seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Domingo, Maio 30, 2004

No sábado estive fora do Porto

Antes de uma procissão de velas, corta-se o trânsito. Depois, as pessoas cuja casa faz parte do percurso juntam-se para, munidas de baldes e sacos de pétalas de flores, tratarem da elaboração de complexos e intricados tapetes. De vez em quando há mirones que passam e oferecem dicas sem que isso lhes tivesse sido solicitado. Crianças correm de um lado para o outro, tentando colaborar, levantando pétalas e pólen. Os mais velhos enxotam-nas e ralham-lhes. A algazarra é tal que gatos se aglomeram junto aos portões para observar o processo por trás das grades, e vigiar a agitação.
À medida que a noite cai, vão-se ultimando os preparativos. Rega-se este longo tapete de materiais alados para que assente e acalme, varre-se em torno. Nos muros das casas, e pelo caminho, vão sendo colocadas lamparinas para assinalar o percurso, assim marcado a pontos de luz, como uma espécie de aeroporto hesitante.
Além disso, todos os participantes na procissão devem tratar de arranjar uma vela acesa para levar.
Quando era pequenina, também participei uma vez com a minha avó numa procissão destas, e lembro-me de ser preciso ter muito cuidado para evitar que a cera derretida das velas nos caísse a escaldar sobre a mão. Às vezes caía.
Dantes, as pessoas cantavam ou rezavam em murmúrio na procissão. Ouvia-se-lhes os passos sombrios sobre as pétalas, e a arrastar no escuro. Ontem havia um speaker, o speaker levava um microfone, e tentava comandar a multidão.

Etiquetas:

Sexta-feira, Maio 28, 2004

Apetece-lhe responder que morreu e ressuscitou

O stand da Europa-América da Feira do Livro do Porto está a fazer promoção de vários livros de Maria Judite de Carvalho. E, hoje, por volta das 19 horas, ainda havia pelo menos um exemplar do livro Seta Despedida.

Quarta-feira, Maio 26, 2004

Não foi preciso ligar o televisor

O jogo ecoava pela cidade.
E, neste momento, devo ser a única pessoa que está em casa.

Etiquetas:

Os calhamaços de Philip Roth não ajudaram nada

Credo! Acho que hoje realizei a melhor visita à Feira do Livro de toda a minha vida!
Havia dois ou três visitantes em todo o Pavilhão. Vi tudo o que quis à vontade. Embora tenham invariavelmente esboçado tentativas pouco felizes de piadas relacionadas com futebol e sistemas informáticos ineficazes, todos os vendedores me atenderam com a santa e eficiente solicitude de quem queria assistir a um jogo na televisão. E até consegui encontrar, folhear e adquirir coisas de que não ia à procura, como Nelson Rodrigues, por exemplo.
Lamentavelmente, por todos estes motivos, fiquei tão carregada de sacos ao fim de uma hora que tive tragicamente de me vir embora sem chegar a ver sequer metade do que queria.
A partir de amanhã, lá terei de ser espezinhada por famílias inteiras, algumas delas com elementos em conflito, atropelada por carrinhos com bebés enfurecidos, escutada com cepticismo por funcionários com pouca vontade de procurar nas estantes e no catálogo títulos com menos saída, asfixiada pela má ventilação.
Devia haver jogos de futebol em todos os dias da Feira do Livro.

Terça-feira, Maio 25, 2004

Talvez os deuses só queiram colocar o homem perante a sua imagem

No Balleteatro Auditório, está em cena a peça O Anfitrião, de Kleist. Nesta peça, Júpiter assume a forma de um mortal (Anfitrião) porque deseja seduzir a mulher deste. Mercúrio actua como seu coadjuvante, transfigurando-se em Sósia, o criado de Anfitrião.
Alguns dos momentos mais interessantes são aqueles em que as personagens mortais se confrontam com as suas réplicas divinas, e chegam a pôr em dúvida a sua própria identidade.

Etiquetas:

Carne caótica

No programa da peça, o encenador (João Grosso) sublinha a noção de «carne pulsante e caótica» das personagens como um «poço profundo coberto e recoberto de ramos, arbustos e matagal espesso», cuja voz tem de ser ouvida.

