seta despedida
blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk
Domingo, Novembro 30, 2003
O céu é azul porque as moléculas da atmosfera emitem luz azul mais depressa do que emitem luz vermelha, laranja, amarela e verde.
Sábado, Novembro 29, 2003
O pedaço de tecido azul
Fico fascinada quando um texto constrói imagens tão nítidas:
«Havia em casa uma saleta com três nomes: pequena, escura e de passagem. Na saleta estava um armário velho com medicamentos, pólvora e apetrechos de caça. Daqui podia-se subir para o primeiro andar por uma escada de madeira estreitinha, sempre cheia de gatos a dormirem. Havia duas portas: uma dava para o quarto das crianças, a outra para a sala de estar. Quando Nikítin entrou na saleta para subir a escada, a porta do quarto das crianças abriu-se e bateu com tanta força que a escada e o armário tremeram; de vestido escuro, com um pedaço de tecido azul na mão, entrou Maniússia a correr e, sem reparar em Nikítin, meteu para a escada.»
in «O Professor de Letras», p. 163 do volume II de Contos de Tchékhov, Relógio D’Água
«Havia em casa uma saleta com três nomes: pequena, escura e de passagem. Na saleta estava um armário velho com medicamentos, pólvora e apetrechos de caça. Daqui podia-se subir para o primeiro andar por uma escada de madeira estreitinha, sempre cheia de gatos a dormirem. Havia duas portas: uma dava para o quarto das crianças, a outra para a sala de estar. Quando Nikítin entrou na saleta para subir a escada, a porta do quarto das crianças abriu-se e bateu com tanta força que a escada e o armário tremeram; de vestido escuro, com um pedaço de tecido azul na mão, entrou Maniússia a correr e, sem reparar em Nikítin, meteu para a escada.»
in «O Professor de Letras», p. 163 do volume II de Contos de Tchékhov, Relógio D’Água
Etiquetas: Tchékhov
De olhos bem fechados
Reflectindo sobre a fotografia em A Câmara Clara, Roland Barthes explora o conceito de «punctum» como um elemento pictórico casual que existe na imagem e, «como uma seta», vem trespassar-nos, «como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que dá a ver».
Neste parágrafo de Tchékhov há vários elementos que chamam a atenção: a exiguidade do espaço, a penumbra, a escada estreita em que os gatos dormem, a porta que se abre, o vestido escuro da personagem feminina. Mas, para mim, o pormenor mais intrigante tem a ver com esse pedaço de tecido azul que Maniússia segura.
Se este parágrafo se transformasse em fotografia seria provavelmente aí que residiria o seu «punctum».
E no entanto, no texto, o pedaço de tecido azul cria uma espécie de campo cego que nos faz suspeitar que há imagens que só conseguimos ver bem se fecharmos os olhos.
Neste parágrafo de Tchékhov há vários elementos que chamam a atenção: a exiguidade do espaço, a penumbra, a escada estreita em que os gatos dormem, a porta que se abre, o vestido escuro da personagem feminina. Mas, para mim, o pormenor mais intrigante tem a ver com esse pedaço de tecido azul que Maniússia segura.
Se este parágrafo se transformasse em fotografia seria provavelmente aí que residiria o seu «punctum».
E no entanto, no texto, o pedaço de tecido azul cria uma espécie de campo cego que nos faz suspeitar que há imagens que só conseguimos ver bem se fecharmos os olhos.
Etiquetas: Tchékhov
Viver não é relatável
«Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. [...] Entender é uma criação, meu único modo.»
in A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector (Francisco Alves Editora, p. 25)
in A Paixão Segundo G.H. de Clarice Lispector (Francisco Alves Editora, p. 25)
Provavelmente as palavras são demasiadas vezes tudo o que nos resta
Mas mesmo que o que as palavras me forneçam depois de lhes ter sacrificado a minha sinceridade não seja aquilo que vivi, acho que escolho ficar pelo menos com as palavras.
Quinta-feira, Novembro 27, 2003
Lá se foram os meus 15 minutos de fama
Reparo que deixei de receber dicas estilísticas e existenciais.
Minha alma feminina e volúvel entristece.
Mas para que é que as mulheres aprendem a ler e a escrever?
Ficam com a mania que podem ter blogues e opiniões, e depois temos de protegê-las delas mesmas!
Minha alma feminina e volúvel entristece.
Mas para que é que as mulheres aprendem a ler e a escrever?
Ficam com a mania que podem ter blogues e opiniões, e depois temos de protegê-las delas mesmas!
Muito obrigada pelos dias mais emocionantes da minha existência virtual
Se tivesse adivinhado, teria tentado escrever sobre temas como política portuguesa, futebol, ou os vossos blogues.
Ainda vou a tempo?
Deixam-me continuar na blogosfera se eu falar do que vocês quiserem?
Ainda vou a tempo?
Deixam-me continuar na blogosfera se eu falar do que vocês quiserem?
Quarta-feira, Novembro 26, 2003
Andará David Byrne a ler Daniel Faria?
«The man sticks his fingers inside his mouth, the words are stuck in there, he fishes them out, whispers and mumbles, statements and verse, curses and love songs for nobody else.»
«Ela sorveu-me o sangue, curou-me a boca, /Espetou-me um anzol na língua e puxou-me /As palavras.»
«Ela sorveu-me o sangue, curou-me a boca, /Espetou-me um anzol na língua e puxou-me /As palavras.»
