seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Sexta-feira, Abril 30, 2004

only an infinite finitude

Lá se foi Thom Gunn (n. 29-8-1929, m. 25-4-2004).

«But now it breaks - images burst with fire
Into the quiet sphere where I have bided,
Showing the landscape holding yet entire:

The power that I envisaged, that presided
Ultimate in its abstract devastations,
Is merely change, the atoms it divided

Complete, in ignorance, new combinations.
Only an infinite finitude I see
In those peculiar lovely variations.»

De «The Annihilation of Nothing»
(O poema todo pode ser lido aqui.)

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Quarta-feira, Abril 28, 2004

A proteger-se com imagens

Para mim, uma das questões mais importantes do filme Nostalgia tem a ver com o estatuto de observador que Gortchakov, a personagem principal de um escritor russo à deriva em Itália, cultiva durante a maior parte do tempo.
Gortchakov é um observador não participante: observa quase sem reagir. É assim que percebemos que ele não pertence aos sítios por onde passa.
Percebemos também que ele é muitas vezes invadido de repente por imagens do passado, da família, do sítio de onde vem. Mas são imagens em que ele também não participa. E são só imagens. Alguém pode pertencer a uma imagem?
Acontece, porém, que, talvez por guardar do passado apenas imagens a que não pode regressar, Gortchakov, talvez inadvertidamente, transforma o presente também em imagens meramente observáveis.
Em entrevista, Tarkovsky diz que gosta de personagens fracas, e Gortchakov parece uma personagem fraca durante grande parte do filme: uma personagem fraca a proteger-se com imagens enquanto observa as águas.

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Frescos em paredes danificadas

E é engraçado que alguém fale de frescos em paredes danificadas a propósito dos actores de Nostalgia, como se os próprios corpos que figuram no filme não passassem de imagens.
Talvez o primeiro momento de suspeita relativamente a este estatuto visual seja o da surpresa da hemorragia violenta do nariz que Gortchakov sofre depois de uma discussão (em que quase só ouve), e após a qual o chão fica sujo de sangue.

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sometimes the space contains, sometimes it releases

Pode ser que do passado restem apenas imagens, mas no presente há corpos que ainda são capazes de deitar sangue. O passado e o presente ainda não são compatíveis. E, para Tarkovsky, a palavra «nostalgia» tem a ver com esta percepção da existência de dois mundos que não podem ser unidos, mas também se relaciona com o desejo de encontrar uma morada que concilie tudo, e com a tristeza e desalento dos momentos em que é descurada a procura desse espaço.
No fim deste filme ocorre uma espécie de osmose entre o espaço russo e uma catedral italiana, como se essa morada «impossível», mas verdadeira, tivesse estado sempre contida nos espaços (possíveis) que a personagem vê separadamente.

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Em vez de ser protegido

É verdade que todas as imagens existem para ser observadas. (Se têm ou não a transparência das águas é uma questão diferente.) Mas observar as imagens ou observar as águas não é suficiente. Domenico diz a Gortchakov que é preciso atravessá-las com uma vela acesa na mão, recomeçar o percurso de todas as vezes que a vela se apague, desejar chegar ao fim sem que a vela se apague.
É preciso atravessar as imagens. E perceber, afinal, que só se pode chegar ao fim abrindo o casaco para dentro dele, no peito, abrigar e proteger a luz (que permite ver), em vez de se ser protegido por ela.

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Nostalgia

E, por fim, neste filme, a nostalgia é também o princípio da tenacidade: «Let us say that what I like the most in them is the confidence with which the madman acts and the tenacity of the traveller in his attempts at achieving a greater level of understanding. That tenacity could also be called hope.», diz Tarkovsky. A essa tenacidade podemos chamar esperança.
(Às vezes, este blogue, para mim, também é uma espécie de vela acesa com que tento atravessar as águas.)

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Terça-feira, Abril 27, 2004

Não sou um post

Se fosse um post, reescrevia-me algumas vezes, não muitas, e é bem provável que, depois disso, optasse por me apagar.

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Segunda-feira, Abril 26, 2004

Meninas más

Num destes dias, a Cristina, aquela menina que vocês agora já conhecem de vista, e sabem que é má, passou-me para a mão, assim como quem não quer a coisa, o filme Nostalgia de Tarkovsky.
Vi o filme.
Repeti muitas vezes algumas cenas, como a que se passa na casa de Domenico, o louco da aldeia, com água a atravessar os telhados, a descansar em garrafas, ou a corroer os espelhos.