Curiosamente, neste contexto são citados alguns excertos do livro O Sentimento de Si, de António Damásio (Publicações Europa-América):

«Por vezes, usamos a mente não para descobrir os factos, mas sim para os esconder

«A suposta falta de clareza, a suposta dificuldade de definição e o suposto carácter impreciso das emoções e dos sentimentos são provavelmente um indício de como encobrimos a representação dos nossos corpos e de como as imagens mentais que não se relacionam com o corpo mascaram a realidade do corpo. Se assim não fosse, saberíamos facilmente que as emoções e os sentimentos são tangivelmente acerca do corpo

«Fico sempre maravilhado quando penso no costume antigo de designar aquilo a que hoje chamamos mente pela palavra psiche, que também era utilizada para significar respiração e sangue

Etiquetas:

O poder humilde

«A consciência inicia-se quando os cérebros conquistam o poder, humilde mas revelador, de contar uma história sem palavras»

Etiquetas:

É esta a minha imagem?

Estes versos da peça são muito bonitos, e também aparecem no programa:

«É esta a minha mão? É meu este peito aqui?
É minha a imagem que o espelho reflecte?
Ser-me-ia ele mais estranho do que eu! Tira-me
Os olhos e ouço-o; os ouvidos e sinto-o;
Fora com o tacto, ainda o respiro,
Leva-me os olhos, ouvidos, cheiro e tacto,
Leva todos os sentidos, e deixa-me o coração:
Se me deixas o sino que eu preciso
Hei-de encontrá-lo no mundo, seja onde for

Etiquetas:

O sino

Iris Murdoch tem um romance que se intitula precisamente The Bell. Já não me recordo com exactidão da intriga, mas sei que durante quase todo o romance há um sino escondido na lama do fundo escuro de um lago.

A dada altura, o sino é referido desta forma:

«A bell is made to speak out. What would be the value of a bell which was not rung? […] A great bell is not to be silenced. Consider too its simplicity. There’s no hidden mechanism. All that it is is plain and open; and if it’s moved it must ring

Etiquetas:

Neste sino está gravada a inscrição «Eu sou a voz do amor»

E, quando ele é recuperado para a superfície, lemos esta descrição daquilo que poderá ser guardar vestígios de ter habitado o fundo das águas:

«The bell lay upon its side, the black hole of its mouth still jagged with mud. Its outer surface, much encrusted with watery growths and shell-like incrustations, was a brilliant green. It lay there, gaping and enormous, and they looked at it in silence

Etiquetas:

Segunda-feira, Maio 24, 2004

Lugares em que ter colocado uma bomba durante este fim-de-semana poderia ter reduzido drasticamente a blogosfera

- Café do Cais, na Ribeira;
- Cão que Fuma, na Rua do Almada;
- Balleteatro Auditório, em Arca d’Água;
- Labirinto, na Rua Nossa Senhora de Fátima;
- Feira do Livro do Porto.

Blogues com elementos avistados nestes lugares

- Janela Indiscreta;
- Torneiras de Freud;
- Tempo Dual;
- Little Black Spot;
- A Montanha Mágica;
- Umblogsobrekleist;
- Seta Despedida;
- Leitura Partilhada.

Blogues com um elemento cuja casa estava a ser pintada e não foi avistado em lugar nenhum

- Quartzo, Feldspato & Mica

Sábado, Maio 22, 2004

Fim-de-semana

Sem posts. Mas em blogosfera.
Eu depois conto.

Quinta-feira, Maio 20, 2004

Os céus parecerão estar vazios

A energia negra é uma misteriosa força repulsiva, de efeito oposto ao da gravidade, que se pensa que pode estar a acelerar a expansão do Universo.

Na NASA, através do telescópio espacial Chandra, foram recolhidas novas provas da sua existência.

«Os dados revelados pela NASA [...] vão ao encontro de descobertas anteriores, que apontavam para que a energia negra fosse aquilo a que Albert Einstein chamou a constante cosmológica - uma expansão gradual e possível de prever do Universo, que resultará numa solidão de proporções cósmicas, daqui a uns 100 mil milhões de anos, quando as galáxias estiverem tão distantes umas das outras que os céus parecerão estar vazios

Há quem suponha que a energia negra possa corresponder a 75 por cento do Universo.