Young Adam de David Mackenzie
A amante morta do escritor falhado que andava à deriva no nevoeiro dos canais da Escócia tinha-lhe oferecido um espelho que dizia
«Pensa em mim quando olhares para ti próprio».
«Pensa em mim quando olhares para ti próprio».
Terça-feira, Novembro 25, 2003
Solidariedade
De vez em quando lembro-me daquele lugar-comum segundo o qual os defeitos que mais criticamos nos outros são precisamente aqueles que partilhamos com eles.
Domingo, Novembro 23, 2003
Só para dizer
que uma das coisas que aprecio na escrita do blogue Bomba Inteligente tem a ver com a capacidade de não complicar, de ser simples mesmo quando está a falar de assuntos complexos e importantes.
Essa capacidade não é para todos. Geralmente, estamos tão ocupados a disfarçar o vazio que não conseguimos ler, cultivar e valorizar a simplicidade.
Essa capacidade não é para todos. Geralmente, estamos tão ocupados a disfarçar o vazio que não conseguimos ler, cultivar e valorizar a simplicidade.
This is just to say
Gostei do poema, Charlotte. É preciso e «lapidar» como todos os poemas deviam ser.
Gostei sobretudo do jogo de tempos entre as personagens envolvidas.
Os frutos são das matérias mais perecíveis da natureza. O sujeito da enunciação sabia que se não colhermos o fruto no momento em que o amarmos poderemos perdê-lo para sempre.
Tudo em nós e no mundo é tempo e mortalidade. Por si só, isso não é trágico. O verdadeiro problema está em conseguir aprender a viver com o tempo, e não contra ele.
Gostei sobretudo do jogo de tempos entre as personagens envolvidas.
Os frutos são das matérias mais perecíveis da natureza. O sujeito da enunciação sabia que se não colhermos o fruto no momento em que o amarmos poderemos perdê-lo para sempre.
Tudo em nós e no mundo é tempo e mortalidade. Por si só, isso não é trágico. O verdadeiro problema está em conseguir aprender a viver com o tempo, e não contra ele.
Sábado, Novembro 22, 2003
Também li e gostei muito
Já percebi que se vai tornar imprescindível para todos as pessoas que gostem de música e cinema.
Sexta-feira, Novembro 21, 2003
Se mergulharmos sem colocar pedras nos bolsos acabaremos por voltar à superfície
Reler um texto é uma coisa muito perigosa.
Principalmente se nos desfizemos e refizemos na sua superfície, as coisas que poderíamos dizer sobre ele são reais e não imaginadas.
Principalmente se nos desfizemos e refizemos na sua superfície, as coisas que poderíamos dizer sobre ele são reais e não imaginadas.
O corpo pode transformar-se numa concha vazia
«Ela é nessas alturas uma pessoazinha incolor, apagada, às vezes ausente, porque em certas ocasiões acontece-lhe despir o corpo, deixá-lo na cadeira, ou, melhor ainda, no maple que está habituado a coisas dessas, parte, vai para bem longe. [...] Porque uma palavra a arrastou para outra palavra, uma imagem para outra imagem, mais vivas e reais do que as presentes.»
«Seta Despedida», de Maria Judite de Carvalho, p. 20
«Seta Despedida», de Maria Judite de Carvalho, p. 20
Incompetência informática
Actualizarei a lista de links logo que consiga entender como inseri aqueles que já estão aqui ao lado.
Quinta-feira, Novembro 20, 2003
«Gratificante» foi a palavra que consegui arranjar
Quero agradecer a todos aqueles que têm visitado e feito amáveis referências a este blogue.
É muito gratificante vê-lo mencionado em blogues de escritores que leio, respeito e admiro, como o Francisco José Viegas e o Paulinho Assunção.
É muito gratificante vê-lo mencionado em blogues de escritores que leio, respeito e admiro, como o Francisco José Viegas e o Paulinho Assunção.
Quarta-feira, Novembro 19, 2003
Gerry
No filme de Gus Van Sant anterior a Elephant havia dois amigos a fazer uma caminhada em que se desviavam do caminho que supostamente deviam seguir e nunca mais conseguiam reencontrá-lo.
Foi um dos filmes mais impressionantes que vi este ano. Na altura duvidei bastante que conseguissse aguentar a desorientação até ao fim, mas depois de Elephant comecei a entendê-lo melhor.
Foi um dos filmes mais impressionantes que vi este ano. Na altura duvidei bastante que conseguissse aguentar a desorientação até ao fim, mas depois de Elephant comecei a entendê-lo melhor.
Montanhismo
Gerry não é um filme aconselhável a montanhistas, muito menos a pseudomontanhistas como eu.
Sempre que alguém me arrasta para a montanha acabo a pensar que vou sucumbir por desejo de caos e poluição.
Quando ainda estou a subir e já é tarde de mais para voltar atrás sozinha, uma das minhas fantasias mais recorrentes relaciona-se com uma chamada telefónica a requisitar um helicóptero de salvação.
Sempre que alguém me arrasta para a montanha acabo a pensar que vou sucumbir por desejo de caos e poluição.
Quando ainda estou a subir e já é tarde de mais para voltar atrás sozinha, uma das minhas fantasias mais recorrentes relaciona-se com uma chamada telefónica a requisitar um helicóptero de salvação.
