seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Domingo, Fevereiro 29, 2004

Consequências do Euro 2004

Geralmente marco férias em Junho. Este ano, no entanto, consta que será nessa data que o país definitivamente sucumbirá. Por esse motivo, marquei férias nas últimas semanas de Maio. Se o país acabar, eu quero estar cá para assistir.

Viena e Budapeste

Já agora, quem tiver histórias, citações e/ou dicas para partilhar sobre estas cidades faça o favor de usar o mail setadespedida@yahoo.co.uk .
Muito obrigada.

Sábado, Fevereiro 28, 2004

A palavra «forma»

«No que Dürer pintou não ficou representado qualquer corpo. Apenas céus, nuvens, água e terra empapada. Schefer ensinou-me que alguns sustentaram provir a palavra "forma" do grego "orama", que é "orai", ou seja "eu vejo". Enquanto outros disseram que a palavra derivava de "morpha" por "morphé". Morfeu é, como se sabe, o filho do Sono e da Noite, o irmão de Fantásios e de Fobétor, aquele que dá os sonhos aos homens. Representavam-no com asas de borboleta e tendo na mão um ramo de papoilas, dessa espécie a que também se chama malícia-de-mulher.»

Da crónica de João Bénard da Costa, no Público de ontem

O meu telemóvel

Meus amigos, como alguns de vocês já tiveram oportunidade de constatar, o meu telemóvel não tem andado bem. Desliga-se quando toca, sem guardar o registo da chamada. Desliga-se sem mais nem menos durante qualquer chamada. Gosta de desligar.
Ontem, entre as seis e meia e as oito da noite, ainda estou para descobrir porquê, muitos de vocês decidiram telefonar e enviar-me carradas e carradas de mensagens, incluindo coisas como «Ainda é de dia. Bom fim-de-semana.», «Minha filha, vens cá amanhã?», «Queres falar?», e até as seguintes e enigmáticas quatro letras «ajmd».
Por causa disso, a já de si frágil e instável memória do aparelhozinho desorientou-se ligeiramente, e tive de apagar TODAS as mensagens que tinha guardadas. E olhem que havia duas que eu preservava com muito carinho, uma, já muito antiguinha, sobre o filme Ghost World, e, outra, a mensagem de boas-vindas da rede de telemóveis checa.
O que é que vos passou pela cabeça?

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004

Estou a tentar ser verdadeira*

E para se ser verdadeiro é realmente necessário tentar.

*verso de Carol Ann Duffy, in Qual É a Minha ou a Tua Língua? - Cem poemas de amor de outras línguas (org. Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim), p.15

quanto azul desbaratas

E já que ando às voltas com versos que não me saem da cabeça, aproveito para colocar também aqui parte de um trecho de Odysseas Elytis que o Manuel Resende traduziu e publicou no já lendário baile de máscaras da Janela Indiscreta.

«Haveis de compreender o que quero dizer.

Somos o negativo do sonho
e por isso parecemos brancos e negros
e vivemos a destruição sobre uma realidade mínima. Contudo
Das Reine Senhoras e Senhores
kann sich nur darstellen im Unreinen und versuchst du das
Edle zu geben ohne Gemeines
so wird es als das Allerunnatürlichste
*
diz o que teve de atravessar
as Sendas Celestes.

E algo devia saber.

Deus meu quanto azul desbaratas
para que não te vejamos!
»

Nota: * "A pureza só pode ser representada pela impureza e artificial em absoluto seria quereres compreender o nobre sem vulgaridade"
(carta de Hölderlin a Ch. Neuffer, 12 de Novembro de 1798. O viajante das sendas celestes de que fala Elytis é este mesmo Hölderlin.

