seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Segunda-feira, Setembro 27, 2004

De férias (pequeninas)

Estaremos de volta na quinta-feira da próxima semana.
Com um balanço sobre o aniversário? Com posts culturais sobre as férias? Com um comentário walseriano sobre «Wanda» (Barbara Loden)? Com referências gnósticas a «O Monte dos Vendavais»?...

O pensador emancipado

«only he is an emancipated thinker who is not afraid to write foolish things

Tchékhov

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Domingo, Setembro 26, 2004

Coisas que podem pesar 21 gramas

«How many lives do we live? How many times do we die? They say we all lose 21 grams... at the exact moment of our death. Everyone. And how much fits into 21 grams? How much is lost? When do we lose 21 grams? How much goes with them? How much is gained? How much is gained? Twenty-one grams. The weight of a stack of five nickels. The weight of a hummingbird. A chocolate bar. How much did 21 grams weigh?»

Do filme 21 Gramas, de Alejandro González Iñárritu

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Sexta-feira, Setembro 24, 2004

Este blogue faz hoje um ano


Fotografia de Helena Almeida

Quarta-feira, Setembro 22, 2004

Integrar a morte e reinventar o fracasso

Oracle Night podia ser só um romance em que Paul Auster exibia a sua mestria e fecundidade narrativa de forma sofisticadamente borgesiana. Mas a imperfeição de todas as histórias geralmente inacabadas que nele se multiplicam, tão semelhantes aos fantasmas que povoam as páginas das listas telefónicas do subterrâneo onde uma das personagem de uma narrativa secundária se encurrala, acaba por contaminar de mortalidade e silêncio essa sofisticação.

O mecanismo é claro: o romance escreve-se a partir da integração da morte e dos fracassos literários na vida e na escrita do narrador.
O sentido não existe feito, e interessa fazê-lo, mesmo que para tal se tenha de aceitar entrar num jogo perigoso que envolve o risco de encurralamento.

E, de qualquer forma, aceitar jogar pode não querer dizer que se deseja vencer esse jogo a todo o custo.
Robert Bresson escreveu isto: «Uma coisa falhada pode tornar-se bem sucedida se a mudares de lugar.».
Às vezes, ser capaz de reinventar o fracasso representa uma vitória maior do que vencer um simples jogo. E talvez a grande linha de força deste livro tenha precisamente a ver com a noção de que a literatura nunca se reduz à condição de um simples jogo.

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Do Porto para o Mundo

Primeiro aniversário de um prodígio de coordenação de comentários irónicos, traduções inéditas, pequenos textos líricos originais, perspicazes observações sobre o real ou o imaginado, chamadas de atenção para poemas ou excertos mais ou menos esquecidos, links inesperados, poetas surrealistas, e tudo.
Parabéns a todos os colaboradores do Quartzo. Vocês revolucionam diariamente o conceito de revista literária.

Terça-feira, Setembro 21, 2004

Sobrevivência e reinvenção

Em Oracle Night, o romance mais recente de Paul Auster, o narrador - Sidney Orr - é de vez em quando acometido por tonturas, dores musculares e repentinas hemorragias nasais. Conta-nos que esteve internado no hospital durante muito tempo, com morte anunciada pelos médicos. Em Sidney Orr, esta condição de sobrevivente precário associa-se à do escritor em dificuldades financeiras e criativas.
O tema da sobrevivência surge, neste livro, intimamente ligado ao da reinvenção.
Para sobreviver, mesmo financeiramente, Orr precisa de escrever. E escreve geralmente histórias que partem de outras histórias (Dashiel Hammet, H. G. Wells, notícias de jornal, relatos de amigos, conjecturas sobre factos que suspeita que lhe estão a esconder...). Mas sempre misturando a história da sua vida com aquelas que ouve e escreve.

