seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Quarta-feira, Março 31, 2004

Like a marble or an eye

«With my knees against my mouth
I am perfectly round»

de «Small Blue Thing»

Terça-feira, Março 30, 2004

Ouvimos perfeitamente

Ontem, Mário de Carvalho foi o entrevistado de Ana Sousa Dias. A debater-se com as palavras, como quem luta com um livro que a todo o custo quer falhar.
Suspirou de alívio, no fim da entrevista. Ouvimos perfeitamente.

Quando não estávamos lá

Pode haver pessoas com quem continuemos a conversar mesmo quando não estão presentes. E, às vezes, também elas não precisam de nós para conversar connosco. Excelente. Neste caso, só há problemas quando começamos a ter medo de lhes perguntar coisas sobre o que possamos ter dito quando estávamos ausentes.

Segunda-feira, Março 29, 2004

Só a ouvir

Queria estar muito quietinha, hoje. Muito, muito quietinha.

Domingo, Março 28, 2004

Os sons

Na terça e na quarta-feira da próxima semana, ainda às 19.30, vamos poder ver o filme Uzak, de Nuri Bilge Ceylan, no Nun’Álvares.
Entretanto, eu ainda queria falar sobre O Pântano.
A primeira coisa que a Cristina disse depois de o filme acabar teve a ver com a qualidade do som, que se estende ao próprio genérico final. Durante o filme, ouvimos tudo como se estivéssemos lá: cadeiras a arrastar, a queda de uma personagem sobre estilhaços de copos, portas de carros a bater, obras, tiros, gritos de pássaros e de outros animais, uma vaca a afundar-se na areia movediça do pântano, telefones a tocar durante muito tempo, música pimba em bailes populares. Quase conseguimos ouvir o apodrecimento das folhas na piscina, mas talvez o som mais recorrente e perturbador seja o do ruído das patas de um cão no pátio dos vizinhos de uma das famílias. Nunca conseguimos ver este cão, que parece feroz porque ladra muito de forma furiosa. Acontece uma desgraça à personagem que ousa subir uma escada para o espreitar. E isso é talvez a única coisa que acontece neste filme. É esta a história que os sons estão a desvendar desde o início e nós demoramos um bocadinho de tempo a perceber.

Os sons e as imagens

A propósito de O Pântano, Lucrecia Martel, a realizadora, diz:

«Cada personagem inventa protecções para fugir da realidade e, de repente, instalam-se, conseguem sobreviver e não tratam o que está mal. Há uma espécie de deleite em acomodar-se no sofrimento em vez de lutar. Acho isso muito característico dos argentinos.»

E neste universo em que cada um procura apenas sobreviver, vendo a Virgem aparecer no céu a pairar sobre um tanque de água, pintando o cabelo mesmo que isso suje os lençóis de tinta, fazendo-se passar por presa embora sendo indiscutivelmente um predador, disfarçando-se de predador apesar de não se passar de uma presa, é perigoso tentar descobrir a verdadeira natureza dos sons, as imagens que lhes estão na origem.
Em Sundance, os distribuidores americanos disseram a Lucrecia Martel que faltava coerência à narração. Achavam que o filme não tinha sido suficientemente construído. Não souberam ouvir.
Os americanos, passe a generalização, às vezes têm alguma dificuldade em entender ameaças de desequilíbrio.

Sábado, Março 27, 2004

Mais um aniversário de um grande blogue

Na semana que está a acabar, A Montanha Mágica fez um ano. Muitos parabéns ao Luís.

Sexta-feira, Março 26, 2004

Obsessões antigas

Tudo começou quando vi o documentário A Personal Journey with Martin Scorcese through American Movies. A dada altura, neste documentário, Scorcese mostra uma cena de um filme. Através da caracterização das personagens torna-se evidente que a cena se passa por volta do séc. XVIII, mas o que nela chama a atenção de Scorcese está relacionado com outra coisa. Se bem me lembro, Scorcese mostra e contabiliza ao segundo a duração desta cena porque durante a maior parte dela não há uma única palavra (apenas se ouve uma peça de Schubert).
Há várias personagens sentadas a uma mesa em que se joga às cartas, e não são as cartas que ali verdadeiramente estão em jogo, mas algo, sem palavras, entre duas personagens quase frente a frente. Até ao momento em que a personagem feminina se ergue da mesa e se dirige à varanda, esperando, de costas, a personagem masculina, que pouco depois a segue.
E esta poderia ser a descrição de uma simples cena de sedução, de intensidade invulgar, é certo, mas apenas uma cena de sedução. No entanto, é-nos fornecida à partida a informação de que não é propriamente amor (ou sexo) que a personagem masculina procura. E basta essa pequenina informação para corromper a nossa inocente suspensão de descrença e nos tornar capazes de compreender como a intensidade (quase asfixiante) deste jogo de sedução se autodestrói paradoxalmente à medida que se vai construindo, de compreender como às vezes não é sequer necessário haver palavras para haver uma mentira.
Também os corpos, até os corpos, sabem mentir.

Obsessões que continuam

De qualquer forma, eu vi este documentário há quase dez anos e desde essa altura que tento ver o filme: Barry Lindon, de Stanley Kubrick, baseado no romance The Adventures of Barry Lindon, que William Thackeray publicou em 1844. E ontem, finalmente, pude vê-lo, porque passou no Hollywood.
E depois de ver o filme continuo mais ou menos obcecada com as mesmas imagens e ainda mais ausências de palavras.