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004

Encontrar um lugar

No último Mil Folhas foi publicada uma entrevista de Vanessa Rato ao escultor Antony Gormley, que nos faz pensar que a arte pode transformar as pessoas e o mundo, mesmo que não seja «comprometida», e nem que seja só por ser capaz de desencadear a reflexão.
Vale a pena ler a entrevista toda, mas destaco o seguinte:

«pensamos nos sem-abrigo, na forma como os seus corpos se posicionam no espaço colectivo e organizado das cidades, na forma como se encolhem em entradas de prédios ou deambulam por passagens subterrâneas [...]
Pode haver alegria no facto de cada vez mais pessoas poderem ver cada vez mais do mundo, mas também há pessoas que, nesse contexto, nunca encontram um lugar. Estou a tentar, de alguma forma, perguntar o que é que a escultura pode fazer hoje e que tipo de lugar pode encontrar para si. Estou a tentar confrontar o lugar a que ela pode aspirar no mundo com o lugar que as pessoas podem ocupar nesse mesmo mundo.»

Como uma semente ou uma bomba

Gormley gosta de dizer que escolheu dedicar-se à escultura para fugir das palavras. Sucede, porém, que aquele que foge das palavras acaba por lhes despertar o interesse e pode correr o risco de mais rapidamente ser encontrado por elas.
Quem visitar o site do artista descobrirá frases assim:

«Art can reposition itself in the place traditionally associated with the icon, the idol, the fetish, the graven image and then empty itself. Not in order to be powerless but in order to replace certainty with doubt and succour with anxiety.»

«I'm always saying that the stillness of sculpture should be like a seed or a bomb, that there should be a fullness about it that allows it to implant itself within our consciousness and some way be the reason for an explosion of new sensation or feeling of aliveness.»

«We can use the space of art to face ourselves. The sculptures do not take their belonging to the world for granted, they are trying to find their place in it and they do not take the act of standing as a given; they are learning to stand.»

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2004

O elemento Indiana Jones

Hoje este blogue faz cinco meses. Nem sequer metade de um ano, já sei, mas aproveitei a ocasião para recordar que, ao começar, disse a mim mesma que era tudo para ordenar o pensamento. E isso foi um pouco antes de perceber que não vale a pena tentar controlar um blogue, dizer-lhe para que serve, explicar-lhe os motivos por que foi criado. Qualquer blogue rapidamente adquire vida própria perante os olhos cansados do seu descontente criador.
E, pronto, não é frequente apetecer ao blogue lidar com pensamentos. Às vezes até gosta de os asfixiar à nascença só porque no momento preferiu alimentar-se de dias sem tempo, sem paciência, sem nada para dizer, ou então lhe aconteceu emudecer temporariamente perante demasiadas coisas pouco verbalizáveis.
E, no entanto, há momentos em que quase se poderia arriscar dizer que o blogue está a divertir-se a engendrar conceitos e palavras, imparavelmente, a partir de outros blogues, ou do próprio nada.
E como explicar que quase todos os dias o blogue consiga segregar aquela sensação de que se está a construir gradualmente como uma ponte impossível sobre um abismo horrendo, um abismo evidentemente inútil, desinteressante, cansativo, insuportável, insuperável....e... o blogger tem de ser rápido porque há outras coisas para fazer, e ninguém lhe paga o esforço (heróico), daí a algumas horas tem de ir trabalhar, devia era estar a trabalhar, ou a ler, a ponte é frágil, não presta para nada, abana por todos os lados, o blogger não percebe grande coisa de construção, mais um passo em falso e será a desgraça, e... por que é que tenho a impressão que são todos estes espantos, esperanças defraudadas e ansiedades pouco adultas que fazem o blogger continuar?

Terça-feira, Fevereiro 24, 2004

Promessas não cumpridas

Eu, que ao mundo e a mim mesma tinha prometido passar cinco dias de férias da blogosfera e do Carnaval, acabo por voltar mais cedo para participar num baile de máscaras blogosférico.

Atravessar o mar branco de um livro sem palavras

Entretanto, Kafka tem andado desaparecido de Belo Horizonte, mas aqui se dá conta da minuciosa investigação que desde então vem decorrendo.

Nem a própria luz

Na última página do Público de sexta-feira explicava-se o poder de atracção dos buracos negros («Os buracos negros têm uma enorme capacidade de atracção, porque têm uma quantidade gigantesca de massa, muito densa e comprimida, que faz com que tenham uma força gravítica espantosa. Nada lhes escapa, nem a própria luz.») a partir da história de uma triste estrelita que ousou aproximar-se de um deles e foi engolida. Uma lição de vida para todos nós:

«O enorme buraco negro despedaçou uma estrela parecida com o nosso Sol, tragou um bom pedaço dela e pulverizou o resto pelas redondezas, como quem deixa toneladas de migalhas depois de se banquetear.»

