seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Sexta-feira, Outubro 29, 2004

O problema da roupa branca


«Nymphéas»
Claude Monet, 1908
(Colecção privada)

Conta-se que Monet aprendeu a jardinar na juventude, quando estava triste. E, mais tarde, investia no jardim de Giverny todo o dinheiro que ganhava, escolhendo as plantas segundo as imagens de quadros que já tinha em mente.
E Monet gostava tanto deste jardim que sempre que partia em viagem escrevia a pedir notícias das flores preferidas. Contudo, nos últimos trinta anos da sua vida, foi aos nenúfares e a outras espécies que se reúnem em torno dos lagos que o pintor dedicou a atenção.
Houve até uma vez em que quis colocar num lago algumas espécies consideradas exóticas pelos habitantes da região. Mas sem consequências artísticas de maior, pois os camponeses armaram um grande escândalo, argumentando que as plantas iriam danificar a roupa branca que eles lavavam num ribeiro mais abaixo, e envenenar o gado que ali bebia água. E assim impediram o artista de concretizar esse projecto visual francamente assustador.

Etiquetas:

Quinta-feira, Outubro 28, 2004

Era uma vez...

... um homem que guardava a esperança dentro de um vidro, um vidro de tinta, tinta azul para canetas, um vidro que ele sempre mantinha sobre a escrivaninha, ...

Quarta-feira, Outubro 27, 2004

Aquilo de que ele não faz questão de falar


Cormac McCarthy não costuma aparecer em público, não dá muitas entrevistas, não gosta de chamar a atenção. Tem fama de ser um escritor para escritores. O tradutor desta edição de Meridiano de Sangue escreveu-lhe para tentar esclarecer algumas dúvidas, e ele respondeu com «desenhos explicativos, minuciosos e tão belos». Por tudo isto e muito mais, McCarthy é uma figura de culto. Uma figura de culto que uma vez declarou ao New York Times:
«Of all the subjects I'm interested in [talking about], writing is way, way down at the bottom of the list

Etiquetas:

A brancura e o vazio

Além disso, o livro preferido de Cormac McCarthy é Moby Dick.
Talvez por esse motivo, o orientador da Comunidade achou por bem dar início à sessão com uma citação do capt. 42 deste livro de Herman Melville.

Neste capítulo, que se intitula «The Whiteness of the Whale», o narrador discorre sobre o branco como sendo simultaneamente presença de todas as cores e ausência de cor, que, deste modo, acaba por revelar subliminarmente o vazio do mundo:

«Or is it, that as in essence whiteness is not so much a color as the visible absence of color, and at the same time the concrete of all colors […]? […] Is it that by its indefiniteness it shadows forth the heartless voids and immensities of the universe, and thus stabs us from behind with the thought of annihilation […]?».

E são problematizadas as associações benignas do branco (paz, pureza, santidade,...) como se não passassem de estratégias e artimanhas para disfarçar o medo que este vazio medonho pode suscitar:

«Though in many of its aspects this visible world seems formed in love, the invisible spheres were formed in fright.».

Etiquetas:

A verdade acerca do mundo

Estes passos de Meridiano de Sangue podem funcionar como uma espécie de contraponto ao que Melville escreveu:

«A verdade acerca do mundo, disse ele, é que tudo é possível. [...] e a realidade [...] é um truque de magia num número de ilusionismo, um sonho febril, um transe povoado de quimeras sem analogia nem precedente imaginável, um carnaval itinerante, um espectáculo de feira migratório cujo derradeiro destino, depois de montar a tenda tantas e tantas vezes em tantos baldios enlameados, é tão indescritível e calamitoso que o espírito humano não consegue sequer concebê-lo.» (p.290)

«Se muita coisa no mundo era misteriosa, os limites desse mundo não o eram, pois era incomensurável e sem fim e continha no seu seio criaturas ainda mais horríveis e homens e outras cores e seres que nenhum olho humano contemplou ainda e todavia nenhum deles mais escuso do que os seus próprios corações a baterem-lhes no peito, por mais agrestes que fossem os recantos do mundo e mais fantásticas as feras que os habitam.» (p.168)

Etiquetas:

E quem não mata é morto

Aviso que Meridiano de Sangue deveria ser obrigado por lei a apresentar, caso fosse um maço de tabaco:

A linguagem desta narrativa não obedece a critérios de decoro ou sobriedade. A Natureza está presente com uma indiferença brutal. As personagens desconhecem os conceitos de bem e de mal. Mas conhecem o medo.