As estranhas relações entre a NASA e o séc. XVIII

1. Neste filme, Kubrick recorre ao comentário em voz-off de um narrador omnisciente de terceira pessoa. Quando vi o filme pensei que se tratasse de uma marca da adaptação literária, mas depois descobri que o romance de Thackeray é narrado na primeira pessoa. E aquela voz-off é usada para acentuar o tom neutro e distanciado tipicamente kubrickiano do filme.

2. Foi o próprio Kubrick que adaptou o romance, acrescentando algumas cenas, como o sinistro segmento do duelo entre Barry Lindon e o enteado dentro de um pombal de grandes dimensões, em que durante grande parte do tempo só conseguimos ouvir as asas dos pombos que por ali rodopiam, desorientados. Esta é uma das cenas mais impressionantes do filme.

3. Kubrick acreditava no estranho parentesco entre os filmes históricos e os de ficção científica que, segundo ele, se basearia na circunstância de ambos tentarem recriar qualquer coisa que não existe.

4. A iluminação é um dos traços distintivos deste filme. Kubrick tentou controlar todas as sombras e oscilações da luz. Além disso, procurou evitar ao máximo o recurso à iluminação artificial, de modo a respeitar a atmosfera e a luminosidade da época. Algumas cenas de interior foram filmadas com centenas de velas, que tinham de ser continuamente substituídas e vigiadas com muita atenção.

5. Neste filme, principalmente nessas cenas de interior à luz das velas, foi usada uma objectiva Zeiss. Segundo a lenda, nessa altura só existiria uma outra objectiva dessas no mundo, a bordo de um aparelho da NASA.

Terça-feira, Março 23, 2004

O ruído das patas

Uma vez, uma senhora encontrou na rua um cão de pêlo curto. Como este cão parecia muito simpático e andava por ali a vaguear sem dono, a senhora decidiu trazê-lo para casa. E depois afeiçoou-se muito a ele e, de noite, deixou-o ficar a dormir com os gatos.
Só que, na manhã seguinte, os gatos tinham desaparecido, e, no lugar deles, ela não encontrou senão o cão, o cão com manchas de sangue no pêlo.
Então, a senhora pegou no cão e levou-o ao veterinário, porque queria descobrir se ele tinha comido os gatos.
Para o examinar, o veterinário colocou-o sobre a mesa, debaixo da luz, e deu-lhe uma machadada que o abriu ao meio.
Quando pôde observar o cão por dentro, a senhora teve de comentar que nunca tinha visto um cão com tantos dentes tão afiados.
Mas o veterinário respondeu-lhe calmamente:
- Minha senhora, isto não é um cão; este animal é uma ratazana africana.

(Mais sobre esta história contada à beira de uma piscina há muito por limpar, amanhã, talvez. Mas, entretanto, não se fiem em todos os relatos.)

Segunda-feira, Março 22, 2004

Os Ossos

«Um dia, ao acordar, deu por ter deixado todos os seus ossos num dos sonhos, do qual, como dum espelho, a carne e a roupa juntas irrompiam. Nunca mais desde então os pôde espetar na realidade, coisa que antes tanto se orgulhava de fazer.
Talvez num cão fosse possível encontrar a necessária obstinação para os trazer de novo à superfície. Contudo, a tal profundidade os ossos estariam que, por muito que o animal escavasse, sob as suas patas haveriam de romper as águas de mil rios, pedras, folhas, a enxurrada do universo, e, embravecido, o próprio mar, mais tudo aquilo ainda de que os sonhos se compõem, antes que deles se deixasse adivinhar o mais breve vestígio.»

in O Céu Sob as Entranhas de Luís Miguel Nava, Limiar, p.23

Oh keep the Dog far hence

«'That corpse you planted last year in your garden,
'Has it begun to sprout? Will it bloom this year?
'Or has the sudden frost disturbed its bed?
'Oh keep the Dog far hence, that's friend to men,
'Or with his nails he'll dig it up again!
'You! hypocrite lecteur! - mon semblable, - mon frère!'»
in The Waste Land de T. S. Eliot

(Mais L. M. Nava e T. S. Eliot na Janela.)

Domingo, Março 21, 2004

Cinema no Porto

Li com muito interesse os artigos do Público de hoje sobre os cinemas a funcionarem actualmente no Porto e a política das distribuidoras que os dirigem.
Começo por dizer que sou daquelas pessoas que vão ao cinema porque querem ver um determinado filme que está em exibição. Não vou ao cinema para ocupar uma horitas em que não tenha nada que fazer. Não vou ao cinema para fazer um intervalo entre compras. E, por conseguinte, não aprecio ser obrigada a atravessar um centro comercial gigantesco para ir ao cinema.
Segundo Tomás Pinto Gonçalves (administrador da Lusomundo cinemas), a esmagadora maioria do público é diferente de mim: «mostra uma clara preferência por multiplexes em detrimento de salas isoladas ou complexos mais pequenos», por razões como «maior liberdade de escolha, oferta de lazer integrada, bons acessos, estacionamento gratuito».
Aceito perfeitamente: cada um vai ao cinema pelos motivos tiver. A única coisa que me preocupa é ver limitada a minha liberdade (e a de outros) de tomar opções diferentes no Porto.

Será que este público não existe de todo?