Neste artigo do Público

Etiquetas:

Quarta-feira, Maio 19, 2004

Mais coisas que aprendi sobre as cigarras-X

1. Quando sobem à superfície, as cigarras-X ainda são totalmente brancas, como fantasminhas ou figuras de livros para pintar. Só depois escurecem e endurecem.
2. O ruído que emitem assemelha-se ao som da palavra inglesa «Pharaoh».
3. Geralmente estão caladinhas de noite.
4. Quando servidas com molho, sabem a batata e abacate.
5. No caso de serem incentivadas a descrever o que sentem depois de comerem estas cigarras, algumas pessoas encontram em si vestígios de uma culpa que dizem relacionar-se com o facto de terem interrompido o ciclo de vida de um animalzinho que esperou subterraneamente 17 anos para subir à superfície da terra.

Etiquetas:

Momento proustiano do dia

Hoje, quando regressava a casa, encontrei a Nastenka-d e a Leitora do blogue Leitura Partilhada, em missão bookcrossing nas cercanias da Rua Miguel Bombarda.
... Na realidade, foram elas que me encontraram a mim, acenando e chamando persistentemente do outro lado da rua até eu, com cara de extraterrestre transviado, conseguir regressar da dimensão alternativa em que na altura viajava.
Depois disso, juro que passei o resto do caminho a olhar com muita atenção para todas as pessoas que se cruzavam comigo.
Com tanta atenção que estou em crer que pelo menos algumas delas tenham ficado a pensar que eu devia conhecê-las de algum lado.

Domingo, Maio 16, 2004

O dilema do gato de Schrödinger

Era uma vez um homem que queria conhecer o percurso de um certo gato ao atravessar o espaço de um sótão. Mas o homem sabia que, iluminando o espaço para poder filmar o percurso do gato, este não iria seguir o caminho habitual, perturbar-se-ia, talvez se escondesse, acabando por fazer tudo menos aquilo que normalmente realizava.
Por outro lado, se quase não iluminasse o espaço pouco haveria para ver.

Esta historinha, uma alegoria do físico Schrödinger para colocar o problema das partículas em microfísica, é contada por Daniel Tércio a propósito do espectáculo I Am Here, de João Fiadeiro.

Etiquetas:

A respiração e o restolhar dos movimentos no escuro

Na alegoria de Schrödinger, o dilema do homrm é resolvido com a ideia de probabilidade: a solução achada é fotografar em flashes, com uma intensidade de luz moderada, de forma a determinar com a precisão possível um conjunto de pontos no percurso do bicho.
Fiadeiro opta pela (in)visibilidade que a escuridão de grande parte do seu espectáculo instala no pequeno auditório do CCB, «restando ao espectador a possibilidade de escutar a respiração e o restolhar dos movimentos de Fiadeiro».

Etiquetas:

O invisível e a cegueira

Daniel Tércio escreve o seguinte em relação a esta opção: «Fiadeiro obriga o espectador a fazer coincidir o invisível com a cegueira, e desta maneira não desvenda o invisível, mas apenas reduz o campo do visível. O que não deixa de ser frustrante, do ponto de vista do espectador

A mim, que não vi o espectáculo, e, portanto, me limito a brincar de ânimo leve com estes conceitos, interessa-me, pelo contrário, a forma como o invisível pode não ser cegueira.

Etiquetas:

Sabendo que somos cegos

Estou a lembrar-me de uma entrevista antiga de Gonçalo M. Tavares, penso que ao Mil Folhas, em que ele diz coisas como:

«É fácil quantificar o visível. [...] E por isso desistimos facilmente do invisível

«Temos de nos obrigar a quantificar o desaparecido e o invisível. Sabendo que somos cegos

Etiquetas:

Na folha de sala do espectáculo de Fiadeiro

podia ler-se: "não olhes para o meu corpo a fazer coisas, olha para aquilo que o meu corpo - de facto - deixa feito."

Etiquetas:

No escuro

Clarice Lispector escreveu o seguinte:

«Como se agora, estendendo a mão no escuro e pegando uma maçã, ele reconhecesse nos dedos tão desajeitados pelo amor uma maçã. Martim já não pedia mais o nome das coisas. Bastava-lhe reconhecê-las no escuro. [...]
E depois? Depois, quando saísse para a claridade, veria coisas pressentidas com a mão, e veria essas coisas com os seus falsos nomes. Sim, mas já as teria conhecido no escuro como um homem que dormiu com uma mulher


in A Maçã no Escuro, Relógio d’Água, p. 308

Etiquetas:

Repercussão

Gostei muito de Repercussão, o livro mais recente de Gastão Cruz, publicado pela Assírio & Alvim. Achei particularmente interessante a componente de reflexão metapoética implícita ou explícita em quase todos os poemas, como que criando dentro deles ecos e reflexos de si próprios.
Há de facto muitos ecos e reflexos nestes poemas de Gastão Cruz, e a noção de diferença em algo que permanece o mesmo é fundamental neste livro.

