seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Sábado, Janeiro 31, 2004

Às pessoas saudáveis

«Às pessoas saudáveis faço o seguinte apelo: não teimem em ler apenas esses livros saudáveis, travem um conhecimento mais estreito, também, com a literatura dita doentia, que vos transmitirá decerto, uma cultura edificante. As pessoas saudáveis deviam sempre expor-se um pouco ao perigo. Senão, com mil raios, para que serve ser saudável?»

in O Salteador de Robert Walser, trad. de Leopoldina Almeida, Relógio d’Água, p. 81

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Lost in translation

Se calhar é verdade: estamos sempre a traduzir.
Com as palavras, sempre de passagem, a despedir-nos do que queremos dizer.
E aldrabamos tudo. Não encontramos equivalentes na língua de chegada. Não dominamos bem a língua de partida. Sucumbimos à tentação de melhorar a versão original.
Mas há coisas que mesmo nós sabemos que não são para traduzir. Neste filme, aquele sussurro ao ouvido de Charlotte (Scarlett Johansson) encontrada por acaso no meio da multidão, já depois da despedida.

Fallen leaves in the night

«I could feel at the time
There was no way of knowing
Fallen leaves in the night
Who can say where they're blowing
As free as the wind
And hopefully learning
Why the sea on the tide
Has no way of turning»

Da letra de «More than this» de Bryan Ferry, cantada ao karaoke por Bob Harris (Bill Murray) em Lost in translation

Pippo Delbono

«Faço teatro não para dizer uma coisa, mas porque não percebo uma coisa.»

in «Pippo Delbono - Quando o teatro vai à guerra», por Alexandra Lucas Coelho, Público de 30 de Janeiro de 2004

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Sexta-feira, Janeiro 30, 2004

Coisas de que não gostamos

Na última reunidão da Comunidade de Leitores, Vernon Little suscitou uma discussão muito animada, cheia de sentimentos contraditórios em relação ao estilo «engraçadinho/desgraçadinho» do (excessivamente?) precoce e salingeriano narrador de 15 anos que é produto e vítima de um mundo que lê e interpreta a partir de aparências e modelos televisivos e cinematográficos («O sistema judicial não está feito para pessoas como eu. Está feito para pessoas mais óbvias, como aparecem nos filmes.», p. 57).

Uma das coisas de que não gostei neste livro tem precisamente a ver com esta perspectiva caricatural que corrói a densidade das personagens, reduzindo-as a tipos previsíveis e pouco permeáveis à evolução psicológica.
Mas quando discutimos um texto escrito recentemente também é um pouco o nosso tempo e quem nós somos nele que estamos a interrogar. E às vezes identificamos mais rapidamente e gostamos menos daqueles traços que reconhecemos e nos caracterizam a nós. Durante a reunião, tivemos de recordar o excesso das imagens televisivas da morte do jogador Miklos Fehér (e até da princesa Diana) e o exorcismo de emoções como o medo da morte e da aleatoriedade da vida que esse excesso acabou por ajudar a expressar.

Neste livro, o luto da comunidade do Texas pelos alunos mortos é assim abordado:
«Dos dois lados da rua há pessoas encostadas às portadas das suas portas a sentirem-se destroçadas. Aquela tal Leona [...] já estava destroçada na semana passada, porque Penney lhe tinha entregue uns cortinados com a cor errada.» (p. 20)

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Coisas de que gostámos

A caracterização da relação do narrador com a mãe (e das relações familiares em geral) escapa um pouco a este esquematismo sarcástico:

«[A minha mãe] deixa-me com um beijo e depois avança [...], arrastando a minha alma pelo pó que deixa atrás de si. Não me perguntem como é que as leis da natureza explicam isto. Vemos veados e ursos polares na televisão, e sabemos que os sentimentos deles pelos que amam não alternam entre raiva e tristeza.» (p. 97)

E muita gente referiu a imagem recorrente de uma «psico-faca» invisível que quem nos ama vai espetando sempre mais fundo nas nossas costas, a pretexto do amor que nos dedica e através do qual nos quer prender e controlar.