Etiquetas:

Outros passos desta obra disponíveis na blogosfera

O epílogo:«Ao alvorecer há um homem que avança na planície por meio dos buracos que vai escavando no chão...»

E outros excertos, focando essencialmente a personagem do Juiz Holden:

- «Era calvo como um seixo e não possuía vestígios de barba e não tinha sobrancelhas por cima dos olhos nem pestanas nas pálpebras.....»;

- «O juiz sentou-se diante do fogo com o garoto Apache e brincou com ele e fê-lo rir e...»;

- «Um homem cumpre o seu destino e não outro, disse o juiz. ...».

Todos na Montanha Mágica.

Terça-feira, Outubro 26, 2004

Pois li


Já várias pessoas me perguntaram se consegui acabar o Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy (Relógio D'Água, trad. Paulo Faria).
Sim, acabei antes da reunião da Comunidade de Leitores as cerca de 400 páginas. Embora isso me tenha custado ler capítulos e capítulos de mutilações, tripas e cabeças decepadas antes de ir dormir.

Etiquetas:

Deus vingativo

É verdade que neste livro está aquela que alguns críticos consideram a grande personagem da literatura norte-americana do séc. XX: o autointitulado Juiz Holden, com genealogia em figuras como o Satanás de John Milton em Paradise Lost, o inquisidor-mor do livro O Grande Inquisidor, de Dostoievski, o capitão Ahab em Moby Dick, de Herman Melville, ou Kurtz, em Heart of Darkness, de Joseph Conrad.

Meridiano de Sangue é um livro que condena à extinção todas as personagens que participam da voragem e destruição que o dinamiza. Todas as personagens, com excepção deste Juiz Holden, que não sabemos de onde vem nem para onde vai, e é uma espécie de força ilimitada e indestrutível vigiando tudo a partir do centro da narrativa, como um deus que pode desejar vingar-se da própria criação.

Etiquetas:

Hiper-realismo fantástico?

Mas o que me fez ler o livro até ao fim não foi só esta personagem.
Um dos traços mais interessantes deste romance tem a ver com a forma como hiper-realismo da escrita de McCarthy acaba por dotar a acção e as personagens de características que mais facilmente esperaríamos encontrar num texto com características fantásticas, como Pedro Páramo, de Juan Rulfo, por exemplo.
Seria interessante, aliás, tentar traçar uma espécie de paralelo entre o romance de Juan Rulfo e este Meridiano de Sangue. Enquanto em J. Rulfo deparamos com personagens mortas que se comportam como personagens vivas num cenário perfeitamente verosímil, neste texto de McCarthy são as personagens vivas que se movem e interagem como fantasmas num universo quase onírico. (E recordo que Meridiano de Sangue é supostamente um romance histórico, que narra aventuras da expansão americana na fronteira entre os EUA e o México.) A paisagem é inóspita e desprovida de regras, e a atmosfera configura-se de forma tão detalhadamente violenta que toca o irrealismo cirúrgico:

«O trilho tornou-se mais estreito, apertado entre os rochedos, e logo em seguida chegaram junto de um arbusto de cujos ramos pendiam bebés mortos.
Estacaram lado a lado, silhuetas trémulas sob o calor. Aquelas pequenas vítimas, sete ou oito no total, tinham um buraco na mandíbula e estavam assim penduradas pela garganta dos galhos partidos de um algarobo e contemplavam o céu nu, com as órbitas vazias. Glabras e pálidas e entumecidas, larvas de um qualquer ser misterioso.
» (p.78)