Os cientistas tranquilos

E só achei engraçado que o entusiasmo dos cientistas relativamente a esta deglutição se baseasse também no facto de a ocorrência ter sido registada na galáxia RX J1242-11, que eles próprios pensavam «ser muito calma e pouco propícia a estes fenómenos».
Os mesmos cientistas que agora estão convictos que «um fenómeno destes nunca poderia acontecer com o nosso astro-rei, o Sol».

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004

E agora um intervalo para férias não carnavalescas

Regressarei ao blogue na próxima quarta-feira (25 de Fevereiro), provavelmente com um post narcisista.

Pintura e cinema

A entrevista de Maria Leonor Nunes a João Mário Grilo publicada no Jornal de Letras de 18 de Fevereiro aborda algumas questões bastante interessantes.
Aqui fica um excerto:

«A verdadeira influência da pintura no cinema não é feita pelo lado do aspecto, mas da estrutura. Isto é, a pintura pode dar ao cinema meios para pensar a sua própria estrutura. Pensemos nas casas, fazem-se com tijolos, mas não são todas parecidas. Há qualquer coisa diferente que pode nascer a partir do pensamento sobre o que fazer com um tijolo. Daí que as arquitecturas sejam diferentes. De facto, a pintura pode dar ao cinema uma outra maneira de pensar a sua visualidade, mas estruturalmente. Isso significa a participação do cinema nessa vontade pós-cezaniana da destruição da pintura como ilusão do mundo. Portanto, o cinema não contém a pintura, nem a pintura contém o cinema. São artes que se desfazem uma à outra.»

Edifícios adormecidos no centro da cidade

Tudo porque, para abrir a montra, a dona decidiu levar-me com ela e com as chaves, num trajecto que passava primeiro pela rua e, depois, inesperadamente, incluía a entrada num edifício ao lado desta loja nos Clérigos.
Enquanto a senhora abria a montra espacialmente deslocada do núcleo a que pertencia, e eu, na penumbra, espreitava a escadaria que partia do hall, a tentar recordar-me se alguma vez teria estado ali dentro, ouviu-se uma voz, vinda da rua, que chamava.

A dona da loja parou subitamente e olhou para mim, antes de se dirigir à porta, para dizer, com decisão:
- A D. Irene já não trabalha aqui há muito tempo!

E ouvir:
- Pois... Pensei que ela podia ter voltado....

Depois, um som de passos a afastarem-se, e a dona da loja a dizer-me:
-Quando venho aqui, geralmente fecho a porta. Mas hoje, como estava alguém comigo, não fechei. Só que agora não estava a perceber o que se passava. Aqui, nunca se sabe...

Pois não. Não se sabe.

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2004

Rapariga com Brinco de Pérola

Li o livro mais ou menos há quatro anos, mas não me esqueci desta parte, narrada na primeira pessoa pela personagem da rapariga:

«Peguei na vela, descobri o espelho na arrecadação e trepei ao sótão. Apoiei o espelho à parede por cima da mesa e coloquei a vela a seu lado. Peguei no estojo das agulhas e, depois de escolher a mais fina, pus a ponta na chama da vela. Depois abri o frasco de óleo de cravo-da-índia, à espera de que cheirasse mal, a bolor ou a folhas mortas, como tantas vezes acontece com os remédios. Em vez disso era doce e estranho, como bolos de mel deixados ao sol. Era de muito longe [...]. Deitei umas gotas num pano e passei-o pela orelha esquerda. [...]
Tirei a agulha da chama e deixei a ponta incandescente passar de vermelho a laranja e depois a preto. [...]
Puxei o lobo da orelha para ficar tenso e num único movimento empurrei a agulha através da carne.»

Rapariga com Brinco de Pérola de Tracy Chevalier (trad. de Ana Falcão Bastos), Temas e Debates, p. 180

Não é bem isto que acontece no filme.

Terça-feira, Fevereiro 17, 2004

Isto anda tudo ligado?

