seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Domingo, Junho 27, 2004

Textos visíveis e audíveis

Terminei recentemente a leitura da novela Pedro Páramo, de Ruan Rulfo. É um livro extraordinário, absolutamente cinematográfico na medida em que é impossível não ouvir e ver tudo o que nele acontece, mas também dificilmente adaptável ao cinema pela forma como decorre num espaço impossível que funde diferentes tempos e encena o convívio de vivos e mortos. (E sim, sei que houve pelo menos três tentativas de adaptação, uma delas com participação de Carlos Fuentes na escrita do argumento.)
De qualquer forma, não é bem por isto que estou a falar deste livro.

Apagou a chama da vela

Desde que tive a sorte de ver Nostalgia que me descobri profundamente interessada em imagens com velas. E em Pedro Páramo existe uma imagem dessas:

«Lá estava a sua mãe, na ombreira da porta, de vela na mão. A sua sombra, que se estendia até ao tecto, longa, desdobrada. E as vigas do tecto devolviam-na em pedaços, despedaçada.
- Sinto-me triste - disse.
Então ela voltou-se. Apagou a chama da vela. Fechou a porta e abriu os seus soluços que continuaram a ouvir-se, confundindo-se com a chuva


in Pedro Páramo, de Juan Rulfo, Cavalo de Ferro, p. 18, trad. Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues
(Mais sobre este livro no post «Fuso Horário» de 21-01-04 do Aviz)

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Passagens secretas

Para quem for visitar Praga neste Verão, será interessante saber que há uma passagem secreta para a Catedral de S. Vito que tem início num túmulo falso do Cemitério Judeu.
Em caso de dúvida, contactar o coveiro e dizer-lhe «Queime todos meus manuscritos. De qualquer forma, estão incompletos.». Se ele responder «Isso é o que uma esposa faria, não um amigo.», poderão contar com a ajuda dele.

Indicação gentilmente fornecida pelo argumentista Lem Dobbs, no filme Kafka, de Steven Soderbergh

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Sábado, Junho 26, 2004

Os sabores das pessoas

No episódio de segunda-feira da série Angels in America houve um diálogo incrível em que se discutiam os sabores das pessoas envolvidas, e de uma delas foi dito que sabia «a... a... sei lá, a noite... acho.».

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Alfarrabistas

Geralmente, nos alfarrabistas aprecio mais as histórias escondidas do que aquelas que contam explicitamente os livros. As dedicatórias, os marcadores esquecidos, os sublinhados esbatidos, uma flor seca ou uma borboleta que ali se decidiu guardar.
Às vezes olha-se para uma montra e sente-se uma espécie de fraternidade silenciosa entre os livros expostos. Percebe-se facilmente que pertenciam ao mesmo dono e partilharam a mesma estante ou estantes próximas. Adivinha-se que têm o mesmo cheiro. E é possível começar a traçar um retrato vago da pessoa que os escolheu ou coleccionou.
Por mim, gostava muito de conhecer as histórias secretas dos proprietários desses livros vendidos em conjunto. Quem eram? Quantos anos tinham? Morreram? Não tinham filhos? Os herdeiros não gostavam de livros? Estavam arruinados e precisavam de dinheiro? Preparavam-se para deixar o país? Converteram-se a uma variante extrema de minimalismo? Ingressaram num mosteiro, renunciando a todos os bens terrenos que lhes eram queridos?

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Durante a semana, na blogosfera

Mais aniversários, neste caso de dois blogues que sigo com muita atenção: A Natureza do Mal, e Os Espelhos Velados.
Conheço o segundo há menos tempo, mas posso dizer que todos os dias me surpreende ora com uma reflexão inesperada por vezes em forma de citação, ora com uma referência a um filme precioso mas quase esquecido pelos programadores que temos, ou ainda com uma imagem bem escolhida.
Em relação a A Natureza do Mal, impõe-se primeiro o agradecimento em relação a um ano de boa escrita e espírito crítico. E, depois, há outra coisa muito importante para mim. Foi graças à obsessãozita deles por Ana Paula Inácio que decidi lê-la. Só por isso já teriam a minha gratidão.