Leio nestes textos que algumas distribuidoras se queixam da «estranha impermeabilidade» do mercado do Porto relativamente ao «cinema de autor». A desertificação da cidade é um dos motivos apontados para explicar o problema. E há quem fale também do «cerco» da rede de multiplexes em centros comerciais à volta da cidade.
Estes motivos ajudam de facto a explicar o fenómeno; no entanto, gostava de lembrar que o Fantasporto, no Rivoli (Baixa do Porto), tem lotações esgotadas e nem sequer está particularmente vocacionado para blockbusters. E é muito provável que isto aconteça porque os responsáveis por este festival se deram ao trabalho de, ao longo dos anos, se desdobrarem em contactos para publicitarem a iniciativa e formarem um público fiel.
É realmente necessário divulgar estas coisas. As pessoas vão ver blockbusters porque ouvem falar deles. Ninguém procura algo de que nunca ouviu falar.
Se continuarmos assim no Porto, daqui a alguns anos pouca gente se interessará por «cinema de autor», pouca gente saberá o que é «cinema de autor», a não ser que compre DVDs e o veja em condições diferentes daquelas que proporcionam as salas de cinema.

O Pântano

E agora cito directamente um destes textos:
«É exactamente para contrariar este efeito que a Medeia arranca já esta semana com um módulo de sessões especiais que terão lugar no Nun'Álvares ("O Pântano", da argentina Lucrecia Martel, é o primeiro filme em carteira): só às terças e quartas e só às 19h30, mas a preços de segunda-feira. Carreiras mais longas não dá: por falta de espaço (a Medeia tem "poucas salas e não as pode ocupar todas com esse tipo de estreias") e "por falta de público".»

Só pelo facto de ter a possibilidade de ver O Pântano numa sala de cinema já fico grata à Medeia. Mas o filme vai passar só às 19.30, na terça e na quarta. Eu vou ver porque moro e trabalho perto, e me lembro de ouvir falar dele por altura da estreia em Lisboa. Será que o resto do potencial público ouviu falar da iniciativa, se lembra do que se trata, e tem disponibilidade para o ir ver neste horário?
Não ficarei espantada se a sala estiver vazia.

Sábado, Março 20, 2004

Ler e escrever

Em França já perceberam que ler e escrever é imprescindível para saber pensar e agir.
O programa para os primeiros quatro anos do ensino básico que entrou em vigor no ano passado nesse país define um tempo de duas horas e meia diárias obrigatórias para a leitura e escrita (individuais).
Na entrevista incluída no dossier da Lire, Luc Ferry fala da necessidade de uma atitude de respeito e humildade em relação à língua, que considera um património a preservar.
E não tem medo de dizer que é necessário estudar, fazer um esforço, que não se pode ter medo nem preguiça de usar a memória, de guardar regras de gramática, de fixar novo vocabulário («difícil») a partir de listas (e da utilização crítica de dicionários e enciclopédias dentro e fora da sala de aula, pode acrescentar-se).

A escola não é a televisão

Nesta entrevista torna-se evidente que Ferry está a tentar recuperar a noção da escola como um espaço em que realmente se aprendem coisas novas, em vez de se falar daquilo que já se conhece e já se sabe. Este ministro defende claramente que a cultura escolar deve distinguir-se do banal e do quotidiano: «Ce monde, celui de la culture scolaire, suppose un arrachement, une découverte, un voyage. Il peut être passionnant pour les enfants, à proportion du fait qu'il n'est ni banal ni quotidien.»

Para mim, diz-se nessa entrevista uma coisa muito importante: é altura de problematizarmos a ideologia da autoconstrução do «aprendente», da aprendizagem como algo que tem de ser sempre fácil e divertido, e do culto do professor como um simples «facilitador».
Já vai sendo tempo de assumirmos que aprender é muitas vezes doloroso e nos causa dificuldades. Há coisas que não conhecemos e precisamos de estudar e exercitar persistentemente se queremos aprender. Contactar com o desconhecido pode colocar em questão tudo o que pensávamos que sabíamos, e ser desconfortável e incómodo.
Parece-me que a pedagogia em Portugal tem estado totalmente dominada por uma visão facilitista e isso não nos tem levado muito longe. Antes pelo contrário: os resultados na educação continuam a ser medíocres.

Ensino de Português

O suplemento Actual do Expresso de 13 de Março também publicou um artigo (de António Guerreiro) sobre o ensino de Português, dedicando especial atenção ao suposto conflito entre professores de Linguística e Literatura relativamente ao novo programa das disciplinas relacionadas com esta área.
Neste artigo podemos ler o seguinte:
«Inês Duarte [professora de Linguística da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e uma das responsáveis pelo novo programa] lembra que a maior parte dos professores - ‘e aqui é que reside o problema, não é nos programas’ - não está preparada para sair da rotina e ir para além do manual.»
Mas não são as universidades que formam e ‘licenciam’ os professores? Se os professores não estão «preparados» para ir para além da rotina do manual, que é que isso nos diz sobre as universidades?

