seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Terça-feira, Dezembro 28, 2004

Mantras para a passagem de ano

Em vez de pensar em doze desejos para exigir às badaladas da passagem de ano, habituei-me a seleccionar uma espécie de mantra [blá, blá, blá.....].

Como não é provável que consiga aparecer por aqui antes de 2005, desta vez tenho de escrever este post mântrico mais cedo.
Tão cedo que, para dizer a verdade, ainda não cheguei a uma decisão definitiva relativamente àquilo que vou repetir no momento fatal. Contudo, tenho pensado bastante no assunto, e já consegui reduzir as opções a três hipóteses principais, que desejo partilhar aqui, para o caso de alguém vir a precisar de uma coisa parecida.

E as nomeadas são:

1. Protect me from what I want.
2. Protect what I want from me.
3. Hipóteses um e dois, em alternância tresloucada.

E pronto. Por 2004, acho que é tudo.
Até para o ano.
Tchékhov forever.

Sinais de fogo, os homens se despedem

«O estar a despedir-se, estar de passagem na despedida, esse parece ser o sentimento activo insubstituível (uma contemplação que não sobrevive sem a execução), alimentado pelas várias mortesa poesia é um roubo feito à vida»], pelo morrer antes de morrer, metamorfoses que se decantam [...].»

O excerto citado refere-se aos seguintes versos, de Jorge de Sena:

«Sinais de fogo, os homens se despedem
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas de quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e palavras
ansiosas brasas que se apagam logo


Do artigo «Entre Duas Águas. Sobre os Sinais de Fogo de Jorge de Sena», in A Imperfeição da Filosofia, de Maria Filomena Molder, Relógio D’Água, p.91

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Segunda-feira, Dezembro 27, 2004

Mensagens para ninguém

«Quando eu era pequena e tinha medo ensinaste-me a fazer setas de papel.
E ele foi buscar um caderno e com ar grave arrancou umas páginas, passaram o resto da tarde a fazer setas de papel, atiraram algumas pelas janelas, outras para dentro do quarto. Mensagens para ninguém.
Assim, não tenho medo, disse Ashley.
Atirar setas de papel num quarto escuro para afastar o medo, disse Tom pensativo


De Se nos Encontrarmos de Novo, o romance mais recente de Ana Teresa Pereira, na Relógio D’Água (p.46)

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Quinta-feira, Dezembro 23, 2004

Suspeitas natalícias


Capa de Garrett Price
(19 de Dezembro de 1942)

Corremos o risco de começar a suspeitar que o mundo pode ter embarcado numa euforia natalícia pouco razoável quando chegamos a casa e encontramos na caixa de correio um cartão de boas festas que o nosso próprio condomínio nos enviou.

Depois disso, vamos à Fnac, e está toda a gente a comprar a biografia do Pinto da Costa, e livros do Paulo Coelho, Dalai Lama, Susanna Tamaro e Nicholas Sparks.
Mas nós compramos um DVD de Tarkovski. E não o vamos oferecer a ninguém. É todo só para nós.

Assim, à nossa maneira contraditória e desastrada, também ficamos mais ou menos contentes. E desejamos boas festas a todos os que passarem por este blogue. Mesmo que sejam funcionários da pastelaria Império, na Baixa do Porto, e tenham impensadamente colocado todos os bombons que tinham na montra em caixas com ridículos lacinhos que prejudicam a sua correcta apreciação.

Recados em atraso

1. Muitos, muitos agradecimentos ao Ricardo Gross e ao Francisco José Viegas por terem mencionado este blogue nas suas listas de favoritos. Obviamente, é um prazer perceber que aqueles de que gostamos também gostam de nós.

2. Ana, tinhas razão quando dizias que a tua máquina fotográfica era fenomenal. É muito raro arranjar-se uma capaz de captar a auréola de um gato.

3. A todos os que têm enviado mails de boas festas para o endereço ali de cima: não pensem mal de mim por ainda não ter respondido. Sou mais uma pessoa de mensagens de ano novo. Nada de desesperar.

Quarta-feira, Dezembro 22, 2004

She had grown to her full size by this time


Who cares for you? [...] You're nothing but a pack of cards!