No domingo, ao fim da tarde, havia estranhas coisas a acontecer na cidade mais verde de Portugal.

Duas personagens de um filme de culto ainda por identificar foram avistadas a vaguear perto da Casa das Artes, passeando cães estilizados da raça «basset hound».

Mais adiante, no Jardim Botânico, um porteiro visivelmente enfastiado tentou barrar a entrada a um grupo de bloggers, para depois fingir que fazia parte da equipa de um programa televisivo de apanhados, e, finalmente, se oferecer para uma visita guiada ao jardim, incluindo chá e torradas num bar que acabou por se revelar indiscutivelmente encerrado ao público.

Na Faculdade de Arquitectura, as salas e os gabinetes estavam cheios de estudantes e professores, como se não fosse fim-de-semana. E, numa das janelas, alguém tinha escrito «HELP» a tinta branca e em letras garrafais, mas apenas o elemento masculino do grupo foi capaz de visualizar a mensagem da primeira vez que por lá passou.

No Guarany, foram disponibilizadas duas mesas apenas alguns segundos após a chegada deste mesmo grupo, apesar de este famoso café estar cheio, e nos quartos-de-banho se ouvir a música "As Time Goes By".

É sempre do nosso passado que vêm as maiores surpresas

E não é que já conhecia de vista há muito, muito tempo este voyeur das bibliotecas que me apresentaram no sábado? E nem sequer suspeitava que se chamava Rui Amaral e tinha um blogue que faz parte dos meus links!...
«C’est toujours ce qu’on savait par coeur qui nous a pris au dépourvu.»
(Pascal Quignard, Les Ombres errantes, Grasset, p. 72)

Psicanálises

Neste fim-de-semana também passei um tempito com a Nébia do Torneiras de Freud (agora com novo endereço). Muitas coisas me perguntou esta menina: que escritores lia mais, por que motivo trazia comigo o Público de sábado mas não a Xis, se gostava da Agustina!...
O que me valeu foi descobrir um filme de culto para ambas!...

In the mood for love

« [...] mas deslizando (os dois geometricamente separados), lentamente, para dentro do amor, como se o amor tivesse corredores, portas, vozes do outro lado da parede, chuva lá fora, mesas com comida, néons, luzes violentas, imagens calcinadas, escadas, respirações suspensas, como se o amor fosse um dentro que apenas se torna visível na superfície muda das coisas [...]. E este dentro tivesse a cadência, passo a passo, de uma repetição infinita, a dimensão espectral de um não-acontecer que todos os dias acontece.»

(palavras de Eduardo Prado Coelho sobre o filme de Wong Kar-Wai num texto da coluna «Fio do Horizonte», em data que infelizmente não apontei)

All along she has kept her head lowered

No Internet Movie Database também encontrei um comentário com uma tradução dos versos que aparecem no fim deste filme. Parece-me que o inglês não é perfeito, mas gosto muito das imagens que por aqui flutuam à tona dos erros, quase como poeira na luz:

«It was kind of an unbearable encounter
All along she has kept her head lowered
Giving him a chance to get closer
He didn't have the courage to be closer
She turned around, walked away.

That time and place had come to past.
All that belonged, no longer existed.

Those vanished years, seemingly separated by a glass
gathering dust, can see, yet cannot grasp.

All along he has longed for all that's past
If he can break through
that dust-gathered glass
He will walk back into the times long vanished.»

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2004

Porto+Lisboa

Neste fim-de-semana, os Indiscretos estiveram reunidos no Porto e deixaram-me estar com eles.
No Sábado, no Piolho e na Cadeia da Relação. No Domingo, num percurso que começou em Serralves, passou pelo Palácio de Cristal, a Casa das Artes, o Jardim Botânico, a Faculdade de Arquitectura, e terminou no Guarany.
Fiquei a conhecer a parte lisboeta de um dos melhores blogues que temos, e adorei.
Mais pormenores indiscretos na terça-feira.
Sobre o fim-de-semana e talvez também sobre uma interessante estratégia para não adormecer na auto-estrada que fizeram o favor de me ensinar, apesar de eu não ter mostrado verdadeiro interesse em aprender.