Segunda-feira, Junho 21, 2004

Rodopiando em torno de dicotomias nada óbvias

Melhor que um paradoxo só uma ambiguidade: começava assim, há exactamente um ano, um blogue «com a boca fresca de jejum [...] galgando para a gélida fruição da manhã».
E vou dizer apenas que, por vários motivos, o meu blogue seria diferente se este blogue não existisse.

E mais um aniversário de outro blogue muito especial

«o improvável elemento que permanece/sobre tudo o que não escrevo».

Safe Mode

E, por aqui, estamos em pleno rescaldo da Feira do Livro, tentando ler pelo menos uma parte do que comprámos. Além disso, planeamos iniciar em breve algumas leituras de preparação para as férias, sobre os sítios que vamos visitar. Por tudo isto, este blogue vai andar mais lento nos próximos dois meses, provavelmente só com actualizações de fim-de-semana.

Sexta-feira, Junho 18, 2004

O blogue que pensava que era um livro

Acabei de ler o livro Irmã Barata, Irmã Batata de Adília Lopes (Angelus Novus), e estou convencidíssima que é um blogue que começou por ser publicado em papel. Com posts sobre literatura, palavras, gatos, Deus, baratas, sexo, amor, e morte. Todos eles escritos não só com um humor desesperado que nunca é inofensivo, mas também com uma coragem verdadeiramente invejável. Não duvidem. Adília Lopes é blogger:

«Sei que, quando vejo uma barata de pernas para o ar a espernear virada do avesso, a ajudo a ficar de pé. A barata não está habituada a ser ajudada. Estranha. Esperneia cada vez mais. Às vezes trepa-me para a minha mão. E não sei se se sente agradecida. No fim, mal fica em pé, corre muito depressa para baixo dos móveis.» (p.16)

«[...] Acho que para foder é preciso ser linda como a Claudia Schiffer e inteligente como Einstein. Mas vejo nas paragens de autocarros mulheres grávidas feias e com ar de burras e não penso que tenham recorrido todas à inseminação artificial.» (p.15)

«Gekko (holandês e alemão), gecko (inglês e francês) é uma onomatopeia malaia. As osgas vinham nos barcos da Malásia para a Holanda . O João Dionísio diz que o grito da osga é parecido com o ruído do computador a engolir a disquete. Há dialectos portugueses em que osga se diz cró. Segundo a Manuela Barros, é o grito da osga em português.» (p.21)

«A minha gata morreu. Agora já me posso suicidar.» (p.18)

Outras aparições recentes de Adília Lopes na blogosfera

-Morrissey meets Adília Lopes;
-Adília Lopes meets Clarice Lispector;
-os papéis perdidos de Adília Lopes.

E uma entrevista na Inimigo Rumor

Começa assim:
«Estou a responder por escrito a esta entrevista. É Domingo de Ramos. Dia 8 de Abril de 2001. Estou no meu quarto. Em Lisboa. Vou responder primeiro à mão e só depois passo, digito, para a disquete. O papel é cor-de-rosa reciclado. E a caneta é verde alface, feita no Japão

E acaba desta forma:
«uma criança que andava a ver os quadros de Ferdinand Gehr disse “olha, um ovo estrelado”, Ferdinand Gehr chamava-lhe um Anjo, as beatas e os beatos que viram aqueles Anjos nas igrejas ficaram tão chocados por verem ovos estrelados que as pinturas tiveram de ser tapadas com cortinas. Mas um ovo estrelado é maravilhoso como um Anjo. Porquê o horror à comida? Em “estrelado” está até estrela (na expressão portuguesa). E não é o ovo da galinha, como as minhas baratas, objecto de estudo para os biólogos? [...] sinto que os meus contemporâneos continuam a dividir o mundo em lunar (e acreditam que a salvação pode vir com os marcianos) e sub-lunar (o mundo dos ovos estrelados). Os últimos 500 anos de Física não os convencem

Quinta-feira, Junho 17, 2004

De onde vêm as novas palavras?

