seta despedida

blogue de Alexandra Barreto sobre palavras, imagens e pessoas setadespedida@yahoo.co.uk

Quinta-feira, Outubro 30, 2003

O que nos olha

Leio o fragmento 287 de Íbico:

«De novo sob pálpebras azuis,
com seus lânguidos olhos, Eros me contempla,
e com toda a espécie de encantos
lança-me para as malhas inelutáveis de Cípris.»

O que particularmente me agrada nestes versos lindíssimos é a sugestão de possessão do objecto de desejo por uma entidade sobrenatural e divina, como se o desejo e a paixão se jogassem sempre não só entre meros corpos humanos, mas sobretudo entre forças maiores que deles se apropriassem para se encontrarem ou defrontarem.
Talvez estes sejam os primeiros momentos da paixão: a sensação de que estamos a lidar com forças maiores do que nós, a sensação de que estamos a ser olhados por algo cuja verdadeira forma não é aquela que ali se nos apresenta.

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Quarta-feira, Outubro 29, 2003

A leitura

Há quem diga que somos feitos da matéria das estrelas, mas cada vez mais acredito que a nossa matéria é a literatura.

Quase que acho que é dos livros que ainda não lemos que somos feitos e é por isso que temos de continuar a ler: para podermos ser quem somos.

Odisseia

Para mim, a leitura da Odisseia funcionou como uma espécie de descoberta da origem de tantas coisas que desde sempre me pertencem ou identificam: estruturas de pensamento, comportamentos, frases supostamente espontâneas, truques guardados na manga.

Mas aquilo que o Frederico Lourenço disse ontem na Biblioteca Almeida Garrett ajudou-me a relembrar que o texto da Odisseia não é apenas uma espécie de arquétipo a partir do qual fomos todos (livros e pessoas) modelados, mas existiu no tempo, teve um suporte real e perecível, sobreviveu graças a mãos que o copiaram em minúsculas e o deturparam, com erros ortográficos e anacronismos, histórias bem ou mal contadas, listas de compras, rasuras, manchas, e marcas de todo o tipo.

Precisava de ouvir que alguns dos versos que mais me comoveram pertencem a um canto que poderia nunca ter feito parte da obra e, no fundo, existem só porque o texto foi contaminado pelo tempo e pelos corpos:

«Com os teus olhos observa primeiro esta cicatriz,
que me deixou o branco colmilho de um javali no Parnaso,
quando lá fui. [...]»

«Agora nomear-te-ei as árvores que me deste no bem tratado
pomar, quando eu, ainda criança, te seguia pelo jardim.
Passámos por essas árvores: tu disseste-me os nomes
E explicaste como era cada uma. [...]»

«[...] cada uma amadureceria
na época própria, com cachos de uvas de toda a espécie
quando descessem do céu as estações de Zeus.»

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Segunda-feira, Outubro 27, 2003

Deus é uma marca registada

Já tinha ido ver No Campo, e ontem vi (A)tentados de Martin Crimp, no Teatro Carlos Alberto.
(A)tentados é uma peça a que alguns já chamaram pós-dramática porque nela se assiste à desintegração de algumas categorias convencionais do género, como o diálogo, a acção, a intriga, e o conflito. Nela somos confrontados com uma série de argumentos que jogam com estereótipos, imagens e slogans e se ligam através da recorrência do nome de uma personagem que é difícil distinguir por baixo de todas essas camadas. Eu já conhecia o texto, que tinha achado difícil de ler, mas depois desta encenação fiquei a compreender muito melhor a sua dinâmica.
No Campo é uma peça mais convencional, que assenta em diálogos tortuosos em que as personagens revelam acidentalmente a verdade porque estão a mentir mas a própria mentira, tal como o amor, não passa de um simulacro.
Apesar de estas serem peças bastante diferentes entre si, parece-me que em ambas se revela central a questão do simulacro, da dificuldade de destrinçar a verdade a partir da ficção gerada no vórtice das linguagens em que vivemos mergulhados.
E, circunstância um pouco inquietante, em ambas ficamos com a estranha sensação de nós próprios já termos dito ou ouvido de alguém algumas das coisas que as personagens dizem, e corremos o risco de perceber que a nossa vida pode estar cheia de ficções e de marcas registadas.