Não adianta tentar fugir da complexidade

Acho que é pena que, antes de qualquer novo programa entrar em vigor, os professores universitários que tenham participado na sua elaboração não passem pelo menos dois anos a testá-lo em ambiente real, com o horário normal de um professor do ensino básico ou secundário, com intervalos de dez minutos em salas de professores, com turmas de quase 30 alunos de carne e osso, alunos que não se pode dizer que demonstrem verdadeiro interesse relativamente aos conflitos e desentendimentos universitários entre os departamentos de Linguística e Literatura, mas que não são atrasados mentais, e estão cheios de energia que devia ser aproveitada na aquisição de novos conhecimentos e competências que lhes permitam situar-se no mundo, perceber quem são.
Uma das primeiras coisas que se aprende quando se começa a estudar Linguística é que a língua é um instrumento de apreensão e acção sobre o mundo, e as suas maiores potencialidades se vão desenvolvendo e realizando principalmente no texto literário. Neste sentido, as culturas e as línguas (mesmo as nossas, coitadas) seriam muito diferentes se não houvesse literatura. Basta pensar que o Português actual começou a consolidar-se com Camões. Também é a isto que Luc Ferry se refere quando fala da língua como um património a preservar.
A universidade portuguesa está dividida em departamentos com pouca vontade de comunicar entre si, mas a realidade é muito mais complexa do que isso, parece-me.

Quinta-feira, Março 18, 2004

Ecologia das palavras

Na revista Lire, encontramos um interessante dossier a propósito de um livro que Bernard Pivot escreveu em defesa da salvação das palavras francesas que considera em risco de injusto desaparecimento.
É muito provável que ainda volte a este tema, que dá pano para mangas, mas, por agora, aqui fica uma bela citação do livro em causa:

«On s'emploie avec raison à sauver toutes sortes d'espèces d'oiseaux, d'insectes, d'arbres, de plantes, de grosses et de petites créatures bien vivantes, mais menacées de disparition. Des mots, eux aussi, pour d'autres raisons que la chasse, la pollution et l'argent, meurent. [...] Rares sont les personnes émues par la disparition des mots. Ils sont pourtant plus proches de nous que n'importe quel coléoptère. Ils sont dans notre tête, sous nos yeux, sur notre langue, dans nos livres, dans notre mémoire. [...] L'écologie des mots est balbutiante. Ah! menacés s'ils avaient des ailes et une queue, comme on s'apitoierait sur leur sort! Les mots ont pourtant des ailes, des yeux, des becs, des pattes, des queues, des muscles, du souffle, un coeur, tous possèdent une histoire, un sexe, une âme, une identité, des papiers - «Mots, vos papiers!» -, mais le public ne le perçoit pas et ne le sait pas.»

in 100 mots à sauver de Bernard Pivot (Albin Michel)

Quarta-feira, Março 17, 2004

Mais algumas traduções demasiado criativas

A Deda conta que conheceu em Copacabana um senhor que procura objectos perdidos na praia.
Em inglês, o termo que se usa geralmente para designar este tipo de ocupação é «beachcombing», sendo este senhor um «beachcomber». Durante muito tempo procurei traduções viáveis para estas duas palavras que acho lindíssimas e que me fazem sempre pensar na vida oculta das areias que acolhem pistas ou rastos negativos que as pessoas deixam para trás, como se estes objectos que perdem não lhes pertencessem a elas mas antes estivessem relacionados com alguém que não são ou não querem ser. E diverti-me muitas vezes com a possibilidade de recorrer a traduções tão condenáveis como «penteador das praias», «leitor das areias», ou «decifrador da maré baixa», por analogia retorcida com a actividade dos adivinhos que procuravam soluções ou tentavam ler o futuro nas entranhas de aves sacrificadas ou em folhas de chá a abrir.
De qualquer forma, e meus desvarios à parte, a Deda fala de «garimpo marítimo» e «garimpeiro marítimo», dois equivalentes bastante razoáveis.
E é como este senhor diz: «O que as águas levam as águas trazem sempre de volta».

Terça-feira, Março 16, 2004

A propósito do olhar de um gato

Segundo reza uma lenda, há muito, muito tempo atrás, os gatos siameses eram venerados como guardiões dos templos.
Conta-se que, em tempo de guerra, o povo de Sião teria deixado dois gatos desta raça a guardar o templo de Buda. A fêmea era tão atenta e vigilante que nunca quis tirar os olhos do cálice dourado do templo, envolvendo-o com a cauda, com medo de adormecer e descurar a tarefa.
E a guerra durou tanto tempo, a espera foi tão longa, que os seus gatinhos acabaram por nascer com as características que ela tinha adquirido para assegurar a vigilância: com os olhos estrábicos de tanto fixar o mesmo ponto no espaço, e de cauda entortada, para melhor proteger o objecto sagrado.
Embora actualmente sejam considerados indesejáveis, estes traços foram durante muito tempo cultivados nesta raça, e de vez em quando ainda há gatinhos que nascem com eles.
E é verdade que as pessoas que têm siameses costumam advertir que ninguém que fique incomodado com uns olhos azuis sempre a seguirem atentamente todos os movimentos do dono deve ter um gato assim.

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Moradores de barcos

Para além de ter uma escultura de Gormley na praça central, a cidade de Birmingham é percorrida por canais e, por este motivo, gosta de se publicitar como sendo a Veneza de Inglaterra. Nesta cidade é bastante fácil conhecer pessoas que vivem em barcos. Eu, quando passei por lá, fiquei também a conhecer um gato siamês que vivia com os donos, por entre o nevoeiro, numa dessas moradas sobre a água.
Este gato funcionava como uma espécie de porteiro da casa, recebendo todos os visitantes com um olhar capaz de sondar as mais recônditas profundezas da alma; e, além disso, era estrábico.

