lançamento da tradução da Ilíada .
É verdade que também ali encontramos algumas referências a esta tradução, mas sempre integradas na actividade criativa global de Frederico Lourenço, professor, tradutor e escritor.
Para mim, há dois momentos particularmente interessantes nesta entrevista.

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O primeiro é este:

«Estávamos em Oxford, e eu não sabia ainda escrever, mas queria escrever cartas às minhas avós. Portanto, imitava a caligrafia dos meus pais, mas sem saber escrever.» (p.30-31).

Tem a ver com a expressão do impulso criativo através de um desejo de escrita anterior à própria possibilidade de inscrição da palavra no papel.
O desejo é tão forte que desencadeia o fingimento.
Mesmo antes de existir, a escrita anuncia-se como movimento (em) que é necessário fingir.
Sendo à partida evidente que é imprescindível imitar os outros para se fingir que se escreve com credibilidade.

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O segundo momento é este:

«E, de repente, em vez de sentir asco em relação ao que estava a fazer na tradução da Odisseia, senti prazer. Aí foi tudo a eito.» (p.40)

Aqui fala-se de tradução (o problema da imitação continua presente), mas o que está em causa continua a ser o impulso criativo.
Assistimos à afirmação da criação como prazer que vence o asco que poderia conduzir à destruição do trabalho.
Conseguimos até localizar os instantes intermédios em que a criação é ainda só asco, antes de começar a transformar-se em prazer.

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Fingimento, imitação, frustração, transformação

(Lavoisier dizia: nada se cria.)
Quando criamos, fingimos, imitamos, ficamos descontentes. E, às vezes, transformamos.

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Desenho
de Helena Almeida

Talvez aquilo a que chamamos criação não seja mais do que a vontade de (auto)destruição transformada.

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Terça-feira, Abril 26, 2005

Lei de Lavoisier

E a frase era:
«Na Natureza, nada se cria, nada se perde: tudo se transforma
Acho que ainda era pequena da primeira vez que a ouvi. (Usaram-na para explicar qualquer coisa, e lembro-me que, imediatamente a seguir, me advertiram, em tom severo, que o autor não era «religioso».)
Deve ter sido uma das primeiras frases com que andei às voltas.
Tudo se transforma.
Na altura, pensava muito nisto.

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Ash_berry

Era uma pessoa tão cansada, tão cansada, que, em vez de John Ashbery, lia e escrevia sempre John-baga-de-cinza.

Sim, de cinza.

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Histórias da Internet

Era outro blogue. Sem citações e quase nenhuma imagem.
Depois fazia um link para o teu.
E tu tinhas de descobrir que a autora podia ser eu.

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Segunda-feira, Abril 25, 2005

Desenha o que vês.


em The Draughtsman's Contract
de Peter Greenaway

Mas saberás que estavas cego perante todas as imagens que criaste.

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Quinta-feira, Abril 21, 2005

Este post é sobre L'Atalante

Também me interesso por aquilo que as imagens não deixam ver. Mas que fique bem claro: tudo o que há para ver está nas imagens.

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... 'As imagens são o que se vê, o que está lá. Como as tatuagens no corpo da personagem de Michel Simon, são o próprio corpo. São o que são; não simbolizam nada.',
disse Saguenail, a propósito do suposto papel simbólico dos gatos neste filme.

E é verdade que a gata olha para nós.
Mas não está a confirmar se percebemos bem.
Não se importa.

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Quarta-feira, Abril 20, 2005

Der Stand der Dinge

Neste inesperado período de suspensão de obsessões alimentares, Sarah Morton tem procurado distrair-se com sucessivas aquisições de brincos com formatos duvidosos.

Coisas que acabam por ter mais piada do que se esperava

O volume que Faulkner não chegou a escrever, um livro de estampas japonesas para colorir, beco(s) sem saída, Jorge Palinhos persistindo em ignorar-me.

Terça-feira, Abril 19, 2005

Basta que o tempo passe, que a noite avance, que o mar acalme



Lançamento no Porto
Longe de Manaus
de Francisco José Viegas

Quarta-feira, 20 de Abril
às 18h30
no Pub Bonaparte
Avenida Brasil (Foz)

Apresentação: Manuel Jorge Marmelo

Um romance policial, como se sabe, tem as suas regras.
Este não tem.