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Jogos de causalidade

Ao contrário de Elephant de Gus Van Sant, em Vernon Little a intriga desenvolve-se a seguir ao massacre na escola.
Pareceu-me muito interessante a opção de colocar num dos últimos capítulos a reconstituição em flashback da memória desse acontecimento, quando a personagem principal já está a ser julgada por alegadamente ter participado nesse crime que na narrativa acaba por se tornar apenas mais um elemento que ajuda a traçar o retrato de uma comunidade.
Para mim, um dos momentos mais conseguidos do livro é este:

«Nos momentos difíceis, a nossa mente impregna-nos os sentidos de gelo. Não para adormecer o cérebro, mas para adormecer a parte dele que aprendeu a ter expectativas. Aprendi isto no momento em que ouvi os tiros. Os tiros têm um som normalíssimo. [...]
Olho para baixo, não para o pátio, onde dezasseis unidades de carne já perderam a alma. A carne vazia zumbe como se estivesse cheia de abelhas.»(p. 242).

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Quinta-feira, Janeiro 29, 2004

Comunidade de Leitores

O próximo encontro da Comunidade de Leitores da Bibioteca Almeida Garrett vai realizar-se no dia 10 de Fevereiro (terça-feira), às 21h 30m. O livro em discussão será O General e o Juiz de Luís Sepúlveda, editado em Portugal pela Asa (trad. de Helena Pitta).

Quarta-feira, Janeiro 28, 2004

Estão todos curados, Cristina

«Mal pega na caneta, logo um humor de desesperado se apossa dele. Tudo lhe parece perdido, jorra um fluxo de palavras no seio do qual cada frase tem por único objectivo fazer esquecer a precedente.»

«Ele revela-nos então de onde provêm os seus preferidos. Da loucura e de mais lado nenhum. São personagens que passaram pela loucura e é por isso que conservam uma superficialidade tão pungente, tão completamente inumana, imperturbável. Se quisermos resumir o que a um tempo têm de divertido e de terrível, podemos dizer: estão todos curados.»

«Robert Walser» por Walter Benjamin, texto incluído como introdução a Gata Borralheira, Branca de Neve, A Bela Adormecida, &etc

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Ouvido na rua

... eram 22 espelhos.

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Segunda-feira, Janeiro 26, 2004

Cartas mortas

Segundo um documentário que vi há algum tempo, a lei australiana define que todas as cartas ou encomendas sem destinatário ou com endereço insuficiente sejam abertas e lidas pelos funcionários de um departamento dos correios chamado Dead Letter Department.
Estes funcionários devem orientar a sua leitura para a pesquisa de qualquer informação que permita que as mensagens cheguem ao seu destino. Mas isso não os impede de ficarem com muitas histórias para contar. Por exemplo, histórias sobre os textos das cartas a Deus e entidades superiores (geralmente queixas e pedidos) ou aos mortos (coisas que ficaram por dizer), sobre os desabafos de pessoas sem ninguém a quem escrever. E ainda a respeito de destinatários misteriosos e fugazes, como «a senhora vestida de cinzento que estava sentada ao fundo da terceira carruagem do comboio das 17.30». E até acerca de conteúdos inesperados, como animais de estimação mortos e enviados pelo correio para o nada.
E depois também há cartas de amor, um grande número de cartas de amor, e uma funcionária que as passa pela trituradora de papel para as usar como adubo nos seus canteiros de rosas.

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Domingo, Janeiro 25, 2004

Informações imprescindíveis (para quem for raptado por extraterrestres ou decida passar férias no espaço)

Não é possível escrever com canetas de tinta permanente no espaço: a variação de pressão espalha pelo ar a tinta em gotículas.
Levar uma esferográfica também não servirá de nada: a ausência de gravidade impede que a tinta destas flua da carga para a ponta.
No espaço, consegue-se escrever a lápis, mas se porventura o bico se partir há o risco de se perder pela nave, podendo provocar curtos-circuitos caso se infiltre em instrumentos eléctricos. Além disso, é possível que as pequenas poeiras da grafite se incendeiem instantaneamente em partes mais aquecidas da cabine.
Existem à venda umas canetas espaciais que não ardem e funcionam sem gravidade ou no vácuo, debaixo de água, tanto no calor como no frio. Chamam-se Fisher Space Pens, e interessa-me descobrir se resultam sempre, nomeadamente em casos graves de bloqueio criativo.