Etiquetas:

Reconhecer é uma ciência exacta

Reconhecer implica ter conhecido. Só reconhecemos o que já conhecemos de outra forma. Esta escrita apropria-se de algumas palavras, investindo-as com traços semânticos irreprodutíveis fora dela: «céu que só na água/sobrevive quando água significa ave» (p.10). Reconhecemos as palavras mas temos de saber ouvir sempre ecos de outras nelas. E seria muito elucidativo, por exemplo, o estudo das repercussões de vocábulos como «luz», «água», «aves» nestes (e noutros) textos deste escritor.

Etiquetas:

Reconhecer e regressar

Para Gastão Cruz, escrever um poema, ler um poema implicam reconhecimento, e são actividades relacionadas com a capacidade de distinguir ecosem casa como em gruta, grito/logo perdido nos confins da pedra/certo batendo e desfazendo o hirto/silêncio de granito em que penetra//Era a alma do poema que faltava,/o eco da palavra?», p.28, a propósito de um poema que «não funcionava»), de saber chamar Vou chamar, quem? A noite em que estamos é certo mas só reconhecemos/seu corpo quente quando a casca/do sonho se estilhaça e para fora/passa a ciência na água», p.52) e de saber regressar: «O rumor de um motor na água/negra a água velha do verão as aves/criam fios de regresso/ao conteúdo do espelho em que/se espelha este» (p.10). Regressar àquilo que dá origem aos ecos e aos reflexos. Regressar àquilo por que se chama: «julgo que o meu rosto vês/como um rosto não como/um nome que não pertenceu jamais/ao espelho absurdo em que estará mudado» (p.70). Aos rostos e aos corpos, não aos espelhos, nem ao nomes: «um/corpo/sempre foi mais/importante do que um verso» (p.56).

Etiquetas:

Os sons precisos

Mas regressar ao «mundo que me inspira» é regressar àquilo que «de dizer me impede os sons precisos» (p.27).
O mundo não tem sons precisos, e aí talvez resida a origem e a razão desta poesia em busca da exactidão que não se encontra no mundo.

Etiquetas:

Entre o som e o sentido

«Entre o som e o sentido, como sempre, mas também pensando o modo como o «mundo» vai em infindáveis ajustes vocabulares ficando alguma coisa muito diferente do mundo (sem aspas). [...] Nesse sentido, a preocupação reiterada com o modo de fazer do poema é uma afirmação sumamente eficaz. Sobretudo na medida em que postula uma espécie de cepticismo, que vê quase tudo (afectos, palavras, coisas) num «limbo» que apenas os melhores poemas resgatam (e talvez nem isso)
Pedro Mexia

Quinta-feira, Maio 13, 2004

O Enxame X

A minha notícia preferida do dia saiu no Público e conta a história das cigarras que vão invadir a zona leste dos Estados Unidos durante os próximos dias, sendo ruidosas, cobrindo casas e edifícios, alcatifando ruas e quintais em 15 estados norte-americanos, do norte da Geórgia até ao sul de Nova Iorque, numa densidade estimada de 3,5 milhões de insectos por hectare.
Estas cigarras não picam, não mordem, nem estragam plantações. Os seus conhecidos voos desajeitados e falta de vista poderão levá-las a chocar equivocamente contra pessoas e animais de estimação, mas nada mais.

Etiquetas:

Estratégias de sobrevivência: satisfação dos predadores

Estas cigarras pertencem ao género «Magicicada». Emergem em bizarros intervalos de números primos (de 13 ou 17 anos), e em quantidades tão grandes que os predadores não conseguem comê-las todas. É por isso que sobrevivem.

Etiquetas:

Vidas subterrâneas

É verdade que elas sobem à superfície para concluir vertiginosamente as últimas três semanas do seu ciclo vital, chamando os parceiros, copulando, pondo ovos e, finalmente, morrendo em massa, como num filme de acção com muitos figurantes mal pagos. Mas ainda mais interessante parece-me a circunstância de as suas ninfas permanecerem debaixo da terra durante todos esses anos, alimentando-se da seiva que sugam das raízes das árvores que as mães escolheram para depositar os ovos, e, depois, de repente, e simultaneamente, de asas transparentes e olhos vermelhos, furarem caminho até à superfície, para aí permanecerem por tão pouco tempo.