«Caminharam até ser noite fechada e dormiram como cães em cima da areia e estavam a dormir assim há um certo tempo quando um bicho negro emergiu a esvoaçar do solo nocturno e veio empoleirar-se no peito de Spoule [personagem ferida]. Dedos finos e ossudos sustentavam as asas de couro em que o animal se apoiou enquanto rastejava sobre o homem. Um focinho enrugado de buldogue, pequeno e malévolo, lábios arreganhados, franzidos num sorriso horrível e dentes azul-claros sob a luz das estrelas. Debruçou-se sobre ele. Com subtil perícia, abriu-lhe no pescoço dois sulcos estreitos, e, dobrando as asas por cima da vítima, começou a beber-lhe o sangue.» (p.87)

«Pouca sorte. Vinte e seis dias a viajar desde a costa e menos duas horas de caminho até às minas. As mulas [que transportavam mercúrio nos odres] arquejavam e debatiam-se na escarpa e os almocreves de roupas andrajosas e multicores espicaçavam-nas. [...] Os cavaleiros [do bando de batedores] metiam-se entre elas e a rocha, e, metodicamente, projectavam-nas do alto da escarpa, com os animais a caírem em silêncio como mártires, a rodopiarem tranquilamente no vazio e a explodirem nos penedos lá ao fundo em jorros assombrosos de encarnado e prata no momento em que os odres rompiam e o mercúrio assomava, oscilando no ar em grandes lençóis e lóbulos e pequenos satélites trémulos e todas estas formas se agrupavam mais abaixo e escorriam pelos barrancos pedregosos como se ali houvesse brotado alguma poção primordial destilada por um alquimista a partir das trevas secretas do âmago da terra [...] (p.232-234)

Etiquetas:

Segunda-feira, Outubro 25, 2004

Uma história berlinense

não posso mais nao posso mais não posso mais

Domingo, Outubro 24, 2004

Sábado à tarde no Porto

Ontem conheci a Ana.
Querem saber o que fazem duas bloggers à solta no Porto num sábado de tarde?
Vão almoçar, trocam histórias e recomendações literárias sobre gatos, descobrem coincidências inesperadas no percurso profissional, dão uma volta pela Rua Miguel Bombarda, visitam o Centro Português de Fotografia (galgando com esforço os degraus), avistam sob as arcadas de Miragaia uma figura misteriosa aparentemente em fuga de um álbum de Corto Maltese e a tentar chamar um gato, compram castanhas assadas, tomam chá no Guarany, e combinam um encontro no futuro, planeado com mais tempo e com mais bloggers.



E por falar em gatos

«Cats will let us love them, in fact they plainly wish us to, but they will not love us in return, though many of us delude ourselves that they do. On the other hand, they do not pretend to reciprocate our feelings, they make no promises that they cannot or will not keep, and they swear no empty vows; better so, much better.»

Não resisti a copiar, Ricardo.

Entre nós e as palavras

Dia de aniversário de um blogue muito especial, um daqueles onde as palavras e as imagens mais bem se entendem.
A seguir um post exemplificativo.

Probabilidade


foto de Carla de Elsinore (Gerês, 2000)

Deus passa por mim e finge que não me conhece.

Disse ela, na igreja da Lapa, onde entrara por acaso, aquando de um inesperado reencontro com uma amiga de longa data. Pensava que entrando na igreja vazia, o mais provável seria encontrar-se com Deus.

Post de 7 de Julho de 2004

Sexta-feira, Outubro 22, 2004

Sabia que?

Tchékhov teve dois dachshunds. Chamavam-se Bromo e Quinino.
Há quem diga que as melhores e menos artificiais imagens do escritor são aquelas em que aparece com Quinino, o favorito, ao colo.

