O narrador do livro
Traições (
Deception, 1990) de Philip Roth (Bertrand Editora, trad. Filomena Andrade e Sousa) chama-se Philip e é escritor.
No penúltimo capítulo deste livro, a mulher de Philip encontra o caderno onde ele tem registado as conversas que nós estamos a ler desde o início. São conversas com uma mulher que Philip diz que é a personagem de um romance complicado que está a escrever, mas com quem, fora do romance, está a ter uma relação amorosa imaginária: «
Tenho andado a imaginar-me a mim próprio, fora do meu romance, tendo uma relação amorosa com uma personagem do meu romance.» (p.154), «
porque às vezes me sento no quarto, como sabes, sento-me na cadeira do quarto ao fim do dia, enquanto tu dormes, e invento pequenas conversas entre mim e essa mulher.» (p.156)
A mulher
real de Philip duvida do estatuto
ficcional desta personagem feminina, sente-se enganada, e faz uma cena.
E nós próprios, como leitores, não sabemos ao certo se a personagem com quem Philip conversa é mesmo imaginária dentro do romance que estamos a ler.