Hoje apetece-me falar sobre palavras.
O OED online disponibiliza trimestralmente uma lista de novas entradas que funciona quase como uma espécie de relatório do processo de actualização da língua inglesa e, no fundo, da nossa civilização.
A partir destas listas, nalguns trimestres, podemos verificar picos de interesse por determinados domínios, e isso aconteceu, por exemplo, com o terrorismo, há algum tempo atrás. Mas uma primeira leitura rápida permite-nos acima de tudo confirmar a expectativa sensata de que as palavras novas venham das grandes áreas de preocupação e investimento da humanidade no início do séc. XXI: a investigação científica (com destaque para as medicinas e a bioquímica), as novas tecnologias, a gestão do dinheiro, e o entretenimento.

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Do ponto de vista interjectivo

Pois é, no início do séc. XXI, desejamos regularmente riqueza, saúde, prazer e informação. Nada de muito novo em relação a séculos anteriores, portanto.
Mas, antes destas listas, talvez não imaginássemos como o sexo, a culinária, o jornalismo e a própria exclusão social estão subtis. Não sei se fazíamos ideia da gradação e da radicalidade das actividades físicas e dos desportos. É provável que ainda não soubéssemos de tantas possibilidades no que toca a vícios, adições e distúrbios psicológicos.
É que, no início do séc. XXI, falamos mesmo muito sobre aquilo que desejamos. Precisamos de léxico cada vez mais específico. Não descuramos os palavrões, e somos bastante criativos do ponto de vista interjectivo.

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Quarta-feira, Junho 16, 2004

E por conseguinte

Um ano de discernimento e de bom gosto.

Terça-feira, Junho 15, 2004

O poder de se indiferenciar

«a mim interessa-me a [...] relação [da linguagem] com o extraproposicional, ou seja, a possibilidade de fazer entrar cada um de nós naquilo a que eu chamaria, depois de Deleuze e de Espinoza, a imanência. Longe de ser um meio de nos aproximarmos de uma transcendência, é um meio de poder indiferenciar-se dessas forças que ela arrasta consigo. Interessa-me a força da linguagem e não o sentido da linguagem ou da mensagem

José Gil
in «A Sensualidade do Pensamento», entrevista de Nuno Crespo
(meus bolds)

Segunda-feira, Junho 14, 2004

As palavras fazem sede

Alejandra Pizarnik elegeu a sede como emblema e viaja de copo vazio. Para inverter a ausência que a bebe, bate nos espelhos, e encontra transparência, mas não água. Na garganta, palavras mutiladas que lhe voltam, e que sonham, mas não, não matam a sede. Fazem ausência, em vez disso, alojam-se-lhe na respiração, dão-lhe medo. Ela diz que escreve contra o medo, contra tudo o que procura abrigo na garganta dela. Mas também é com isso que escreve. Bebe daquilo que a bebe. Assim como bebe, também é bebida. Cada um tem aquilo que merece.

Todas as citações (não assinaladas) retiradas de Antologia Poética de Alejandra Pizarnik, O Correio dos Navios, trad. Alberto Augusto Miranda

Domingo, Junho 13, 2004

O último fruto do mundo

Tenho passeado em jardins com romãzeiras em flor. Às vezes penso no fruto.
Sei que foram encontradas romãs secas em túmulos da Idade do Bronze. E também me lembro da história de Prosérpina, levada por Plutão para o mundo inferior, e sem de lá nunca mais poder sair sem voltar, simplesmente por ali ter comido alguns grãos de romã.
Recordo como Prosérpina tinha passado seis meses no mundo inferior sem sequer ver frutos. Mesmo à superfície da terra, sua mãe, Ceres, dilacerada pela dor da ausência da filha, tinha proibido os frutos e as plantas de crescerem. O último fruto do mundo era uma romã seca e murcha que um servo de Plutão conseguira localizar e levara a Prosérpina. Recordo como o último fruto do mundo soube de algum modo encontrar o caminho para a boca dela.