Etiquetas:


Tchékhov e Quinino

Etiquetas:

Quinta-feira, Outubro 21, 2004

Um olho no prato e outro no gato

Não se fala sobre gatos neste blogue há demasiado tempo. E eu não acho isso nada bem.
Numa tentativa de remediar este imperdoável défice, decidi pesquisar e registar algumas expressões em que o substantivo em questão ocorre.
Gostei destas, por exemplo:

- atirar-se como gato aos bofes: servir-se vorazmente de comida ou aproveitar intensamente uma situação;
- não aguentar um gato pelo rabo: estar muito fraco;
- como gato sobre brasas: a toda a pressa, de fugida.

Vou passar a utilizá-las nos mais diversos contextos, mesmo sem justificação.
E começo já aqui:

Não sei porquê, hoje de manhã, não aguentava um gato pelo rabo, mas depois lembrei-me que se me atirasse ao café como um gato aos bofes podia ser que ficasse tudo bem. Foi por isso que me viram passar, como gato sobre brasas, em direcção à máquina de café.

Etiquetas:

E também gostei destas

Funcionam como desbloqueadores de conversa, no elevador, ou assim, podendo proporcionar também momentos de profunda meditação:

- «Um homem é um homem; um gato é um gato; mas bebem leite.»;
- «É melhor ser cara de gato do que rabo de leão.».

Mais expressões felinas aqui.

Etiquetas:


Ilustração de Albert Dubout

Etiquetas:

Quarta-feira, Outubro 20, 2004

Found on Translation

A propósito de Alejandra Pizarnik, estes senhores enviaram-me simpaticamente um email chamando a atenção para a apresentação do livro Denso Com Música Ancestral: Ditos/Ética de Pizarnik, da autoria da poeta nova-iorquina Susan Pensak.
Esta apresentação terá lugar no Púcaros Bar (Rua de Miragaia, Arcadas da Alfândega do Porto), no dia 23 Outubro, às 22h. Susan Pensak estará presente.

Na entrevista que a Cristina linkou, gostei particularmente deste passo:
«no quiero hablar del jardín, quiero verlo»

Quinta-feira, Outubro 14, 2004

Ordem de trabalhos para os próximos dias

Não é provável que haja actualizações neste blogue até terça-feira da próxima semana. Mas pode ser que nos encontremos na Festa do Cinema Francês, num dos intervalos das maratonazitas de leitura que vou ter de fazer para conseguir acabar o Meridiano de Sangue antes da próxima reunião da Comunidade de Leitores.
Entretanto, aproveito só para chamar a atenção para o facto de a Medeia nos ter feito o favor de baralhar e tornar a dar os horários dos filmes da Festa aqui no Porto.
Lídia e Cristina: Godard ainda está agendado para domingo, mas passou para as 17.30.

Aquele que prefere observar a construir

Também eu tenho amigos sem blogue. E um deles decidiu recentemente converter-se à blogosfera.
Quando o conheci, há anos atrás, ainda ele se debatia na fase de engenheiro. E embora já tenha descoberto duas ou três coisas sobre ele desde que sigo o blogue, também sei de outras de que ele ainda não falou: é músico, lê muito, gosta de Lars Von Trier (hélas!, não há rosa sem espinho), e, na lua-de-mel, fez uma viagem de um mês em que atravessou de carro a Europa. Fico à espera.

Quarta-feira, Outubro 13, 2004

There is a leopard on your roof

Vocês já repararam que há vários, vários, filmes com o Cary Grant na colecção de Clássicos em DVD do Público?
O primeiro sai já amanhã, e inclui também Katharine Hepburn, meditações paleontológicas, esqueletos de dinossauros em equilíbrio precário, um cãozito obcecado por ossos de grandes dimensões, o incontornável tema das identidades felinas trocadas, e um muito apetecível leopardo chamado Baby.