Desejar o vazio
Gosto muito da imagem da mão invisível no texto de Goethe.
Há quem diga que é nos espaços vazios que se manifestam as formas que não têm forma e as imagens do invisível começam a revelar-se.
Simone Weil acreditava que era preciso desejar e aceitar o vazio; que era preciso deixar que o vazio acontecesse para que algo pudesse vir para o preencher.
Há quem diga que é nos espaços vazios que se manifestam as formas que não têm forma e as imagens do invisível começam a revelar-se.
Simone Weil acreditava que era preciso desejar e aceitar o vazio; que era preciso deixar que o vazio acontecesse para que algo pudesse vir para o preencher.
Terça-feira, Novembro 18, 2003
O jogo das nuvens
« [...] os montes reúnem à sua volta enormes massas de nuvens, fixam-nas sobre si como se de segundos cumes se tratasse, até que elas devido à acção das lutas internas entre forças eléctricas se abatem em forma de trovoadas, nevoeiro ou chuva [...]. Vi claramente vista uma dessas nuvens a ser desfeita: pairava sobre o mais elevado cume, iluminada pelo sol a pôr-se. Lentamente, lentamente, as pontas começaram a soltar-se, alguns flocos foram arrastados e atraídos mais para cima; estes desapareceram, e a pouco e pouco foi desaparecendo toda a massa da nuvem, fiada diante dos meus olhos por uma roca em mão invisível.»
Goethe, Viagem a Itália, 8 de Setembro de 1786
(trad. de João Barrento)
Goethe, Viagem a Itália, 8 de Setembro de 1786
(trad. de João Barrento)
Segunda-feira, Novembro 17, 2003
Às vezes é só silêncio
Ainda bem que não fui sozinha ver o Elephant de Gus Van Sant. Se não me tivessem chamado a atenção para o facto de o filme ter acabado, ainda agora estaria na sala, a olhar a tela, sem conseguir perscrutar o vazio.
Domingo, Novembro 16, 2003
Mario Merz
Leio no Expresso que Mario Merz morreu na Segunda-feira passada.
Lembro-me que quando visitei a exposição dele em Serralves, há quatro ou cinco anos, e vi os seus iglus de vidro e ramos de árvore, pensei que todas as casas deviam ser assim: abrigos transparentes e frágeis que pudéssemos construir com materiais encontrados no caminho e não tivéssemos pena de deixar para trás.
Lembro-me que quando visitei a exposição dele em Serralves, há quatro ou cinco anos, e vi os seus iglus de vidro e ramos de árvore, pensei que todas as casas deviam ser assim: abrigos transparentes e frágeis que pudéssemos construir com materiais encontrados no caminho e não tivéssemos pena de deixar para trás.
Sotaques
Tenho de admitir aqui que pertenço ao universo de leitores do Pedro Mexia desde o Duplo Império, e até já quase citei um poema dele neste blogue a propósito da peça de Botho Strauss que esteve no Teatro S. João.
Fico sensibilizada com a referência que me faz, e prometo falar da Maria Judite de Carvalho logo que a ocasião se proporcione.
Entretanto, aproveito apenas para explorar mais um bocadinho a questão dos sotaques, tema que, por vários motivos, me é particularmente caro.
Os sotaques regionais são entidades um pouco abstractas. Cada um de nós tem um sotaque individual que é determinado não só pelos lugares em que viveu, mas também por factores mais fugazes, como as pessoas que conheceu, a forma como pensa, o ritmo da sua respiração, aquilo que quer no momento em que fala...
Existem pronúncias que são apenas estratégicas, cumprem determinado fim; mas há outras em que se pode decifrar quase toda a história de uma pessoa e são essas as que acho mais interessantes.
Fico sensibilizada com a referência que me faz, e prometo falar da Maria Judite de Carvalho logo que a ocasião se proporcione.
Entretanto, aproveito apenas para explorar mais um bocadinho a questão dos sotaques, tema que, por vários motivos, me é particularmente caro.
Os sotaques regionais são entidades um pouco abstractas. Cada um de nós tem um sotaque individual que é determinado não só pelos lugares em que viveu, mas também por factores mais fugazes, como as pessoas que conheceu, a forma como pensa, o ritmo da sua respiração, aquilo que quer no momento em que fala...
Existem pronúncias que são apenas estratégicas, cumprem determinado fim; mas há outras em que se pode decifrar quase toda a história de uma pessoa e são essas as que acho mais interessantes.
Aviso
A todos aqueles que se têm queixado pelo facto de eu lhes roubar grande parte do tempo que tenho dedicado à leitura de Tchékhov, venho informar que terminei hoje o segundo volume de contos.
One more to go.
One more to go.
Sábado, Novembro 15, 2003
A Volta no Parafuso
Termina hoje a discussão sobre o livro de Henry James no blogue Leitura Partilhada.
E olhem que não é fácil discuti-lo!
Qualquer comentário parece ficar muito aquém daquilo que poderia ser dito sobre a obra se fosse possível chegar ao seu centro vazio onde moram quase todos os sentidos e imagens, mesmo os mais terríveis, aqueles em face dos quais nos descobrimos mais sós.
E olhem que não é fácil discuti-lo!
Qualquer comentário parece ficar muito aquém daquilo que poderia ser dito sobre a obra se fosse possível chegar ao seu centro vazio onde moram quase todos os sentidos e imagens, mesmo os mais terríveis, aqueles em face dos quais nos descobrimos mais sós.