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this drear/Dire fruit, which, tasted once, must thrall me here

E toda a gente conhece bem esta imagem em que Dante Gabriel Rossetti representa uma Prosérpina melancólica e pensativa, a olhar furtivamente vestígios atenuados da luz longínqua do mundo a que nunca mais pertencerá completamente.

«Afar away the light that brings cold cheer
Unto this wall, - one instant and no more
»

«Afar from mine own self I seem, and wing
Strange ways in thought, and listen for a sign
»

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Sábado, Junho 12, 2004

Com filtro

Os filmes de Almodóvar de que mais gosto são A Lei do Desejo, A Flor do Meu Segredo e Saltos Altos.
Achei muito bonito o filme Fala com Ela, mas desde A Flor do Meu Segredo que sinto falta da paixão e do desespero em estado bruto que os filmes deste realizador costumavam trazer quase sem filtro. A partir daí, muito de Almodóvar me pareceu demasiado atenuado, demasiado mediado por corpos estropiados, doentes e adormecidos.

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Matemáticas

Talvez uma das mais importantes leis do desejo seja aquela segundo a qual este sobrevive pelo facto de paixão, prazer e sexo raramente coincidirem.
Em face da dificuldade desta coincidência, o desespero e a morte podem ser matemáticos. Mas, no filme Má Educação, esta matemática transforma-os na simples ausência de felicidade que irradia do corpo de Gael Garcia Bernal, tornado opaco pela sobreposição de imagens e personagens que nele se concentram através da fusão de supostas narrativas literárias, biográficas e cinematográficas.
Neste filme, a mediação da paixão e do desejo evidente nos filmes mais recentes de Almodóvar fecha-se no corpo gelado desta personagem costurada a partir de ausências que nunca corporiza integralmente, e acaba paradoxalmente por torná-los presentes com uma intensidade inesperada.
Há muito que não via um filme de Almodóvar de que gostasse tanto.

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Fingimentos sem redenção

«Em Má Educação [...] existe crime sem castigo, vileza sem remorso, ambição sem mitigada redenção[...]. A arte imita a vida que não é vida, porque finge sê-lo, e dissolve-se no vazio da representação. Nada possui já referentes palpáveis: o cinema é morte e desejo de morte, com implacáveis leis e insondáveis mistérios

Mário Jorge Torres

Quinta-feira, Junho 10, 2004

Viu-se aflito para fechar a porta sem esmagar nenhum

A Feira do Livro acaba hoje, e lá tive de ir fazer uma última visita.
Raramente faço compras de livros só por impulso, ou por causa do título, mas hoje, pronto, era a despedida. Não resisti.
Além disso, gosto muito dos títulos A Tarde de um Ladrilhador e A Morte de um Apicultor, talvez mais até do que dos próprios textos de Lars Gustafsson, mas hoje encontrei O Observador de Caracóis, e acho que este os supera.

O Observador de Caracóis é uma antologia de contos de Patricia Highsmith, publicado pela Teorema (trad. Paula Reis).

Sabia que?

Não é só com arco que se lançam setas. Também se pode usar uma arma chamada zarabatana, que consiste num tubo comprido através do qual, para além de setas, se podem soprar pedrinhas, grãos, dardos.

Quarta-feira, Junho 09, 2004

Dezoito e vinte e oito

Eu hoje pensei muito no verbo chispar, na acepção «pôr-se a andar dali para fora tão depressa que não seria estranho que chegasse a haver faíscas visíveis».

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Segunda-feira, Junho 07, 2004

No chão

Acontecia-me frequentemente sentir necessidade de verificar se tinha os pés bem assentes no chão. Porém, não era invulgar que eles tão assentes se revelassem que, logo a seguir, a questão premente que se colocava era a de perceber se eles, mais do que assentes, não estariam também enterrados.

