seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Terça-feira, Janeiro 25, 2005

Para nossa própria segurança


A Concise Definition of Answers
da série Pendle Witches, de Paula Rego (1996)

Houve pelo menos uma coisa no filme La Niña Santa, de Lucrecia Martel, que me fez recordar a pintura de Paula Rego.
Há quadros de Paula Rego cujo aglomerado de imagens sentimos necessidade de vigiar com muita atenção, pois não conseguimos deixar de suspeitar que ali deve estar a acontecer algo que não podemos dar-nos ao luxo de perder, para nossa própria segurança.

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Um hotel não é sítio onde se eduque uma menina

Em La Niña Santa encontramos um sobrepovoamento visual igualmente inquietante. A maior parte da acção desenrola-se num hotel cheio de personagens em diversas actividades, de portas que se abrem e fecham para mais personagens chegarem, ficarem, espreitarem, desaparecerem ou partirem, de ecos e sons de origem duvidosas, e vozes por todo o lado a dizer a verdade e/ou a contar mentiras.
Este hotel, para além de não ser um sítio onde se eduque uma menina de família, como salienta uma das personagens, também nos transmite a sensação de que abriga ou esconde algures acontecimentos ou dados decisivos. Apesar de nos negar a certeza de estarmos a conseguir localizá-los com precisão naquelas figuras fragmentadas pelos enquadramentos e pela abundância de movimentos e imagens.

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A certeza e a suspeita

Em parte, esta suspeita de estarmos a perder alguma informação crucial coaduna-se também com as linhas de força deste filme que tem como personagem principal uma adolescente (Amália) em busca de uma vocação ou missão santa, e que a procura incansavelmente em cada acontecimento, gesto ou palavra até a encontrar na ambígua figura de um médico vagamente pedófilo que decide salvar.
Como Amália, também nós procuramos algo por todas as imparáveis imagens. Apenas com a diferença de ela ter a certeza da missão e de Deus, e nós não.

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A concise definition of answers

Em entrevista, na sequência da discussão de um sistema de pensamento que acredita que Deus fez tudo na forma de um plano, Lucrecia Martel disse isto:
«Mas quando, por vários caminhos, alguém chega à conclusão que não existe tal Arquitecto, pelo menos em termos de “vontade divina”, o mundo revela-se no seu mistério, na sua injustificada existência
E, neste filme, é verdade que o mistério do mundo se revela concisamente, sem história e sem missão, naqueles planos finais de dois corpos adolescentes suspendendo e menorizando a narrativa enquanto flutuam numa piscina de hotel.
(... Era esta a resposta que procurávamos nas imagens?)

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Segunda-feira, Janeiro 24, 2005

Alguém?

Alguém presente no sábado à noite no Rivoli consegue acreditar que Manoel de Oliveira tem 96 anos?
Por mim, continuo ainda hoje a duvidar bastante, apesar de ele ter reconhecido que era o «realizador mas antigo do mundo». No entanto, se duvido da idade dele, não tenho a menor dúvida que estive ali perante um ser de excepção.
... Dois seres de excepção, aliás (Fernando Lopes também estava lá), numa situação dificilmente repetível: antes da projecção dos filmes Belarmino e Douro, Faina Fluvial,
no encerramento da semana de cinema português (4+1) com selecção a cargo de Manoel Oliveira.

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Um filme falado

Nitidamente comovido pela eleição de Oliveira para o encerramento do ciclo, Fernando Lopes falou do papel fundador de Douro, Faina Fluvial no contexto do cinema português. E também do seu estatuto mítico: Fernando Lopes só em Londres acabaria por conseguir vê-lo pela primeira vez, pois, nos tempos de Salazar, não era possível ver o documentário em Portugal; mas Douro, Faina Fluvial, ainda que não visto, ainda que invisível, foi um filme muitíssimo falado e discutido pela geração deste realizador.