(Informações retiradas do artigo «A caneta espacial e o lápis» de Nuno Crato, in Única de 17 de Janeiro de 2004)

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Sábado, Janeiro 24, 2004

Inventários

Desde que coloquei aqui no blogue a citação de Gérard Castello-Lopes (20 de Janeiro) que ando às voltas com o verbo «to shoot».
No OED Online (coloco link, mas o acesso não é gratuito), a entrada que lhe diz respeito exige 36 páginas em papel para ser impressa!
Lá aparecem as acepções relacionadas com imagem (fotografia, cinema) de que G. Castello-Lopes fala. Mas, acima de tudo, é espantoso verificar como «to shoot» abre na frase outros campos e ligações de sentido inesperado.
Há mais coisas no mundo que disparam ou são disparadas do que poderíamos imaginar.

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Coisas que que se movem velozmente

Sim, as imagens disparam ou são disparadas, mas também a manhã, os relâmpagos, a luz (a ser emitida), meteoros ou estrelas cadentes, pensamentos, barcos, pessoas que partem ou se precipitam, alguns fluidos (a água, as lágrimas, o sangue) podem ser sujeitos de movimento rápido ou súbito para «to shoot».
Este verbo também aceita a dor, quando ela faz o corpo latejar. E os preços, as crianças, os edifícios em construção, os cristais que se formam nalgumas soluções químicas, as plantas, os cogumelos multiplicantes e o amor, no contexto de algo que cresce ou rebenta.
Actos como lançar, atirar, despejar, esvaziar, enfiar.
Complementos como setas, balas, olhares, palavras, sons, perguntas, veneno, fios para uma teia de aranha.
Ou chutar, injectar, marcar: golos, cestos, droga.
Antes de pensar nisso, a nossa vã filosofia não podia adivinhar como tudo se relacionava.

«Every day in fine weather..do I see those spiders shooting out their webs [...] Those filmy threads, when first shot, might be entangled in the rising dew.»
G. White, 1775

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Quinta-feira, Janeiro 22, 2004

Robert Walser à Janela

«Pedi-lhe que se contentasse com menos, só desta vez. Lá fora esperava-me um carro que me levou dali, e assim fui e ainda hoje vou.»

de «O Jantar» (trad. de José Vieira Mendes)

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Quarta-feira, Janeiro 21, 2004

O espectador feito espectáculo?

Lembro-me de ter lido algures que os sonhos dos cegos têm conteúdos visuais. Ontem senti-me um pouco como um cego a ter um sonho. Branca de Neve, de João César Monteiro, é uma máquina desencadeadora de imagens que não somos capazes de ver fisicamente. Uma parte deste filme somos nós que projectamos a partir de dentro quando nos confrontamos com os diálogos e a banda sonora. Acho que (também) é a isso que se refere César Monteiro quando diz que aqui o espectador se faz espectáculo.

A Cristina (post de 21 de Janeiro) diz coisas muito interessantes sobre estes diálogos em que as personagens se debatem com algumas questões importantes: o que é que é jogo?, o que é que é história/fantasia?, o que é que é vida/real? (Ontem percebi que devia ler Robert Walser.)
Mas há mais perguntas. Por exemplo, o que é o cinema? E de onde vêm as imagens?

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Comunidade de Leitores

O próximo encontro da Comunidade de Leitores da Bibioteca Almeida Garrett vai realizar-se no dia 27 de Janeiro (terça-feira), às 21h 30m. O livro em discussão será Vernon Little de DBC Pierre, Booker Prize 2003, editado em Portugal pela Gradiva (trad. de Maria do Carmo Figueira).
A entrada é livre e todos são bem-vindos.

Terça-feira, Janeiro 20, 2004

Fotografia e cinema

«A fotografia é qualquer coisa que tem a ver com a morte. O arresto de um movimento, do voar de uma ave, do sorriso de uma mulher têm a ver com o estar. O cinema tem a ver com o ser. É possível, através do cinema, determinar o voo, o sorriso, qualquer coisa com movimento e vida. Não é com certeza por acaso que em inglês fotografar se diz to shoot [disparar].»

Gérard Castello-Lopes
in «Olhar o mundo como se fosse pela primeira vez», entrevista de Paula Lobo, DN de 16 de Janeiro

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Palavras andantes

Parece-me que vai haver um motivo para folhear o suplemento Fugas do Público ao sábado com mais atenção: uma nova secção que, na senda do título de um livro de Eduardo Galeano, se intitula Palavras Andantes, e se define como «um espaço dedicado às obras que, de alguma forma, falam sobre viagens. Podem ser memórias, impressões, guias ou simples relatos. Importa que falem de terras, próximas ou longínquas, que contenham um desejo inelutável de escrever os lugares».