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Sábado, Outubro 25, 2003

Poemas biográficos

A primeira vez que vi o João Miguel Fernandes Jorge em carne e osso foi numa sessão de poesia na casa do Eugénio de Andrade.
Lembro-me perfeitamente do momento em que leu o poema 31 do livro O Regresso dos Remadores, que começa assim: «O comboio correio das 10 da noite partia da/minha terra para Lisboa. Fui tantas vezes/com o meu pai levar as cartas.» Quando acabou de ler o poema, disse: «Os poemas biográficos são sempre uma porcaria.». E estava comovido.
Desde essa altura, e juntamente com «La Cathédrale Engloutie, de Débussy» da Arte da Música de Jorge de Sena, este poema passou a acompanhar a minha vida.
«Pelos campos do Mondego//a água, a matéria do ferro, confundi/com o caos. Reconheço neste comboio a forma/obscura, a intuição ridícula das imagens.»
«Descolorido amor humano,/fornalha de comboio, coração das coisas a noite/corria fora e dentro da carruagem verde.»
«O traço do comboio separa o céu da terra sob as/estrelas/sob o limite da chama/a arte imita tanta vez a natureza.»

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As figuras gregas de terracota

Na sua intervenção desta tarde, João Miguel falou insistentemente de duas meninas gregas em terracota como «criaturas» recorrentes nos seus textos deste 1972, muitas vezes até como personagens.
A propósito, citou alguns passos do conto «Morning of our Motherland», do livro No Verão é Melhor um Conto Triste.

«Pelo fim das tardes de Verão há parentes que dizem ouvir Salumita e a filha da Estefânia louca a jogar com contas de osso. Jogam contra a quietude. As contas foram feitas dos ossos dos parentes mortos. ‘Nada nos garante que a vida que esteve nestes pedacinhos de osso não funcione, agora, noutra parte.’» (p. 94)

«Mas é a morte, a bonita filha da Estefânia, quem dentre os dedos suspende a derradeira conta de osso. Não podemos perder o seu ruído, seco, sobre o azul da grossa madeira. Gosto muito de as ouvir jogar. Todavia não vos escondo que o som preferido é o que pertence às garrafas de vidro. Vidro sobre vidro ao caírem nos vidrões. Paro sempre. Fico à escuta. Vidro sobre vidro. Por causa desse som de vidro partido, vejo estreito nevoaceiro descer sobre a manhã na terra da minha mãe. Tudo está escrito.» (p. 95)

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Como um morcego

Hoje sinto-me privilegiada porque o João Miguel Fernandes Jorge esteve na Biblioteca Almeida Garrett, no último painel de discussão do congresso Olhares e Escritas, para falar das relações entre as imagens e o texto na sua experiência de escritor.
O poeta partiu da leitura do poema inédito «Cela de S. Jerónimo», inspirado directamente num quadro da National Gallery, para mostrar como este resultava da fusão de um conjunto de estruturas de outras imagens, como a de um desenho de um morcego, a fotografia do artista João Cruz das Rosas, a quem o poema é dedicado, ou a de duas figuras gregas de terracota.
À semelhança do morcego, que elege neste poema como símbolo, João Miguel disse aproximar-se das coisas como se não as visse, seguindo ecos, sinais, através do radar das imagens, usando as formas como estruturas dessa aproximação ao mundo e à arte.
Acompanhou sempre a sua intervenção da projecção das imagens que ia referindo e, para terminar, leu o poema mais uma vez, rematando com um simples «Não tenho mais nada a dizer.».

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Quinta-feira, Outubro 23, 2003

O riso

Há dias, uma amiga a que emprestei O Curso das Estrelas de Frederico Lourenço falava-me da surpresa de encontrar no texto situações de verdadeira angústia, por vezes logo a seguir a momentos em que dera por ela a rir às gargalhadas.
Tive de me lembrar do ensaio de Bergson em que ele compara o riso à espuma do mar: «Também ele [o riso] é uma espuma à base de sal. Como a espuma se desfaz. Representa alegria. O filósofo que o colhe para o provar encontrará de resto muitas vezes, numa pequena quantidade de matéria, uma certa dose de amargura.».

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À Beira do Mundo

É curioso pensar que o texto da Odisseia, que Frederico Lourenço traduziu, estando cheio de naufrágios, de sangue, de intrincados planos de vingança e do central desejo obsidiante do regresso a uma identidade, não deixa de ser pontuado por situações hilariantes ou abordadas de forma irónica.
Na mesma linha, a escrita ficcional de Frederico Lourenço partilha da noção de que o segredo da leveza do mundo pode depender de um percurso que passa pela experiência e pelo conhecimento da sua gravidade. O seu terceiro romance aborda directamente os temas da passagem do tempo, do envelhecimento e da morte. No entanto, no último parágrafo, o narrador ergue uma criança até aos seus ombros e dá a mão a outra, antes de encetar um trajecto «em direcção à outra margem».