Segunda-feira, Abril 18, 2005

E eu, eu respondo a tudo direitinho

Esta menina arranja-me cada uma!

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Suspeito que seria um livro pequenito. Poucas páginas, e tal. Por exemplo, Marca de Água, de Joseph Brodsky, Clepsidra, de Camilo Pessanha, Um Amor Puro, de Agustina Izquierdo (P. Quignard), O Banquete, de Platão, ou O Corpo Enquanto Arte, de Don DeLillo.

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Apaixonadíssima pela Gudrun de Women in Love, de D. H. Lawrence. Nunca mais consegui esquecer um certo vestido de seda azul-escura que ela usava com meias verde-esmeralda.

Qual foi o último livro que compraste?
Birds of America, de John Audubon (Taschen). Não foram só os pormenores sinistros no meio das aparentemente inofensivas imagens das avezinhas que me convenceram.

Qual o último livro que leste?
Deve ter sido a antologia de William Carlos Williams da Assírio&Alvim, repescado a metade do preço no dia da Poesia.

Que livros estás a ler?
Ando às voltas com o volume da colecção Poetas em Mateus dedicado a John Ashbery.

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Talvez levasse só oUlisses, de James Joyce. Sendo o único livro comigo, ia acabar por conseguir lê-lo do princípio ao fim.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?
Por curiosidade pura e dura:
- à Ana;
- ao Rui Amaral;
- ao Jorge Palinhos.

Aquele que constrói ninhos em campos abandonados


Common Grackle
(John Audubon)

«The common grackle eats everything, starting with acorns, nuts, fruit, and grains – on whose harvest it can wreak havoc. It feeds on insects, digs in the soil for earthworms, and even ventures into the water to catch fish and frogs. Fearless, it will go into the nests of other birds and catch bats and small birds in flight

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Sexta-feira, Abril 15, 2005

Uma silhueta branca rompendo o nevoeiro



Se olhares a sério para a água, vais conseguir ver aquele que amas.

A ver se escrevo sobre o filme na próxima semana.

Quinta-feira, Abril 14, 2005

Out, out, out

Outra vez a respirar mal.
Dantes, ouvia uma canção de Kate Bush que ensinava a respirar assim: out, in, out, in.
Às vezes, resultava.

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O contrário de desesperados

Frutos secos, entre o chocolate amargo. Mais ou menos esperados.

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Vinha a ler

A revista Beaux Arts e John Ashbery. Acho que em algum lado se falava dos olhos de leproso do amor.

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Vai a correr


Pensa que um erro ficou por corrigir.

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Segunda-feira, Abril 11, 2005

Ok: três semanas.

E ainda não voltámos a sério.
Para dizer a verdade, andamos com mais vontade de ler, de ouvir música e de passear por jardins do que de actualizar o blogue.

De vez em quando acontece.

Recados em atraso

Enquanto estive ausente, fizeram anos alguns dos meus blogues preferidos. Todos eles, cada um à sua maneira única, contribuem para melhorar a minha vida.
As celebrações de aniversário são sempre boas oportunidades para dizer isto: obrigada.

- A Montanha Mágica;
- A Vida dos Meus Dias;
- Bomba Inteligente;
- Fora do Mundo.

Livros que fazem os alarmes disparar


Antígona
(trad. Margarida Vale de Gato)


Se tiverem de passar por dispositivos com alarme, este é o livro errado para trazer na mala.

«[…] I am tired of the children,
I am tired of the laundry, I want to be great.

The fog pours across the underbrush in silence.
We are sealed in. The only way out is through
fire, and I do not want a single
hair of a single head singed

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Atenção, atenção

Às quintas-feiras, 19h30, no Anfiteatro Nobre
da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Le cinéma aux prises avec la poésie

14 Abril L’Atalante, de Jean Vigo
21 Abril La règle du jeu, de Jean Renoir
28 Abril Le testament d’Orphée, de Jean Cocteau

Selecção e apresentação: Saguenail