Segunda-feira, Janeiro 19, 2004

A palavra segundo Maria Filomena Molder

«O pensamento dá-se bem com a palavra. Não me encontro entre aqueles para quem as palavras não chegam e, em contrapartida, estão convencidos de que há outras coisas que chegam. A palavra nasce na nossa boca, um dos lugares íntimos do nosso corpo, e, ao mesmo tempo, solta-se, expandindo-se, criando correntes de energia, e, como se não bastasse, é imediatamente um esforço compreensivo e expressivo.»

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As palavras, a arte, a escrita e as coisas

«Quer dizer, a palavra não se mistura com aquilo de que fala, as palavras não são coisas. As artes passam adiante dessa separação entre o que há e o nosso dizer, há um elemento nelas que resiste definitivamente ao poder do logos (o que também sucede na poesia, mas com contornos únicos: a palavra resiste à palavra, e aí a música faz uma das suas aparições), que é o poder de irem ter directamente com as coisas, de se colocarem ao lado delas. Não sendo um prolongamento do corpo, as artes fazem parte do reino dos corpos [...]. A escrita, em parte, também conhece estas determinações, daí a relação com as artes, mas há uma parte da escrita que não pertence ao espaço, que procede do som e do espírito da voz.»

Citações retiradas de «Um Brilho sem Vacilações», entrevista de Helena Vasconcelos, Mil Folhas de 17 de Janeiro

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Domingo, Janeiro 18, 2004

In the cut

Jane Campion diz que In the Cut é um filme sobre o medo e o amor, porque estes são dois sentimentos que se tocam. O amor põe-nos em perigo, o amor pode ser a história de alguém que está a ser roubado e que sente que arrisca a vida. Interrogamo-nos se o outro não será um criminoso ou um assassino. Perguntamo-nos se nos amará até morrermos. Mas, de vez em quando, acontece que as histórias se suspendem. E é aí que passamos de facto a viver.
No fim deste filme há realmente uma história que acaba.

«a história, tal como todas as histórias, foi morta quando ela o beijou»
Dylan Thomas

de «Uma Visão do Mar», in Uma Visão do Mar e Outras Histórias, trad. de Diana Almeida, Relógio D’Água, p. 16

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Emily listens to your problems

Leio nesta entrevista, que a aparência de Meg Ryan em In the Cut se inspira na desta personagem.
«Emily listens to your problems (and the problem is you)»

João César Monteiro

Graças ao Ciclo João César Monteiro, a decorrer aqui no Porto no cinema Nun’Álvares, pude ver dois filmes lindíssimos nestes últimos dias: À Flor do Mar e Silvestre.
Já não era a primeira vez que via À Flor do Mar, e foi com Silvestre que tive uma enorme surpresa. Para além de visualmente belíssimo, este filme tem excelentes interpretações de Luís Miguel Cintra, Maria de Medeiros, Jorge Silva Melo e Teresa Madruga. E julgo que só teríamos a ganhar se o estudássemos na escola, acompanhado da leitura e discussão dos dois contos tradicionais portugueses em que João César Monteiro e Maria Velho da Costa se inspiraram para escrever o argumento e os diálogos: "A Donzela que Vai à Guerra" e "A Mão do Defunto".
Também é para reflectir sobre a nossa cultura que a escola serve, ouso dizer. Se não formos nós a reflectir sobre a nossa cultura, quem o fará?

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As consequências da luz

Em À Flor do Mar, três mulheres acolhem um náufrago que não sabem ao certo se é um pirata ou um assassino.
São férias de Verão, o filme é cheio de luz, mas esta, de tão forte, entenebrece os corpos que ilumina, engendra-lhes sombras. E neste filme as sombras interagem mais do que os corpos.
Os corpos, tantas vezes de costas para a câmara, a perscrutar o tempo nos espelhos ou na linha do horizonte, são como barcos ancorados ao passado, e não percebem que o futuro pode ter conseguido infiltrar-se nas sombras que eles próprios projectam.
No fim, na escuridão, à meia-noite, as luzes acendem-se quando o barco do náufrago passa em frente à casa e iça as velas como sinal de que tudo corre bem na partida. Distinguimos ainda os vultos escuros das mulheres sobre a luz, a dizerem adeus.