Etiquetas:

Isso, e estas cigarras temporariamente visíveis

estarem a aumentar em número ao longo das décadas, devido a alterações na vegetação:
«as árvores suburbanas instaladas em largas avenidas e campos de golfe são mais novas e saudáveis do que as árvores das antigas florestas despovoadas, e portanto ideais para que estes insectos se multipliquem e regressem em proporção ainda mais gigantescas no ano de 2021».
Gosto de vidas subterrâneas.

(Vale a pena ler o texto todo.)

Etiquetas:

Quarta-feira, Maio 12, 2004

Máquinas de café: algumas reflexões

É conveniente colocar um post-it com a mensagem “não há café” sempre que esta bebida se esgota na máquina automática.
Este post-it deverá ser colocado junto ao botão através do qual se selecciona a bebida pretendida.
Qualquer localização mais subtil corre o risco de passar despercebida, desencadeando, portanto, reacções violentas indesejáveis quando o utilizador da máquina descobrir que não só não obteve o café pretendido, como também isso aconteceu porque não se deu ao trabalho de ler todas as mensagens coladas na máquina.
Além disso, terminar o texto do post-it com um “obrigado” não é necessário.

Outra reflexão perante o apocalipse

Em festas com crianças, colocar um ursinho sentado num banco a segurar um molho de balões cor-de-rosa e brancos pode ser uma ideia menos genial do que parece.
Quando assaltados, os ursos de peluche, mesmo os de grandes dimensões, largam os balões que supostamente deveriam defender. E, no caso de assim serem libertados, os balões, esses irresponsáveis, voam imediatamente até ao tecto, recusando-se a descer. Mesmo depois de terem sido resgatados com bancos e/ou escadotes, ingratos, os balões podem ser feitos reféns nos quartos-de-banho.

Terça-feira, Maio 11, 2004

Mudanças de pele provavelmente temporárias

Pelo sim, pelo não, guardei o template anterior.

Little Black Spot

... é um dos nomes mais bonitos da blogosfera, e a autora tem uma genuína «alma de artista». Hoje faz um ano. Parabéns.

À atenção da Medeia

Queria ver o ciclo Cremaster aqui no Porto.
Interessam-me:
- a fuga à narrativa convencional;
- a fluidez de estados e formas;
- a sublimação da intriga em arquitectura;
- o boicote do desejo de projecção do público nas personagens;
- a ausência de humanidade tradicional nas personagens;
- as relações de proximidade entre seres humanos e objectos;
- o Chrysler Building;
- Budapeste;
- Peter Greenaway, Stanley Kubrick;
- Richard Serra;
- criaturas fantásticas;
- o silêncio;
- e a ideia geral de conjugação das forças da natureza e da civilização, do homem e da tecnologia, da arte e da vida.

Ver:
Textos do Y
Post do Ricardo Gross

Depois do sonho de Laurie Anderson

... o sonho do Rui Amaral.

Segunda-feira, Maio 10, 2004

A favor

«Não chego até ao fim contra. Chego até ao fim absorvendo.»

Pedro Cabrita Reis
em A Favor da Claridade de Teresa Villaverde

Etiquetas:

O terceiro instrumento

Se lermos com atenção a entrevista de Luís Miguel Oliveira a Stephen Merritt no Y da última sexta-feira vamos encontrar uma verdadeira reflexão sobre arte e criação.
Em primeiro lugar, ficamos a saber coisas sobre mecanismos criativos. Merritt escreve muito em bares: «É que há sempre música e canções na minha cabeça, e preciso de as "afogar" para conseguir escrever uma canção. Num bar, a música ambiente "afoga" a música da minha cabeça.», diz ele.
Percebemos que falar sobre criação implica discutir jogos de convenções e expectativas. Quando Merritt se refere depreciaticamente ao «pressuposto realista de que determinado instrumento tem que soar de determinada maneira» é nesses jogos que pensamos. Merritt diz que sempre se divertiu a fazer soar os instrumentos como se fossem outros, e que gosta muito de ouvir combinações que formam um «terceiro instrumento».
«A música popular é uma questão de lidar com as convenções e expectativas associadas, e tentar ultrapassá-las.», diz ainda.
Mas não é só a música popular.