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Passei o tempo todo

a lembrar-me destes versos pouco característicos de M. Sá-Carneiro: «- Água fria e clara numa noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim...».

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Depois

Li os posts da Cristina:
«Posso falar dessa arquitectura da decomposição, das igrejas sem tecto, submersas, das casas invadidas pela água, pelo fogo ou pelas ervas, pelo musgo, uma arquitectura roída, escaqueirada pelo tempo. Ou ainda do cão que segue o Stalker e segue Domenico, das imagens da infância, das árvores, dos objectos partidos, rasgados...
Mas nada disto é suficiente porque o que há nos filmes de Tarkovsky de mais importante é indizível.»

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the images wash over you

Li vários comentários de pessoas a dizerem coisas como:

- «Sometimes the actors seem to be slowly animated frescoes on damaged walls, with their faded colors and edges as if they were painted by Rublev. Sometimes the space contains another space, either a landscape or a dream space. Sometimes the space contains, sometimes it releases. [...] Sometimes it produces spatial impossibilities.»;

-«Someone once described cinema as 'painting with light' and there isn't a single shot in this movie you wouldn't have been proud to photograph. It's utterly beautiful. You don't engage with it as you would with a regular movie, you just sit back and let the images wash over you».

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Espaços impossíveis

Li esta entrevista a Tarkovsky sobre o filme, em que se fala do viajante como metáfora para aquele que não pertence ao lugar onde está, mas também já não pertence ao sítio de onde veio e vive dilacerado pelo conflito entre dois mundos que podem ser, por exemplo, dois países separados por fronteiras, ou simplesmente duas pessoas (1+1=1):
«The title of the film, for which the word "nostalgia" is only a very insufficient translation, indicates a pining for what is far from us, for worlds that cannot be united. But it is also indicative of a longing for an inner home, some inner sense of belonging.»

E talvez continue a falar sobre isto mais tarde.

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Domingo, Abril 25, 2004

Desculpem, mas adoro enumerações

«Áxion Estí» quer dizer «Louvada seja», é o título do texto de Odysséas Elytis que Manuel Resende traduziu, e inicia um grande número das quadras da última parte («Glória») deste poema, em que são enumeradas algumas coisas do mundo dignas de louvor.
Por exemplo:

-«os jogos de água a brincar no tecto»;
-«o loureiro infinito comedor de luz»;
-«uma casa com uma âncora no fundo»;
-«a invisível aorta da água que palpita»;
-«flores [...] descendentes da chuva que estremecem»;
-«o instante de alegria antes das lágrimas»;
-«raparigas vasos de mistérios/cheias até ao cimo mas sem fundo»;
-da aldeia o caracol que se estilhaçou»;
-«a voz que se perdeu no vale em baixo/bebida pelo dia como um bálsamo»;
-«um farol que deslaça a tristeza dos séculos».

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Há 30 anos

Eu tinha quatro meses, quase cinco. No berço, não sabia que muitas coisas iam começar a mudar. Por idiota que pareça, quando penso nisso, olhando para trás, quase que sinto uma vertigem de História.
Aconteceram mesmo muitas coisas nestes últimos 30 anos.

Sábado, Abril 24, 2004

Sabia que?

No Jardim Botânico do Porto é possível comprar camélias (uma dúzia a 1.25 €), rosas (uma dúzia a 1.50 €), e lenha para a lareira (não fixei o preço) se lá se for quando os jardineiros estiverem a trabalhar?

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Sexta-feira, Abril 23, 2004

Claro que comprei

Apresento-vos Klimt de Bérénice Capatti (textos) e Octavia Monaco (ilustrações), da Livros Horizonte.
A responsabilidade da narração pertence ao gato de Gustav Klimt, gato preto e branco, mágico, observador, e muito fotogénico.
O livro é lindo.

Impossibilidades que facilmente consigo realizar

Todos os dias travo comigo mesma combates mortais.

Dar tempo ao pensamento

«E foi Swann que, antes que ela o deixasse descair [o rosto], como que sem querer, sobre os lábios dele, o reteve por um instante a alguma distância, entre as mãos. Queria dar tempo ao seu pensamento para vir reconhecer o sonho que durante tanto tempo tinha acalentado e para assistir à sua realização [...]. E também, porventura, Swann fitava naquele rosto de Odette ainda não possuído, nem sequer ainda por si beijado, que via pela última vez, aquele olhar com que, num dia de partida, gostaríamos de levar connosco uma paisagem que vamos abandonar para sempre.»

de Em Busca do Tempo Perdido - Do Lado de Swann, Marcel Proust, trad. Pedro Tamen, Relógio d’Água, p.247-248

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Quinta-feira, Abril 22, 2004

Aprisionar partículas de vento solar

No fim do Verão, a Génesis vai voltar à terra com um pedaço do Sol.
Desde Outubro de 2001 que esta sonda da NASA esteve a aprisionar partículas do vento solar em recipientes hexagonais feitos de silicone, ouro, safira e diamantes, e agora a agência espacial norte-americana deu como terminada a missão de recolha.