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Uma barata no copo

«Será necessário acrescentar que um texto de Ponge ou de Joyce, um excerto de Mozart, uma careta de criança, uma sombra na parede, um grito de actor, um pedaço de noite, uma barata no copo, um fotograma negro, um raccord imperfeito, um discurso improvisado no terreno do touro são no César elementos insubstituíveis de uma poética tão minuciosamente elaborada que só a mise-en-pratique ideológica, a integração visceral, a obsessiva experimentação alquímica dos materiais (estéticos) podem determinar?»
Vítor Silva Tavares - prefácio a Morituri Te Salutant, & ETC, 1974

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Sábado, Janeiro 17, 2004

Usamos as árvores

Há mais de 30 mil árvores no Porto, será criado um bilhete de identidade com ficha clínica para cada uma, e 182 delas serão abatidas, leio no Público de quinta.
«Mas é importante que as pessoas percebam que estas árvores estavam doentes e eram uma ameaça. As árvores são como as pessoas, também têm um ciclo de vida e o abate é sempre a última alternativa que temos», afirma Rui Sá.
Fica claro na notícia que este abate é motivado por questões de segurança (de pessoas e bens), mas a comparação do ciclo de vida das árvores com a dos seres humanos só mostra que é tudo mais complicado do que isso. Indignada, uma amiga minha, bióloga, diz que estamos a falar de uma verdadeira eutanásia. Transformamos as árvores em entradas de bases de dados e não as deixamos viver nem morrer em paz.

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Conversas à hora de almoço

- Sim, as árvores, como as pessoas e todos os restantes seres vivos, têm um ciclo de vida e, portanto, nascem, crescem, vivem, reproduzem-se (teoricamente, porque na prática, nem por isso), e morrem.

- Reproduzem-se teoricamente?? Que é que queres dizer com «teoricamente»?

- Sim, não há dúvida de que todas nascem, crescem, vivem, morrem (todos os seres vivos morrem, se não morressem ou eram Deus ou mineral), mas se não encontram com quem partilhar os genes não cumprem o ciclo de vida!

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As árvores gostam umas das outras

- ... Desculpa lá a minha ignorância, mas as árvores têm sexo?
Se sim, seria necessário que, por exemplo, um eucalipto fêmea vivesse ao lado de um eucalipto macho e gostassem um do outro para se reproduzirem?

- Sim, as árvores têm sexo. A maioria delas são monóicas, ou seja têm órgãos masculinos e femininos que podem estar ou não dentro da mesma flor.
Embora menos vulgares, também há árvores dióicas, aquelas que em cada pé só têm um sexo. Nessas espécies há árvores masculinas e árvores femininas.
Dou-te exemplos: eucaliptos, oliveiras, macieiras, pereiras, laranjeiras, etc, são monóicos, com flores hermafroditas (perfeitamente auto-suficientes); castanheiros e pinheiros são monóicos, com flores unissexuais. Mas as ginkgo e as nespereiras são dióicas, ou seja, sim, procuram avidamente um parceiro.
E embora não conste que rejeitem parceiros, as árvores têm mecanismos que impedem que se autofecundem, porque o aumento de diversidade é favorável e os cruzamentos entre indivíduos diferentes aumenta essa diversidade. Em última análise, exceptuando as bactérias, fala-se de sexo em todos os seres vivos. E, como dizia um escritor famoso cujo nome agora não recordo, uma flor não é mais que uma folha louca de amor.

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Quarta-feira, Janeiro 14, 2004

and felt the torrent come

Ainda não passei pela Galeria 111 para ver a exposição da Paula Rego, mas já estive a tentar recordar o livro de Charlotte Brontë em que se inspira.
Para já, fiquei com esta citação:

«My eyes were covered and closed: eddying darkness seemed to swim round me, and reflection came in as black and confused a flow. Self-abandoned, relaxed, and effortless, I seemed to have laid me down in the dried-up bed of a great river; I heard a flood loosened in remote mountains, and felt the torrent come [...]. [...] It was near: and as I had lifted no petition to Heaven to avert it - as I had neither joined my hands, nor bent my knees, nor moved my lips - it came: in full heavy swing the torrent poured over me. The whole consciousness of my life lorn, my love lost, my hope quenched, my faith death-struck, swayed full and mighty above me in one sullen mass. That bitter hour cannot be described: in truth, 'the waters came into my soul; I sank in deep mire: I felt no standing; I came into deep waters; the floods overflowed me.'»

