No
MilFolhas desta semana podemos encontrar um interessante
artigo de Frederico Lourenço a propósito das referências clássicas presentes nos poemas de
Aracne, de António Franco Alexandre (Assírio&Alvim).
Depois deste artigo, é ainda mais interessante constatar que um dos traços que distinguem este livro de António Franco Alexandre tem a ver com a circunstância de nele o texto ser capaz de se descentrar retoricamente em direcção a algo que não é só literatura.
Não será por acaso que o sujeito destes poemas não é uma aranha, mas um aranhiço.
O aranhiço sabe que tem de viver na e da literatura que o tece enquanto é tecida, mas a sua condição menor conhece e enuncia as limitações deste estatuto:
«
Já me cansa, senhor, ter sido feito
metáfora ou provérbio de má sorte;
ser mera imagem pouco me aproveita
quando me alcança o bico predador,
e ainda à dor banal se me acrescenta
o sofrimento de não ser real.» (p.27).
Os versos de
Aracne que mais recordarei são aqueles em que está evidente esta tensão entre a literatura e o real. Sobretudo porque, neste livro tão
literário, em vez do tradicional tópico do amor e/ou dos feitos heróicos transfigurados e imortalizados pelo canto, encontramos algo diferente (ainda que não completamente o seu reverso): a literatura que, sim, ainda «
é puro cristal, como os da neve, abstracto,/tão claro como o mero abecedário/onde as palavras falam, sem barulho», mas que, apesar disso (?), é susceptível de ser seduzida, de desejar e cortejar a mortalidade. De se mover, ironicamente, em direcção à mortalidade.
«
Bem sei que o corpo humano é frágil, imaturo,
um tanto mole, e pouco colorido;
[...]
mal chega a florescer, logo envelhece,
e o pouco que constrói cedo parece,
transfigurado em sombra, não ter sido.
Assim serei também; por mais que digam
Que nesta mutação me desperdiço
E arrisco até uma burlesca queda,
Eu teimo em ser humano por um dia
Para que possas ver-me tal qual sou» (p.46)