Depois o canto

Na sua crónica no MilFolhas desta semana, Jorge Silva Melo refere o livro mais recente de Gastão Cruz (Repercussão, Assírio&Alvim) a propósito da presença de ecos nos textos de Migrações de Fogo, de Manuel Gusmão.
Curiosamente, tive oportunidade, há tempos atrás, de pensar um pouco não só sobre este tema mas também sobre os mecanismos de escrita neste livro de Gastão Cruz, tendo chegado à conclusão de que apesar de a mundividência desta poesia permitir a noção de que o mundo se vai incessantemente traduzindo em ecos, sombras e reflexos, talvez não fosse descartável a relação íntima que, na obra deste escritor, a escrita estabeleceria com a possibilidade da busca da exactidão e da clareza.

Nos versos finais do texto «Para que Nasça o Dia» (p.67):
«depois o canto
que parece partir de um recanto distante
do infinito nada que
nos ignora quando os factos são
menos reais até do que o amor, prestes a
duvidar da possibilidade de mover as estrelas e todavia
certo da existência da incerteza que é ele próprio, quando
na madrugada o escuro que transporta
em si qualquer futuro e o silêncio
que tudo come agora
para que nasça o dia se dissolvem
»,

por exemplo, o momento de enunciação do poema («certo da existência da incerteza que é ele próprio», mas «certo») surge associado à dissolução das trevas, das sombras e do silêncio.

As sombras, os ecos e os reflexos (a incerteza) convertem-se pelo canto na precisão (na certeza) das palavras do poema porque a escrita desta poesia assenta num trabalho formal que se processa através de um movimento (centrípeto) de concentração dos sentidos que no mundo ecoam dispersos e incertos. (E daí também o peso dos núcleos semânticos do regresso e da origem neste livro.)

Etiquetas:

Adia o meu morrer

Em Manuel Gusmão não encontramos qualquer momento de dissipação de trevas. As vozes e os tempos acumulam-se nos poemas, por vezes respondendo uns aos outros, reflectindo-se, caindo, voando, frequentemente contradizendo-se, mas nunca convergindo para algo a revelar. A dinamizar estes textos há uma força centrífuga verbal incessantemente produzindo a «migração de sentidos» de que Jorge Silva Melo falava. E, neste contexto, a arte da migração é também uma arte da fuga.
Mas de que centro não dito e não revelado fogem os sentidos nestes poemas?

«E o que te diz ela a ti essa canção/que só pode ser ouvida por quem/na sua própria voz cantando a escuta?/ - Nada lhe peço que me diga Apenas/que venha que continue chegar/até mim com a sua morte a viver» (p.23)

Etiquetas:

Segunda-feira, Outubro 11, 2004

Alguém perdendo-se

É impossível não reflectirmos sobre mecanismos de leitura e escrita de poesia quando lemos (sobretudo) a primeira parte de Migrações de Fogo (Caminho), o livro mais recente de Manuel Gusmão.

Nós, leitores, somos mencionados desta forma:
«Por entre eles e escrito por elas, o homem, o leitor/sem pauta e sem memória não consegue ver-vos» (p.16).

A nossa memória é um instrumento frágil que não nos ajuda a ver. Vivemos tempos de uma cegueira que nos perde das nossas imagens e dos nossos nomes. No entanto, a escrita e a leitura de poesia relacionam-se com o acto de enfrentar a cegueira -

«Verás de frente a cegueira até te perderes no seu olhar.» (p.19),

e com o reconhecimento da fragilidade da memória:

«Vou de uma palavra a uma outra que entretanto mudou/e já não sei como voltar à primeira» (p.21).

Aliás, a primeira parte deste livro intitula-se «Alguém perdendo-se».

Etiquetas:

O reconhecimento

A partir do reconhecimento da cegueira humana e da fragilidade da memória, a leitura e a escrita poderão visitar o poema em vários tempos e em múltiplas vozes:

«Esse homem que se perdera ergue-se mais uma vez/e mais uma vez inventa o seu caminho na invenção de um outro.» (p.17).