Sábado, Fevereiro 14, 2004

Insubstituível guia

«Por detrás desse jogo de volumes
estava a morte -
acordo tácito, insubstituível guia
sempre pronto a apoiar levemente a mão num ombro -
nesse,
que das espáduas se eleva. E a morte
desce sobre os teus lábios, assinala-te a beleza de uma
árvore, de uma estátua no meio de um lago;
faz-te sentir, no mais fundo da sua proximidade, o desejo
absoluto

percorre os membros, decifra a alma
leva-a sobre o plaino salgado do teu corpo, mar
em que se perde»

João Miguel Fernandes Jorge
alguns versos do poema IV de Jardim das Amoreiras, p. 18 (Relógio D’Água)

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2004

You ask way too much

E depois das fantásticas e poéticas mensagens de erro que os nossos computadores fazem o favor de nos enviar, há ainda uma outra coisa que me fascina. Tem a ver com aquela expressão seraficamente vaga, quase literária, como se tocada pelo divino, que os programadores que conheço adquirem só para responder 'Não sei.' de todas as vezes que, suavemente e a medo, ousamos perguntar-lhes 'E por que é que isto acontece?...'.
Em seguida, geralmente dizem 'Não te importas de desligar e tornar a ligar?', evolando-se, em direcção ao infinito. Podem ser tão etéreos, os programadores.

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004

Eyes to the front, they hunt; eyes to the side, they hide.

Explicam-me que a condição de presa ou predador pode muitas vezes ser avaliada a partir da localização dos olhos na cabeça de um animal.
Geralmente as presas têm olhos bonitos, que chamam a atenção; mas estes olhos não existem para suscitar admiração. Os olhos da presa têm de permitir-lhe um vasto campo de visão de modo a que lhe seja possível detectar qualquer ameaça e fugir do predador o mais rapidamente possível. Por isso, são afastados um do outro, situando-se um de cada lado de uma cabeça afunilada.
Pelo contrário, os predadores têm os olhos pouco distantes e no centro da cabeça. O campo de visão que lhes interessa está à sua frente: é aquilo que podem atacar com precisão e eficiência.

Mas os olhos não servem só para ver

Algumas aranhas têm muitos olhos porque comunicam visualmente, através de estranhas danças que observam e efectuam.

Há animais que têm mais do que dois olhos para poderem fingir formas diferentes das suas. E até borboletas que têm nas asas enormes manchas semelhantes a olhos, parecendo fazer parte de um ser muito maior do que elas, e assustando qualquer ave incauta e menos informada.

O tubarão dorme de olhos abertos

E qualquer predador que deseje conhecer e dominar a sua presa tem de começar por entender aquilo que a distingue de si: a forma como o medo, a desconfiança, a suspeita, a fuga ou o disfarce são os melhores amigos dela e, no fundo, os mecanismos fundamentais da sua sobrevivência.

Terça-feira, Fevereiro 10, 2004

Como saber que se pode estar outra vez a precisar de férias

Quando à hora de almoço se ouve um segurança chamar outro assim:
-Werther, ó Werther!

«temporary [...] was the saddest word of all»

Na blogosfera, é possível partilhar a leitura de The Sound and the Fury de William Faulkner, aqui.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004

India Song

Segundo Marguerite Duras, a parte sonora deste filme deu mais trabalho do que a montagem das próprias imagens: «Gravei sons por todo o lado: em igrejas, lugares muito ruidosos, em caves, corredores, na minha casa, um pouco por todo o lado.»
Mas, mais curioso do que isso, é interessante notar que a própria Duras aparece como voz ou personagem sonora neste filme.
Tenho de confessar que não uma grande fã desta escritora; conhecia a voz dela de documentários, mas há anos que não a ouvia. E, ainda assim, até para mim foi impossível não a reconhecer, com um calafrio, logo a partir do primeiro momento em que ela se deixa ouvir no filme.
Duras tinha consciência que os sons dos pássaros em India Song são terríveis («gritam todos como aves de rapina»), mas a sua própria voz, dentro ou fora deste filme, tem uma qualidade predadora que não é possível esquecer.

Outras vozes no cinema, ao domingo à tarde

Sessão das 16.40 no Cidade do Porto. O público é heterogéneo e enche três quartos da sala. Finda a primeira hora do filme, três pessoas levantam-se para sair. 25% da sala aproveita essa oportunidade para se pôr na alheta também.