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O autor e o seu crítico de estimação

Tchékhov uma vez disse que o único crítico que tinha conseguido impressioná-lo fora aquele que escrevera que ainda haviam de encontrar Tchékhov numa sarjeta, morto por excesso de álcool.

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Piscinas vazias

Há alguns anos, uma pessoa de que eu gostava muito ofereceu-me um disco do Elliot Smith principalmente por causa da fotografia da capa.
Na capa aparecia o Elliot Smith dentro de uma piscina vazia, como se estivesse a tentar matar a sede nessas entranhas secas.

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Quarta-feira, Outubro 22, 2003

Haverá sempre um Pai Natal a observar-nos

Não vale a pena continuar a tentar fugir à realidade: aderi à pseudo-euforia natalícia que começa precocemente a contaminar a cidade do Porto.
Todos os anos percebo isso tarde de mais, quando já não consigo parar de pensar, contar e/ou participar em peripécias e catástrofes que envolvam directa ou indirectamente pessoas ou bonecos vestidos de Pai Natal.
Por exemplo, ontem comprei alegremente um enfeite para a árvore de Natal que é um ursinho envergando a característica roupagem dessa fatídica personagem, e tem a particularidade de emitir a musiquinha do Jingle Bells quando se lhe aperta a barriga. No entanto, hoje estou a alimentar terríveis suspeitas em relação à estabilidade do mecanismo que produz essa musiquinha. E, com uma mistura de ansiedade e receio, sou mesmo capaz de visualizar o momento em que a barriga do enfeite continue imparavelmente a tocar até ao contentor de lixo mais distante da minha casa que na altura for possível encontrar.

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Terça-feira, Outubro 21, 2003

Zen e a Arte do Tiro com Arco

«Sou eu quem estira o arco, ou é o arco que me leva à tensão máxima? Sou eu quem acerta no alvo, ou é o alvo que acerta em mim? Esse algo é espiritual aos olhos do corpo, ou corporal, aos olhos do espírito, ambas as coisas, ou nenhuma? Todas estas coisas, arco, seta, alvo e Eu enredam-se de tal maneira que já não os consigo separar.»
Eugen Herrigel

Contradições internas

Pensas que és minimalista e depois não entendes por que queres comprar a loja toda quando chegam as decorações de Natal.

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Domingo, Outubro 19, 2003

Silence is so accurate

Participei na Leitura Partilhada de As Ondas de Virginia Woolf, e percebi que também as histórias podem aspirar a ser vida e as palavras a ser silêncio, e mesmo assim continuarem a existir só porque precisamos delas. Para vivermos e para nos protegermos da vida.

Agradecimento

É uma honra ser citada por um blogue como Notícias do Cais.
E tenho a certeza que vamos ainda descobrir muitos mais interesses comuns.

Sexta-feira, Outubro 17, 2003

And treelike stand unmoved before the change

Este blogue é inspirador por vários motivos, mas, por agora, chamo a atenção para as lindíssimas fotografias de árvores que publica.

Sempre que o Outono regressa

Para mim, o início do Outono passa sempre por reler estes versos de May Sarton e pensar que ser livre pode ser não temer o tempo nem duvidar do fruto:

"If I can let you go as trees let go
Their leaves, so casually, one by one;
If I can come to know what they do know,
That fall is the release, the consummation,
Then fear of time and the uncertain fruit
Would not distemper the great lucid skies
This strangest autumn, mellow and acute.
If I can take the dark with open eyes
And call it seasonal, not harsh or strange
(For love itself may need a time of sleep),
And treelike stand unmoved before the change,
Lose what I lose to keep what I can keep,
The strong root still alive under the snow,
Love will endure - if I can let you go."

A propósito de violetas

Sempre que leio o blogue Notícias do Cais, lembro-me da personagem do conto "O jovem do cravo" de Karen Blixen, quando diz "E lá, no outro hemisfério, navega um navio com que tenho de manter o mesmo ritmo. ", tais são as afinidades que sinto.
Achei lindo o texto sobre Evandro Teixeira.
Eu tenho um vaso de violetas no parapeito, que, apesar de ser Outono, está florido e transfigura a minha sala.