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Força pura


Fotograma de Douro, Faina Fluvial

De resto, não me parece que seja apenas Douro, Faina Fluvial a ter um estatuto mítico. Os mais cépticos que me desculpem: discurso, atitude, aparência, postura desmentem que Manoel de Oliveira seja feito, como nós, de matéria mortal.
No sábado, referindo-se a este filme, Oliveira dizia que, quando o vê, já não consegue perceber as imagens, mas só a energia da juventude que tinha quando as captou e procurou encadear num todo coerente. E eu acho que é com essa mesma impressão de emaranhado de forças puras que ficam as pessoas que vêem Oliveira e o ouvem falar.

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Quinta-feira, Janeiro 20, 2005

A possibilidade celacanto



O celacanto é um peixe que apareceu na Terra há 400 milhões de anos, mas que, até 1938, quando foi redescoberto ao largo das ilhas Comores, no oceano Índico, se pensava estar extinto há 80 milhões de anos.
Oitenta milhões de anos.
Conta-se que o cientista que o identificou começou a tremer da primeira vez que o viu, tal foi a comoção. E que a sua gratidão em relação Marjorie Courtenay-Latimer, a pessoa que tinha localizado e preservado o espécimen, chegou ao ponto de o levar a usar o nome dela para designar o peixe: «Latimeria chalumnae».

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Curiosamente

Courtenay-Latimer comprava muitas vezes peixes invulgares para a colecção de um museu na África do Sul, mas não identificou de imediato o estranho peixe azul que um pescador lhe mostrou no porto.
Nenhum taxista queria levar a grande carcaça malcheirosa para preservação nas instalações do museu, mas ela insistiu muito, pois achou que havia qualquer coisa especial naquele peixe.
Reparem: ela não o identificou, não sabia que peixe era.
Toda a gente acreditava que o celacanto estava extinto há 80 milhões de anos, mas o cientista não excluiu a possibilidade à partida.
Sem embrulhar mais, aquilo que estou a tentar dizer é que acho que... é que talvez não seja totalmente de pôr de parte a possibilidade de... de, de vez em quando, também tropeçarmos num celacanto ou outro, ao longo das nossas vidas.

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Marjorie Courtenay-Latimer e celacanto

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Além disso,

O celacanto é um fóssil vivo. Porque não sofreu grandes alterações ao longo destes quatrocentos milhões de anos, é considerado um parente próximo do primeiro peixe que saiu da água. E os cientistas pensam que a sequenciação do seu genoma pode ajudar a compreender as alterações genéticas que acompanharam a transição dos seres vivos da água para a terra.
Isso significa que esta história vagamente misteriosa não vai ficar por aqui.

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Terça-feira, Janeiro 18, 2005

Dreaming of some lost evening


Girls on the Jetty
Edvard Munch

«And we have come,
Despite ourselves, to no
True notion of our proper work,
But wander in the dazzling dark
Amid the drifting snow
Dreaming of some

Lost evening when

Our grandmothers, if grand
Mothers we had,
stood at the edge
Of womanhood on a country bridge
And gazed at a still pond
And knew no pain

Do poema «Girls on the Bridge», de Derek Mahon
(Vale a pena ler o texto integral)

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Arrojamento

«O aparecimento de golfinhos ou baleias nas praias, designado por 'arrojamento', é um fenómeno habitual e pode acontecer por doença, ferimento, problemas de orientação ou pela acção humana
De um artigo no Público

Não esquecer, nunca esquecer: procurar a terra pode ser um erro a evitar.

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Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

A luz que não desrespeita as sombras

Eu penso que a nossa normalidade tem zonas obscuras. Aquilo que somos quotidianamente também é formado pelo que não dizemos, pelo que não contamos e não revelamos. E, para mim, Bergman é o grande cineasta desta normalidade escondida.
Não vejo as personagens de Bergman como «seres excepcionais». Parecem-me apenas seres humanos normais, filmados nas intensidades que geralmente não são reveladas.
Nós somos todas as personagens dos filmes de Bergman, mesmo as mais humilhadas e amargas, mesmo as mais cruéis. Sentimos como elas sentem. Vivemos coisas tão más como elas viveram. E somos, como elas, imaturos e antigos, ao mesmo tempo.