A sonda vai colocar-se na rota que a traz de regresso ao nosso planeta, e, em Setembro, a cápsula que guarda as amostras solares libertar-se-á para reentrar na atmosfera terrestre. Várias equipas de pilotos de helicóptero, especialmente treinados para o efeito, vão apanhar a cápsula ainda em queda, para impedir que as delicadas amostras sejam afectadas pelo impacto da aterragem.

De uma notícia de um Público antigo

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Quarta-feira, Abril 21, 2004

Opacidade televisiva

Na segunda-feira, Gonçalo M. Tavares fez uma breve aparição no Magazine da Dois, onde foi entrevistado por Anabela Mota Ribeiro. Neste caso, «aparição» é a palavra adequada. Vou ser gráfica: como num fantasma que nunca aparece reflectido nos espelhos, há qualquer coisa na presença deste escritor que resiste à exposição televisiva e quase repele a imagem. Gonçalo M. Tavares aparece vestido com roupas claras. Não se senta direito. Entorta a cabeça. Olha em várias direcções indeterminadas, mas nenhuma no exterior visível. Pior ainda, desenvolve um raciocínio enquanto fala. Tudo isto é raro em televisão hoje em dia. Geralmente só há ali imagens pré-fabricadas para consumo rápido.

Máquinas de pensamento

Mas não é por causa da «imagem» de Gonçalo M. Tavares que estou a falar dele aqui. É verdade que ele tem um discurso «difícil» de seguir, principalmente em televisão. Mas talvez tenha sido essa uma das características que, num espaço de tempo tão curto como o desta entrevista, lhe permitiu falar de tantas coisas importantes para compreender os livros dele.
Por exemplo, a propósito do novo volume da trilogia iniciada com Um Homem: Klaus Klump, reflectiu de forma inesperada sobre o conceito de «máquina» como estrutura de apreensão do mundo e do próprio humano. E também os seus textos são máquinas de pensamento. Além disso, quando se referiu ao desejo de não ceder à «tentação da beleza», tocou uma das cordas essenciais da sua escrita. Estes são precisamente dois dos motivos por que muito do que ele escreve é interessante.

Perder luz para dentro

«Klaus sentia-se entrado na noite mais individual, na noite com o seu nome. Aquela não era uma noite geral: nem todos os homens vivos tinham a sua parte física instalada na matéria. A sensação de que os objectos e a terra perdem luz para dentro, como se cada coisa tivesse um ralo por onde caísse, não a água, mas a luz, que também escorre.»

de Um Homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares, Caminho, p. 87

O alvo errado

«a beleza não pode ser tomada como um alvo, [...] ela é sempre um subproduto de outras demandas, muitas vezes banalíssimas.»

de Marca de Água, de Joseph Brodsky, D. Quixote, p.50

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Terça-feira, Abril 20, 2004

Fortune cookies

Não consigo enganá-lo, mesmo quando tento muito.

As sílabas ocultas com que lutei

«E empurrou o perigo com um dedo
[...]
Verteu fósforo de um lugar ignorado
'Para que vejas', disse, 'o interior
do teu corpo
veias de potássio, de magnésio
e os calcificados
restos antigos do amor'
E se apertou veementemente o meu coração
era o primeiro rangido da madeira dentro de mim
o de uma noite que talvez se aproximasse
à voz do corujão
[...]
'Mas agora', disse, 'é necessário que outra figura
de ti suba à luz'»

De Louvada Seja (Áxion Estí) de Odysséas Elytis, Assírio & Alvim, pp. 22-24, trad. de Manuel Resende

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Segunda-feira, Abril 19, 2004

Segundas-feiras: respostas imaginárias

-Então, bem-disposta?
-Ora ainda bem que me faz essa pergunta, D. Carlinda. A máquina de café do meu piso está outra vez avariada, e tive de me arrastar até aqui pelas escadas. Sinto-me desalentada relativamente ao mundo em geral e à minha vida em particular. O meu cabelo, hoje de manhã, está incontrolável. Cultivo um estilo de vida perdulário. Por isso, hei-de trabalhar até morrer. E, em suma, nunca serei feliz. Não sei se respondi à sua pergunta, se haverá mais algum ponto que gostasse de ver clarificado...