Teatro Carlos Alberto

Geralmente não estamos onde deví­amos estar.
Deixámo-nos demasiadas vezes aprisionar onde não queremos ficar. Vamo-nos embora precisamente no momento em que, se não estivéssemos de partida, íamos encontrar o que há tanto esperávamos. Chegamos frequentemente demasiado tarde.
São raros os momentos em que estamos no espaço/tempo apropriado, mas ontem à noite devo ter andado lá perto.
Tudo, desde o chão de lousa com a marca casual de um fóssil, aos gabinetes envidraçados onde repousavam os sonhos e visões dos ocupantes ausentes, às coisas que se ouviam por acaso no café, entre os bancos que ondulavam e sob a fotografia gigantesca do palco ainda em construção, fazia sentido.

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Reminiscências

Às vezes recordo imagens ou episódios da minha viagem a Praga que não tenho a certeza se vivi.

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Quinta-feira, Outubro 16, 2003

Erros de casting

Por que é que sinto tantas vezes que tanto eu como a maioria das pessoas em volta somos erros de casting, mas os outros conseguem disfarçar muito melhor do que eu?

O verdadeiro artista

Gostei muito de ver no sábado a entrevista de Ana Sousa Dias ao António Pinto Ribeiro. Tive de sorrir quando ele falou da sua experiência de contacto com artistas e da circunstância de estes serem as pessoas mais inseguras do mundo.
Sorri porque acho que uma parte muito importante de ser artista ou criador de arte passa por se ser capaz de se pôr constantemente em causa, de se pôr à prova.

Cartografia das relações falhadas

Às vezes penso que a lista dos livros que nunca mais conseguimos reaver porque os emprestámos à pessoa de que na altura gostávamos contém em esquema o percurso e talvez a chave das relações que falhámos.
Na minha lista há títulos como O Golpe de Misericórdia de Marguerite Yourcenar,
As Cidades Invisíveis de Italo Calvino,
Walden ou a Vida nos Bosques de Henry David Thoreau e Primeiro Amor e Outras Mágoas de Harold Brodkey. Mas não vou revelar o título dos livros que me emprestaram e eu nunca mais devolvi....

Segunda-feira, Outubro 13, 2003

O corpo é conquistado a cada instante

Em todos os dias há pelo menos um momento em que sinto que estou a lutar contra a desintegração total.

Domingo, Outubro 12, 2003

O Jogo da Liberdade da Alma

Para Llansol, escrever, ler, amar e existir são formas de investigação do mistério do real através de um texto que não aceita as limitações nem da prosa nem do verso.
Neste livro que se constrói a partir de "menos-valias" (p. 13), de "dias perdidos, textos reconstituí­dos, ossos ressequidos à espera que o texto lhe renascesse em volta" (p. 20), o conceito de "ressurreição" é fulcral. O mundo, a vida, o amor e a literatura dependem das ressurreições que devem processar-se constantemente para que algo subsista do conflito entre o texto e o tempo: "o texto, na sua trajectória, não me queria no Tempo, onde, indubitavelmente, o meu corpo me quer" (p. 27). Mas num conflito pode haver uma (trans)fusão entre os dois pólos em causa. E para o texto vencer o tempo tem de aceitar confrontar-se com ele, tem de conseguir ser "livre, e anterior a si mesmo, e posterior a si mesmo____a substância narrando-se" (p. 12).
Tenho uma confissão a fazer: há muito tempo que não conseguia ler um livro de Maria Gabriela Llansol até ao fim. Geralmente impaciento-me com alguma imprecisão das palavras que se vêem subitamente desprovidas dos seus referentes lexicais tradicionais sem necessariamente lhe serem atribuídos outros que permitam ao leitor um ponto de apoio. No entanto, este livro terminei-o muito rapidamente, quase sem interrupções.

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Sábado, Outubro 11, 2003

Fins-de-semana: filas no supermercado

Há a tentação de perceber quem são através das compras que levam, e o leve temor de assim sermos decifrados logo no dia em que nos tenhamos deixado levar pelo forte impulso de compras insensatas, sob a égide de bolachas de chocolate, salsichas enlatadas, lasanhas congeladas e peitos de frango reconhecidamente carregados de nitrofuranos.