Jane Eyre, capt. 26

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Recomendação a mim mesma

Quando estava a ler Tchékhov, entusiasmei-me e comprei um volume de novelas de Tolstoy com 686 páginas, em letra que depois começou a parecer-me muito, mas mesmo muito, pequenininha. Escrevo este post para me lembrar que seria interessante começar a lê-lo.

Terça-feira, Janeiro 13, 2004

Leituras

A Cristina também leu Antigos Mestres de Thomas Bernhard (post de 12 de Janeiro). Gostou muito, particularmente do fim do livro: «toda essa conversa final é sublime e depois aquela última frase... precisamente aquela, que maravilha».

Guarda-chuvas

Mesmo para quem não tira fotografias, um lugar em que se acumulam guarda-chuvas é quase sempre fotogénico.
Isso tem a ver com os diferentes tamanhos, as cores e os padrões dos tecidos das copas, com a forma como os guarda-chuvas estão colocados, abandonados ou em repouso, e talvez também com a imagem fantasmática dos seus proprietários temporariamente ausentes, que os escolheram ou aceitaram.
No entanto, para além disso, nestas composições involuntárias há muitas vezes guarda-chuvas que já não abrigam mas as pessoas não deitam fora. Cada um deles foi mutilado por uma imperfeição específica. E para cada um deles há geralmente uma história, breve ou longa, que antecede e culmina nessa mutilação. Mesmo para quem não tira fotografias, as melhores imagens são as que guardam essas histórias invisíveis.

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Domingo, Janeiro 11, 2004

A Metáfora do Coração

«No seu ser carnal o coração tem espaços ocos, habitações abertas, está dividido para permitir algo que à consciência humana não parece como próprio de ser centro.»

María Zambrano, Clareiras do Bosque, trad. de José Bento, Relógio d'Água, p. 67

Pois... mas isso não facilita as coisas

«É possível ter uma emoção de alegria que é acompanhada por uma certa tristeza - tal como é possível as pessoas chorarem de alegria. Emoções de sinais contrários podem ocorrer em paralelo com sentimentos também eles de sinais contrários.»

António Damásio em entrevista a José Prata (Os Meus Livros, n.º 17)

E que história era aquela de o coração ser um caçador solitário?

Na mesma entrevista, António Damásio distingue emoção (a «reacção automática provocada por um objecto ou situação apreciados pelo cérebro») e sentimento (a «fase seguinte», a «representação mental daquilo que está a acontecer ao nível da emoção»).
Cá para mim, alguém devia aconselhar o coração a deixar-se de slogans e literaturas, e passar mas é a ter cuidado com as más companhias dos cérebros sem grandes competências interpretativas e representacionais.

Sábado, Janeiro 10, 2004

Don DeLillo

Vale a pena recordar o texto que ele escreveu a propósito do 11 de Setembro de 2001: In the Ruins of the Future.

«Many things are over. The narrative ends in the rubble and it is left to us to create the counternarrative.»

Viagens alternativas (para Inferno, Céu ou Purgatório)

Eu sei que os subsídios são um assunto sério, mas é hilariante a troca de correspondência entre Joaquim Castro Caldas e Pedro Tamen recuperada no Bomba Inteligente (post de 9 de Janeiro).

Pormenor fútil: já me tinham contado esta história há anos, mas só agora é que fiquei a conhecer as cartas. Estou com a estranha e eufórica sensação de que pelo menos um dos círculos iniciados na minha vida se completou. Obrigada, Charlotte.