A prenda imaginada

E soubesse eu ler nas asas das borboletas.

Um post alternativo sobre gatos

Coisas que podem fazer perder a noite: gatos (12-04-04)

Livros avistados na sala de cinema que passava Brown Bunny

1. Anna Karenina de L. Tolstoi (tradução inglesa)
2. Áxion Estí de Odysséas Elytis (tradução de Manuel Resende)

Domingo, Abril 18, 2004

Uma coisa que ela disse ao espelho

Às vezes, um filme imperfeito faz-nos pensar em tantas coisas, que dizer se gostámos ou não pode parecer uma questão um tanto secundária. Mas eu gostei muito de Lá Fora de Fernando Lopes. Inclusivamente, achei os diálogos muito bons. Ia gostar de poder lê-los em papel, e espero que alguma editora se lembre de publicar o argumento em breve.
Vou dar um exemplo, que provavelmente até não será o melhor. Neste filme, a determinada altura, Laura (Alexandra Lencastre) diz: «O amor não existe, estúpida!». Laura diz isto ao espelho; mas, mais à frente, pouco antes de se suicidar, José Maria Cristiano (Rogério Samora) envia-lhe uma mensagem de telemóvel em que escreveu: «Laura, a crueldade existe, e eu adorei a sua.». E é uma espécie de resposta para algo que não chegou a ouvir, mas que de certo modo percebeu, como se tivesse estado, o tempo todo, do outro lado do espelho.

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Pequenitos, inconsequentes, quotidianos, demasiado inteligentes

Por causa deste filme, registo o seguinte: não tenho a menor dúvida de que o amor «existe».
O amor existe. Já aquela noção de que o amor pode «salvar-nos» nunca me convenceu minimamente. O amor não nos salva de coisíssima nenhuma. Pelo contrário, é a nós, pequenitos, inconsequentes, quotidianos, e demasiado inteligentes, que compete salvar o amor.
E, sendo assim, amor, temo por ti, a sério que temo.

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Memórias de um contencioso

«e sequem-me os dedos a cabeça
estoire e não fique de tudo uma palavra
se a maldição for tanta que eu te esqueça»

Fernando Assis Pacheco

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Sábado, Abril 17, 2004

Grande Prémio de Poesia APE/CTT 2002

Sim, 2002. O Grande Prémio de Poesia APE/CTT 2002 só agora foi atribuído.
O júri constituído por Amadeu Baptista, Fernando Pinto do Amaral, José Cândido Martins, Manuel Gusmão e Paula Morão escolheu o livro Rua de Portugal, de Gastão Cruz.
Aproveito o pretexto para colocar aqui dois poemas deste escritor, de que gosto bastante.

O texto acendido

Ainda não são muito frequentes os poemas com computadores.
Embora possamos achar que o computador não concentra em si tantas potencialidades semânticas como a pena, teoricamente, o primeiro é o equivalente actual da segunda como material de escrita.
Pessoalmente, valorizo os textos que aceitam claramente o confronto com o tempo que lhes deu origem. Paradoxalmente, é muitas vezes através destas relações perigosas que o texto assume com o tempo que ambos são capazes de se transfigurar em intemporalidade. (Mistérios da literatura...)
O poema «Leitura» desvenda algumas das possibilidades poéticas insupeitadas na proximidade que mantemos diariamente com os nossos computadores. Neste texto, computador(es) e corpo(s) (presentes ou ausentes) (con)fundem-se em luz e som, teclado, mãos inteligentes, écrã, lábios e sentido. O presente transfigura-se.

Leitura
Como quem liga outro
computador e ouve
um som já conhecido
tocarás o meu corpo

Só as mãos interpretam
essa espécie de ruído
depois virão os lábios
ler o texto acendido

de Rua de Portugal de Gastão Cruz, Assírio & Alvim, p.15

Com mais uns comentários dispensáveis

E, a seguir, um dos poemas de Gastão Cruz de que mais gosto. Há muitos anos que conheço e leio este texto, até já ouvi o autor dizê-lo, mas sempre que o releio continuo a ficar arrepiada, como da primeira vez.
Um texto do fim do séc. XVI encontra-se com outro do séc. XX, mas ambos fora do tempo.