Etiquetas: Livros
Um dos mais belos parágrafos finais que me lembro de alguma vez ter lido
«But he had already jerked straight round, stared, glared again, and seen but the quiet day. With the stroke of the loss I was so proud of he uttered the cry of a creature hurled over an abyss, and the grasp with which I recovered him might have been that of catching him in his fall. I caught him, yes, I held him--it may be imagined with what a passion; but at the end of a minute I began to feel what it truly was that I held. We were alone with the quiet day, and his little heart, dispossessed, had stopped.»
The Turn of the Screw, Henry James
«Mas ele já se voltara com uma violenta guinada, olhara, tornara a olhar, estupefacto, e vira apenas o dia plácido. Ao ser acometido pela perda de que eu tanto me orgulhava, emitiu o grito de uma criatura atirada para um abismo, e a força com que o agarrei podia ser a de alguém apanhando-o na queda. Apanhei-o, sim, agarrei-o, e bem se pode imaginar com que emoção!; mas ao fim de um minuto comecei a perceber o que era aquilo a que na verdade me agarrava. Estávamos sós ante o dia plácido, e o seu pequeno coração, desalojado, deixara de bater.»
Tradução de Margarida Vale do Gato, Relógio d’Água
The Turn of the Screw, Henry James
«Mas ele já se voltara com uma violenta guinada, olhara, tornara a olhar, estupefacto, e vira apenas o dia plácido. Ao ser acometido pela perda de que eu tanto me orgulhava, emitiu o grito de uma criatura atirada para um abismo, e a força com que o agarrei podia ser a de alguém apanhando-o na queda. Apanhei-o, sim, agarrei-o, e bem se pode imaginar com que emoção!; mas ao fim de um minuto comecei a perceber o que era aquilo a que na verdade me agarrava. Estávamos sós ante o dia plácido, e o seu pequeno coração, desalojado, deixara de bater.»
Tradução de Margarida Vale do Gato, Relógio d’Água
A exigência fragmentária
Destaco este passo da crónica do João Barrento, que me parece aqui tocar uma das essências do literário:
«Em L’écriture du désastre, Blanchot fala de uma 'exigência fragmentária' como qualquer coisa de intrínseco à própria escrita literária [...]. A exigência fragmentária é a de todo o escritor em devir (e não há outro, porque, diz Blanchot, no momento em que se chega a ser escritor, deixa-se de ser escritor)».
«Em L’écriture du désastre, Blanchot fala de uma 'exigência fragmentária' como qualquer coisa de intrínseco à própria escrita literária [...]. A exigência fragmentária é a de todo o escritor em devir (e não há outro, porque, diz Blanchot, no momento em que se chega a ser escritor, deixa-se de ser escritor)».
Frappé d’origine
No número de Outono 2003 da revista Ler, João Barrento publica uma interessante crónica sobre Pascal Quignard, um dos escritores vivos que mais aprecio.
Vale a pena ler este texto em que Barrento refere o princípio de silêncio que trabalha a escrita de Quignard, a sua intensidade de clarão e a densidade com que tacteia na obscuridade, o ímpeto predatório do seu texto relativamente às imagens e ao logos, a sua obsessão pelo perdido e pela origem, «como aquelas espécies que voltam sempre aos lugares originários para se reproduzirem».
Vale a pena ler este texto em que Barrento refere o princípio de silêncio que trabalha a escrita de Quignard, a sua intensidade de clarão e a densidade com que tacteia na obscuridade, o ímpeto predatório do seu texto relativamente às imagens e ao logos, a sua obsessão pelo perdido e pela origem, «como aquelas espécies que voltam sempre aos lugares originários para se reproduzirem».
Pessoas
Num destes dias tive o prazer de conhecer pessoalmente duas pessoas do blogue Janela Indiscreta.
Antes de isso acontecer, não estava 100% convencida que elas tivessem existência real ou que no nosso planeta ainda morassem pessoas assim.
Tive de passar a acreditar um bocadinho mais no mundo desde que as conheci.
Antes de isso acontecer, não estava 100% convencida que elas tivessem existência real ou que no nosso planeta ainda morassem pessoas assim.
Tive de passar a acreditar um bocadinho mais no mundo desde que as conheci.
Sexta-feira, Novembro 14, 2003
Parece que sim
Já te contei que comprei uma caixa de sílfides para decorar a minha árvore de Natal, e uma delas tem na mão um saco de estrelas?
Etiquetas: Natal
Quarta-feira, Novembro 12, 2003
Obrigada, meu Deus, por me teres feito falante nativa de português
Ontem, quando estava a pensar nos diversos significados e utilizações do termo «pena», tinha em mente especialmente alguns poemas do Renascimento e do período barroco.
No meu muito amado volume de lírica camoniana reencontrei uma canção (Canção III) que explora muitos dos temas que estão geralmente associados ao vocábulo e me fez agradecer aos céus a contingência de ter nascido em Portugal e por isso ser capaz de ler este texto esmagador na língua original.
No meu muito amado volume de lírica camoniana reencontrei uma canção (Canção III) que explora muitos dos temas que estão geralmente associados ao vocábulo e me fez agradecer aos céus a contingência de ter nascido em Portugal e por isso ser capaz de ler este texto esmagador na língua original.