Senhora ao meu lado com um perfume fortíssimo que para sempre me fará recordar este filme: «Eu saio se tu saíres!»
Senhora ao lado desta: «Mas eles não falam!»
Senhora ao meu lado (indignada): É que nem sequer se deram ao trabalho de ir à Índia! Porque a Índia é bonita, e isto não é nada!

Entretanto, outras pessoas vão saindo, aos magotes. De cada vez que alguém sai, a senhora a meu lado dardeja os desertores com olhares de inveja indisfarçada e dá cotoveladas à companheira, que não se mexe.

A 10 minutos do fim, casal atrás:
Voz feminina: «Estou faaarta! Que suplício! Não aguento mais! Vou sair!
Voz masculina (tolerante): «Des-con-trai, des-can-sa.»

A senhora do perfume e a amiga ficaram até ao genérico final.

Pérolas durasianas

India Song esteve em exibição em Lisboa, em Novembro do ano passado. Por essa altura, o suplemento Y publicou um conjunto muito interessante de textos, incluindo um testemunho de Tereza Coelho, tradutora deste filme e de outros livros de Duras, que chegou a conhecer pessoalmente.
Coisas que Tereza Coelho conta:

«Levou uma hora a explicar-me porque é que os homens eram uma falha de Deus.»

«uma vez passámos uma tarde a arrumar canetas»

«É muito difícil livrarmo-nos da mentira de um amor que acaba.»

Já agora

Já agora, ficam aqui algumas notas sobre os locais de filmagem de India Song, segundo o artigo de Alexandra Lucas Coelho nesse suplemento.
Por fora, a embaixada francesa é o Palácio Rothschild, no Bois de Boulogne. Conta-se que este Palácio estava arruinado por dentro porque tinha sido abandonado no fim da Segunda Guerra Mundial e Duras teve medo de entrar, optando por usar o Palácio Trianon em Versailles e dois apartamentos em Paris para filmar as cenas de interior.
Mas, no ano seguinte, Bruno Nuyten convenceu a escritora a entrar no palácio arruinado, e foi então que ela decidiu filmar aí um novo filme (Son Nom de Venise Dans le Calcutta Desert, 1976) com a mesma banda de som. E este segundo filme é ainda mais fantasmagórico, pois não são sequer filmados corpos. A câmara vagueia por entre as ruínas, e nós ouvimos apenas as vozes.

Domingo, Fevereiro 08, 2004

O amor e a escrita

Quando Walser escreve sobre os objectos de amor ou de interesse da sua personagem é também um pouco sobre o real e os motivos que o levam a escrever que está a falar.
Aos olhos do salteador, a criatura amada é metamorfoseável em árvore, sob cuja ramagem, sombra e musgo é possível ser feliz. Mas sobre estas árvores também é possível dizer:

«Estou a vê-la solitária [...], como uma espoliada, uma abandonada, e, ainda que ela tivesse alegrias aos milhares, seria sempre aos meus olhos uma vítima de um salteador, e eu não consigo livrar-me do sentimento de ter sido quem a subjugou e quase caio para o lado, tal como uma carroça demasiado carregada de frutos, frutos que, no fundo, são dela, que lhe foram roubados, a ela [...].» (p. 174)

«E a cara desta rapariga causou-me sempre uma impressão terrível, e agora já todos compreenderão porquê: porque era a cara de alguém a quem tinham roubado tudo.» (p. 175)

A arte de amar e escrever sem deslumbramento

Parece-me que, em O Salteador, a tão importante arte do furto é a arte de amar e de escrever sem deslumbramento.
Pouco destrinçáveis, principalmente quando afirmam a sua distinção, narrador e personagem principal roubam aqueles que amam «por pura veneração e dedicação» (p.167), rindo-se de «tudo o que é bom e belo, sagrado e de grande significado» (p.183), fazendo pontaria aos modelos que estimam.

