No Teatro do Campo Alegre, está em cena a peça
Desejo de Sucesso (
Speed-the-Plow, 1988), de David Mamet (enc. Luís Mestre), a história do dilema de um produtor de cinema: o seu melhor amigo propõe-lhe um guião que poderá proporcionar-lhe a fortuna; uma rapariga oferece-lhe o guião que lhe vai salvar a alma.
Talvez a citação mais famosa deste texto seja «Life in the movie business is like the, is like the beginning of a new love affair: it's full of surprises, and you're constantly getting fucked.». Mas esta não é uma peça só sobre Hollywood e a dicotomia arte/idealismo versus comércio/dinheiro. É também sobre sexo, amizade, poder, e, principalmente, sobre os dilemas morais que enfrentamos todos os dias. E quer estejamos numa situação de poder, quer não, todos os dias podemos tomar decisões em que está em jogo a nossa «alma», ou, mais precisamente, os princípios que nos definem.
A propósito das personagens da rapariga e do amigo, houve críticos que falaram do tradicional esquema do anjinho e do diabinho a disputar a alma do produtor, dizendo que Mamet está demasiado claramente do lado dos cínicos, em detrimento dos anjos. Não sei bem. Sei, no entanto, que Luís Mestre encontrou em Fernando Moreira (tão frequentemente subaproveitado, mas que já tínhamos visto também no papel principal de
American Buffalo) um actor rápido, inteligente, mordaz, irónico, arrogante, e, contudo, simultaneamente vulnerável, e capaz de expressar as múltiplas nuances de dúvida, volubilidade e ausência de coragem que conferem densidade à sua personagem.
E sei também que este é um espectáculo que merece ser visto. É David Mamet «puro e duro», exigente, cheio de diálogos vertiginosos, manipulativos, em que o público tem de estar muito atento porque aquilo que está a ser dito pode bem não ser o mais importante. Além disso, apesar disso, está muito bem representado.
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