Etiquetas: Camões
Todos os poemas são epitáfios
«Já a roxa manhã clara
do Oriente as portas vem abrindo,
dos montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
de sua alegre vista saudoso,
trás ela, pressuroso,
nos cavalos cansados do trabalho,
que respiram nas ervas fresco orvalho,
se estende, claro, alegre e luminoso.
Os pássaros, voando
de raminho em raminho modulando,
com ua suave e doce melodia
o claro dia estão manifestando.
[...]
A luz suave e leda
a meus olhos me mostra por quem mouro,
e os cabelos de ouro
não igual' aos que vi, mas arremeda:
esta é a luz que arreda
a negra escuridão do sentimento
ao doce pensamento;
o orvalho das flores delicadas
são nos meus olhos lágrimas cansadas,
que eu choro co prazer de meu tormento;
os pássaros que cantam
os meus espritos são, que a voz levantam,
manifestando o gesto peregrino
com tão divino som que o mundo espantam.»
A luz do amor, ou o orvalho das lágrimas a funcionar como lentes que permitem ver para além das aparências, parecem trazer um novo dia ou uma parcela de divino, mas é apenas temporariamente que incidem sobre a carne do homem perecível cuja escuridão e sombra são afinal o tempo que passa e obriga a canção a tornar-se memória.
«Canção de cisne, feita n'hora extrema:
na dura pedra fria
da memória te deixo, em companhia
do letreiro de minha sepultura;
que a sombra escura já me impede o dia.»
do Oriente as portas vem abrindo,
dos montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
de sua alegre vista saudoso,
trás ela, pressuroso,
nos cavalos cansados do trabalho,
que respiram nas ervas fresco orvalho,
se estende, claro, alegre e luminoso.
Os pássaros, voando
de raminho em raminho modulando,
com ua suave e doce melodia
o claro dia estão manifestando.
[...]
A luz suave e leda
a meus olhos me mostra por quem mouro,
e os cabelos de ouro
não igual' aos que vi, mas arremeda:
esta é a luz que arreda
a negra escuridão do sentimento
ao doce pensamento;
o orvalho das flores delicadas
são nos meus olhos lágrimas cansadas,
que eu choro co prazer de meu tormento;
os pássaros que cantam
os meus espritos são, que a voz levantam,
manifestando o gesto peregrino
com tão divino som que o mundo espantam.»
A luz do amor, ou o orvalho das lágrimas a funcionar como lentes que permitem ver para além das aparências, parecem trazer um novo dia ou uma parcela de divino, mas é apenas temporariamente que incidem sobre a carne do homem perecível cuja escuridão e sombra são afinal o tempo que passa e obriga a canção a tornar-se memória.
«Canção de cisne, feita n'hora extrema:
na dura pedra fria
da memória te deixo, em companhia
do letreiro de minha sepultura;
que a sombra escura já me impede o dia.»
Etiquetas: Camões
Terça-feira, Novembro 11, 2003
Materiais de escrita
Há anos, vi na Fnac uma agenda A5 carregadinha de imagens de materiais de escrita: tinteiros (vazios, cheios, transparentes, opacos, velhos, gastos, a brilhar...), penas, aparos, lápis de cor, paus de giz de todas as cores...
Não a comprei mas já pensei muitas vezes nela desde esse dia.
Aquilo com que escrevemos condiciona o que estamos a tentar dizer ou viver?
O que escrevemos reflecte os objectos a que recorremos para satisfazer as nossas aspirações comunicacionais?
Não a comprei mas já pensei muitas vezes nela desde esse dia.
Aquilo com que escrevemos condiciona o que estamos a tentar dizer ou viver?
O que escrevemos reflecte os objectos a que recorremos para satisfazer as nossas aspirações comunicacionais?
Materiais de escrita, de viagem ou de pensamento
Gosto de poemas em que perante a palavra «pena» temos de parar para decidir se o poeta se refere a emoção (sofrimento, compaixão), castigo (condenação), elemento de ave (instrumento de voo), ou objecto para escrever.
São estes poemas que nos ajudam a concluir que nas ocorrências desta palavra podem estar em jogo simultaneamente pelo menos estes quatro sentidos. No texto e na nossa vida.
São estes poemas que nos ajudam a concluir que nas ocorrências desta palavra podem estar em jogo simultaneamente pelo menos estes quatro sentidos. No texto e na nossa vida.
Etiquetas: Camões
Natalite
À medida que o dia N se aproxima, vou-me divertindo cada vez mais com o desespero que se sente a desenvolver-se no ar, as conversas de telemóvel cada vez mais cheias de pontos de interrogação e exclamação, as birras e/ou espectáculos musicais das crianças nas lojas de brinquedos, os pais de sorrisos de todas as cores que lêem histórias aos filhos, sobrinhos e a quem mais aparecer na secção infantil da Fnac, as crescentes filas para a caixa nalguns pontos de venda, os instintos competitivos da multidão.
Como pertenço aos Doentes Anónimos de Natalite Aguda, tenho de estar especialmente atenta a qualquer sinal de recaída da minha parte.
Desgraçadamente, uma das coisas de que mais gosto na Natal relaciona-se com o facto de os editores deste país se esmerarem na exploração do consumismo delirante que, mais do que caracteriza, identifica a época. E hoje já andei a rondar as livrarias em busca do novo livro do João Miguel Fernandes Jorge, enquanto uma parte de mim ansiava por comprar não só todas as outras novidades literárias que já chegaram mas (vergonha!) sobretudo aquelas que ainda estão para chegar.