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Domingo, Junho 06, 2004

O que me falha ou finda

Durou pouco tempo, ontem em Serralves, a conversa entre Maria João Seixas e dois sobrinhos do Conde de Vizela, primeiro proprietário e sonhador da Casa de Serralves. Não se falou de muita coisa.
Curiosamente, Maria João Seixas começou por citar uma estrofe do poema «Isto», de F. Pessoa, a propósito daquilo que sentia sempre que visitava a Casa: «Tudo o que sonho ou passo,/O que me falha ou finda,/É como que um terraço/Sobre outra coisa ainda./Essa coisa é que é linda.».

Tudo o que sonho ou passo

Durante a conversa ficámos a conhecer melhor a componente de sonho implícita em toda a Casa, e os caminhos que este sonho teve de percorrer antes de se poder materializar.
Para o proprietário, esta casa sintetizou e concretizou ideias e planos alimentados durante 20 anos.
O próprio processo de aquisição dos terrenos foi moroso e exigiu pesquisa. As terras pertenciam todas a pessoas diferentes, algumas das quais pouco conhecidas, ou ausentes do país, vivendo no Brasil, por exemplo.
Depois disso, muitas pessoas de várias profissões estiveram envolvidas na concepção e construção da casa, mas a unidade e a harmonia do todo foram asseguradas pelo Conde de Vizela, pessoa muito metódica, como prova a grande quantidade de correspondência guardada.

É como que um terraço

Falou-se bastante da presença da água como sendo fundamental na arquitectura da casa e dos jardins, e garantindo a tranquilidade e o repouso que ali se respiram.
Na altura em que o jardim foi desenhado podia ver-se o mar, que funcionava como uma espécie de prolongamento e corolário da água que se ouve e vê em quase todos os sítios, na casa de fresco, no tanque, nos lagos.
Mas a vegetação entretanto cresceu e tapou a vista.

Sobre outra coisa ainda

O Conde de Vizela viveu cerca de dez anos na casa que passou vinte a desejar. Foi obrigado a vendê-la. Na altura, várias pessoas o aconselharam a vender apenas a quinta da casa para um empreendimento imobiliário. Mas ele respondia sempre que não era capaz de destruir aquilo que lhe levara tanto tempo a reunir. E só vendeu a casa a alguém que prometeu não desagregar o todo.
E por isso pudemos todos estar ali a conhecer a história. Por isso podemos continuar a visitar a casa e passear nos jardins sempre que nos apetecer.

Sábado, Junho 05, 2004

Neste tempo a planta de uma casa deve ser feita a pensar na sua ruína

Maria Velho da Costa escreveu um conto sinistro sobre Serralves, em que a casa, «só e pura, universal pensamento» assume o papel de personagem principal, tornando-se gradualmente inabitável, porque tem a vocação de «expelir» e a sua função é a inospitalidade.

«A casa com o seu risco de mastaba agachada mantinha-se assim quieta, constelada no seu íntimo de pequenas vibrações de tubagens, de fios, de ascensões e descidas de águas e energias. Era um corpo compacto que encimava o jardim, as águas espelhadas em socalcos e taludes, as sebes de buxo e os canteiros de recorte austero que ritmavam o afastamento entre a casa e o bosque. Percorriam-na vultos escuros [...]» (p.112)

«Tinha as terríveis chaves da sua circunstância e tornara-se malévola. Tudo o que era escuro, violento e subtil, sujo e sublime naquela cidade estancara ali, no cais daquela casa sereníssima que podia matar, com a sua autonomia de génio frio e nenhuma benevolência.» (p.114)

Do conto «A Ponte de Serralves», in Porto.Ficção, antologia de contos sobre o Porto, Edições Asa

Sexta-feira, Junho 04, 2004

Há pessoas que choram pela noite dentro

e depois não contam nada a ninguém.