cf. SHAKESPEARE, Romeo and Juliet , III, V, 1-36

A cotovia é
um rouxinol ainda
Os ouvidos não ouvem essa
ave que divide
e a luz que conduz a mântua não canta

Esse canto alterado
como um simples acidente da boca
era um som diferente nos teus mudos
ouvidos
da tão ameaçada madrugada

A tua boca ouve
a noite nessa ave
porém é na manhã que se transforma noutro
o canto que escurece como a luz a dor pouco
antes entre outro canto fugitiva

Vejo-te contra a pele como se não pudesse
ocultar-te de todo o movimento
dum incêndio
e a cotovia exprime
impede a tua perda

de Transe - Antologia 1960-1990 de Gastão Cruz, Relógio d’Água, p.49

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Sábado, Abril 10, 2004

Pausa

Este blogue, agora, vai estar muito quietinho durante alguns dias, muito caladinho, sem dizer nem fazer disparates.
Em princípio, estarei de volta no próximo fim-de-semana para tentar remediar esse bom comportamento pouco habitual. Até lá, divirtam-se no mundo real e no mundo virtual.

Essa é a primeira questão

«Gosto de estar com amigos e de ter conversas. Aprende-se imenso com as emoções dos outros. Mas depois fico ali sozinho (aponta para a janela) a olhar para a rua, a ver as pessoas passar, e aí penso nos filmes. Nós somos todos muito misteriosos. Essa é a primeira questão, é sobre isso que trabalhamos e é aí que quero chegar e onde provavelmente nunca chegarei: ao mistério de cada um de nós.»

Fernando Lopes em «O cinema está a ficar sem paixão», entrevista de Ana Soromenho e Vítor Rainho (Única de 20 de Março)

Através das águas

Chovia muito da primeira vez que vi um filme de Sokurov. Chovia muito e eu estava com umas daquelas dores de cabeça horríveis que tornam o mundo longínquo e quase nos fazem ver auras em torno das outras pessoas. Quando o filme começou, perguntei-me se me teria transformado num peixe, se o lodo teria finalmente tomado conta de mim. E aqueles túneis de imagens distorcidas fizeram-me sentir mais ou menos como uma figurante alienada que já não sabia se estava dentro do filme ou fora.
De qualquer forma, estou a delirar, e isso já foi há alguns anos. Num destes dias li a entrevista de Paul Schrader em que Sokurov conta que construíram uma central hidroeléctrica no lugar onde nasceu. A aldeia está submersa. Se quisesse rever o local, Sokurov teria de ir de barco e olhar para o fundo através das águas.

Como é ver através das águas? Nós não sabemos bem: não somos peixes, nem mergulhadores convictos, nem afogados por resgatar. Mas talvez esta seja uma das perguntas a que o realizador procura dar resposta em forma de imagens.

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Os simulacros possíveis das águas

Porque, em Sokurov, uma imagem nunca é algo apenas captado, mas antes sempre o resultado de um complexo processo de destruição/construção.
Nessa entrevista de Paul Schrader, ficamos a conhecer um pouco melhor estas imagens que vivem, se autodestroem e reconstroem através dos espelhos e dos vidros, os simulacros possíveis das águas:

Sokurov: I have stopped pretending that the image onscreen is dimensional. My first goal is that images have to be flat, as well as horizontal. Secondly, it has to be a comprehensive reading of artistic and aesthetic traditions - I'm not shooting a concrete picture of nature, I'm creating it. In [Mother and Son] I'm using a couple of simple mirrors, large panes of glass, as well as brush and paint, and then I look into the lens -

Paul Schrader: You put the glass in front of the lens?
Sokurov: Yes, in front, and on the side, and behind, placing them on different support structures. It's very hard, very particular, and a long process. I destroy real nature and create my own.

Paul Schrader: And then you're spraying on these pieces of glass and mirrors?
Sokurov: There is no spraying. I work with very thin, delicate painting brushes. Like those used in traditional Chinese paintings.

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Sexta-feira, Abril 09, 2004

Com a cabeça na direcção de Oeste

Por enquanto, não é minha intenção transformar o Seta Despedida numbloguesobregatos, mas podia. Ainda hoje, por exemplo, vem no Público uma notícia sobre a descoberta de um esqueleto de um gato enterrado junto aos restos mortais de uma pessoa, ambos com cerca de 9500 anos, na ilha mediterrânica de Chipre.
Os esqueletos do gato e do ser humano tinham sido enterrados lado a lado, e posicionados simetricamente, com a cabeça na direcção de Oeste. O gato devia ter à volta de oito meses de idade.