De certo modo, esta frase sintetiza tudo o que se possa dizer sobre o amor e a escrita em Walser:
«O salteador tomou o coração nas mãos, contemplou-o, fechou-o outra vez no peito e continuou o seu passeio [...].» (p. 88)

Em Walser, escrever pode passar por arrancar o coração do peito, mas depois o verdadeiro salteador olhará para ele como se não lhe pertencesse, com curiosidade, mas também distanciamento, ironia, talvez alguma falta de respeito, optando por devolvê-lo ao local de onde não deveria ter saído, para poder prosseguir a deambulação. Não é possível passear com o coração nas mãos.

Como um dedalzinho

Entre todas as correntes e remoinhos que o leitor tem de atravessar neste livro, há pelo menos duas contracorrentes principais:

1.«O salteador sabe bem, por experiência própria, o que sente uma pessoa quando as ninfas a puxam pelas pernas e a arrastam para o fundo do rio. Conhece bem as forças das correntes, que tudo arrastam, e sentiu ali na própria pele a forma violenta como a morte se dá a conhecer.» (p. 81);

2. e mesmo assim, ou talvez por isso, anda a « apanhar do chão, onde caíram todos os desgraçados, todos os desamparados, todos os necessitados deste mundo, uma simples gaitinha ou um pedacinho de chocolate ou qualquer outra quinquilharia das muitas com que as crianças se entretêm» (p. 98)

Sobre o amor, Walser escreve que é «um ser-se insignificante com a maior das grandiosidades» (p.137). E também na sua escrita, e na nossa vida, talvez a insignificância seja muito mais importante, muito mais interessante, do que a grandiosidade.

E agora para terminar

«E agora, para terminar este livro, pretendo fazer ainda o seguinte resumo. Todo ele me parece, aliás, um grande, um enorme comentário, ridículo e incompreensível, Uma pequena aguarela executada por um jovem pintor que mal ultrapassara a adolescência deu azo a que escrevêssemos todas estas linhas de cunho cultural. Celebremos esta vitória da arte. Hoje, minhas senhoras e meus senhores, quase me admiro a mim próprio. Estou maravilhado comigo mesmo.» (p. 184)

Síndrome da múltipla personalidade do leitor

Mas agora, por causa deste livrinho, há leitores diferentes dentro de mim, leitores que não falam uns com os outros, cada um deles à espera de um livro, uma frase, uma palavra para se poder neuroticamente manifestar. No entanto, todos eles concordam que ler O Salteador ...
«Era uma verdadeira excitação. Era, muitas vezes, uma expectativa dilacerante, era como rasgar um pano, mas o pano resistia ao rasgar, ao despedaçar, o pano era mais forte do que tudo aquilo que pretendia rasgá-lo.» (p. 50)

Sábado, Fevereiro 07, 2004

Walser segundo Elias Canetti

«The most camouflaged of all writers (who) never formulates his motives...his work is an unflagging attempt at hushing his fear...and that is why it is sinister (the work, not the words)...as he escapes everywhere before too much fear gathers in him...in order to save himself...his experience with the 'struggle for existence' takes him into the only sphere where that struggle no longer exists: the madhouse, the monastery of modern times.»

(Citação retirada daqui, meu bold)

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O lápis, a caligrafia e a página

Num texto de Coetzee que a Cristina desencantou (em 31 de Janeiro), diz-se que um dos primeiros sinais da perturbação psíquica de Walser se manifestou quando este começou a sentir umas estranhas dores psicossomáticas na mão ao escrever.
Walser, que sempre se orgulhara da sua caligrafia, relacionou essas dores com uma má vontade inconsciente em relação à caneta, e substituiu-a por um lápis. E foi nessa altura que alterou radicalmente a sua letra e passou a usar uma grande quantidade de abreviaturas pouco ortodoxas, a ponto de os manuscritos que encontraram depois da sua morte (entre os quais se inclui O Salteador) serem inicialmente considerados diários escritos num código secreto.
Segundo Coetzee, esta mudança de material e de estratégia foi decisiva para o fluir do seu estilo associativo, determinado por estados de alma, caprichos, ligações imprevisíveis, ricochetes, reflexões surpreendentes, mudanças de direcção inesperadas. A escrita de Walser depende também desse ritmo que só o lápis lhe permitiu. Algo de novo tem origem na acção de escrever com lápis, vindo não só do material utilizado, mas também do corpo do escritor, do envolvimento do corpo do escritor com o lápis, a caligrafia e a página. Coetzee chega a comparar a escrita de Walser a um desenho a carvão.