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Num filme como Sarabanda, encontramos mecanismos de aproximação a esta obscuridade: por exemplo, acontecimentos que são narrados em diferido (a violenta discussão entre Henrik e Karin, a tentativa de suicídio de Henrik), colocados fora de cena (o grito de Karin na floresta), ou que parecem inesperados (a visita de Marianne, trinta anos depois do divórcio; o ataque de ansiedade de Johan).
E é nesta aproximação que há, de facto, algo de extraordinário: o indizível e o invisível passam pelo filme, mas são capazes de regressar por si ao silêncio (Johan, por exemplo, deixa de querer falar com Marianne) e à escuridão, porque se mantêm intactos. Tão intactos como o corpo de Liv Ullmann despindo-se na sombra. Tão intactos como, no rosto enrugado de Liv Ullmann, os olhos azuis, que vêem tudo, mas não têm tempo nem idade.

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Fora do tempo


do filme Persona, de Ingmar Bergman

«Comecei, aos 25 anos, a interpretar mulheres com quase 40 anos, portanto, agora devia ter uns cem, cento e tal anos... Mesmo neste filme, ele queria que eu fosse mais velha do que a personagem deveria ser, 30 anos depois de "Cenas da Vida Conjugal". Interpretei mulheres muito maduras toda a minha vida pelo que, quando me tornei mais velha, não podia ir muito mais longe

Liv Ullmann, em entrevista de Kathleen Gomes

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Quarta-feira, Janeiro 12, 2005

A suspensão dos violinos


Half-violin

Dantes era assim: saía da Leitura, olhava para o céu, sem querer, e no caminho encontrava, por acaso, os violinos.
Enganava-me a mim mesma.
Fingia que não ia à Leitura só para os ver suspensos do tecto de um apartamento sem cortinas na janela, num prédio em frente.
Mas, um dia, olhei para cima e só encontrei um letreiro a dizer «Aluga-se». Em vez dos violinos. Tinha vivido ali um construtor ou afinador que decidira levá-los para paradeiro incerto, sem dizer nada a ninguém.
E, tantos anos depois, já não estava mesmo à espera de os reencontrar, durante uma viagem de comboio, na página 151 de uma edição especial da revista Geo.
Ali estavam eles, silenciosos e contidos, sob os céus instáveis da Irlanda, suspensos do tecto de uma casa com todas as paredes transparentes, algures num jardim aparentemente despovoado, e com o homem que os levara.

A legenda da imagem dizia assim: «Samuel Stevenson afina o violino que construiu. Uma estufa é a sua oficina.».

Samuel Stevenson, por esta imagem foste perdoado.

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Four Violins

Suspended violins cast of rammed earth and cast concrete and lead are silent instruments of the earth.

Esculturas de Andrea Wasserman

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Terça-feira, Janeiro 11, 2005

As palavras mais poderosas

A Cambridge Dictionaries Online publica todos os meses um Top 20 de palavras mais procuradas via Internet (em Dezembro passado, por exemplo, a palavra mais procurada foi «tsunami»), e no fim de cada ano faz um balanço das pesquisas mais solicitadas, e divulga um Top 50 geral.

Numa lista deste género, é bastante normal que substantivos e verbos assumam uma presença maioritária, visto que representam categorias que funcionam como núcleos de significado nos nossos enunciados mais frequentes.
Das 50 palavras mais procuradas em 2004 neste site, 46 são verbos e/ou substantivos.
Neste contexto de esmagadora maioria absoluta, acaba por ser muito interessante tentar perceber que outras palavras supostamente menos imprescindíveis conseguiram romper esta hegemonia gramatical e marcar presença no grupo das mais poderosas.