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24 conchas do mar

«O túmulo continha várias ferramentas, pedras polidas e jóias, que se acredita serem oferendas, e um buraco muito próximo, escavado na terra, guardava 24 conchas do mar. Jean-Denis Vigne encontra nesta disposição ritual um sinal de intimidade entre o animal e o homem: "A associação deste túmulo com as conchas marítimas e a sepultura do gato reforça a ideia de um enterro especial, indicando uma forte relação entre gatos e seres humanos."»

Da notícia «Encontrada a Prova Mais Antiga da Amizade Entre Gatos e Humanos», de Joana Filipe

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Quinta-feira, Abril 08, 2004

so many things seem filled with the intent to be lost

Gosto muito do poema «limpo» de Elizabeth Bishop recuperado no Epicentro.
Neste texto, a perda é descrita como uma arte minimalista e irónica.
A arte da perda, que implica a aceitação da proximidade quotidiana da catástrofe («the art of losing's not too hard to master/though it may look like (Write it!) like disaster») como se aceita em casa um felino em relação a cuja domesticação e afabilidade possa haver algumas dúvidas por resolver, quer basear-se também na possibilidade da domesticação da catástrofe, no desejo íntimo e secreto que a catástrofe tenha de ser domesticada. A arte da perda precisa disso porque descobriu que é nesta noção de domesticação, no ninho desta domesticação, que a tragédia possível mais gosta de dormir.
Por outras palavras, o minimalismo também pode ser uma arte existencial: a arte das pequenas tragédias.

O bebé e a água do banho

No mesmo poema, a certa altura, diz-se: «Lose something every day», o que sempre me pareceu um princípio a cultivar.
Devíamos perder tudo o que não interessa.
Mas nem sempre conseguimos salvar o que interessa quando estamos a perder o que não interessa.

Varick Street

At night the factories
struggle awake,
wretched uneasy buildings
veined with pipes
attempt their work.
Trying to breathe,
the elongated nostrils
haired with spikes
give off such stenches too.
And I shall sell you sell you
sell you of course, my dear, and you’ll sell me.

On certain floors
certain wonders.
Pale dirty light,
some captured iceberg
being prevented from melting.
See the mechanical moons,
sick, being made
to wax and wane
at somebody’s instigation.
And I shall sell you sell you
sell you of course, my dear, and you’ll sell me.

Lights music of love
work on. The presses
print calendars
I suppose; the moons
make medicine
or confectionery. Our bed
shrinks from the soot
and hapless odors
hold us close.
And I shall sell you sell you
sell you of course, my dear, and you’ll sell me.

Elizabeth Bishop

Quarta-feira, Abril 07, 2004

Murmura os teus medos para a água corrente

«[Pai e Filho] é uma obra de arte, mais próxima da pintura que do cinema. No início do filme, um jovem grita. Este grito, a imagem dele, é como o quadro de Munch. Quadro vivo, cuja ondulação, tão comovedora como em movimento, nos embala. 'Murmura os teus medos para a água corrente'. É um bom conselho.»

Gérard Lefort, Libération, 24 de Maio de 2003

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Corpos entrecruzados

«As primeiras imagens são saturadas pelos corpos entrecruzados de dois homens jovens e belos. É como se houvesse demasiada carne, pele, para todo o ecrã, como se houvesse demasiado amor. Demasiada parecença entre o jovem pai e o seu filho adolescente. A encenação assenta sobretudo na energia da beleza, da magnificência dos corpos, dos lugares, das luzes que absorvem e reflectem esta relação extrema.»

Jean-Michel Frodon, Le Monde, 25/26 de Maio de 2003

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Segunda-feira, Abril 05, 2004

Pai e Filho

Amanhã e quarta-feira, no Nun’Álvares, às 19.30, vamos poder ver o filme Pai e Filho, de Alexander Sokurov. Há imensa informação sobre o realizador e a obra no blogue do costume. Também o Alexandre já o viu e escreveu sobre isso. Cito aqui uns excertos do post dele, a título de introdução:

«Sokurov é, de entre os realizadores contemporâneos, um daqueles que mais fortemente se insere na tradição da pintura ocidental. Isto não significa que os seus filmes se esgotem na sua componente plástica (por mais que os interiores façam lembrar o melhor de Rembrandt, por mais que certos exteriores remontem a Hubert Robert); significa, bem pelo contrário, que o filme surge como uma concatenação, ou uma hierarquização, de problemas cuja resolução ou impasse são de natureza essencialmente visual. Por outras palavras, o elemento narrativo nunca é preponderante, nem detém o exclusivo da produção e do desatar dos conflitos. "Pai e Filho" é, acima de tudo, aquilo que é, não transponível para qualquer outro plano que não seja o icónico, e, intimamente associado a este, o espiritual. [...] A definição das personagens, a delimitação dos seus contornos, das regiões de sombra e de luz, alheia a qualquer realismo psicológico ou pathos, a pintura de um devir fluidamente a-histórico, são o verdadeiro assunto de "Pai e Filho".» (6-2-04)

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Nem tudo é o que parece

Entre 19 e 22 de Abril, a Casa da Animação vai passar um programa de curtas-metragens europeias produzidas entre 1996 e 1997, entre as quais La vieille dame et les pigeons, a média-metragem vencedora do Cartoon d’Or 1997, de Sylvain Chomet, realizador de Belleville Rendez-Vous.
Parece-me que em Março também houve uma programação excelente, com muito e interessante cinema de animação francês. Infelizmente, só ontem é que descobri.

Domingo, Abril 04, 2004

Like the beginning of a new love affair

No Teatro do Campo Alegre, está em cena a peça Desejo de Sucesso (Speed-the-Plow, 1988), de David Mamet (enc. Luís Mestre), a história do dilema de um produtor de cinema: o seu melhor amigo propõe-lhe um guião que poderá proporcionar-lhe a fortuna; uma rapariga oferece-lhe o guião que lhe vai salvar a alma.

Talvez a citação mais famosa deste texto seja «Life in the movie business is like the, is like the beginning of a new love affair: it's full of surprises, and you're constantly getting fucked.». Mas esta não é uma peça só sobre Hollywood e a dicotomia arte/idealismo versus comércio/dinheiro. É também sobre sexo, amizade, poder, e, principalmente, sobre os dilemas morais que enfrentamos todos os dias. E quer estejamos numa situação de poder, quer não, todos os dias podemos tomar decisões em que está em jogo a nossa «alma», ou, mais precisamente, os princípios que nos definem.

A propósito das personagens da rapariga e do amigo, houve críticos que falaram do tradicional esquema do anjinho e do diabinho a disputar a alma do produtor, dizendo que Mamet está demasiado claramente do lado dos cínicos, em detrimento dos anjos. Não sei bem. Sei, no entanto, que Luís Mestre encontrou em Fernando Moreira (tão frequentemente subaproveitado, mas que já tínhamos visto também no papel principal de American Buffalo) um actor rápido, inteligente, mordaz, irónico, arrogante, e, contudo, simultaneamente vulnerável, e capaz de expressar as múltiplas nuances de dúvida, volubilidade e ausência de coragem que conferem densidade à sua personagem.
E sei também que este é um espectáculo que merece ser visto. É David Mamet «puro e duro», exigente, cheio de diálogos vertiginosos, manipulativos, em que o público tem de estar muito atento porque aquilo que está a ser dito pode bem não ser o mais importante. Além disso, apesar disso, está muito bem representado.

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Dias felizes no Porto

Até dia 30 de Abril, David Mamet. Na semana passada, pudemos ver as curiosíssimas peças Escrever, Falar, de Jacinto Lucas Pires (enc. Marcos Barbosa), e Aguantar (enc. Nuno Carinhas, a partir dos diários de Frida Kahlo). Durante este mês, já a partir da próxima sexta-feira, e até Maio, cinco espectáculos do grupo «O Bando».
No Porto, estes estão a ser dias felizes para quem gosta de teatro.

A Curiosidade da Arte

«Talvez neste momento seja noutro tipo de reconfiguração do espaço público que estejamos em presença de dados do maior relevo. No espaço virtual da net, blogs como A Janela Indiscreta, UmBlogSobreKleist, A Montanha Mágica, Quartzo, Feldspato & Mica e outros (uns colectivos outros unipessoais mas afinal todos estabelecendo-se em redes) serão media de novo tipo para talvez outros públicos. São certamente o mais relevante sinal recente de que afinal existe disseminadamente a expectativa de algo como uma "comunidade da arte".

Seria supor excessivamente a parte de sonho nas nossas vidas imaginar que nos media tradicionais possa haver espaço para um objecto estético (também o é) como A Janela Indiscreta; as condicionantes e critérios de fabricação da actualidade são outros. Mas supondo (como convictamente suponho) que o espanto da arte terá de se manifestar também numa mediação crítica, já me suscita a maior das perplexidades que o exercício seja reduzido à sua existência funcional e a curiosidade escassa ou nulamente se manifeste para além do que a própria pressão mediática produz.»