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E...

Alexandre O’Neill tem um poema em que diz que, por muito que se faça, "Não se pode morar nos olhos de um gato". Mas eu acho que isso não é necessariamente verdade.

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Segunda-feira, Março 15, 2004

Coisas que podem salvar o dia: gatos

Gatos com coleira de guizo. Há gatos que não gostam, e não se adaptam nem à coleira nem ao guizo. (Eu, se fosse um gato, stressaria.) Mas outros orgulham-se do guizo, passeando-se com uma pose aristocrática sempre que o usam. Ontem vi um assim, por entre as cadeiras de uma esplanada na Ribeira. Era um gato clarinho e com ar exótico, provavelmente filho de um siamês. Devia ser de uma casa ali perto, pois, mais tarde, quando me vinha embora, ainda me cruzei com o dono, que vinha em sentido contrário e o trazia ao colo.

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Coisas que podem salvar o dia: gelados

Sabores tão doces que provocam brevíssimas, mas intensas, dores de cabeça.
Principalmente ao som da música, nos degraus da Praça de S. Marcos, em Veneza, enquanto o sol se põe e a praça se esvazia. (Desculpem, não resisti a acrescentar uma dificuldadezinha. Nem todos os dias podem ser salvos a 100%.)

Domingo, Março 14, 2004

No dia de anos dele

«Todos dizem generalidades, coisas superficiais. Reconheço que é lamentável sobretudo para mim, que devo investigar isto. Não sou um génio. Recolho sinais, invento teorias, não sou um herói. Nem um duro. A senhora lia policiais, e sabe que há muitos duros. Acho que os escritores inventam esses duros para que as pessoas pensem que estão protegidas. Não estão.» (p.81)

«Começa-se por isso. Por olhar. Olhar fixamente um rosto que nos lembra sempre outra coisa que nunca existiu em nós. A certa altura o rosto sorri, pede uma palavra. Nós damos. Mais tarde lembramo-nos de ter dado uma palavra a esse rosto e a esse sorriso, e é como se as coisas que até aí estavam certas, subitamente se desencaminhassem ou nunca mais esquecessem.» (p.119)

in Crime em Ponta Delgada, de Francisco José Viegas, Publicações Europa-América

Vidas Escondidas

«No fundo, o género [policial] não é muito diferente daquilo que podem ser os clássicos fundadores do nosso cânone romanesco, da Odisseia ao teatro de Shakespeare, tentando desdobrar os personagens em outros personagens, fazer da morte e do mistério, do suspense, o centro de toda a história. Há um pormenor que me fascina bastante, sim: o das vidas escondidas (mais do que as vidas duplas), o dos abismos de cada personagem. Todos os meus livros falam disso, no fundo.»

«Um dia, num daqueles colóquios sobre literatura, uma aluna perguntou-me se não me dava conta de que os meus detectives eram pequeno-burgueses, banais... Eu agradeci o elogio.»

Da entrevista de Ricardo Duarte a Francico José Viegas, no Jornal de Letras de 3 de Março de 2004

Sábado, Março 13, 2004

Lazarus Raised

Isto hoje começou relativamente mal. Não sei se estão recordados daquele poema de Thom Gunn em que se conta a história de um Lázaro alternativo que não quis ser ressuscitado ("Abruptly the corpse blinked and shook his head/ Then sank again sliding without a trace/ To take slime on the deepest bed/ Of vacancy. He had chosen to stay dead,/ The scheduled miracle did not take place."). Eu estava assim, mais ou menos à procura de lodo no mais profundo leito do vazio. Se deus aparecesse para me ressuscitar, provavelmente tê-lo-ia mandado dar uma volta.
Foi então que decidi sair. Estava um dia lindo. E quando regressei a casa e abri a porta da varanda da sala, ainda consegui ouvir melros no final do dia. No entanto, senti necessidade de fazer esta citação teatral e pós-traumática como forma de conclusão:

«And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.»
Do poema Lady Lazarus de Sylvia Plath

Sexta-feira, Março 12, 2004

Os últimos dias do IRS 2003

Há ansiosos extrovertidos e ansiosos introvertidos. Penso nisso quando me preparo para engrossar a fila de entrega dos papéis do IRS. Nesta fila, como em tudo, é preciso muita sorte. Acima de tudo, não queremos ficar entre dois ansiosos extrovertidos. Se temos de ficar entre ansiosos numa longa fila, que pelo menos um deles seja introvertido, e esteja caladinho com os seus próprios pensamentos obsessivos e ominosos. Percebo muito disto porque sou uma ansiosa introvertida em reabilitação. E não há como um bom ansioso introvertido, mesmo que em reabilitação, para reconhecer um ansioso extrovertido numa fila.

Este ano, à minha frente, estava uma ansiosa extrovertida. Enquanto algumas pessoas discutiam assuntos como os atentados de Madrid, as monarquias europeias, o sistema de ensino português e apontavam outras pessoas da fila que já conheciam de verem em filas de outros anos mas na mesma data, esta senhora, aparentemente participando na conversa, passou 45 minutos a manifestar preocupação por cada pormenor do almoço que não estava a preparar para a família, incluindo ingredientes a usar e/ou evitar, marcas, estratégias de confecção, tempo de cozedura, convivas à mesa, e bebidas que cada um deles costuma ingerir, chegando ao ponto de pôr toda a gente a discutir os dotes culinários do sexo masculino, ao mesmo tempo que lhe eram recomendadas serenidade e esperança.