Como pertenço aos Doentes Anónimos de Natalite Aguda, tenho de estar especialmente atenta a qualquer sinal de recaída da minha parte.
Desgraçadamente, uma das coisas de que mais gosto na Natal relaciona-se com o facto de os editores deste país se esmerarem na exploração do consumismo delirante que, mais do que caracteriza, identifica a época. E hoje já andei a rondar as livrarias em busca do novo livro do João Miguel Fernandes Jorge, enquanto uma parte de mim ansiava por comprar não só todas as outras novidades literárias que já chegaram mas (vergonha!) sobretudo aquelas que ainda estão para chegar.
Etiquetas: Natal
Domingo, Novembro 09, 2003
Outono no Campo Alegre
Hoje choveu, mas ontem esteve sol. Foi impossível não nos sentirmos personagens quando caminhámos sobre tapetes e tapetes de folhas secas.
Etiquetas: Porto
A verdade da ficção
Ontem vi a entrevista de Ana Sousa Dias ao Luís Sepúlveda. Gostei muito da parte em que, reflectindo sobre a relação ficção/realidade, o escritor fez questão de salientar que a sua grande preocupação é sempre não falsear a ficção.
A ficção pode conter mais verdade do que a própria realidade.
A ficção pode conter mais verdade do que a própria realidade.
Swimming Pool
O trailer deste filme foi com certeza feito para um filme completamente diferente daquele que vi, mais exactamente para um daqueles filmes americanos em que as imagens contam toda a história!
Swimming Pool, de François Ozon, é um tríler, não por causa dos crimes sugeridos ou cometidos, mas porque desencadeia um trabalho detectivesco da parte do espectador em face dos mecanismos da criação. As emoções fortes deste filme têm a ver com a possibilidade de descoberta ou aproximação relativamente à origem da inspiração e à forma como esta se metamorfoseia em palavras e imagens.
É muito bonita a imagem em que Sarah Morton (Charlotte Rampling) levanta a cobertura da piscina pela primeira vez e nos deixa entrever tudo o que germina, se move ou morre por baixo dessa superfície: folhas secas ou outros corpos em decomposição.
E por que escreve Sarah Morton?
Sarah Morton escreve por vingança e por desejo, escreve por dinheiro e porque precisa de se isolar; escreve para provar que não é quem as outras pessoas pensam.
Swimming Pool, de François Ozon, é um tríler, não por causa dos crimes sugeridos ou cometidos, mas porque desencadeia um trabalho detectivesco da parte do espectador em face dos mecanismos da criação. As emoções fortes deste filme têm a ver com a possibilidade de descoberta ou aproximação relativamente à origem da inspiração e à forma como esta se metamorfoseia em palavras e imagens.
É muito bonita a imagem em que Sarah Morton (Charlotte Rampling) levanta a cobertura da piscina pela primeira vez e nos deixa entrever tudo o que germina, se move ou morre por baixo dessa superfície: folhas secas ou outros corpos em decomposição.
E por que escreve Sarah Morton?
Sarah Morton escreve por vingança e por desejo, escreve por dinheiro e porque precisa de se isolar; escreve para provar que não é quem as outras pessoas pensam.
Etiquetas: Cinema
The dog who was a cat inside
A Casa da Animação, outro espaço que faz sentido na cidade do Porto, está a passar os filmes nomeados para o prémio Cartoon D’Or em 2002 e 2003.
São pequenas obras-primas que provam que a beleza ainda existe e pode ser concisa.
Em The dog who was a cat inside, de Siri Melchior, um cão que era um gato por dentro vive muitos conflitos interiores e é um bocadinho infeliz, mas depois conhece um gato que é um cão por dentro. A continuação da história fica a cargo da nossa imaginação...
São pequenas obras-primas que provam que a beleza ainda existe e pode ser concisa.
Em The dog who was a cat inside, de Siri Melchior, um cão que era um gato por dentro vive muitos conflitos interiores e é um bocadinho infeliz, mas depois conhece um gato que é um cão por dentro. A continuação da história fica a cargo da nossa imaginação...
Etiquetas: Gatos
Quinta-feira, Novembro 06, 2003
Segredo para levar o dia a bom termo
Acho que às vezes consigo levar o dia até ao fim só porque me lembro da chuva de folhas amarelas que cai de manhã debaixo das árvores junto à paragem de autocarros do Palácio de Cristal.
Dessa chuva de luz opaca e do diospireiro no jardim da Casa das Artes com um ninho vazio a espreitar através das folhas laranja que ainda restam na estrutura negra e minimal do tronco.
Dessa chuva de luz opaca e do diospireiro no jardim da Casa das Artes com um ninho vazio a espreitar através das folhas laranja que ainda restam na estrutura negra e minimal do tronco.
Etiquetas: Porto
O que nos prende ao mundo são as imagens
O Possidónio Cachapa escreve no blogue Prazer Inculto que anda a ler O Vagabundo do Dharma. Eu também gosto muito de alguns poemas desse livro preso às imagens do mundo mas tão marcado pelos desejos de ascensão e libertação.