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Comme des géants plongés dans les années

O narrador enche de notas de rodapé os textos que escreve, desvendando relações entre episódios ou personagens ficcionais e acontecimentos ou pessoas supostamente «reais», dissolvendo tudo em histórias.
Há histórias que se servem do passado, mas, como oráculos, também são capazes de prever o futuro.
Passado, presente e futuro giram em torno de si mesmos, reflectindo-se entre si, e a escrita transforma-se numa (reveladora?) máquina do tempo:

«'Thoughts are real,' he said. 'Words are real. Everything human is real, and sometimes we know things before they happen, even if we aren’t aware of it. We live in the present, but the future is inside us at every moment. Maybe that’s what writing is all about, Sid. Not recording events from the past, but making things happen in the future.'» (p.189)

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The heart of darkness

Curiosamente, as histórias que Orr incessantemente escreve dentro da história principal acabam por constituir projectos falhados.
Numa delas, há até uma personagem que fica presa num quarto subterrâneo e, mesmo que gritasse por salvação, não seria ouvida.
Houve quem tivesse sugerido que esta abundância de histórias dentro da história tem a ver com com a possibilidade de todo o escritor agir como uma espécie de prisioneiro num subterrâneo a desejar a salvação:
«[Auster] suggests that the terror of not being heard lies at the heart of writing, and that the artistic impulse generally might be summed up as: somebody say something.».

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Paperback da Faber and Faber

In Oracle Night, writer Sidney Orr has mostly recovered from a near-fatal illness when he buys a blue notebook from a stationery store in his Brooklyn neighborhood. His will to write suddenly returns as a story leaps from his mind into the notebook...

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Sábado, Setembro 18, 2004

18 de Setembro de 1921

«Há tantas coisas em que nunca pensámos por falta de tempo! Na esperança, por exemplo. Quem vai perder cinco ou dez minutos a pensar na esperança, quando pode usá-los muito mais proveitosamente [...]? Pensar na esperança, que coisa imbecil! Até dá vontade de rir. Na esperança... Sempre há gente... E ela metida como areia nas pregas e nas bainhas da alma. Passam anos, passam vidas, aí vem o último dia e a última hora e o último minuto e ela então aparece a tornar inesperado aquilo por que esperávamos, a fazer o que já era amargo ainda mais amargo. A tornar mais difíceis as coisas.»

Do conto «Tanta Gente, Mariana», no livro com o mesmo título (Publicações Europa-América)

Maria Judite de Carvalho faria hoje 83 anos.
Tanta Gente, Mariana (1959) foi o primeiro livro que publicou.

Quinta-feira, Setembro 16, 2004

O fenómeno da multiplicação dos poemas

E eis senão quando alguém nos confessa uma obsessão, «talvez temporária», por um poema que não se consegue encontrar na Internet
A custo, revela-nos o título. Mas não cita um verso sequer.

O título do poema é «Sleeping with Women»

Sleeping with Women.
Passam dias e dias.
Nós não lemos o poema. Não conseguimos encontrá-lo em lado nenhum.
Mas imaginamos muitos versos possíveis em poemas sob o título «Sleeping with Women». Muitos.
Versos e versos. Poemas inteiros.
E todos eles estranhamente diferentes dos versos e do poema verdadeiro.

Versos do poema verdadeiro

«Caruso: a voice.
Naples: sleeping with women.
Women: sleeping in the dark.
Voices: a music.
Pompeii: a ruin.
Pompeii: sleeping with women


«Women: asleep.
Yourself: asleep.
Everything south of Naples: asleep and sleeping with them


«Sleeping with women: as in the rain, as in the snow

«Asleep and sleeping with you, asleep with women»
Kenneth Koch

Terça-feira, Setembro 14, 2004

Criando o não-visível do visível

« [...] Ruy Leitão não está verdadeiramente interessado no sentido imediato dos motivos que representa: ele procura sobretudo olhar para o menos olhado, representando para ver e vendo, no fundo, um ilusório exercício de simular o real para lhe sentir a invisibilidade

Rocha de Sousa in «Os ‘Cadernos’ de Ruy Leitão» (JL de 1-14 Setembro), a propósito da exposição «Desenhos de Ruy Leitão», até Janeiro no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian

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Sem Título, 1972/73
gouache sobre papel, 59 x 42 cm
(Exposição da Galeria 111, Porto, 2 de Março a 13 de Abril de 2002)

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A identidade é um sonho não cumprido?