E esta revisitação do poema transforma-o numa espécie de fóssil de várias camadas que resiste ao tempo, desafiando a memória e o desejo do autor e/ou sujeito(s) de enunciação:

«Levou à boca uma folha impressa na pedra – Já aqui estive/soprou o homem exausto, recordando sem memória nem desejo/aquele corpo» (p. 12),

«E, logo, é uma neve/uma coisa nevada, o espelho de um espelho/que multiplica as imagens tantas/que se acendem, se interrompem e sobrepõem./ - para que tudo se reúna enfim no esplendor fóssil» (p.24).

Etiquetas:

A queda e o voo

Emergindo das fragilidades do homem tornadas forças, o poema traz inscrito em si o impulso contraditório queda/voo. A poesia escreve-se e lê-se a partir de uma queda que se transforma em voo:

«É assim: perdes uma coisa – ela cai de ti/e caindo como uma pedra numa página de água/o mundo estremece acende-se e ressoa como se fosse uma caixa de música, um pouco grande/um pouco antiga» (p.28),

«mas não esqueças longa e leve a dança da luz nos corpos/graves. Só eles caindo conhecem a queda que voa./Não esqueças/esses corpos músicos; essas derradeiras luzes que a dança desenha/na luz do fim.» (p.32).

Etiquetas:

Migração de sentidos

«E se a poesia, pergunto-me, não fosse mais do que esta permanente migração dos sentidos, este permanente recomeço, a "mutabilidade da escrita", este cinema cujo desbobinar ininterrupto vem de tão longe, e se nada mais fosse do que um mesmo texto, o texto de João Zorro, "aurora em chão de folhas (secas), era a tarde do dia" (Fiama) [?]»

Jorge Silva Melo

Etiquetas:

Domingo, Outubro 10, 2004

Nesta inclemente idade da sua vida



«[...] o homem
que das suas imagens e do seu nome se desencontrou
move-se, as mãos em frente como se estivesse cego
erra entre as imagens que o olham e o cercam:
pequenos fogos-fátuos, erros da voz
»

Manuel Gusmão
no poema «A Possibilidade da Imagem», do livro Migrações do Fogo (Caminho), p. 24
(imagem do filme The Village, de M. Night Shyamalan)

Etiquetas: ,

Exactamente: quem é livre não quer saber de ridículos

Depois de Tchékhov (que, descubro na Montanha Mágica, tem novo livro na Relógio D'Água), e via Bomba Inteligente e Azul Cobalto:

«Desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, completamente livre, é a que não tem medo do ridículo

Fernando Veríssimo. (1989). Orgias. Porto Alegre: L&PM Editores

«Celui qui redoute le ridicule n'ira jamais loin en bien ni en mal, il restera en deça de ses talents, et lors même qu'il aurait du génie, il serait encore voué à la médiocrité

E. M. Cioran. (2003). De l'inconvénient d'être né. Paris: Gallimard. (p. 69)

Adenda:
«Não se cai no ridículo, sobe-se no ridículo

Obras completas de António Ferro, Vol. I: Intervenção modernista, “Teoria da indiferença – da arte e da vida”. Lisboa: Ed. Verbo, 1987 (p.30)

Só aquele que pensa sem (auto)censura sabe pensar.

Sábado, Outubro 09, 2004

Tenho uma confissãozita a fazer

Costumo anotar a data de compra de um livro numa das suas primeiras páginas. Por isso, sei que foi precisamente no dia 13 de Novembro de 1994 que comprei A Pianista, de Elfriede Jelinek. Na altura ainda não se falava ainda da possibilidade de adaptação cinematográfica do romance, que, aliás, viria a ser concluída por Michael Haneke em 2001. Creio que comprei o livro levada pela minha pequena obsessão por Thomas Bernhard e pelas relações temáticas e estilísticas que os críticos costumam traçar entre ele e esta autora.

A confissão é esta: antes e depois do filme (que me comoveu imenso), eu tentei, várias vezes, ler este livro. E nunca consegui ir até ao fim, por causa da agressividade violentamente incómoda da escrita.