«Ontem subi agarrando-me às lianas
O vento e a bruma incomodavam
No caminho estreito com a roupa era difícil penetrar
O musgo colava-se às sandálias e prendia-as»
«Ontem subi agarrando-me às lianas
O vento e a bruma incomodavam
No caminho estreito com a roupa era difícil penetrar
O musgo colava-se às sandálias e prendia-as»
Ser um fantasma
É um pouco como ler, não é? - A mesma sensação de conhecer pessoas, ambientes, situações, sem desempenhar nenhum papel especial além do de observador voluntário.»
As Horas, de Michael Cunningham
(p. 211)
As Horas, de Michael Cunningham
(p. 211)
A matéria de que os fantasmas são feitos
Já acabei de ler A Volta no Parafuso há algum tempo, mas um dos temas do livro continua a assombrar-me. Tem a ver com a matéria de que os fantasmas são feitos.
«Aquela mulher perdeu a alma há muitos anos, e ela persegue-a sob todas as formas.»
(«A Água e o Fogo», Ana Teresa Pereira in O Ponto de Vista dos Demónios)
«Aquela mulher perdeu a alma há muitos anos, e ela persegue-a sob todas as formas.»
(«A Água e o Fogo», Ana Teresa Pereira in O Ponto de Vista dos Demónios)
Etiquetas: Livros
Os fantasmas de As Horas
Em As Horas, livro de Michael Cunningham que reli com o blogue Leitura Partilhada, os fantasmas cuja aparição fui capaz de detectar pertenciam, paradoxalmente ou talvez não, às personagens que conseguiram sobreviver até ao fim da narrativa.
Uma parte destas personagens vai participando no mundo um pouco descomprometidamente, quase ficcionalmente, porque elas conseguiram segregar um fantasma distante que não sofre os males que o corpo pode sofrer.
Nascem fantasmas do nosso descomprometimento? Nascem fantasmas sempre que não acreditamos totalmente nas ficções que fabricamos? Os nossos fantasmas crescem das das suspeitas que alimentamos em relação a nós mesmos e à nossa vida?
E onde é que estamos mais vivos: no nosso corpo ou no nosso fantasma que o lê?
«[Clarissa] Sente a presença do seu próprio fantasma, a parte dela ao mesmo tempo mais indestrutivelmente viva e menos distinta, a parte que não possui nada, que observa com admiração e distanciamento, como um turista num museu [...].» (Mrs. Dalloway, p. 93)
«Podia, neste momento, não ser mais do que uma inteligência flutuante: nem sequer um cérebro dentro de um crânio, apenas uma presença que sente, que apreende, como um fantasma poderia apreender. Sim, pensa, esta é provavelmente a sensação que causa ser um fantasma.»
(Mrs. Brown, p. 211)
Uma parte destas personagens vai participando no mundo um pouco descomprometidamente, quase ficcionalmente, porque elas conseguiram segregar um fantasma distante que não sofre os males que o corpo pode sofrer.
Nascem fantasmas do nosso descomprometimento? Nascem fantasmas sempre que não acreditamos totalmente nas ficções que fabricamos? Os nossos fantasmas crescem das das suspeitas que alimentamos em relação a nós mesmos e à nossa vida?
E onde é que estamos mais vivos: no nosso corpo ou no nosso fantasma que o lê?
«[Clarissa] Sente a presença do seu próprio fantasma, a parte dela ao mesmo tempo mais indestrutivelmente viva e menos distinta, a parte que não possui nada, que observa com admiração e distanciamento, como um turista num museu [...].» (Mrs. Dalloway, p. 93)
«Podia, neste momento, não ser mais do que uma inteligência flutuante: nem sequer um cérebro dentro de um crânio, apenas uma presença que sente, que apreende, como um fantasma poderia apreender. Sim, pensa, esta é provavelmente a sensação que causa ser um fantasma.»
(Mrs. Brown, p. 211)
Etiquetas: Livros
Definição de fantasma
O que é exactamente um fantasma?
Por divertimento, leio as definições que o Dicionário Houaiss regista nessa entrada.
Curiosamente, só na terceira acepção encontro a referência a aparição:
3 suposta aparição de pessoa morta ou de sua alma; assombração, espectro, alma do outro mundo.
As duas acepções iniciais dizem respeito a
1 aparência destituída de realidade, puramente ilusória (Ex.: aquelas mulheres levitando não passavam de fantasmas);
2 visão que apavora, que aterroriza (Ex.: julgava-se perseguido por um f. noturno).
Lamento a triste circunstância de o lexicógrafo que redigiu esta entrada não apreciar nem acreditar em fantasmas, mas fico interessada quando leio as acepções
7 (fig.) pessoa que tem apenas a aparência daquilo que deveria ser
8 (fig.) obsessão ou fixação que permanece presente na mente de alguém
9 (fig.) perigo; coisa preocupante
10 segunda imagem que, num receptor de televisão, aparece fracamente ao lado da imagem principal, por falha no sinal de vídeo (Ex.: a televisão não prestava, estava cheia de fantasmas).
Por divertimento, leio as definições que o Dicionário Houaiss regista nessa entrada.
Curiosamente, só na terceira acepção encontro a referência a aparição:
3 suposta aparição de pessoa morta ou de sua alma; assombração, espectro, alma do outro mundo.
As duas acepções iniciais dizem respeito a
1 aparência destituída de realidade, puramente ilusória (Ex.: aquelas mulheres levitando não passavam de fantasmas);
2 visão que apavora, que aterroriza (Ex.: julgava-se perseguido por um f. noturno).