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Representantes de minorias lexicais imiscuem-se

Nas seis palavras representantes de minorias lexicais nesta lista há nada mais nada menos do que cinco adjectivos: ubiquitous (20.ª), discreet (26.ª), aware (33.ª), subtle (38.ª), e ambiguous (44.ª).
A julgar por esta magnífica amostra, no início do século XXI, queremos estar em toda a parte, ampliar o conhecimento e a consciência humana, sendo ao mesmo tempo discretos, subtis, e capazes de esclarecer todas as ambiguidades.
Nestas cinquenta palavras há uma única preposição: despite (37.ª posição). Em português, traduz-se geralmente por «apesar de», e relaciona-se com concessões e soluções de compromisso.
A propósito do século XXI, de concessões e de compromissos, ocorre-me, no entanto, um pequeno problema: onde estão as interjeições nesta lista?
Como é possível não haver palavrões nas entradas mais procuradas?

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Segunda-feira, Janeiro 10, 2005

Peso negativo

No MilFolhas desta semana podemos encontrar um interessante artigo de Frederico Lourenço a propósito das referências clássicas presentes nos poemas de Aracne, de António Franco Alexandre (Assírio&Alvim).

Depois deste artigo, é ainda mais interessante constatar que um dos traços que distinguem este livro de António Franco Alexandre tem a ver com a circunstância de nele o texto ser capaz de se descentrar retoricamente em direcção a algo que não é só literatura.

Não será por acaso que o sujeito destes poemas não é uma aranha, mas um aranhiço.
O aranhiço sabe que tem de viver na e da literatura que o tece enquanto é tecida, mas a sua condição menor conhece e enuncia as limitações deste estatuto:

«Já me cansa, senhor, ter sido feito
metáfora ou provérbio de má sorte;
ser mera imagem pouco me aproveita
quando me alcança o bico predador,
e ainda à dor banal se me acrescenta
o sofrimento de não ser real
.» (p.27).

Os versos de Aracne que mais recordarei são aqueles em que está evidente esta tensão entre a literatura e o real. Sobretudo porque, neste livro tão literário, em vez do tradicional tópico do amor e/ou dos feitos heróicos transfigurados e imortalizados pelo canto, encontramos algo diferente (ainda que não completamente o seu reverso): a literatura que, sim, ainda «é puro cristal, como os da neve, abstracto,/tão claro como o mero abecedário/onde as palavras falam, sem barulho», mas que, apesar disso (?), é susceptível de ser seduzida, de desejar e cortejar a mortalidade. De se mover, ironicamente, em direcção à mortalidade.

«Bem sei que o corpo humano é frágil, imaturo,
um tanto mole, e pouco colorido
;
[...]
mal chega a florescer, logo envelhece,
e o pouco que constrói cedo parece,
transfigurado em sombra, não ter sido.
Assim serei também; por mais que digam
Que nesta mutação me desperdiço
E arrisco até uma burlesca queda,
Eu teimo em ser humano por um dia
Para que possas ver-me tal qual sou
» (p.46)

Domingo, Janeiro 09, 2005


Imagem do filme O Espelho, de Tarkovsky

«Todas as coisas que me atormentam, tudo o que não tenho e desejaria ter, que me deixa indignada, enojada ou que me sufoca, todas as coisas que me iluminam e me aquecem, e pelas quais vivo, e tudo aquilo que me destrói - está tudo ali no seu filme; vejo-o como se num espelho. Pela primeira vez na minha vida um filme tornou-se algo real para mim; e é por essa razão que vou vê-lo [tantas vezes]: [...] para que possa realmente sentir-me viva

De uma carta que uma operária de Novosibirsk escreveu a Tarkovsky
(citação retirada do livro Esculpir o Tempo, ed. Martins Fontes, p. 8)