Àqueles que estão a pensar em ler qualquer coisa desta autora, deixo aqui um aviso, que pode funcionar como incentivo para quem gosta de emoções fortes: a voz que narra A Pianista é gélida, cruel, e desapiedada. E, se bem me lembro, esta crueldade manifesta-se em contínuo, a propósito de tudo aquilo que refere, quer se trate de uma mísera maçaneta de porta ou da pobre protagonista. A empatia é impossível. E às vezes é preciso pousar o livro para se conseguir respirar normalmente outra vez.

Outra confissão

Depois do Nobel, procurei o livro nas estantes. Abri-o e reli alguns passos sublinhados, provavelmente alguns momentos mais light que na altura decidi assinalar:

«Ela é arrastada para dentro dos carros eléctricos pelo peso de instrumentos musicais que lhe pendem do corpo pela frente e retaguarda, a acrescentar ainda as pastas entesadas, cheias de partituras. Uma borboleta volumosamente ajoujada. O bicho sente que tem dentro de si forças adormecidas que a música sozinha não consegue apaziguar. O bicho cerra os punhos frágeis nas alças e pegas de violinos, violas de gamba, flautas. Gosta de conduzir as suas forças no sentido negativo, embora pudesse decidir diversamente. Quem lhe abre o leque de decisões é a mãe, uma vasta gama de tetas no úbere da vaca chamada música.» (p.19)

«Massas humanas envolvem-NA constantemente, no meio de grande aperto. Constantemente alguém se impõe à SUA percepção. A ralé não só se apodera da arte, sem o mínimo direito de aquisição, não, ainda por cima vai morar para dentro do artista. Aquartela-se dentro do artista e rasga logo umas janelas para o mundo exterior, para poder ser vista, e ver.» (p.26)

«O SEU instinto de limpeza é terrivelmente sensível. Corpos sujos constroem em volta uma floresta resinosa. Não é só a sujidade do corpo, a falta de limpeza da mais grosseira ordem, que se solta das axilas e dos seios, o subtil cheirete a urina da mulher de idade, a nicotina que sai em catadupas da rede de canalização das veias e poros dos velhos, aqueles montes sem conta de comida da qualidade mais barata que ressumam dos estômagos e sobem no ar; não só o cheirete doentio a cera das crostas da cabeça, da sarna, não só aquele cheirete fino como um cabelo, mas penetrante para os mais exercitados, de partículas microscópicas de merda debaixo das unhas [...], não, aquilo que mais a afecta é a forma como assentam arraiais dentro do outro, se apossam despudoradamente do outro. Há um que até se chega a acoitar nos pensamentos do outro, forçando-lhe a atenção mais íntima.» (p.27)

Trad. Aires Graça.

E agora fiquei com vontade de continuar. ...Tento mais uma vez?

Elfriede Jelinek em língua portuguesa



Em Portugal tem duas obras publicadas (neste momento esgotadas): A Pianista e Lust (1989) e está ainda representada na Antologia da Literatura Austríaca (Minerva Coimbra). A Estampa espera que a reedição de Lust (que significa prazer ou gozo) esteja pronta para a semana e a ASA está a renegociar o contrato de reedição de A Pianista (deverá publicá-lo daqui a 15 dias).

De um artigo no Público

O mais temido crítico literário em língua alemã

O mais temido crítico literário de língua alemã, Marcel Reich-Ranicki, elogiou [...] em Frankfurt uma mulher "muito nervosa e altamente sensível, invulgar, radical e extremista escritora e, em consequência disso, altamente controversa". "A minha simpatia pela sua coragem, radicalismo, determinação e fúria é enorme. A minha admiração pela sua obra mantém-se dentro dos limites", declarou Reich-Ranicki.

E só outra curiosidade digna de nota: no início dos anos 90, a direita populista austríaca lançou uma campanha de difamação contra a escritora. Era assim o slogan: Você gosta de Jelinek, ou ama a arte e a cultura?