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Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004

Pura poesia informática

Ultimamente tenho trabalhado muito com um programa que permite a pesquisa de informação previamente organizada em campos fechados.
Quando se trabalha com este programa, não encontrar a informação especificada pode ser boa ou má notícia, mas a mensagem que em qualquer dos casos se recebe termina sempre com a frase «The search item was not found.».
Desculpem lá, mas esta frase é perfeita: nem uma palavra a menos, nem uma palavra a mais.
Qualquer dia terei de fabricar um post para um título assim.

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Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004

Mais adiante voltarei a falar disto

No livro O Prazer do Texto, Roland Barthes define assim uma «tipologia dos prazeres de leitura - ou dos leitores de prazer»:

«O fetichista concordaria com o texto cortado, com a fragmentação das citações, das fórmulas, das cunhagens, com o prazer da palavra. O obsessional teria a voluptuosidade da letra, das linguagens segundas, desligadas, das metalinguagens (esta classe reuniria todos os logófilos, linguistas, semióticos, filólogos: todos aqueles para quem a linguagem se repete). O paranóico consumiria ou produziria textos retorcidos, histórias desenvolvidas como raciocínios, construções estabelecidas como jogos, coacções secretas. Quanto ao histérico (tão diferente do obsessional), seria aquele que acredita no texto ingenuamente, que entra na comédia sem fundo, sem verdade, da linguagem [...].» (Edições 70, trad. de M. Margarida Barahona, p. 111, os bolds são meus)

Ando com sérias suspeitas que a leitura de Robert Walser possa ser uma das causas dessa grave mas pouco conhecida doença que é a síndrome da múltipla personalidade do leitor.
Voltarei a falar disto mais tarde.

Terça-feira, Fevereiro 03, 2004

Mínimos entes magníficos

Mais ou menos por esta altura, no ano passado, explicaram-me que as magnólias são fósseis vivos.
Quando os dinossauros apareceram já as magnólias por cá andavam há muito tempo. E, entretanto, os dinossauros desapareceram, mas elas permanecem na Terra há milhões de anos, iguais a si mesmas.

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Hoje

Andei a sentir-me invulgarmente pouco deprimida, hoje.
E... tenho de reconhecer que foi giro. Mas agora quero a minha identidade de volta, se faz favor.

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2004

Aos Indiscretos

Obrigada por existirem blogosfericamente há um ano.

Walser segundo Claudio Magris

«La poésie de Walser est comme un dimanche à la tombée du soir, quand un bonheur secret, inexprimable, que la vie un instant auparavant semblait promettre, se dérobe soudain et qu'il ne reste plus qu'une mélancolie vide, un glissement furtif du temps.»

in L’Anneau de Clarisse

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A incerteza metódica?

«Seremos mais verdadeiros quando estamos confusos, mais claros quando em dúvida, mais seguros quando cheios de incertezas?»

de O Salteador de Robert Walser, p. 114

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Domingo, Fevereiro 01, 2004

Festa do Livro

Decorrerá até 15 de Fevereiro no Mercado Ferreira Borges (Porto) mais uma feira de livros a preço reduzido. Eu já andei por lá a tentar arruinar-me, e a conseguir.
Mas encontrei livros como:
- Danúbio de Claudio Magris (D. Quixote, trad. de Miguel Serras Pereira) a €5
- Três Mulheres de Robert Musil (Livros do Brasil, trad. de M. Cristina Mota) a €4
- A Pele Calejada de Raymond Guérin (Assírio&Alvim, trad. de Luiza Neto Jorge) a €2
- Porto - Ficção (antologia da Asa que reuniu em 2001 contos inéditos de vários autores sobre o Porto) a €2,5
- Desassombro de Eucanaã Ferraz (Quasi) a €5
- Artes Marginais de A. M. Pires Cabral (antologia da Guimarães Editores) a €8

Entretanto

Aqui no Porto vale a pena ir para todo o lado a pé, porque as magnólias já começaram a florir.