«O que define este tipo de imaginação visual é a capacidade para reter fragmentos do real e associá-los, é o facto de partir de uma imagem reconhecível e de a transformar, por metamorfose e coloridos, noutra coisa [...]: um universo de sonho e pesadelo

«E podem ser objectos avulsos de um quotidiano irrisório e sem grandeza mas nunca miserabilista (pentes, botões, por exemplo), recortados, coloridos e colados de modo a compor rostos, luvas de boxe que lutam sozinhas, uma espiral de bonés e chapéus. Mas também podem apresentar-se numa sequência temporal-formal de figuras em banda, sucessivamente sem rosto, sem boca, sem mãos, sem pés... estando cada um destes seus fragmentos coberto ou preenchido por panos como que impedindo a revelação da sua identidade

Do artigo «O Esboço da Angústia» de João Pinharanda

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Sem Título, 1972/73
gouache sobre papel, 42 x 58 cm
(mesma exposição de 2002)

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Segunda-feira, Setembro 13, 2004

2004 ainda não acabou

Passaram cem anos sobre a morte de Tchékhov precisamente no dia 15 de Julho deste ano.
Não aproveitei a data para recordar um dos escritores que mais aprecio.
A ver se, durante o que resta do ano, tento fazer, de vez em quando, alguns posts alusivos, num miserável esforço de redenção.

Tão fácil de falhar como a vida

Uma das coisas que mais me interessam em Tchékhov tem a ver com a forma como, nos seus contos, a dúvida e o cepticismo contextualizam o trágico no quotidiano, e o relativizam e aparentemente dissolvem numa corrente narrativa superficial, enquanto uma outra intriga, fácil de falhar, vai progredindo, quase por acidente, sob a superfície, sob os acessos de mau humor das personagens, sob as inverdades, as ilusões (demasiado) deliberadas, as imaturidades, os tiques e as traiçõezinhas veniais.

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Sabia que...?

Tchékhov é citado num dos episódios da série Começar de NovoOnce and Again»).
No episódio «Experience is the Teacher», o professor de Inglês de Grace Manning (Julia Whelan) oferece-lhe um livro de contos deste escritor.
A dada altura, é destacado o seguinte passo:

«[...] compreendi, com uma dor pungente no coração, como era inútil, mesquinho e enganador tudo o que nos impedia de amar. Compreendi que, ao amarmos, temos de reflectir sobre o amor numa base mais elevada, mais importante do que a felicidade ou a infelicidade, o pecado ou a virtude no seu sentido corrente, ou então não vale a pena sequer reflectir sobre ele

«Sobre o Amor», p. 268 do volume III de Contos de Tchékhov, Relógio D’Água

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Sabia que...?

... há outras referências literárias em vários episódios da série «Once and Again», mas eu só me lembrava desta?

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Domingo, Setembro 12, 2004

Teoria das cores

Era uma vez uma pessoa que tinha uma camisola cor-de-ameixa e outra branca.
Colocou ambas na máquina da roupa, e, no fim do programa de lavagem, deparou com duas camisolas cor-de-rosa que não se lembrava de ter comprado.

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Sábado, Setembro 11, 2004


Capa de Art Spiegelman
(24 de Setembro de 2001)

Quinta-feira, Setembro 09, 2004

Picking up the pieces

A sonda Génesis, cuja missão se relacionava com a recolha de partículas de vento solar, voltou ontem à Terra para libertar a cápsula que guardava as amostras.
Para evitar que as minipartículas cósmicas contidas na cápsula fossem contaminadas por elementos da atmosfera ou destruídas após o choque violento contra a superfície terrestre, a recolha desta cápsula ia ser feita de uma forma espectacular, sobre o deserto do Utah, a 8 de Setembro, numa operação com helicópteros e pilotos especializados em acrobacias, contratados expressamente em Hollywood pela NASA .
Os pilotos treinavam há vários meses com taxa de sucesso de 100% nos exercícios de simulação da recuperação da cápsula, e a equipa estava confiante.

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Mas quem lhes disse que o Sol tinha vocação de figurante em filmes americanos?

Hoje, dia nove, ficámos a saber:

«A cápsula carregada de partículas do vento solar da sonda Génesis da NASA despenhou-se ontem, pelas 17h00 (hora portuguesa), no deserto do Utah [...].»

«O pára-quedas estabilizador saiu enrolado [...] e o principal - o que iria ajudar a abrandar a queda - nem sequer se abriu. A cápsula atingiu o solo a 160 quilómetros por hora

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Entre Hollywood e a sarjeta

Comentário de Roger Wiens, do Laboratório Nacional de Los Alamos, nos EUA:

«Vamos ter muito trabalho a apanhar todas as peças».

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Sic transit gloria mundi


E, depois, estava previsto que a Génesis fosse desviada do local escolhido para largar a cápsula, e a sua missão terminasse em chamas, ao cair no Oceano Pacífico.