De outro artigo no Público



Imagem na página de abertura do site da escritora
(Via Quartzo)

Sexta-feira, Outubro 08, 2004

Dezoito anos depois

Ontem realizou-se a segunda reunião da Comunidade de Leitores da Biblioteca Almeida Garrett. Por mim, tenho andado a tentar evitar escrever sobre as coisas em que fiquei a pensar depois da primeira sessão, dedicada a Wuthering Heights.

Desde os doze anos que me sinto vagamente perseguida por este livro de Emily Brontë.
É verdade que, recentemente, quando reli, chocada, alguns apontamentos rabiscados na faculdade sobre a obra, cheguei à conclusão que desde então poderão ter decorrido cerca de dezoito anos de incompreensão brontëana. Mas hoje quero dizer que consegui finalmente perceber que encontramos neste texto personagens que quase se indistinguem na Natureza enquanto lutam por traduzir em humanidade as forças puras de que são compostas.

.... E que não vale a pena seguirmos o caminho mais fácil para nos socorrermos de dicotomias convencionais (amor-ódio, bem-mal, espírito-matéria, ...) na interpretação deste romance, mesmo que o façamos com a louvável intenção de dizer que essas dicotomias são ali superadas.

Não há dicotomias nem limites nestas forças que arrastam tudo, deformando internamente os corpos como num quadro de Francis Bacon a jogar-se, de forma pouco visível, sob a pele.
Mas há limites em nós, como nestas personagens. Nós, umas vezes, conseguimos domesticar estas forças, filtrá-las, vertê-las em amor, dor, raiva, fúria, suor, lágrimas. E, outras vezes, simples corpos não chegam. E somos destroçados.

Etiquetas:

O mundo existe e não acredita

Ainda hoje fico arrepiada quando leio o último (e discutidíssimo) parágrafo do livro. O narrador passeia junto aos túmulos das personagens principais. E tudo está calmo depois da voragem que lhes consumiu os corpos.
Que me lembre, é o único momento de tranquilidade e luz em todo o texto:

«I lingered round them [the three headstones], under that benign sky: watched the moths fluttering among the heath and harebells, listened to the soft wind breathing through the grass, and wondered how any one could ever imagine unquiet slumbers for the sleepers in that quiet earth.»

Etiquetas:

Rápida modelou a sua imagem

Num destes dias, lendo os poemas de Montale publicados pela Assírio&Alvim, deparei subitamente com uns versos que me recordaram este final:

«a rajada que colou a ti as vestes
e em ti rápida modelou a sua imagem,
pôde voltar na tua ausência a estes
calhaus que o monte lança à voragem
»

(no poema «Vento e Bandeiras», p.67, trad. José Manuel de Vasconcelos)

Os corpos podem ser mais do que imagens modeladas por ventos e rajadas?
Estes ventos e rajadas precisam deles para existir?

Etiquetas:

Quinta-feira, Outubro 07, 2004

Pessoas

Obrigada:
- Alexandre (umblogsobrekleist);
- Ana (Epicentro);
- António (Opinion Desmaker);
- Carla de Elsinore;
- Charlotte (Bomba Inteligente);
- Claire (Little Black Spot);
- Cristina (Janela Indiscreta);
- Lídia (Errância, entre outros)
- Luís (Montanha Mágica);
- Lutz (Quase em Português);
- Ricardo (Babugem);
- Rui (Quartzo);
- Sandra (Tempo Dual);
- e Troti (Leitura Partilhada).

Sem esquecer aqueles que, ao longo deste ano, foram lendo e linkando este blogue, enviando mensagens, e fazendo referências com uma amabilidade tantas vezes surpreendente.
Com uma nota de apreço especial a João Serenus.

Palavras e imagens

Deixo aqui os versos que a Sandra publicou na altura:

como uma vela que caminha pela casa
- noite dentro - criando silêncios
e um súbito estremecimento.


... e a borboleta que a Cristina me ofereceu.