Etiquetas:

Domingo, Maio 09, 2004

Deve haver pelo menos um poema sobre isto

Vocês já pensaram bem numa flor como a ave-do-paraíso?
Trouxe algumas do jardim dos meus pais. Agora estão numa jarra na minha sala. Quase que as ouço gritar como pavões e bater as asas invisíveis.

Etiquetas:

Sexta-feira, Maio 07, 2004

Os pesadelos recordados

Quando estou mais cansada, recordo com facilidade os pesadelos que tive durante a noite.
Todas as pessoas têm histórias para contar sobre sonhos e pesadelos: presságios, coincidências, repetições, falsas memórias, absurdos, incongruências, símbolos com algum sentido.
Houve uma altura em que tive sonhos coerentes e extraordinariamente complexos do ponto de vista narrativo. Isso, entretanto, deixou de acontecer, mas às vezes tenho pesadelos repetidos.
Um deles passa-se num dia de exame. O exame tem só uma pergunta. Não é uma pergunta que tenha preparado quando estava a estudar, mas, apesar de não ser uma pergunta motivadora ou interessante, também não é realmente difícil.
Eu sei responder à pergunta do exame. O verdadeiro problema, ali, relaciona-se com outra coisa: vou sempre para esses exames sem caneta, e nunca há ninguém, na sala, com uma caneta a mais para me emprestar.
Depois, o tempo vai passando, e eu fico ali, sentada, calma, indiferente, a ver os outros a escrever, sem fazer nada, sem me ir embora, sem procurar uma caneta noutro lado.

Etiquetas:

Quinta-feira, Maio 06, 2004

O sonho de Laurie Anderson

E, hoje de manhã, acordei a lembrar-me de uma música de Laurie Anderson. Esta música pertence ao álbum Bright Red, que ouço muito. Mas, hoje, quando abri a caixa do CD, não encontrei o disco. A música de que falo intitula-se «Tightrope», também aparece, em versão reduzida, na banda sonora do filme Faraway, So Close!, de Wim Wenders, e é precisamente de um sonho que fala.
Já agora, se alguém, a sonhar ou acordado, por acaso encontrar este meu CD misteriosamente desaparecido, ficarei grata se me for devolvido.

«In this dream I'm on a tightrope
and I'm tipping back and forth
trying to keep my balance.
And below me are all my relatives
and if I fall I'll crush them.
This line this blood line
This song line.
This shout.
The only thing that binds me
to the turning world below
and to all the people and noise
and sounds and shouts.
This tightrope made of sound»

Etiquetas:

Quarta-feira, Maio 05, 2004

A colecção

A personagem principal de A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares, tem um segredo a que se entrega à porta fechada. É uma colecção, e, quanto mais a desordem e a imprevisibilidade do mundo aumentam, mais Walser se lhe dedica, catalogando pormenorizadamente cada uma das peças que para ela a custo obtém, «conferindo medidas: espessura, comprimento, largura, desenhando a forma da peça e a máquina ou a estrutura simples a que pertencia, registando ainda a cor e as funções - funções concretas e possíveis - registando o local onde havia recolhido a 'preciosidade' metálica, o dia, a hora; fazendo ainda uma estatística [...], agrupando as peças por diferentes características [...].» (p.88).
Tenho meditado muito sobre este tema ultimamente.
Tendo em conta a minha incapacidade para colecções, estou em crer que ficarei para o resto da vida refém da desordem e da imprevisibilidade. No entanto, devo confessar que, depois disto, mesmo eu cheguei a idealizar uma colecçãozita quase viável.

Etiquetas:

Os livros emprestados

No domingo, emprestaram-me um livro. Fiquei a pensar na forma como um livro revela tantas vezes características dos proprietários. Há pessoas que riscam tudo, com cores diferentes, escrevem comentários. Outras não querem deixar nada marcado. Sei de uma pessoa que sublinha os livros, mas antes de emprestar apaga os sublinhados. Ficam os rastos.

O livro que me emprestaram estava aparentemente intacto, sem um sublinhado, sem uma assinatura, sem um comentário, e com uma capa branca quase imaculada.
A única marca de propriedade residia nos precisamente vinte (sim, dei-me ao trabalho de contar) papeizinhos, rasgados e todos de tamanho diferente, que assinalavam as páginas consideradas importantes.