Sexta-feira, Outubro 10, 2003

Terror e ficção científica nos regulamentos de condomínios

Em face de algumas peculiaridades do texto do regulamento do meu condomínio, alguns amigos já tiveram oportunidade de me sugerir com expressão ominosa que a sua necessidade poderá ter parecido justificada devido a episódios verídicos.
Estes comentários são geralmente desencadeados por duas alíneas do artigo que nomeia as proibições a que os condóminos estão sujeitos, designadamente "receber habitualmente marginais, cadastrados ou psicopatas" e "deter nas fracções espécies perigosas, incómodas ou repugnantes".
Foi um surpresa agradável verificar que o potencial narratológico do regulamento do meu condomínio é superior ao de muita ficção portuguesa contemporânea.
As imagens evocadas pelos passos citados variam conforme o narratário, mas, no caso das "espécies", já foram referidas tarântulas, cobras-capelo e plantas carnívoras capazes de se movimentarem de um apartamento para o outro.

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Afinal ainda era eu a única extraterrestre

Hoje de manhã tive de acordar quando abri a janela. Geralmente continuo a dormir mais ou menos até à hora de almoço, quando geralmente posso voar do sítio em que trabalho em direcção ao mundo real. Mas hoje isso não foi de todo possível.
Deste modo, quero agradecer às pessoas que tiveram a linda ideia de colocar a pairar sobre a cidade do Porto um insuflável gigantesco de um dinossauro com olhos ligeiramente enraivecidos que parecem fixar tudo o que mexe com intento devorador.
Surtem um efeito verdadeiramente poético, prolongando a atmosfera onírica da cama, e podendo mesmo lembrar ovnis àqueles que, como eu, sintam saudades da nave-mãe ou do planeta original.

Quinta-feira, Outubro 09, 2003

Ficheiros sonoros

Já são raros, mas ainda existem, os telefones sem visor de identificação.
Ultimamente dei por mim a sentir nostalgia dos tempos em que atendia o telefone sem fazer a mínima ideia de quem poderia estar do outro lado. Do prazer de percorrer os ficheiros sonoros da memória em busca da voz ouvida. De identificar a voz. De fingir que falhava a identificação. De me enganar. De descobrir que estava a receber a chamada tão desejada.

Sabedoria pop

Só conhecemos verdadeiramente alguém depois de termos lutado com ele.

(Do filme Matrix Reloaded)

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Quarta-feira, Outubro 08, 2003

A leitura segundo Pascal Quignard

«No princípio era o pedaço de madeira que não me deixava naufragar, uma desculpa para me isolar, uma estratégia para me furtar à vigilância, à atenção dos outros, um artifício com que enganava a família, os amores e o próprio mundo - escondendo-me mesmo do mundo, colocando-me fora de jogo mas sem precisar de estar morto.»

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Frustração proustiana

Quando lemos, gostaríamos que o autor nos fornecesse respostas mas tudo o que ele pode fazer é "dar-nos desejos".

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O dia em que eu nasci morra e pereça

Por uma infeliz conjuntura astral tenho uma certa tendência para explosões imprevisíveis até para mim, que nem sequer as vejo chegar.
No auge da discussão, o escorpião em mim está em plena acção enquanto o sagitário assiste de braços cruzados e com um irritante sorriso de condenação paternalista que, no entanto, não consegue disfarçar o interesse mórbido pelo desenrolar da acção.

Segunda-feira, Outubro 06, 2003

Coisas que acontecem à segunda-feira no Porto

"Não há autocarros! O próximo avariou na morgue e está tudo parado!", grita e gesticula uma senhora para a paragem do outro lado da rua.
Cessam os murmúrios especulativos e as pessoas, de má vontade, decidem-se lentamente a enfrentar a hora de almoço a pé.
É vê-las partir.

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Domingo, Outubro 05, 2003

É o menos que se pode ter de alguma coisa

A sombra, o negativo guardam as formas sem lhes acrescentarem nada que as disfarce ou camufle.

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Dentro de mim eu sei que quero/desperdiçar-me