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Terça-feira, Setembro 07, 2004

Reuniões da Comunidade de Leitores de regresso à Biblioteca Almeida Garrett

Uma boa notícia, portanto.
Achei bastante interessante a lista de livros propostos. Reúne tanto indiscutíveis clássicos estudados até à exaustão nas faculdades (mas com toda a certeza capazes de suscitar discussões surpreendentemente pouco académicas), como alguns autores com entradas mais recentes para o cânone, incluindo também uma curiosa presença de David Madsen, para mim presentemente um desconhecido, mas por pouco tempo mais.
Segue o programa.

A leitura como paixão e a representação da paixão na literatura

22 de Setembro a 2 de Dezembro
quinzenalmente, à quarta-feira, 21.30


22 Setembro
O Monte dos Vendavais de Emily Brontë
6 Outubro
Henrique IV (parte I) de William Shakespeare
20 Outubro
Meridiano de Sangue de Cormac McCarthy
3 Novembro
Pedro Páramo de Juan Rulfo
17 Novembro
Memórias de um Anão Gnóstico de David Madsen
2 Dezembro
Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll

Orientação: Artur Pires da Silva
Inscrição: 5 €

I swallow little glowing lights

Muito a propósito do lançamento do álbum Medulla, a Fnac reduziu os preços de outros CDs da Björk, o que pode ser uma boa oportunidade para completar colecções com discos de paradeiro incerto, emprestados e/ou perdidos para sempre, e falhas relacionadas com intensos ódios de estimação secretamente dedicados a Lars Von Trier.

Segunda-feira, Setembro 06, 2004

os pequenos riachos e o fundo invisível dos poços

«O poema não dá a ver o visível, mas cria o não-visível do visível

Eduardo Prado Coelho (a propósito de Fiama)

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No não-visível

Isto é, numa espécie de não-lugar sem luz, de um espaço/tempo só de escura transição onde algo vem de um lado e vai para outro, mas, estando apenas de passagem, não tem uma função preconcebida e tudo o que é naquele momento se cria ali a si mesmo, sem regras e sem utilidade, temporariamente livre de emissor e de destinatário.

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I am here



«Como parte do espectáculo se passa às escuras, permito-me fazer coisas que, se houvesse luz, não faria

Da conversa entre Helena Almeida, João Fiadeiro e Delfim Sardo no programa do espectáculo
I Am Here (p. 19)

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Quinta-feira, Setembro 02, 2004

Sem mais nem menos, a propósito de tinteiros

Quando eu era pequena, costumava brincar no escritório do meu avô.
Gostava particularmente de uma caneta que tinha de ser carregada com tinta e me manchava as mãos sempre que tentava escrever porque ainda não conseguia sequer segurar bem nela.
Quando eu escrevia, as palavras saíam todas tortas e intermitentes, mas o meu avô tinha uma caligrafia muito bonita, e depois usava um mata-borrão que secava a tinta.
Eu observava-o sempre com muita atenção enquanto ele escrevia, e deve ter sido numa dessas vezes que tomei a decisão de usar a caneta para escrever um livro com capa em papel vegetal cor-de-rosa, e título em letras tremidas mas garrafais.
O meu avô não gostava que eu brincasse sozinha com a caneta, mas eu todos os dias aproveitava as ausências dele do escritório para escrever uma página que ilustrava com desenhos a lápis legendados, e depois escondia numa gaveta pouco usada da secretária.
Houve um dia, contudo, em que o meu avô precisou de abrir essa gaveta. Foi então que encontrou o livro. Lembro-me de ele contar que leu tudo muito rapidamente e depois veio à minha procura porque queria saber o que acontecia a seguir.
Eu é que, depois disso, não consegui continuar.

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No poema «Tintas e Decalcomanias»

Octavio Paz escreveu este verso:
«No tinteiro cai em grossas gotas o leite do silêncio».
Sempre que leio, consigo imaginar os estragos do leite grosso na tinta escura, o conteúdo do tinteiro a talhar.

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Não me parece que o leite alguma vez se dissolva em tinta

Essa pode ser uma falsa questão, aliás.
No mesmo poema também está isto:
«Uma mancha de tinta levanta-se da página e começa a voar».

(Antologia Poética de Octavio Paz, D. Quixote, p. 107, trad. Luís Pignatelli)

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Quarta-feira, Setembro 01, 2004

Qual é o meu ou o teu co(r)po?

Perguntas que podem revelar-se inúteis.