Atrás de mim, no entanto, estava uma ansiosa introvertida. Só quando faltavam quatro ou cinco pessoas para sermos atendidas ouvi esta senhora articular frases mais ou menos conexas. Os ansiosos introvertidos são assim: sofrem em silêncio até à explosão... ou implosão. Durante os tais 45 minutos, esta senhora manteve-se quase sempre imperturbável, engolindo em seco, de olhar vago, refém de qualquer pormenor premente na sua vida que não estava a cumprir para poder estar ali, em suspenso até esse momento de descompressão final que correspondeu a cinco vertiginosos minutos de piadas, algumas das quais até tiveram graça.

À parte estas piadas, a chegada ao fim da fila foi mesmo muito triste. É sempre assim nos últimos dias do IRS. Ficámos a conhecer tão bem aquelas pessoas, e depois temos de nos despedir.
Ser atendido é quase um anticlímax. Quando vamos a sair das Finanças, com um sorriso rasgado para toda a gente que ainda fica, sentimos ainda vontade de gritar:
- Adeus, meus amigos! Até aos últimos dias do IRS 2004!

Não há como um bom ansioso para deixar um prazo chegar ao fim.

Quinta-feira, Março 11, 2004

Madrid sem medo

7.39: Se producen cuatro explosiones consecutivas en un tren de cercanías que estaba a punto de entrar en la estación de Atocha (Madrid) en plena hora punta. De forma prácticamente simultánea, otra deflagración sacude un convoy en la estación de Santa Eugenia, en el barrio de Vallecas; y una cuatra acción en las instalaciones de Renfe en El Pozo. Las primeras informaciones apuntan a que en los tres lugares reina el caos y la destrucción. Los vecinos de las zonas atacadas se vuelcan en ayudar a los heridos.
[...]
19.30 La estación de Atocha comienza recuperar normalidad 11 horas después atentados.

Madrid sem medo, mas com muita dor e muita raiva.

Quarta-feira, Março 10, 2004

Espirais de tempo e de imagens

Monocerotis V838: o próprio nome é bonito, e pertence a uma anteriormente ténue e discreta estrela da constelação Unicórnio que, em Janeiro de 2002, na sequência de várias explosões, foi vista, durante um curto espaço de tempo, como o astro mais brilhante da Via Láctea.
Desde essa data, a luz das explosões tem sido observada a propagar-se para o exterior, iluminando as várias camadas concêntricas de poeiras e gases em redor da estrela, um fenómeno raro a que os cientistas chamam 'eco de luz' (outra expressão sugestiva, como se a luz tivesse som).
Mas para além da raridade do fenómeno e da beleza das designações, acontece que os ecos de luz da estrela Monocerotis V838 geram imagens estranhamente semelhantes ao quadro Noite Estrelada de Van Gogh. Acontece que a estrela Monocerotis V838 se situa a 20 mil anos-luz de distância de Terra, e isso significa que quando Van Gogh criou a "Noite Estrelada" já ela tinha produzido há muito tempo os remoinhos e as estruturas concêntricas que nós só agora, 20 mil anos depois, somos capazes de visualizar.

Terça-feira, Março 09, 2004

Viagens com Ana Hatherly

Graças ao aviso da Lídia, vi ontem o Por Outro Lado. Foi uma boa oportunidade para ficar a conhecer mais pormenorizadamente a espantosa vida de Ana Hatherly e a forma como a infância foi decisiva na sua obra.
Além disso, deliciei-me com a evocação de uma viagem ao Egipto finalmente realizada depois de um adiamento de trinta anos, com a descrição dos monumentos, «tão grandes e ao mesmo tempo tão leves», e do desejo ou necessidade de Ana Hatherly se medir em relação à Esfinge e às Pirâmides, no seu espaço.
Ficámos a saber ainda que a próxima viagem desta escritora e artista plástica será a São Petersburgo. Não quererá ela companhia?

São Petersburgo segundo Brodsky (que nasceu lá)

«The geometry of this city’s architectural perspective is perfect for losing things forever.» (p.74)

«There is no other place in Russia where thoughts depart so willingly from reality [...].» (p.76)

«In this light, and thanks to the directness and length of the streets, a walker’s thoughts travel farther than his destination [...].» (p.89)

«This is the city where it’s somehow easier to endure loneliness than anywhere else: because the city itself is lonely. A strange consolation comes from the notion that these stones have nothing to do with the present and still less with the future. [...] When the crimson ball of the setting January sun paints their tall Venetian windows with liquid gold, a freezing man crossing the bridge on foot suddenly sees what Peter had in mind when he erected these walls: a giant mirror for a lonely planet.» (p.90)

Citações retiradas do texto «A Guide to a Renamed City» in Less Than One -Selected Essays de Joseph Brodsky (Penguin)

Sob os Silêncios do Céu

«Sob os silêncios do céu
neste novo Inferno
a cada um só resta
mas resta ainda
o seu próprio voo solitário»

Ana Hatherly
in Rilkeana, p.88 (Assírio & Alvim)

