O que nos olha
«De novo sob pálpebras azuis,
com seus lânguidos olhos, Eros me contempla,
e com toda a espécie de encantos
lança-me para as malhas inelutáveis de Cípris.»
O que particularmente me agrada nestes versos lindíssimos é a sugestão de possessão do objecto de desejo por uma entidade sobrenatural e divina, como se o desejo e a paixão se jogassem sempre não só entre meros corpos humanos, mas sobretudo entre forças maiores que deles se apropriassem para se encontrarem ou defrontarem.
Talvez estes sejam os primeiros momentos da paixão: a sensação de que estamos a lidar com forças maiores do que nós, a sensação de que estamos a ser olhados por algo cuja verdadeira forma não é aquela que ali se nos apresenta.
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