A propósito, este é outro dos meus momentos preferidos de Alice no País das Maravilhas, Ana.
É quase no fim do livro, e pode ser interpretado como o culminar do processo de crescimento de Alice: o momento em que assume o direito de agir e pensar pela própria cabeça.

... Aliás, convém salientar que, apesar de nem sempre nos lembrarmos, também nós temos de ser capazes de fazer o mesmo de vez em quando.

Pura poesia lexicográfica


Romã

fruto da romãzeira, indeiscente, com pericarpo coriáceo, coroado pelo cálice persistente e com interior subdividido por finas películas, formando cavidades com numerosas sementes envoltas por polpa comestível, sucosa e agridoce

Para a Cristina, que está de volta.

in Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

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Quinta-feira, Dezembro 16, 2004

Informações úteis

Vende-se musgo numa frutaria em frente ao Hospital de Santo António.

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Quarta-feira, Dezembro 15, 2004

Amanhã, com o Público


Fotograma do filme Cat People
de Jacques Tourneur

«Irena Dubrovna, a beautiful and mysterious Serbian-born fashion artist living in New York City, falls in love with and marries average-Joe American Oliver Reed. Their marriage suffers though, as Irena believes that she suffers from an ancient curse- whenever emotionally aroused, she will turn into a panther and kill

«A lyrical interpretation of female sexuality, Cat People […] deals with human transformation or, literally, transfiguration. Believing she is possessed by a panther’s spirit, Irena spends hours at the zoo, drawing morbid pictures of large cats transfixed by swords. Thus plagued by lycanthropy, the young fashion illustrator rapidly assumes predatory traits of the feline demons when she falls in love with Oliver. [...]»

Terça-feira, Dezembro 14, 2004

Recordar Veneza até ao fim do ano


técnica mista sobre papel
180x205 cm

Entre cenários vazios e actores sem palco
na Galeria 111
Pintura de Urbano até 31 de Dezembro

E se fosse uma mulher

a escrever nas paredes do Porto, António?

Segunda-feira, Dezembro 13, 2004

Desta vez vou dizer bem da Medeia

Como toda a gente já sabe, a Medeia, no Porto, desde há já algum tempo explora comercialmente o Cine-Estúdio do Teatro do Campo Alegre. Uma óptima ideia que permite exibir oportunamente nesta cidade alguns filmes, que, de outro modo, só cá chegariam com meses de atraso relativamente a Lisboa, e talvez em sessões únicas, ou em horário bastante restrito.
Será nesta sala que, por exemplo, poderemos ver os filmes da série Cremaster. E também é nela que, pelo menos até à próxima quinta-feira, ainda é possível ver o extraordinário filme Autografia, de Miguel Gonçalves Mendes, sobre Mário Cesariny.

Autografia


Aproveito para dizer que o filme de Miguel Gonçalves Mendes está a passar só às 18.30. O volume de trânsito no Campo Alegre é verdadeiramente estarrecedor àquela hora, e quem trabalha tem a vida muito dificultada por este horário, mas o filme vale a pena.
Para também eu conseguir vê-lo, ainda fiz um esforçozito considerável na noite de sexta-feira, atravessando parte do Porto a pé, e basicamente à velocidade da luz.
E olhem que estava muito frio, mas não me arrependi.
No filme, Cesariny fala de tudo um pouco, chegando a fazer confidências bastante inesperadas não só sobre poesia, pintura e surrealismo, mas também a propósito da sua vida pessoal, e, mais do que isso, da sua mundividência.

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E diz coisas assim:

«Sou um poeta bastante sofrível numa época em que o tecto está muito baixo. [Uma época sem Anteros, Pessanhas ou Pessoas em que a sua poesia talvez se diferencie por ser "o miau do gato a quem apertam demais o rabo", e não um "miau, miau"].»

«Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir para casa sozinho; isto é a glória literária à portuguesa

«[Para que é que a vida serve?] Para foder, que é muito bom. Para amar. E para morrer

(Citações retiradas dos textos de Alexandra Lucas Coelho e Elisabete França no Dossier de Imprensa da Medeia)

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O lugar onde as imagens resolvessem encontrar-se


A propósito da retrospectiva da obra plástica de Cesariny no Museu da Cidade de Lisboa, Celso Martins publicou um texto bastante interessante na revista Actual do Expresso desta semana, reflectindo sobre as ligações entre as palavras e as imagens na obra deste poeta e artista plástico:

«[A mostra da produção plástica de Cesariny] está cheia de imagens e objectos que querem ser poemas, do mesmo modo que muitos dos poemas de Pena Capital ou de Primavera Autónoma das Estradas são exercícios de vidência [...] ou uma demanda da imagem

«Nas colagens com imagens e palavras que vemos na exposição, o processo resulta na criação de um lugar mental, um meio caminho onde imagem escrita e palavra visual confluem, se iluminam ou obscurecem em cada caso diferente, buscando um dizer estereofónico, gráfico, só legível no interior de uma fractura da própria linguagem

«Quanto ao automatismo, ele atravessa toda a experiência literária de Cesariny, como se o poema fosse o lugar onde as imagens resolvessem encontrar-se»

«De qualquer forma, no seu caso, o que busca sempre é a imagem mental, a realidade para lá das amarras da 'realidade real', projecto que não é literário nem artístico, mas uma maneira de viver

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Quinta-feira, Dezembro 09, 2004

A manhã tem ouro na boca

Avistada por Jorge Marmelo diante do Teatro de Carlos Alberto, na fachada da casa fantasma.

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E este, inverosímil e distante, continua a ser o meu corpo.

Lamentamos informar que, de momento, a frase do título deste post ainda não está disponível numa parede do Porto.
Procurem-na antes numa página do livro As Não-Metamorfoses, do Alexandre Andrade.
Por mim, coloquei-a aqui porque este livro será lançado amanhã, sexta-feira, às 18.30, na sede do Clube Português de Artes e Ideias (Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 29, 2.º, Lisboa), com apresentação de Alexandra Lucas Coelho e José Mário Silva, que vai explicar porque o considera o melhor livro de ficção portuguesa do ano.

A propósito, o parágrafo iniciado pela frase do título continua assim:
«Como descrevê-lo? Pensa em tristes arremedos de querer e latitude, dotados de moto próprio, imagina muitos destes largados numa praça pública, e admite que um deles é meu

Quarta-feira, Dezembro 08, 2004

Histoire de Marie et Julien


Jacques Rivette e Gaspar (aka Nevermore)

Que ninguém me venha dizer que este não é o filme do ano.

Zut!

O fraseador poético à solta nas ruas do Porto não é Cida La Lampe.

Terça-feira, Dezembro 07, 2004

Quem será o fraseador poético à solta nas ruas do Porto?

Desde fins de Agosto que estranhas frases se vêm misteriosamente espalhando pelas ruas da cidade do Porto.
Atenta ao fenómeno, Lídia decidiu começar no seu blogue uma Antologia de Frases Fora de Mão (ver aqui e aqui).
Associando-se a esta louvável iniciativa, o Seta Despedida publica aqui as seguintes enigmáticas mensagens, recolhidas entre Cedofeita e a zona da Trindade.

(E, Lídia, quanto a estas quatro, não tenho qualquer dúvida de que foi a mesma pessoa que as escreveu. A caligrafia é a mesma. E a homogeneidade do estilo fala por si.)

mas que bem laborais
para a quimera do ogre


em qualquer ponto do percurso
perdeste o discurso


os olhos descobrem os olhos...
depois disso deixou de ser possível continuar a gerir as minhas preguiças

se ainda quiseres,
podemos visitar a Normandia

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As palavras dão cabo da saúde de qualquer um

«[...] O sangue deixa de correr em favor da tinta. O corpo abre e fecha, a pele embrulha-se e desembrulha-se como um papel. [...]»