Segunda-feira, Março 08, 2004

Povo Portuense

Luís Mestre traduziu e apresenta a encenação da peça O Bosque (The Woods, 1977), de David Mamet, na Sala da Cooperativa do Povo Portuense.
É uma peça sobre Ruth e Nick, um casal que vai passar um fim-de-semana supostamente romântico a uma cabana pertencente à família do segundo. São duas personagens difíceis e pouco simpáticas. Ele, sempre à defesa, a fazer o favor de estar ali, como se no universo não houvesse mais do que angústias masculinas. Ela, sem parar de tentar salvar a situação, incessantemente a debitar disparates pouco realistas.
Não gostei da peça, nem do desempenho dos actores. Gostei, no entanto, do edifício, que não conhecia, com uma clarabóia protegida por um vitral, manchas de tempo e humidade pelas paredes, cheiros, ecos, uma escadaria antiga, e, nas traseiras, um pátio cheio de pombos que, no domingo, se faziam ouvir mais alto do que os carros na Rua Camões.
Enquanto os centros comerciais proliferam como fungos parasitas, estrutura de pensamento e filosofia de vida, edifícios como este são deixados ao abandono no centro da cidade.

O Luís Mestre tem estado a trabalhar David Mamet. No ano passado, traduziu e encenou a peça American Buffalo, de que, diga-se de passagem, gostei muito mais. Este ano, depois de O Bosque, vamos ter oportunidade de ver Speed-the-Plow (Desejo de Sucesso).
Ainda de David Mamet, também no ano passado, esteve em cena aqui no Porto a peça Uma Vida de Teatro (enc. Cornelia Geiser).

One reads Lord Byron

Para além de dramaturgo, David Mamet também é argumentista e realizador. Em The Winslow Boy, adaptou uma peça de Terence Rattigan. É um filme de que gosto muito, com um fim genial.
Fica aqui uma citaçãozita:

Grace Winslow: You don't behave as if you are in love.
Catherine Winslow: How does one behave as if one is in love?
Arthur Winslow: [Looks at the book Catherine is reading] One doesn't read "The Social Evil and The Social Good." One reads Lord Byron.

Domingo, Março 07, 2004

O Passeio

De A Rosa de Robert Walser, o Luís cita um texto intitulado «Passeio de Domingo».
O passeio é uma das grandes linhas de força da escrita (deambulatória) deste autor. E, curiosamente, em português há ainda um outro livro de Walser (O Passeio e Outras Histórias, trad. de Fernanda Gil Costa, Granito Editores e Livreiros) que inclui um texto muito interessante, com alguns elementos em comum com aquele que podemos ler na Montanha Mágica, e que pode funcionar quase como manual de introdução à leitura da sua obra:

«Passear, respondi, é-me indispensável para me manter vivo e em contacto com o mundo envolvente, pois sem o sentir nunca mais poderia escrever nem sequer meia letra, nem o mais pequeno poema em verso ou em prosa. Sem o passeio estaria morto, e a minha profissão, que amo apaixonadamente, estaria destruída. Sem passear e sem colheita de informações nunca mais poderia escrever um simples relatório, nem compor o mais insignificante ensaio, já para não falar de um romance longo e completo. Sem passear nunca mais poderia fazer observações nem estudos. [...] Imagens, poemas vivos, encantamentos e belezas naturais, tudo isto fervilha literalmente num belo passeio, por mais pequeno que seja.» (p.67-68)

O fim do passeio

O fim deste texto corresponde ao fim do passeio e a um dos mais comoventes trechos de Walser que conheço:

«Entretanto tinha anoitecido e cheguei então a um belo e tranquilo caminho, ou atalho, que corria sob árvores até à beira do lago, e aí acabava o passeio. [...] Talvez em consequência dum estado geral de fadiga, lembrei-me duma bela jovem e do facto de eu estar tão só no mundo, e de isso não ser lá muito bom. [...] Vieram-me à ideia velhos erros do passado, infidelidade, ódio, obstinação, falsidade, perfídia, insídia e toda a espécie de cenas violentas e deselegantes; paixões desenfreadas e desejos selvagens, o mal que tinha feito a tanta gente, as injustiças que tinha cometido. [...] e voltei a ver, subitamente, o velho cansado, pobre e abandonado que há alguns dias tinha visto no bosque deitado no chão, tão miserável, tão pálido, tão atormentado e tão exangue, tão tristemente próximo da morte, que essa visão triste e constrangedora me acabrunhou profundamente a alma. [...] Senti necessidade de me estender em qualquer parte e como mesmo ali, nas proximidades, havia um lugarzinho aprazível e confortável, junto à margem, instalei-me confortavelmente no chão macio, tão esgotado como estava, sob os ramos acolhedores de uma árvore. (p.96-97)

E termina assim:

«Para quê, então, as flores? ‘Colhia flores para as depor sobre a minha infelicidade?’, perguntei-me, e o ramo deslizou-me da mão. Tinha-me levantado para voltar a casa, pois já era tarde e tudo tinha escurecido.» (p.98)

Sábado, Março 06, 2004

Homens que são como lugares mal situados

No filme Esplendor Americano, confrontam-se e convivem linguagens e materiais tão diversos como o cinema, a banda desenhada, o documentário, o teatro, a televisão, personagens, actores e pessoas reais. De certo modo, é um filme que se debate com a realidade de todas as formas possíveis.
É verdade que, geralmente, as pessoas se acham, residem, se situam, por acaso, na realidade. Também foi assim com Harvey Pekar.
A dada altura, no entanto, Pekar encetou uma espécie de exploração ingrata e pouco gloriosa daquilo em que já se encontrava; e fê-lo através da escrita para banda desenhada.
Este filme também é sobre essa pesquisa da vida através das imagens e das linguagens em que todos existimos. Para mim, é muito importante esta noção da necessidade de procurar a vida na realidade e na ficção.
Harvey Pekar tem um blogue; mas ele já blogava muito antes de a blogosfera existir.