Sexta-feira, Janeiro 09, 2004

Personagens imperdoáveis

Mas no romance de Mário de Carvalho há um «espírito renitente», «como nas sessões de mesa pé-de-galo», «que não abandona a cena» e se manifesta assim a propósito das mulheres:

«Não aceito neste campo a tese bernsteineana de que o movimento é tudo e o objectivo final, nada. E não me venham convencer das delícias de um jogo, quando eu não sou jogador, nem das emoções da conquista, quando eu não sou um conquistador, nem da volúpia da predação, quando eu não sou um predador. Quero lá saber que uma fera falhe setenta e cinco por cento das presas. Eu não tenho quatro patas nem devoro de cru. A minha paciência é de vidro estaladiço, assim a natureza me dotou, não com o estômago férreo dos carnívoros.» (p. 89)

Quinta-feira, Janeiro 08, 2004

Comunidade de Leitores

O próximo encontro da Comunidade de Leitores da Bibioteca Almeida Garrett vai realizar-se no dia 14 de Janeiro (quarta-feira), à hora do costume (21h 30m). O livro em discussão será Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina de Mário de Carvalho.

Com muita pena minha, não vou poder estar presente na próxima quarta: valorizo enormemente estas reuniões (de que sou frequentadora habitual), e não é segredo para ninguém que Mário de Carvalho é um escritor que aprecio. Além disso, tal como muitas outras pessoas, acho que este romance é excelente e irá com certeza proporcionar um óptimo debate.

Esta Comunidade reúne-se de 15 em 15 dias na Biblioteca Almeida Garrett para debater um livro diferente. Quem quiser participar só precisa de aparecer.

Quarta-feira, Janeiro 07, 2004

O tinteiro de laboratório

Sempre gostei de ler ou ouvir a expressão «ficar no tinteiro» aplicada a coisas pensadas que não chegaram a ser ditas, escritas ou feitas. Divirto-me a imaginar a tinta como uma variante pouco conhecida de formol. Visualizo tudo aquilo que não pudemos ou não quisemos exprimir/concretizar a acumular-se algures num tinteiro demoníaco, pronto a engendrar uma espécie biológica rara, digna de preservação e estudo. Mas isso é um delírio, já sei: que mais coisas para além de tinta pode um tinteiro realmente guardar?

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Resíduos

«[...] até porque hoje não fica nada no tinteiro senão o senso comum, tudo o mais de lá sai, tudo.»

Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett, capt. XXXIX, p. 136

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Terça-feira, Janeiro 06, 2004

A minha primeira colecção

Gosto daquele som do papel a ser rasgado quando se senta ao meu lado numa esplanada alguém que leva um livro com páginas que têm de ser abertas com as faquinhas que também usamos para abrir cartas. Estas faquinhas chamam-se «abre-cartas», não é?, mesmo quando estamos a abrir páginas...
É verdade que cada vez é mais difícil encontrar livros assim, mas a Asa tem uma colecção de poesia a que veementemente incito toda a gente a recorrer em caso de permanência numa esplanada com vista para o rio.
Eu, enfim, não sou uma coleccionadora, mas, se algum dia cometer o erro de achar que posso mudar, a minha primeira colecção frustrada será de abre-cartas, nem que seja só para poder (re)ler palavras como estas:

«as imagens só podiam ser taciturnas depois, na penumbra.
um corpo que se apaga não podia abandonar-se ao sossego tactilmente
mas tem de ficar algo mais do que um sublime relâmpago
exaltando nas pupilas as expressões mais intensas,
ou o seu próprio eco plano nas águas de a luz se despedir.»

Vasco Graça Moura
(última estrofe de «a noite americana», in Imitação das Artes, Edições Asa, Colecção Pequeno Formato)

Segunda-feira, Janeiro 05, 2004

O peso das formas

«Je n’ai pas fini de connaître la vie! Je vais encore être oiseau et moule noire sur la grève et pissenlit! Je ne suis pas déchargé du poids des formes. J’aspire tellement au vide!»

(in «La dernière leçon de musique de Tch’eng Lien», La Leçon de Musique, Pascal Quignard, Hachette, p. 106)

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O elemento mais real da pintura

No Por Outro Lado de Sábado, Jorge Martins foi um entrevistado difícil, com as mãos a dizerem um pouco mais do que as palavras.
Uma das partes mais interessantes do programa talvez tenha sido aquela em que se falou da cor como sendo o elemento mais real e mais difícil da pintura.
Mais importante do que as formas para Jorge Martins (vd. entrevista de Maria João Avillez), a cor é o meio pelo qual se procura o real através da pintura.