Do texto de Augusto M. Seabra no Público de hoje

Sábado, Abril 03, 2004

Na neve de Istambul

Há poucos diálogos no filme Uzak de Nuri Bilge Ceylan. As duas personagens principais (um fotógrafo de Istambul e o seu primo vindo de uma aldeia) confrontam-se principalmente dentro de um apartamento fechado e, para além de ouvirem às escondidas as conversas telefónicas um do outro, ver televisão é das poucas coisas que fazem em conjunto

O primo do fotógrafo quer viajar e «conhecer o mundo». Acha que se regressar à aldeia de onde vem nunca mais vai conseguir sair. Vagueia pela cidade à procura de emprego. Observa tudo com muita atenção: o espanta-espíritos na varanda, os parques cobertos de neve, os ramos escuros e labirínticos das árvores manchadas de branco, as mulheres com cachecóis, os cafés e as livrarias, o horizonte em que os barcos desaparecem. Fuma cigarros de marinheiros. Observa quase como um fotógrafo, mas sem a técnica; utiliza os seus próprios olhos. (E também o realizador diz que gosta mais de actores não profissionais porque prefere «filmar seres humanos a actores»: «Um amador vai utilizar as suas próprias experiências, as suas próprias palavras e isso por vezes é muito melhor, porque é mais ligado à vida, tem mais verdade.»)

Por seu lado, o fotógrafo já não consegue, ou não chega a desejar, sequer fotografar paisagens. Fotografa azulejos há muito tempo. A única actividade a que se entrega com algum interesse tem a ver com a captura de um rato com quem se recusa a dividir o apartamento.

E um dos momentos mais impressionantes do filme é aquele em que esse rato se deixa apanhar numa fita gomada muito forte. O silvo do rato, o ruído que faz a debater-se, ecoa pela casa toda, não deixa ninguém dormir.
À semelhança do rato que acorda, também as personagens foram apanhadas e não conseguem libertar-se. Mesmo que, ao contrário do rato, não sejam capazes de lutar pela liberdade com verdadeira convicção.

Post-its no monitor

Dizia «expansão». Sim, «expansão». Era «expansão». Expansão de abreviaturas.

Sexta-feira, Abril 02, 2004

Há vida na blogosfera

Um grande beijinho para a Carla pelo aniversário do seu magnífico blogue, que melhora todos os meus dias.

T-shirts terapêuticas

Num post de terça-feira, Nébia interrogava-se sobre a necessidade de mandar fazer uma t-shirt com a mensagem
"Laura Pausini não é minha sósia".
Pois bem, entretanto, também eu me lembrei de umas quantas frasezitas que podíamos imprimir em t-shirts de modo a não ser necessário empregarmos quotidianamente tanta energia mental para nos controlarmos de todas as vezes que nos apetece dizê-las em voz alta mas não podemos.

T-shirt Winston Churchill

Frente: de derrota em derrota
Costas: até à vitória

T-shirt Oscar Wilde

Frente: acredito em tudo
Costas: desde que seja inacreditável

T-shirt ó meu caro amigo

Frente: perguntas indirectas
Costas: não obterão respostas directas

T-shirt António Nobre

Frente: ó Maria, dize àquela cotovia que fale mais devagar
Costas: não vá, o João, acordar

T-shirt doméstica

Frente: lembrem-me de comprar amaciador
Costas: para a máquina de lavar roupa

Quinta-feira, Abril 01, 2004

Mais cinema quase sem palavras

Ainda hei-de tentar falar, com mais tempo e disponibilidade mental, sobre o filme Uzak, que vi na terça-feira com a Lídia. A página da Medeia inclui uma entrevista muito interessante com o realizador. Este é um filme quase sem diálogos. A esse respeito, Nuri Bilge Ceylan comenta o seguinte:

« [...] acho que os rostos e os corpos dizem mais que as palavras. Na vida, a maioria das pessoas mente. As palavras são na maior parte dos casos um pára-vento e não um vector de verdade, servem mais para camuflar do que para revelar. Não acredito muito no que as pessoas dizem, mas acredito muito no que não dizem. O que elas calam tem muito mais informação. Os olhares, os gestos, as expressões, as posturas mentem menos do que as palavras. Aproveito para dizer que é difícil esperar muita verdade de uma entrevista! Não lhe estou a mentir, é verdade, mas digamos que não direi mais do que uma ínfima parcela da minha verdade.»