Título: Esculpir o Tempo
Autor: Andrei Tarkovsky
Editora: Martins Fontes

Depois dos abre-cartas, a minha segunda colecção frustrada poderá vir a ser de livros emprestados.

Etiquetas:

Terça-feira, Maio 04, 2004

Punição eterna

Esta é a semana da Queima das Fitas do Porto, e hoje foi dia de cortejo.
O cortejo começa quase na rua em que trabalho. Portanto, passa por baixo da minha janela logo no início, quando ainda nem todos os jovens estudantes estão totalmente bêbedos. E é como um concerto de música pimba mutante em thrash metal, mas sempre com a mesma canção. Sempre a mesma canção, em altos berros e vozes esganiçadas. A tarde toda a mesma canção.
Os estrangeiros embasbacam. Os passarinhos emudecem. As próprias gaivotas, que são bichitos persistentes e irritantes, ficam desaparecidas por dias a fio. Não há carros, porque o trânsito está cortado nas ruas mais importantes. Só ambulâncias com comas alcoólicos.
A cidade, emparvecida, suspende-se.
Se bem me lembro, quando andava na faculdade participei uma vez no cortejo. Nos outros anos preferi ser considerada alienada e anti-social pelos meus pares a desperdiçar a tarde. No entanto, desde que comecei a trabalhar, não houve ainda um único ano sem cortejo na minha vida, e deixem-me dizer-lhes que deve haver formas de tortura menos excruciantes. Começo secretamente a acreditar na existência de uma Comissão de Praxe abstracta que tenha deliberado punir-me até à eternidade pelos poucos anos de indiferença académica que ousei incautamente manifestar.

Para mais, este ano, a coisa, entretanto, complicou-se. O F. C. Porto passou à final da Liga dos Campeões. Já ouço as buzinas, e não são ecos da tarde.
Ninguém vai dormir hoje à noite nesta cidade.

Etiquetas:

Segunda-feira, Maio 03, 2004

Sylvia Plath fala de poesia

«How shall I describe it? - a door opens, a door shuts. In between you have had a glimpse: a garden, a person, a rainstorm, a dragonfly, a heart, a city. I think of those round glass Victorian paperweights which I remember, yet can never find [...]. This sort of paperweight is a clear globe, self-complete, very pure, with a forest or village or family group within. You turn it upside down, then back. It snows. Everything is changed in a minute. It will never be the same in there - not the fir trees, nor the gables, nor the faces.
So a poem takes place.»

Do texto «A Comparison», que vale a pena ler integralmente

Etiquetas:

Ted Hughes fala de poesia

«Poderá pensar-se que esses dois interesses, apanhar animais e escrever poemas, nada têm em comum. Mas quanto mais olho para trás mais me convenço de que, em mim, os dois interesses formam um único. [...] Creio que de certa maneira vejo os poemas como uma espécie de animais. Tal como os animais, têm vida própria, querendo eu dizer com isso que existem separados das pessoas, até mesmo do seu próprio autor, nada havendo que lhes possa ser acrescentado ou retirado sem os estropiar e até sem os matar. [...] Uma excitação muito particular, a concentração levemente hipnótica e totalmente involuntária que germina o desenrolar do poema na mente, o turbilhão de sensações depois realizando-se numa forma clara, essa forma que passa então a ser a única realidade viva no interior de tudo o resto, tudo aponta para uma ligação entre as duas coisas. Porque é sempre de uma captura que se trata e o poema não é senão um novo ser, um novo espécime de uma vida que acontece fora da nossa própria vida.»

De O Fazer da Poesia de Ted Hughes, trad. Helder Moura Pereira, Assírio & Alvim, pp.15-17

Etiquetas:

Ted Hughes fala sobre Sylvia Plath

«Maybe all poetry, insofar as it moves us and connects with us, is a revealing of something that the writer doesn't actually want to say, but desperately needs to communicate, to be delivered of. Perhaps it's the need to keep it hidden that makes it poetic - makes it poetry. The writer daren't actually put it into words, so it leaks out obliquely, smuggled through analogies. We think we're writing something to amuse, but we're actually saying something we desperately need to share. The real mystery is this strange need. Why can't we just hide it and shut up? Why do we have to blab? Why do human beings need to confess? Maybe, if you don't have that secret confession, you don't have a poem - don't even have a story. [...] Sylvia went furthest in the sense that her secret was most dangerous to her. She desperately needed to reveal it. You can't overestimate her compulsion to write like that. She had to write those things - even against her most vital interests.»