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A viagem visível

Mas também gostei de ouvir falar da necessidade de uma actividade «arqueológica» para compreender o trabalho deste artista.
Num texto de 1989 (in Abstract & Tartarugas, Relógio D’Água) sobre uma exposição de Jorge Martins, João Miguel Fernandes Jorge escreveu:

«Vemos o que aparece. Perceptíveis ocres, amarelos, azuis verdes. Vemos o que tem existência face ao anterior existir desta pintura, mas não vimos o seu viver absoluto. Não vimos o que se esconde sob a exactidão histórica e teórica, pois há verdades na natureza desta pintura que não estão no corpo revelado e no entanto assistem à viagem visível destas representações.» (p. 12)

«[Uma pintura] Passa-se sempre deste lado, seguindo a orientação das cores, mas a mais das vezes, a razão do seu real - o seu próprio real - não se situa no lado visível da tela.» (p. 11)

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Domingo, Janeiro 04, 2004

Segundas-feiras menos insuportáveis

A partir de amanhã, a série Sete Palmos de Terra (Six Feet Under) vai voltar à televisão portuguesa, às segundas, agora às 22 horas, na Dois.
Era fã e espero continuar a ser.
(Nota melancólica: tive de reescrever este post. Tinha escrito «voltar à RTP 2»...)

Perturbação

Mais Thomas Bernhard, desta vez de Perturbação (Relógio d’Água, trad. Leopoldina Almeida), uma obra muito mais «negra» do que Antigos Mestres, e, por acaso, o primeiro livro dele que li, há mais de dez anos (!).
Duas citações paradigmáticas:

«Dia após dia construía-me a mim próprio por inteiro para logo me destruir inteiramente.» (p. 51)

«Trabalhava dia e noite, escrevia e destruía o que havia escrito, escrevia, escrevia sempre e de novo destruía, e assim se ia aproximando do seu objectivo.» (p. 53)

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Sábado, Janeiro 03, 2004

Thomas Bernhard

De 2003 para 2004 trouxe o livro de Thomas Bernhard que estava a ler: Antigos Mestres: comédia, Assírio & Alvim, trad. de José A. Palma Caetano.
(Engraçado como em mais de três meses de blogue ainda não tinha falado deste escritor.)

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Escritores perigosos

Eu acho que Thomas Bernhard é um dos escritores mais perigosos que já li, e isso tem muito a ver com o seu método de explorar tudo aquilo de que fala até um limite dificilmente suportável.
Neste livro, uma das personagens diz:

«Porque eu sempre observei tudo totalmente, ouvi sempre tudo totalmente, li sempre tudo totalmente, ou pelo menos procurei sempre ouvir e ler e observar tudo totalmente, acabei por ficar horrorizado com tudo, com todas as artes plásticas e com toda a música e com toda a literatura, disse ele ontem. Do mesmo modo que, com este método, acabei por ficar horrorizado com todo o mundo, com tudo simplesmente.» (p. 79)

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Antigos Mestres: comédia

Mas um dos traços que mais me interessa na sua obra tem a ver com o facto de as personagens continuarem a fazer tentativas de sobrevivência, mesmo depois de atingirem destrutivamente este limite de horror em relação a tudo.
Neste sentido, o subtítulo desta obra revela-se extremamente significativo, não só porque o que é terrível ou trágico tem sempre uma risibilidade inerente, ou porque o livro tem «final feliz» (pouco tradicional), mas sobretudo porque um dos traços distintivos da comédia tem precisamente a ver com esta capacidade de assimilação do absurdo, do grotesco, do trágico e da morte para afirmar a vida.

Em Thomas Bernhard, a vida de facto alimenta-se do absurdo, do grotesco, do trágico e da morte. E, talvez surpreendentemente, neste livro é muito importante a noção de que somos e estamos cercados por trevas opacas, mas estas têm vazios e terras de ninguém que, de vez em quando e fugazmente, são ocupados pela luz (ou pela pessoa que amamos), como acontece às nuvens escuras, mesmo durante as tempestades.

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Estratégias de sobrevivência

Quase que se podia fazer um blogue sobre as estratégias de sobrevivência exploradas neste livro (nomeadamente aquelas relacionadas com a mentira, a hipocrisia, a dissimulação, o engano de si próprio e a arte), mas hoje apetece-me citar esta frase:

«No Inverno, penso que a Primavera me vai salvar e, no Verão, penso que será o Outono, e, no Outono, o Inverno, e é sempre o mesmo, vou esperando de uma estação para a outra.» (p. 222)

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