Lamento a triste circunstância de o lexicógrafo que redigiu esta entrada não apreciar nem acreditar em fantasmas, mas fico interessada quando leio as acepções
7 (fig.) pessoa que tem apenas a aparência daquilo que deveria ser
8 (fig.) obsessão ou fixação que permanece presente na mente de alguém
9 (fig.) perigo; coisa preocupante
10 segunda imagem que, num receptor de televisão, aparece fracamente ao lado da imagem principal, por falha no sinal de vídeo (Ex.: a televisão não prestava, estava cheia de fantasmas).
Etiquetas: Lexicografia
Terça-feira, Novembro 04, 2003
Citação mais do que melancólica que também poderia ser aplicada à vida empresarial
«Neste momento, às 11.30 de um quente dia de Junho, o átrio de entrada do prédio onde mora lembra uma entrada para o reino dos mortos. [...] Não, não é exactamente o reino dos mortos; há algo pior do que a morte com a sua promessa de alívio e sono. Há poeira a subir, dias intermináveis e um átrio mudo e quedo, sempre cheio da mesma luz castanha e do cheiro húmido e levemente químico que vai passando, até aparecer alguma coisa mais exacta, pelo odor real da idade e da perda, o fim da esperança.»
As Horas, de Michael Cunningham
(p. 92)
As Horas, de Michael Cunningham
(p. 92)
Nota melancólica sobre a vida empresarial
A alguém que trabalhe numa empresa pode acontecer que os computadores e as máquinas de café sejam os seres mais vivos com que lhe é possível contactar durante o dia.
Segunda-feira, Novembro 03, 2003
A tragédia e a comédia
Joga-se o amor entre as duas personagens principais da Pancomédia, mas também os conceitos de tragédia e comédia.
Às vezes rimos ou choramos só porque o vocabulário que detemos para expressar as nossas emoções é demasiado limitado.
Às vezes rimos ou choramos só porque o vocabulário que detemos para expressar as nossas emoções é demasiado limitado.
Etiquetas: Teatro
Pancomédia: acção
Tal como o cenário, cada personagem é um conjunto de fragmentos.
Abrem-se gavetas no seu quotidiano e delas podem subitamente sair o passado ou o futuro, fadas, anjos, artistas filosofantes e seres mitológicos que as revelam ou confundem.
A intriga principal gira em torno de uma escritora e de um editor. A escritora procura algo de permanente, uma espécie de leitura decisiva do tempo e da vida que os tornem estáveis. O editor, pelo contrário, vive do contingente e do temporário; não deseja interpretação alguma; acredita que todas as interpretações se controem e desconstroem em questão de segundos, e nenhuma delas é capaz de reflectir ou explicar a vida, que ele vive momento a momento.
Abrem-se gavetas no seu quotidiano e delas podem subitamente sair o passado ou o futuro, fadas, anjos, artistas filosofantes e seres mitológicos que as revelam ou confundem.
A intriga principal gira em torno de uma escritora e de um editor. A escritora procura algo de permanente, uma espécie de leitura decisiva do tempo e da vida que os tornem estáveis. O editor, pelo contrário, vive do contingente e do temporário; não deseja interpretação alguma; acredita que todas as interpretações se controem e desconstroem em questão de segundos, e nenhuma delas é capaz de reflectir ou explicar a vida, que ele vive momento a momento.
Etiquetas: Teatro
Pancomédia: espaço
Fui ver O Bobo e a sua Mulher esta Noite na Pancomédia, um espectáculo verdadeiramente complexo que espero ter oportunidade de rever.
A peça decorre predominantemente no espaço de um hotel. As personagens nunca estão em casa; estão sempre em viagem ou de passagem para outro lado.
O cenário representa a imagem de um livro com capa e páginas interiores, com uma estrutura que assenta em módulos de paredes gigantescas de onde saem coisas que estão
escondidas, como em gavetas que se abrem.
A partir destes módulos o cenário constrói-se e desconstrói-se ao sabor do momento.
A peça decorre predominantemente no espaço de um hotel. As personagens nunca estão em casa; estão sempre em viagem ou de passagem para outro lado.
O cenário representa a imagem de um livro com capa e páginas interiores, com uma estrutura que assenta em módulos de paredes gigantescas de onde saem coisas que estão
escondidas, como em gavetas que se abrem.
A partir destes módulos o cenário constrói-se e desconstrói-se ao sabor do momento.
Etiquetas: Teatro
O teatro segundo Botho Strauss
Para Botho Strauss, o teatro «é o lugar onde a actualidade se torna mais permeável, onde o tempo estranho de repente aparece e se encontra - e não onde aquilo que é estranho é anulado ou encoberto com os truques baratos da actualização.».
Nos tempos que correm, em que quase nada é recebido em primeira mão e tudo parece ser vítima de uma qualquer mediação interpretativa que rapidamente normaliza e torna inofensiva qualquer experiência, o teatro é, para este autor, o último reduto do fenómeno como algo que se distingue da abstracção.
Nos tempos que correm, em que quase nada é recebido em primeira mão e tudo parece ser vítima de uma qualquer mediação interpretativa que rapidamente normaliza e torna inofensiva qualquer experiência, o teatro é, para este autor, o último reduto do fenómeno como algo que se distingue da abstracção.
Etiquetas: Teatro