«I see now that when we met, my writing, like hers, left its old path and started to circle and search. [...] Our methods were not the same. Hers was to collect a heap of vivid objects and good words and make a pattern; the pattern would be projected from somewhere deep inside, from her very distinctly evolved myth [...] My method was to find a thread end and draw the rest out of a hidden tangle.»

Nesta entrevista.

Etiquetas:

Coisas que os leques podem dizer

-Siga-me
-Eu gostaria de me afastar de si
-Sim?
-Não confio em si
-Nós seremos amigos
-Nós estamos a ser observados
-Não revele o nosso segredo
-Não se esqueça de mim

De Dilema, projecto fotográfico de Vasco Araújo no Museu de Serralves
«O artista revela-nos um código antigo: a linguagem dos leques, onde a relação entre a posição do leque e a expressão do rosto e do corpo transmitem um conjunto escondido de mensagens pré-definidas, apenas reconhecíveis por quem conheça previamente as regras de interpretação desta gestualidade simbólica.»

Domingo, Maio 02, 2004

Sylvia

Depois de tudo o que aconteceu, das biografias, dos diários, dos poemas, das cartas, das entrevistas a conhecidos, parece-me que o que deveria ser esperado de um filme sobre Sylvia Plath e Ted Hughes se relacionaria menos com os factos, sobejamente conhecidos e explorados até à exaustão, e mais com algo que só o cinema poderá desvendar.
De certo modo, neste filme descobrimos alguns pormenores sobre a vida destes escritores em que poderíamos não ter pensado antes: as sombras, a falta de luz nos espaços exíguos das casas alugadas, o nevoeiro da quinta em Devon, os cabelos por cortar, a estranha relação entre os bolos e a incapacidade de escrever, o cansaço de dar aulas, o lixo por levar lá fora, e, em tudo isto, a forma como as forças da morte e do silêncio coabitavam no íntimo de Sylvia Plath e iam sendo por ela transformadas em vida e em literatura.

Etiquetas:

Just these two halves

Para mim, é quando procura retratar a relação entre dois escritores que Sylvia deixa mais a desejar.
De vez em quando, é referido no filme o entendimento quase sobrenatural que existiria entre Plath e Hughes. A dada altura, Sylvia diz mesmo "We’re not even two people, we were just these two halves with great big hopes. We found each other and we were whole. We could not stand to be happy so we ripped each other apart.". Mas não há parte nenhuma em que a relação entre ambos pareça feliz ao ponto de suportar sequer seis anos de casamento. São raras as vezes em que as duas personagens principais estão sozinhas ou a conversar. E, quando isso acontece, geralmente deparamos com discussões violentas.
Em vez de explorar a relação (criativa ou asfixiante) entre dois grandes escritores do séc. XX, o argumento centra a sua atenção nos aspectos sociais desta associação (o contraste entre o reconhecimento que Ted Hughes granjeia e a sobranceria com que Plath era encarada enquanto escritora), e no estatuto de mulher enganada. E, portanto, a perspectiva estabelece-se mais de fora para dentro do que de dentro para fora.

Por mim, teria preferido que este filme se tivesse aventurado por outras paragens talvez mais ficcionais, porque menos baseadas em factos observáveis e documentados, mas bem mais cinematográficas.

Etiquetas:

Hoje vou omitir a citação de Philip Larkin

Geralmente, a expressão «Por falar nisso» é usada para introduzir em conversa um tema que se relacione com outro anteriormente abordado.
No entanto, conheço pelo menos uma pessoa que usa esta expressão de forma inovadora, quando vai mencionar alguma coisa que não tenha nada a ver com aquilo de que está a falar, ou após um silêncio prolongado em que de facto não se está a falar de nada.
Minto. Conheço pelo menos duas pessoas. Uma delas sou eu. Quando me dou conta da asneira, tento humildemente corrigir para «isto é, por não falar nisso»; ou sou corrigida, em tom de gozo, por aqueles que já me conhecem.
Mas eu sou apenas uma vítima inocente! Sei agora que, esta idiossincrasia persistente e lamentável que, por mais que tente, não consigo erradicar do discurso, foi herdada da minha mãe.
(Até palavras herdamos, até palavras.)