E não clamava

No livro Como se Bosch Tivesse Enlouquecido, de A. M. Pires Cabral (João Azevedo Editor), a morte é um mecanismo de criação poética de textos onde se joga a invocação e a fuga de um sujeito poético que com ela se confronta.
Como enunciar, dizer a morte, «Senhora/dos Dentes Arreganhados», «Senhora dos Mil Ossos», «Senhora do Tempo»?
A propósito da obra de A. M. Pires Cabral, Joaquim Manuel Magalhães falou uma vez do «oposto de uma escrita caótica e pulsional», e é também essa espécie de decoro que encontramos nestes textos. Em face da dissolução e do caos do corpo, o sujeito (re)constrói ainda um reduto de resistência, contenção e coesão.
A morte não traz metáforas delirantes. (Veja-se o próprio título: Bosch não enlouqueceu.) Nos poemas não irrompe a desordem do extraordinário. Em vez disso, é a normalidade que é intensificada e elevada à máxima potência.
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