Verdade em constante recriação

« [...] ao arriscar a coabitação de materiais diversos, aparentemente contraditórios, "Esplendor Americano" cria a verdade de um espaço onde um universo está em constante recriação. Shari Springer Berman e Robert Pulcini (um casal de documentaristas) têm falado em algumas entrevistas na referência, para eles decisiva, dos filmes de Errol Morris. [...] O que faz Morris[...] é entrevistar alguém, mais ou menos conhecido [...], e com isso criar as condições para que se dê a explosão de um imaginário, de um mundo, que é, afinal, a forma como esse entrevistado se ficciona, se posiciona como actor da sua própria história. Por isso os filmes de Morris têm algo de aventura épica do género humano, e é a essa abstracção que chega "Esplendor Americano".»

Do artigo de Vasco Câmara no Y
(os bolds são meus)

Quinta-feira, Março 04, 2004

Cérberos urbanos

No domingo à tarde havia dois cães pretos idênticos, bastante granditos e aparentemente sem dono, estendidos ao sol, à entrada do parque de estacionamento subterrâneo da Praça Carlos Alberto.
Não ligavam nenhuma a quem passava.

Grandes enigmas da humanidade

No início do séc. XXI, em Portugal, é mais fácil comprar roupa laranja, rosa-bebé, amarela e verde fluorescente do que uma simples t-shirt azul-escura sem desenhos.

Criei o esquecimento

«Ouvi o sino da neve, vi o fungo da pureza, criei o esquecimento.»

in Livro do Frio de Antonio Gamoneda, trad. de José Bento, p. 11 (Assírio & Alvim)

Quarta-feira, Março 03, 2004

O copo de leite

É como se as coisas fossem mais nítidas quando está frio.
Não sei se a menina no café, de manhã, com a mãe, concordava comigo. Entre o sono e a escola, atrás de um copo alto de leite alvíssimo, tinha o olhar fixo em frente, mas preso no vazio. Nessa altura cheguei a pensar que trocaria a nitidez do dia por ser capaz de ver aquilo que ela longinquamente observava.

Tempestade de Gelo

Por causa do frio e do copo de leite, passei o dia todo a lembrar-me do filme Ice Storm de Ang Lee, baseado num romance de Rick Moody. É muito bonita a metáfora do gelo como um espaço de suspensão onde a pureza é temporariamente possível.
Muito pensa sobre moléculas a personagem de Elijah Wood para construir essa metáfora:

«Because of molecules we are connected to the outside world from
our bodies. Like when you smell things, because when you smell a smell it's not really a smell, it's a part of the object that has come off of it - molecules. So when you smell something bad, it's like in a way you're eating it. This is why you should not really smell things, in the same way that you don't eat everything in the world around you - because as a smell, it gets inside of you. So the next time you go into the bathroom after someone else has been there, remember what kinds of molecules you are in fact eating. [...] Yeah. When it freezes, I guess that means the molecules are not moving. So when you breathe, there's nothing in the air, you know, to breathe in to your body. The molecules have stopped. So it's clean.»

E, no entanto, é nesta mesma pureza que ele acaba por sucumbir.

(Quem quiser consultar o guião pode fazê-lo aqui.)

Segunda-feira, Março 01, 2004

Aquários iluminados na noite

Lembro-me vagamente de ir ao Rivoli de noite e haver alguém na rua com um aquário luminoso, a vender peixinhos vermelhos. Não sei se os peixinhos eram daqueles que podem tornar-se negros a partir de dentro, mas há muito tempo que não vejo ninguém no mesmo sítio, e começo a perguntar-me se esta recordação é real ou imaginada.
Além disso, num destes dias reparei que há uma loja de animais perto da Livraria Britânica com uma montra composta por um enorme aquário cheio de peixes exóticos de todas as cores. E imagino que os proprietários depositem uma enorme confiança no bom gosto de potenciais assaltantes e no poder calmante da água, porque este aquário também fica iluminado e visível de noite. Sim, acreditam no bom gosto dos assaltantes, no poder calmante da água. Ou então são leitores de Herberto Helder.

A lei da metamorfose

«Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que começou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.»

do texto «Teoria das Cores» de Herberto Helder, in Os Passos em Volta, p. 23

«Il est possible que la vérité soit triste»

Umblogsobrekleist faz hoje um ano.
Das muitas possíveis, fica aqui uma citação:

«BLOG IS A BLOG IS A BLOG [...] O que procuro eu num blog? [...] Diz-se frequentemente que «Viver é mais importante do que blogar», ou «Há coisas mais importantes na vida do que os blogs», ou variantes destas máximas. Por detrás da robusta evidência, parece ocultar-se a convicção de que as horas passadas frente ao computador, a teclar textos para o ciberespaço, são excrescências da "verdadeira vida"; na melhor das hipóteses, um luxo; na pior, uma tara. Eu creio que blogar é uma parte da vida, cuja importância relativa variará, como é natural, de indivíduo para indivíduo. Sendo uma parte da vida, por definição, faz parte de um combate quotidiano pela felicidade.» (12-10-03)