Segunda-feira, Dezembro 06, 2004

Ligadas pelas suas cicatrizes ou obscuridades


Foto de Daniel Costa

«Enquanto constelação plural, a forma poética não é um todo substancial estável, independente do múltiplo, mas uma unidade em devir através da energia de dispersão/agregação que circula de imagem em imagem conectando-as entre si e ao caos de onde irrompem e a que ficam ligadas pelas suas cicatrizes ou obscuridades. O que é fundamental não é a construção de uma imagem acabada mas o modo como se estabelecem ligações.» (p.13)

«chegar pelo trabalho, pela oficina, à fundura sem fundo das palavras, onde elas tocam a natureza, onde cada imagem expõe o seu nada, que outra imagem vem estancar.» (p.33)

in A Inocência do Devir (Ensaio a partir da obra de Herberto Helder), de Silvina Rodrigues Lopes, Edições Vendaval

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Histoire de Marie et Julien


Dá-me tempo.

de Jacques Rivette

Quinta-feira, Dezembro 02, 2004

Nos dias de hoje


Alguém já pensou no que aconteceria se algumas personagens literárias ou mitológicas vivessem nos dias de hoje?
No livro As Não-Metamorfoses, de Alexandre Andrade, Apolo e Dafne, Actéon e Diana, as Sabinas, Salomé, Paolo e Francesca, D. Quixote e Dulcineia, Werther, Cathy e Heathcliff, e algumas personagens da «Cartuxa de Parma» podem ser observadas em acção nos tempos verosímeis que vivemos, em que a aparência da verdade é tão cultivada.

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Orgia determinística

Os deuses e os heróis apercebem-se desta importância da aparência, claro, e adaptam-se ao contexto como podem, passando a reagir de acordo com aquilo que deles se esperaria actualmente. Tornam-se menos impetuosos, falam no condicional, são sensíveis a interesses, conveniências, alianças ambíguas, e só avançam com cautela.

Em face de paisagem assumidamente falsa e traiçoeira, diz Francesca:
«Avanço usando das maiores precauções, pesando cada passo como uma proposta de aliança. Hesito perante um resvalar, uma súbita anfractuosidade.» (p.67).
Cathy de Wuthering Heights opta por considerar Heathcliff como alguém com quem viveu «bons momentos», e que passará a fazer parte do seu «imaginário» (p.110).
D. Quixote decide orientar «as suas preferências para aqueles autores que não hesitassem em encarar bem de frente a realidade, na sua crueza. Em detrimento de livros que privilegiassem a fantasia e o extraordinário, passou ele a favorecer, pois, aqueles que reflectissem situações da vida quotidiana, e a condição humana na sua faceta mais iniludivelmente terrena, profana.» (p.82).

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A enunciação das verosimilhanças

Em face das aparências que se multiplicam e sobrepõem, também a narração se transforma numa espécie de espelho. A voz da narração reflecte-se frequentemente, e com alguma ironia, a si mesma.
No conto «O Rapto das Sabinas», por exemplo, aproveita claramente para chamar atenção para a indistinção entre ficção e suposta realidade («Este episódio da fundação de Roma insere-se numa época em que a fronteira entre o período mitológico e a História propriamente dita se encontra esbatida e mal definida.», p.41).
E o próprio estilo em que estes textos são (excepcionalmente bem) escritos e trabalhados acaba por funcionar como uma espécie de luz negra que enche de suspeita a sua construção.

Esta voz abre brechas (logo a partir da introdução) na estrutura da superfície, deixando entrever uma outra estrutura, profunda, de intensidades disfarçadas.

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Human kind cannot bear too much reality

A voz da narração adquire alguma subtileza em face destes tempos em que «Algumas pessoas encontram maior motivo de admiração no hábil embusteiro do que no homem íntegro e desastrado.» (p.99), pois emerge também da noção de que, como se diz a dada altura no conto «Erros de Juventude» (a partir da figura de Werther), «A maior parte das pessoas, admita-se, sente-se pouco à vontade com o sublime, o absoluto, o arrebatamento, etc.» (p.95).
No entanto, a sua luz negra mostra «o reverso às palavras do seu discurso, à maneira de pedras que, voltadas ao contrário com um pontapé, revelam uma realidade insuspeitada de vermes e húmus.» (p.15).

Porque o real é absoluto. E a voz suspeita que não só é necessário estar à altura do absoluto, como nós precisamos que nos recordem disso de vez em quando.
Como estes contos fazem.

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