Releio os poemas de Praças e Quintais de Rui Pires Cabral à luz de um texto crítico de António Guerreiro em que se fala desta poesia como "uma busca" e "uma experiência que não é a do transitório".
Para mim, na melhor poesia existe o risco de dar um passo em falso que implique a queda sobre o abismo ou o vazio do texto ou da vida.
O que aprecio em Rui Pires Cabral tem a ver precisamente com o facto de ousar olhar o transitório nos olhos e não ceder ao seu peso ou à sua ideologia.
A estratégia que adopta no confronto com a realidade baseia-se precisamente na exploração radical de uma suposta positividade que, por ser quase ideológica, permeia as crenças e expectativas do sujeito poético mas acaba paradoxalmente por conduzi-lo à sua desmistificação. (António Guerreira fala da "conversão do negativo numa positividade".)
Naquilo que Rui Pires Cabral escreve está patente o reconhecimento de que "Viver é ser cúmplice da estupidez do mundo" (p. 12), da incapacidade de prever a solidão que se segue a determinados momentos que não correspondem a imagens anteriores (p. 23), e de que é inevitável escrever versos "falsos" (p. 17), mas também a noção de que sob a venda da superfície das coisas há qualquer coisa que respira (p. 31), e a poesia desempenha um papel fundamental na chegada ao negativo desmistificado do mundo, tão diferente da positividade que nos é quotidianamente ensinada por aqueles que connosco sobrevivem: "Tudo o que existe no quarto te fala/ com a voz desfigurada do poema, lamento ou sinal de alarme/ que rebenta no gosto, no tacto da língua."(p. 30).

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Curiosidade masculina

Para acabar definitivamente com todas as dúvidas, eis o que geralmente trago dentro da carteira: porta-moedas, telemóvel, lenços de papel, óculos escuros, bloco de notas deformado, lápis e caneta, bilhetes de cinema antigos, entradas de museus que me esqueci de deitar fora, recibos de multibanco, postais de promoção de filmes, listas de compras desactualizadas, papéis avulsos com coisas anotadas a não esquecer, espelhinho redondo com a imagem de um olho de um quadro de Velasquez para lentes de contacto em deslocação.
Mas foi engraçado observá-lo a disfarçadamente tentar espreitar o interior da minha carteira para tirar conclusões sobre mim...

Sábado, Outubro 04, 2003

A visão de agulhas pode gerar um clima de festa enganador

À pessoa que está a ser vacinada o enfermeiro diz 'não dói nada' ou, para grande preocupação da assistência, pergunta 'está a doer?'.
Na fila de espera, observa-se apreensivamente, ensaia-se o arregaçamento das mangas e o efeito de um desmaio, inventam-se piadas sobre dor.
Tem de se assinar uma declaração a admitir que se conhece as contra-indicações e estas deviam ter sido comunicadas num email que nunca chegou.
Ao sair do gabinete do médico, quando observados pelos colegas com uma mistura de inveja e contrafeita admiração, os vacinados não resistem a revelar que começam já a sentir os efeitos da constipação.

Sexta-feira, Outubro 03, 2003

Terrível discriminação

Agora, quando o portão principal do Palácio de Cristal fecha, os dinossauros são objecto de tratamento especial.
Mesmo acima da tabuleta que proíbe o acesso de qualquer cão ao espaço através de um violento traço que corta a imagem do animalzinho, é colocada uma outra em forma de seta, sem traços e com a imagem de um dinossauro, a apontar para a nova entrada especialmente dedicada a esta espécie.
Estou sempre à espera de ver dinossauros a entrar ou de os encontrar lá dentro nos jardins, a ver o rio.

Quarta-feira, Outubro 01, 2003

A História de Adèle H. de François Truffaut

É Eurídice quem aqui desce aos infernos, e fá-lo em busca de um Orfeu que não quer regressar com ela.
E pode ser que, como no soneto de Sophia, ela se perca no mundo, mas nunca se torna transparente. Antes pelo contrário, é como se fosse adquirindo uma densidade que acaba por dispensar Orfeu. Quase no fim, quando ambos se cruzam e ele a chama, ela já não o ouve e não precisa sequer de vê-lo.
Tinha escrito muito.
Não parara de mentir e isso tinha funcionado como uma espécie de construção.

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Lugares preferidos: aeroportos

Na génese da história que o narrador de Os papéis de K. conta está um encontro num aeroporto.
Quando aconselhado a ter mais cuidado com os encontros estranhos que podem acontecer nestes (não-)lugares, o Manuel António Pina confessou que de facto tinha feito a viagem referida no livro mas no aeroporto de Amesterdão não encontrara Agnes: "não encontrei lá nada".
Talvez os encontros que não tivemos nos aeroportos sejam mais importantes do que aqueles que tivemos.

Psicologia barata: conversas de mulheres

O que se diz, o que se faz, o que se pensa e o que se sente podem ser quatro coisas diferentes e isto estar evidente na simples frase "Mas eu acabei de te dizer que agora somos só amigos!".

Bem me estava a querer parecer

Foi feito um estudo a partir do qual se chegou à conclusão que não seríamos capazes de suportar a dor e o sofrimento que assolam a nossa vida se a memória humana não exagerasse o valor e a intensidade dos bons momentos.