Quinta-feira, Junho 03, 2004

A hipótese do anjo

Talvez aos sobejamente conhecidos traços distintivos da Rua Miguel Bombarda pudéssemos acrescentar a intensidade invulgar dos sons que ali facilmente se propagam como numa câmara ecóica.
E não estou a dizer isto por causa do «Retire o seu Cartão» da caixa automática da zona, que, segundo os entendidos, pode, em dias de nevoeiro, ser ouvida não só em Cedofeita, mas também no Palácio de Cristal.
Reparei nisto por causa do som de um grilo.
Este grilo parece morar num edifício devoluto através de cujas janelas já vi pessoas perplexas a tentarem espreitar para lhe ver as asas, como se acreditassem na possibilidade de ele ser uma espécie de anjo malevolamente feito refém no Porto e metamorfoseado em ortóptero, mas guardando as dimensões originais.
Tal é a amplitude da vibração.

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A hipótese da arte

Por mim, embora não possa dizer que acredite verdadeiramente na hipótese do anjo, também não tenho a certeza que este grilo seja real. Na fachada deste prédio estão colados dois cartazes.
Um deles, em fundo azul-eléctrico, diz: «Agora não posso», e o outro, por baixo, em fundo laranja, suaviza: «A questão é que fiquei sem bateria».
Cá para mim, este grilo também é uma instalação.

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Quarta-feira, Junho 02, 2004

A decadência da medicina

Parece que a medicina em Portugal não anda bem porque há demasiadas mulheres a trabalhar nesta área.
Segundo Germano de Sousa, bastonário da Ordem dos Médicos, um dos motivos por que é necessário garantir o acesso de elementos do sexo masculino aos cursos de medicina tem a ver com a circunstância de «a maternidade afasta[r] as mulheres do serviço», «tira[ndo]-lhes alguma da capacidade de doação à profissão».
Fiquei intrigada.
Então ter filhos impede as mulheres de se dedicarem à profissão, mas não impede os homens?
Ou será que os profissionais de medicina do sexo masculino em Portugal não têm filhos?

Terça-feira, Junho 01, 2004

Vamos lá ver se consigo explicar

O narrador do livro Traições (Deception, 1990) de Philip Roth (Bertrand Editora, trad. Filomena Andrade e Sousa) chama-se Philip e é escritor.
No penúltimo capítulo deste livro, a mulher de Philip encontra o caderno onde ele tem registado as conversas que nós estamos a ler desde o início. São conversas com uma mulher que Philip diz que é a personagem de um romance complicado que está a escrever, mas com quem, fora do romance, está a ter uma relação amorosa imaginária: «Tenho andado a imaginar-me a mim próprio, fora do meu romance, tendo uma relação amorosa com uma personagem do meu romance.» (p.154), «porque às vezes me sento no quarto, como sabes, sento-me na cadeira do quarto ao fim do dia, enquanto tu dormes, e invento pequenas conversas entre mim e essa mulher.» (p.156)
A mulher real de Philip duvida do estatuto ficcional desta personagem feminina, sente-se enganada, e faz uma cena.
E nós próprios, como leitores, não sabemos ao certo se a personagem com quem Philip conversa é mesmo imaginária dentro do romance que estamos a ler.

Mulheres alegadamente ficcionais

Ainda por cima, o romance termina, anos depois, com mais uma conversa entre Philip e esta segunda mulher alegadamente ficcional e «feita de palavras», que se reconhece e é reconhecida por alguns num livro entretanto publicado. Por esse motivo, esta personagem, de certa forma, também se sente traída por Philip. Na discussão dizem-se coisas assim:

«- [...] Mas eu não estava só a viver contigo durante essas poucas horas, eu tinha uma vida contigo quando escrevia. Tinha uma vida imaginária contigo quando tu não estavas lá. [..].
- [...] E foi provavelmente a vida imaginária que tiveste comigo e a vida real que tiveste com ela.» (p.170)

«- [...] o facto de tu seres tu não significa que eu não te inventei.
- Eu também existo.
- Também. Também existes e eu também te inventei. «Também» é uma boa palavra a lembrar. Tu também não existes como tu sozinha. (p.174)